Ciclo Clínico

A importância do diagnóstico laboratorial nas hepatites virais | Colunistas

A importância do diagnóstico laboratorial nas hepatites virais | Colunistas

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1.      Introdução

As hepatites virais são doenças provocadas por diferentes agentes etiológicos que têm tropismo pelo tecido hepático, além de características clínicas e epidemiológicas distintas. Os principais agentes são o vírus A (HVA), vírus B (HVB), vírus C (HVC), vírus Delta (HVD) e vírus E (HVE). De acordo com dados do Datasus, no ano de 2018, foram notificados 28.087 casos confirmados de hepatite viral no Brasil, sendo desses quase 40% somente na região sudeste1.

Após entrar em contato com o vírus, o indivíduo pode desenvolver um quadro de hepatite aguda que pode ser sintomática, oligo ou assintomática. Os casos em que o vírus permanece no organismo por mais de seis meses são classificados como hepatite crônica e o paciente pode evoluir com atividade da doença ou ser um portador assintomático. Vale destacar que o vírus A e E não cursam com hepatite crônica2.

A identificação precoce dessas enfermidades permite uma melhor abordagem terapêutica e impacta diretamente no prognóstico da doença. O diagnóstico etiológico da hepatite viral é confirmado por dados laboratoriais, visto que não é possível demonstrar a etiologia apenas com base nas informações clínicas e epidemiológicas. Portanto, uma boa avaliação clínica somada à correta solicitação e interpretação dos exames laboratoriais é imprescindível3,4.

Dada a importância para saúde pública e para os indivíduos, o mês de julho foi reservado para ações de conscientização acerca das hepatites virais para população e profissionais de saúde, campanha conhecida como Julho Amarelo, onde a cor faz referência à icterícia, sintoma que pode ocorrer no curso da doença.

Nesse artigo, separamos para você um resumo com as principais manifestações laboratoriais e os exames que devem ser solicitados em cada suspeita, a fim de orientar a correta indicação em cada caso.

Fonte: https://www.appai.org.br/julho-amarelo-um-alerta-para-prevencao-de-hepatites-virais/?utm_source=Site&utm_medium=PilarHome&utm_campaign=Noticia

2.      Manifestações laboratoriais inespecíficas

Quando ocorrem alterações no hemograma, manifestam-se principalmente na série branca, podendo ocorrer leucopenia nas formas agudas. Na série vermelha geralmente não ocorrem alterações. Na infecção crônica pelo vírus C pode haver plaquetopenia3.

As transaminases aspartato aminotransferase (AST/TGO) e a alanino aminotransferase (ALT/TGP) são marcadores de agressão hepatocelular. Nas formas agudas, manifestam-se com grandes aumentos (de 25 a 100 vezes acima da normalidade), com predomínio de AST e normalizam-se em até 4 meses. Alguns pacientes podem ter níveis mais baixos, principalmente os portadores de hepatite C. Nas formas crônicas, em geral, não ultrapassam 15 vezes do valor normal. Os níveis de bilirrubina também se encontram elevados, com predomínio da fração direta2,3.

Em relação às proteínas séricas, nas formas crônicas da doença e na cirrose ocorre redução acentuada e progressiva da albumina. A fosfatase alcalina e a gama glutamil-transferase (GT) se elevam em menor proporção que as transaminases. O coagulograma sofre alteração nos casos de hepatite fulminante e na hepatite crônica. A alfafetoproteína não tem valor nas hepatites virais agudas, sendo útil no acompanhamento dos pacientes portadores de hepatite crônica a fim de avaliar o risco de desenvolvimento de carcinoma hepatocelular2,3.

3.      Manifestações laboratoriais específicas

3.1  Hepatite A

O diagnóstico da infecção pelo HVA é feito por imunoensaios que detectam anticorpos em amostras do soro. A detecção de anti-HAV IgM sugere infecção recente. Esse marcador surge entre 5 e 10 dias após a infeção e permanece detectável por 4 a 6 meses após contato com o vírus4.

Já os testes que dosam anticorpos totais (IgM e IgG) e o anti-HVA IgG permanecem reagente por toda a vida do paciente e não são úteis para o diagnóstico de doença aguda, sendo benéficos como marcador epidemiológico. Além disso, o material genético HAV pode ser detectado nas fezes enquanto persistir a viremia2,4.

3.2  Hepatite B

A detecção de anticorpos e antígenos do HVB demonstra em qual estágio se encontra a infecção. Os principais marcadores de triagem são o HbsAg e o anti-HBc. O HbsAg é um antígeno de superfície do HBV, é o primeiro marcador a surgir após a infecção e pode ser detectado no sangue após 30 dias, estando presente tanto na infecção aguda quanto na crônica. O anti-HBc é o anticorpo IgG contra o antígeno nucelar do vírus B e indica contato prévio com o vírus B, permanecendo detectável por toda a vida4.

Os outros marcadores importantes são: anti-HBc IgM, anti-HBs, HBeAg e anti-HBe. O anti-HBc IgM é um anticorpo da classe IgM contra o antígeno nucelar e denota infecção recente, estando presente na hepatite B aguda. Já os anti-HBs são anticorpos contra o antígeno de superfície e indica imunidade contra o HBV. A sua presença isolada indica imunidade vacinal. O antígeno “e” (HBeAg) é um indicador de replicação viral e alta infectividade. Está presente na fase aguda e surge após HBsAg; na hepatite crônica, sua presença também evidencia atividade da doença. O anti-HBe (anticorpo contra antígeno “e”) é marcador de bom prognóstico e sinaliza alta probabilidade de resolução da infecção nas hepatites agudas; já na crônica sua presença atesta atividade reduzida da doença e menor chance de evolução para cirrose3,4. Na tabela 1 resumimos as principais condições clínicas a partir dos resultados sorológicos.

3.3  Hepatite C

A dosagem de anticorpos contra o vírus C (anti-HCV) é um bom método de triagem para hepatite C, indicando contato prévio com o vírus. Contudo, não é capaz de indicar o estágio da infecção. O HCV-RNA (teste molecular) é o primeiro marcador a positivar, e surge cerca de 2 semanas após a infecção. Então, o diagnóstico de infecção aguda pode ser feito através de um HCV-RNA positivo ou um paciente sabidamente anti-HCV negativo que soroconverte, tornando-se positivo. Na infecção crônica, é utilizado o teste molecular, inclusive este é útil na avaliação da resposta terapêutica4.

3.4  Hepatite D

O HVD necessita da presença do vírus B para se reproduzir. Nesse sentido, há duas formas de infecção pelo vírus delta: a superinfecção (infecção pelo vírus D em um indivíduo com hepatite B crônica) e coinfecção (infecção simultânea pelo vírus D e B). O marcador sorológico mais comum na hepatite D é a dosagem total de anticorpos (anti-HDV). O diagnóstico também pode ser feito por métodos que detectam antígenos virais ou genoma circulante4.

Dessa forma, num quadro de superinfecção a sorologia encontrada é a seguinte: HbsAg positivo, anti-HBc positivo, anti-HBc IgM negativo, anti-HDV positivo e antiHBs negativo. Já na coinfecção observa-se: HbsAg positivo, anti-HBc positivo, anti-HBc IgM positivo, anti-HDV positivo e antiHBs negativo4.

3.5  Hepatite E

O diagnóstico da hepatite E pode ser feito através da soroconversão anti-HEV ou pela detecção de anti-HEV IgM no soro, sendo este último detectado apenas nos quadros de infecção recente4.

Autor: Renan Torres de Carvalho

Instagram: @renan_tcarvalho

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