Colunistas

A infância em tempos de covid-19 | Colunistas

A infância em tempos de covid-19 | Colunistas

Compartilhar

Taynara Mariah

11 min há 59 dias

A doença associada ao SARS-CoV-2 é um grave problema de saúde pública atual, tendo sido estabelecido uma pandemia em 11 de março de 2020. Nesta ocasião, foram definidas várias medidas de isolamento social e, mesmo preservando o funcionamento dos serviços essenciais, meninas e meninos foram afastados do convívio social e mantidos em isolamento devido ao fechamento das escolas e das atividades ao ar livre, por exemplo. Tais medidas se fazem necessárias para a diminuição da transmissibilidade. Mas ainda não é de comum conhecimento os impactos do Coronavírus nos menores, que embora sejam menos contaminados na forma sintomática e grave da doença, podem ser mais afetados no âmbito do desenvolvimento psicológico. De forma inquestionável, a infância em tempos de covid-19 precisa de atenção.

Manifestações da COVID-19 na pediatria

A forma mais importante de transmissão do vírus é por meio de secreções respiratórias (gotículas e aerossóis contendo vírus), liberadas através da tosse, espirros, respiração e fala. Estudos indicam, que os doentes são os principais contaminantes, porém pessoas assintomáticas ou que ainda estão dentro do período de incubação também podem potencialmente difundir o vírus. Dessa forma, apesar das crianças apresentarem quadro mais brando que em adultos, são também possíveis contaminantes e fontes de propagação da doença, pela natureza de contaminação do vírus e pela dificuldade de aderirem completamente à etiqueta respiratória. Outra forma de contaminação é o contato direto com as secreções levadas a boca, nariz ou olhos por mãos contaminadas que tiveram contato com superfícies contendo vírus; é de comum conhecimento que a infância pode ser resumida em aprender: aprender sobre o tato e paladar, por exemplo, experimentando tocar em algum objeto e levar a boca (atitude comum a toda criança), resultando em menores contaminados. Entre os sintomáticos deve-se destacar que o sinal mais prevalente foi febre (47,5%), seguido de tosse (41,5%), sintomas nasais (11,2%), diarreia (8,1%) e náusea/vômito (7,1%).

A literatura publicada, até o momento atual, sugere que crianças raramente apresentam formas graves, porém são suscetíveis à infecção aguda e tardia pelo SARS‐CoV‐2. Com base em dados publicados pela Sociedade Brasileira de Pediatria, as crianças apresentam-se com menor gravidade clínica em aproximadamente 80% dos casos. Porém, naquelas com comorbidades ou as mais jovens – particularmente as menores de um ano, que trata-se da faixa etária com maior número de casos (1274) e óbitos (167) por SRAG confirmado por COVID-19 até o momento-, a doença poderá resultar em um curso grave, evoluindo para síndrome respiratória aguda grave (SRAG) e disfunção de múltiplos órgãos. Condições que parecem ser critérios para casos mais graves são anomalias do trato respiratório, leucemia, doença cardíaca congênita, nível anormal de hemoglobina, hipoplasia pulmonar brônquica, desnutrição grave, anemia falciforme, deficiência imunológica primária e mal formações do trato urinário. Assim, o espectro clínico da COVID-19 em crianças varia de assintomático à grave desconforto respiratório agudo; os pacientes com manifestação clínica de maior gravidade desenvolvem hipoxemia e má perfusão, comumente até o final da primeira semana.

Mas porque a maioria dos casos são mais leves em crianças?

A incidência de internação em crianças positivas para Coronavírus são menores se comparados à população geral, apenas uma minoria necessita de hospitalização e de cuidados intensivos. Dados do CDC EUA apontam para o fato de que a hospitalização por COVID-19 parece ser incomum em crianças (entre 2,5% e 4,1%) e ainda mais rara é a necessidade de tratamento em terapia intensiva (< 1%). Além disso, a taxa de óbitos também é menor comparado à população adulta; No Brasil, mais de 1200 crianças e adolescentes já morreram de Covid-19, com base em dados da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e o Ministério da Saúde; o que em números totais representa aproximadamente 0,5% dos óbitos ocorridos no País.

Figura 1. Taxas de letalidade (%) em crianças e adolescentes (0-19 anos) hospitalizados por SRAG relacionados a COVID-19 em 2020 e em 2021 no Brasil.

As causas para esse quadro mais brando são ainda desconhecidas e ainda devem ser pesquisadas, mas algumas teorias levantadas por pesquisadores destacam, por exemplo, certa proteção pela vacina BCG ou devido a infecções anteriores pelo vírus sincicial respiratório. Além disso, se observa que o sistema imunológico celular e humoral infantil ainda está em desenvolvimento, o que o torna incapaz de gerar uma resposta inflamatória exagerada. Outra hipótese é que crianças apresentam menor expressão da ECA-2 (a enzima conversora da angiotensina 2), ainda imatura na infância, o que dificulta a invasão do vírus no citoplasma celular. E, por fim, os menores apresentam produção significativa de anticorpos contra outros vírus, que de algum modo teriam ação contra o SARS-CoV Importante destacar que ainda são possibilidades em estudo, que não há uma comprovação científica definitiva a respeito de uma das hipóteses citadas acima.

Poucos sintomas e muitos impactos

“Os efeitos indiretos da COVID-19 na criança e no adolescente podem ser maiores que o número de mortes causadas pelo vírus de forma direta.” Tedros Adhanom Ghebreyesus —Diretor-Geral da Organização Mundial da Saúde (OMS). Como explicitado na frase, é inquestionável que a pandemia ameaça a saúde física e mental de todos, porém pode ter maior repercussão em uma pessoa ainda em crescimento. Além dos efeitos diretamente ligados a contaminação pelo vírus (sinais e sintomas da doença), há também consequências indiretas da nova rotina mundial, como prejuízos na socialização e no desenvolvimento social, resultado do afastamento do convívio com a rede de apoio (amigos, familiares que não moram no mesmo lar, etc), o que gera maior vulnerabilidade, por exemplo, psicológica. Dessa forma, observa-se o aumento de sintomas de depressão, ansiedade e fobia social nas “crianças da pandemia”; o que é explicado devido a fase do neurodesenvolvimento infantil, os menores são especialmente vulneráveis a eventos de estresse por efeito da compreensão limitada da situação, da dificuldade de formar estratégias de enfrentamento e do bloqueio em expressar os próprios sentimentos e angústias.

Outros fatores importantes a destacar são: a crise econômica e o consequente aumento da pobreza e desnutrição infantil; aumento da violência doméstica contra a criança, o adolescente e a mulher; exagero no uso de mídias/telas; o afastamento ou a perda dos cuidadores e o fato de ter que lidar com o luto de forma precoce, de acordo com reportagem da BBC BRASIL, são 113 mil brasileirinhos que perderam os pais para a COVID de Março de 2020 até Abril de 2021, e se levar em consideração outros cuidadores (como avós) são 130 mil órfãos. Além disso, o impedimento da circulação da população para serviços não essenciais e a reconfiguração dos sistemas de saúde, o que reduziu o acesso aos serviços da atenção primária e especializado. Tudo isso aliado ao medo da COVID-19 são situações que impactam negativamente o bem-estar psicológico das crianças e dos adolescentes durante a pandemia. A consequência do isolamento social está diretamente relacionada a determinantes multifatoriais sociais do processo saúde doença; por esse motivo, a carga psicológica associada ao vírus atinge desproporcionalmente a infância no contexto de pandemia; o que deve ser levado em consideração nas políticas públicas.

Atenção a infância na pandemia

No contexto atual, os profissionais de saúde se depararam com o desafio importante de enfrentamento de dois problemas de saúde pública, o vírus e as duras consequências físicas e psicológicas do mesmo. Na questão do processo saúde doença, não difere muito do atendimento ao adulto; o caso suspeito deve ser testado e dirigir as orientações ao responsável pelo menor acerca de hidratação, repouso, alimentação adequada e medicações sintomáticas, paciente deve ser acompanhado. Em casos leves (apresentam tosse, febre aferida ou relatada de início súbito, coriza, dor de garganta), devem ser encaminhados para isolamento no lar e acompanhados via telemedicina pela UBS do bairro da família, a vigilância continuada desses pacientes que estão recebendo acompanhamento ambulatorial é a principal ferramenta para o manejo adequado para essas situações; já em casos graves (taquipneia, dispneia, taquicardia e prostração extrema), deve ser transportado para unidade hospitalar de referência. Os profissionais de saúde responsáveis devem fazer a notificação imediata, tanto dos casos suspeitos quanto dos confirmados.

Porém deve-se lembrar que consequências psicológicas da atual situação também merecem atenção, pela necessidade do distanciamento a telemedicina tem dominado, tendo sido autorizado pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e pelo Ministério da Saúde; então a família deve ser orientada pelos profissionais de saúde a procurar acompanhamento psicológico para as infanto-juvenis que apresentarem sinais de depressão, fobia social e ideação suicida. Ademais, nas crianças, recomendações adicionais incluem a organização do cotidiano de forma que equilibre momentos de estudos e tempo para brincar (preservando, assim, um momento de prazer), evitando excessivo uso de telas e da internet; o controle ao acesso a informações a respeito da pandemia, com a oferta de notícias adequadas a faixa etária; dividir tarefas e responsabilidades domésticas entre os familiares; conversas e leituras dirigidas para as crianças da casa; estabelecer comunicação positiva com as meninas e os meninos atendendo às dúvidas, os medos e ouvindo com atenção comentários e manifestação de sentimentos ajudando-os a expressarem as emoções, as preocupações e as fantasias; além da tentativa de manter contato online ou telefônico com a rede de apoio da criança, seja amigos ou familiares. Os responsáveis devem ser orientados que pode ser comum a alteração do comportamento do menor e que deve ser observado, o que vai exigir maior tolerância e ajuda por parte dos cuidadores, sem punições verbais ou físicas contra as crianças.

Conclusão

De um modo geral, a pandemia afetou a vida de todos, porém a infância merece atenção específica; mesmo com poucos sintomas em caso de contaminação, inúmeras consequências podem ser percebidas em crianças no contexto atual, entre elas alterações emocionais. O profissional de saúde tem importante papel nesse momento e deve oferecer orientações aos responsáveis para evitar situações que possam resultar em sofrimento dos menores. Observa-se que as estratégias comentadas têm foco preventivo, para criar ou fortalecer hábitos saudáveis, diminuindo os riscos de adoecimento mental. É imprescindível compreender que nas crianças, por serem mais vulneráveis e dependentes, podem surgir ou acentuar-se algumas dificuldades funcionais ou comportamentais, o que vai exigir maior tolerância dos pais. Caso os familiares percebam dificuldades de controle da situação, devem recorrer a um suporte social ou especializado; e as unidades de saúde devem garantir a atenção que a infância em tempos de pandemia necessita.

Autora: Taynara Mariah

Instagram: @taynaramrh

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

Gostou do artigo? Quer ter o seu artigo no Sanarmed também? Clique no botão abaixo e participe

Referências:

Sociedade Brasileira de Pediatria – http://residenciapediatrica.com.br/sumario/50

Ministério da Saúde do Brasil: Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Criança: orientações para implementação. –  https://portaldeboaspraticas.iff.fiocruz.br/

Painel Coronavírus Brasil – https://covid.saude.gov.br/

FUNDO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A INFÂNCIA. Como falar com crianças sobre o coronavírus. Brasília: Unicef, 2020ª – https://www.unicef.org/brazil/como-falar-com-criancas-sobre-coronavirus

Como adolescentes podem proteger sua saúde mental durante o surto do coronavírus. Brasília: Unicef, 2020b. – https://www.unicef.org/brazil/historias/como-adolescentes-podem-proteger-sua-saude-mental-durante-o-surto-de-coronavirus

Compartilhe com seus amigos:
Política de Privacidade © Copyright, Todos os direitos reservados.