Cardiologia

A fantástica história do primeiro transplante cardíaco

“Me dei conta de que fazia algo extraordinário quando olhei para o peito aberto do paciente e não vi um coração a bater”

Foi com essa frase que Dr. Christiaan Barnard explicou o seu sentimento em relação a ter realizado o 1o transplante cardíaco da história da humanidade.

Era uma madrugada do dia 3 de dezembro de 1967 quando uma jovem senhora na casa dos 20 anos sofreu um sério acidente de carro na Cidade do Cabo – África do Sul. Avaliada por dois neurocirurgiões, que foram categóricos em classificar como irreversíveis os danos cerebrais e as lesões como intratáveis.  Não havia na época tomografia, ou métodos complexos de imagem, e o diagnóstico de morte encefálica foi estabelecido com base na natureza das lesões (múltiplas fraturas) e na ausência dos reflexos bulbares (respiração por exemplo).

O paciente Lewis Washkansky, de 53 anos, portador de insuficiência cardíaca por miocardiopatia isquêmica, diabético e hipertenso, e já tendo sofrido 3 infartos anteriormente, foi considerado inoperável por diversos serviços de cardiologia. A sua angiocoronariografia foi revisada e por consenso suas lesões foram diagnosticadas como intratáveis cirurgicamente. O Dr. Christiaan era o cirurgião cardíaco chefe do departamento no Hospital Groote Schuur, e após discutir o caso com a equipe considerou o sr. Washkansky como candidato a essa cirurgia experimental.

Ao conversar com o Sr. Washkansky, o Dr. Christiaan Barnard foi enfático nos riscos do procedimento e mesmo assim seu paciente confiou-lhe a vida. Seu caso era terminal e sua expectativa de vida não chegava a meses.

Era uma corrida contra o tempo. O Dr. Christiaan Barnard ficou desde então de sobreaviso no hospital, por mais de duas semanas, esperando por um coração que pudesse salvar a vida do Sr. Washkansky.

Naquela fatídica madrugada do dia 3 de dezembro de 1967, o pai da vítima autorizou o a retirada do coração, que diga-se de passagem, ainda batia no seu peito. A equipe de mais de 50 pessoas entre cirurgiões, cardiologistas, anestesiologistas, imunologistas, enfermeiras, perfusionistas, estava pronta para esse feito que iria mudar o rumo da história da medicina. Após cerca de 10 horas de procedimento, entre a retirada do doador e implantação do novo coração no peito do Sr. Washkansky, todos estavam exaustos. O Sr. Washkansky foi extubado cerca de 6 horas depois da cirurgia e acordou consciente. Sua esposa temia que ele acordasse com a mente e personalidade de uma jovem de 20 anos, o que obviamente não ocorreu. Tudo era desconhecido naquela época.

Infelizmente 18 dias após o transplante o Sr. Washkansky faleceu de pneumonia, e a autópsia mostrou um coração forte e viável no seu tórax.

A imprensa mundial extava extasiada. Entre críticas e felicitações o Dr. Christiaan Barnard se tornou uma celebridade e viajou o mundo, propagando sua técnica e operando pacientes. Após aquele dia a história da medicina foi mudada.
O Dr. Christiaan Barnard realizou durante sua vida dezenas de transplantes cardíacos, a maioria com sucesso, tendo alguns dos seus pacientes vivido mais de 30 anos com o enxerto.

O progresso desse ato resultou em inovações nas áreas de cirurgia, imunologia, fisiologia, anestesiologia, dentre outras áreas da medicina.

Se um dia tiver a oportunidade de ir na Cidade do Cabo – África do sul não deixe de visitar o museu Heart of Cape Town onde essa história fantástica da medicina é contada.

Ao republicar favor citar a fonte.

Dr. Caio Nunes

Autor dos livros “Como escolher a sua residência médica” , “Investimentos para médicos” e “100 casos clínicos em medicina”.



Hospital Groote Schuur – Cape Town

Re- criação da sala de cirurgia.
Jornal da época
Instrumental e medicações
Re-criação da sala de cirurgia.
Tags

Artigos relacionados

Deixe uma resposta

Botão Voltar ao topo
Fechar