5 livros sobre a relação médico-paciente | Colunistas

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Índice
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Ana Cantarino
- - min57 days ago

“A medicina precisa ser exercida com a mente e o coração.”

Celmo Celeno Porto

À medida em que os anos vão se passando na faculdade e temos mais contato com pacientes, ver o sofrimento alheio torna-se algo natural. Estudantes e médicos, diante de um grande conteúdo a ser aprendido e ministrado sobre um curto espaço de tempo, acabam cada vez mais negligenciando a história do paciente. Em diferentes ocasiões, temos em nossa anamnese uma queixa principal e história da doença atual bem delimitadas, mas há uma lacuna no que diz respeito ao contexto socioeconômico do paciente, bem como seus aspectos psicológicos e emocionais. Quando refletimos sobre o estado do nosso doente (quando o fazemos) não sabemos qual a verdadeira vontade dele, pois, como não estabelecemos uma boa relação médico-paciente, não há possibilidade para criação laços de confiança conosco, o que muitas vezes atrapalha exponencialmente a adesão do tratamento.

Na tentativa de resgatar o contato entre o médico e o paciente, o movimento slow medicine carrega consigo o conceito de “medicina sem pressa” e também os valores da relevância do papel do médico na vida do doente. Quais são os anseios do nosso cliente? Nosso paciente deseja uma cura radical ou quer amenização sofrimento? Este ser humano diante de você, do outro lado da mesa, está confortável com o modo que está sendo tratado? Ele entende o que você diz? Ele se sente inferior e desemparado? Alguns questionamentos como esses precisam e devem ser levantados por nós, profissionais e estudantes de saúde. Neste cenário, encaixa-se bem lembrarmos dos cuidados paliativos, que são ilustrados de forma coesa pela frase de uma paciente, Ana Michele, “Cuidado paliativo não é sobre morrer, é sobre como quero viver até lá.”

Antes de indicar 5 livros sobre esse relacionamento que devemos ter com nosso paciente, para você entender um pouco melhor sobre isso e se aprimorar no assunto e na prática, gostaria de refletir sobre um poema junto com você, a fim de que nos tornemos mais sensíveis ao outro.

PNEUMOTÓRAX

Febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos.

A vida inteira que podia ter sido e que não foi.

Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:

— Diga trinta e três.

— Trinta e Três . . . trinta e três . . . trinta e três . . .

— Respire.

……………………………………………………………………………………………………………….

— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.

— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?

— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho, mais conhecido como Manuel Bandeira, foi um grande poeta brasileiro que, aos 18 anos, foi diagnosticado com tuberculose, patologia que na época era entendida como sinônimo de morte, o fim logo chegaria. Em virtude disso, Manuel Bandeira abandonou seu sonho de ser arquiteto e passou a viver esperando pela morte, impedido de viver seus sonhos, e em seus poemas estão relatados seus mais profundos desejos, os quais nunca foram realizados. Entretanto, o que isso tem a ver com medicina? Tudo.

A primeira estrofe do poema já descreve a frustração que acompanhou nosso não mais poeta, mas o jovem Manuel, nosso paciente: “A vida inteira que podia ter sido e não foi”, como isso dói. Nesse momento, devemos refletir até que ponto devemos recomendar para o nosso paciente a exclusão total de suas atividades prazerosas por afetar sua saúde? Devemos questionar, não para nós, mas para os nossos pacientes, é válido ter saúde sem ter vida?

Na última estrofe, é perceptível que Manuel realmente não entendeu o que estava acontecendo com ele, mais uma vez questiona-se: o médico esclareceu bem a doença para seu paciente? Ele foi claro, coeso e respeitoso no momento do diagnóstico? De forma inocente, o doente pergunta se é possível tentar o pneumotórax: o que dizer diante disso, não seria parecido com afirmar diagnóstico de câncer maligno e perguntarem uma possibilidade de ingestão de xarope? Como não mostrar desprezo pela falta de conhecimento de algo que, para nós, inseridos na saúde, parece ser tão óbvio? No texto, o que nos anima é ler a última frase, em que não há correções sobre a fala do paciente, apenas um conselho empático sobre naquele momento aproveitar o tempo que lhe resta. OBS.: para quem não sabe, Manuel não morreu por conta da temida tuberculose que tanto influenciou na criação de seus poemas. 

Diante desse cenário, médico educacional, tivemos a ideia de indicar 5 livros que o ajudassem a estabelecer um bom relacionamento com seu paciente, trabalhar conceitos como desenvolvimento de sensibilidade e empatia, bem como a elaboração de uma base para um relacionamento de confiança.

1. Comunicação tem remédio: a comunicação nas relações interpessoais em saúde

Este livro, escrito pela Maria Júlia Paes da Silva, enfermeira formada pela Universidade de São Paulo (USP), aborda esse terrível problema da falta de comunicação. Um sorriso, um gesto de afeto ou carinho pode transformar a história de um paciente hospitalar. Como conciliar disciplina e afetividade? Um ponto interessante desse exemplar é abordar tanto o relacionamento do profissional de saúde com o paciente, quanto a relação entre a equipe de saúde. Aqui teremos apresentadas as técnicas necessárias para dominar a arte da comunicação e percepção, e fazer dela uma ferramenta essencial para o nosso cotidiano.

2. Sobre a morte e o morrer

Escrito sobre Elizabeth KüblerRoss, médica psiquiatra pioneira no tratamento de pacientes em estado terminal, este livro, embora seja sobre morte, não traz consigo a melancolia da morte. Nesta obra, são abordadas as fases do luto, que também podem ser entendidas como as fases da perda da qualidade de vida, ou seja, como o paciente se sente desde a suspeita diagnóstica até o processo de cura ou morte. Uma leitura leve que abrange entrevistas reais com pacientes, possibilitando melhor entendimento de seus sentimentos, conflitos e frustrações. Simplesmente emocionante.

3. Era dor mas virou poesia

Tânia Lopes Brum é médica geriatra, que, inconformada com a frieza dos hospitais, começou a escrever poesias acerca de seus pacientes e momentos marcantes. Deixo aqui a sinopse do livro: “Vivemos num tempo marcado pelas sedutoras descobertas nos campos da tecnologia e da ciência. E a velocidade com que os avanços tecnológicos ocorrem estão transformando as relações humanas que passaram a ser mais superficiais. A tecnociência reduziu o ser humano na figura do paciente a um diagnóstico e a relação médico-paciente passou a focar na doença e não no doente. Esse livro mostra, através de textos inspirados em situações críticas de dor, que é possível aprofundar nesse fantástico relacionamento afetivo com o paciente, e todas as aflições que surgem no momento de grande vulnerabilidade da vida humana. Transformar dor em poesia não é uma incoerência, mas sim uma forma de sobrevivência.”

4. Cuidar – um Documentário Sobre a Medicina Humanizada no Brasil

Para fazer o livro “Cuidar”, o fotógrafo André François percorreu todo o Brasil em busca de momentos entre profissionais de saúde “iluminados” e seus doentes, e sua intenção era encontrar quem aplicasse o cuidado como ingrediente fundamental do tratamento. Famoso ditado popular diz que uma imagem vale mais que mil palavras, imagine, então, um livro-documentário de fotos. Nesta obra, não temos apenas a face da saúde brasileira, mas também o rosto da esperança em muitos médicos, enfermeiros e cuidadores.

5. Médicos de Homens e de Almas

Esta obra contempla a história de São Lucas, que é apresentado na bíblia como o médico de coração generoso, bem instruído e autor de um dos evangelhos. De acordo com a sinopse do livro, em Médico de Homens e de Almas, Taylor Caldwell, autora do livro, combina estas duas imagens de um dos mais importantes homens da igreja cristã primitiva, caracterizado pela constante preocupação com o sofrimento de enfermos, oprimidos e pobres. A escritora pesquisou a vida e as obras de Lucas por volta de 43 anos, e as descreve de forma romanceada num livro rico em detalhes históricos e de narrativa emocionante.

Diante de todos os questionamentos levantados, é possível pensarmos que a relação médico-paciente precisa ser bem estabelecida, para que haja respeito mútuo e benefício para ambos. Sob essa ótica, entendemos, então, a importância de estudarmos e nos dedicarmos a esse relacionamento assiduamente. Os livros são apenas uma das ferramentas usadas para que nós possamos buscar sensibilidade e humanização nesse mundo extremamente tecnológico, mas nada disso tem valor se não pusermos em prática, se não formos nós a dar o primeiro passo.

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O câncer colorretal hereditário não polipoide (hereditary non-polypoid colorectal câncer – HNPCC) é uma das síndromes mais comuns de predisposição ao câncer (10 a 12% dos pacientes com câncer colorretal são portadores da síndrome). Assinale a afirmativa INCORRETA.

A
Acometendo exclusivamente o cólon e/ou reto, é chamada de síndrome de Lynch 1.
B
Associada a neoplasia extracolônica, como estômago, intestino delgado, endométrio, pâncreas, via urinária (principalmente tumor de células transicionais da pelve renal e ureter) e biliar, é chamada de síndrome de Lynch 2.
C
Os portadores da síndrome nascem com uma mutação germinativa em um dos alelos dos genes hMSH2, hMLH1, hPMS1 e hPMS2, gens responsáveis pelo reparo do DNA.
D
A doença é esporádica e pode ter transmissão autossômica recessiva. Os indivíduos afetados apresentam maior risco de câncer, principalmente de cólon ascendente.
E
Apesar da ausência de polipose, observam-se, em 20% dos indivíduos portadores da síndrome de Lynch, adenomas colônicos, de localização preferencial à direita.
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