Ciclos da Medicina

A Medicina do futuro e o porquê de não podermos esquecer das lições do passado para aprimorar a prática médica do presente | Colunistas

A Medicina do futuro e o porquê de não podermos esquecer das lições do passado para aprimorar a prática médica do presente | Colunistas

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Imagem de perfil de Luciana Ferreira Xavier

Visto que nos encontramos em início de um novo ano, é sempre oportuno pensarmos sobre as experiências vividas e como usá-las para evitar a repetição de erros. Dentro desse panorama de análise histórica, é preciso ressaltar que a Medicina é uma ciência milenar e que não devemos abrir mão dessa larga construção científica, a fim de buscar um constante aprimoramento da nossa prática médica cotidiana. Em decorrência disso, leia esta coluna e aproveite para refletir sobre porque você não pode esquecer das lições do passado para aperfeiçoar o seu exercício profissional no presente.

A história da medicina é essencial para você compreender a sua prática médica

Conhecer a História da Medicina é atributo essencial para a compreensão da atual prática médica em si (GUSMÃO, 2004). Nesse contexto, eventos recentes do cotidiano médico podem ser correlacionados com acontecimentos do passado. À guisa de exemplificação, a pandemia de Covid-19 trouxe à luz outros momentos marcantes da história médica, e, porque não dizer, da história mundial, como as pandemias de Peste, na Europa do século XIV, e da Gripe Espanhola, no início do século XX. Por conseguinte, analisar a forma como a humanidade lidou com tais ocorrências poderia ter sido o primeiro passo para prevenir a propagação global do coronavírus em pleno século XXI.

Voltando mais no tempo, é pertinente destacar o papel fundamental dos filósofos gregos – como Hipócrates e Platão – para o estabelecimento do pensamento racional dentro do âmbito da Medicina (SIQUEIRA-BATISTA, 2004). Nesse enquadramento, é interessante pontuar que esses pensadores- séculos antes de Cristo – tinham uma forte concepção crítica a respeito da necessidade de prevenir as doenças do corpo e da alma (SOARES, 2008). Quem diria que, milênios depois, a OMS declararia que a epidemia de depressão é o grande mal do século XXI? Mais uma vez, perceba como conhecer a história da medicina é essencial para que você tenha uma visão mais profunda sobre as patologias da atualidade.

Da idade moderna à contemporânea: duas lições do passado para sua prática atual profissional

No enquadramento médico-histórico da idade moderna, é preciso destacar a contribuição do filósofo René Descartes para a Medicina (PINTO, 2009). Nesse contexto, pense bem e responda: quantas vezes, diante de um diagnóstico desafiador, você precisou questionar sobre todas as variáveis que poderiam estar afetando a terapêutica escolhida? Talvez você não saiba, mas foi Descartes (e o método cartesiano), baseado em duvidar e questionar até obter a solução indubitável, que influenciou a sua conduta de racionalizar o máximo possível suas ações até obter a melhor resposta para o tratamento de seu paciente. Logo, é graças à obra de Descartes, que a comunidade científica, incluindo você, busca compreender incessantemente o funcionamento do corpo humano, questionando e analisando criticamente o conhecimento posto, avançando e aperfeiçoando cada vez mais a prática médica atual.

No que tange à idade contemporânea, é impossível não ressaltar a obra do filósofo Michael Foucault para compreender a sistemática atual da prática médica, uma vez que ele estudou diversos fenômenos sociais e suas respectivas relevâncias para a atividade médica. Foucault analisou e criou os conceitos de biopolítica e biopoder, refletindo sobre como as relações sociais atuam na gestão da saúde (ALVES et al,2019). Ainda de acordo com o pensamento foucaultiano, a relação entre corpo e medicina engloba o atual fenômeno da medicalização (ZORZANELLI, 2018). Talvez você não saiba, mas Foucault debruçou-se sobre o estudo da psiquiatria e sobre como a hierarquização do poder está presente em instituições hospitalares, à semelhança de verdadeiros estabelecimentos prisionais.

Como exemplificação, Foucault analisou que ambas arquiteturas (de hospitais e de presídios) são formadas por extensos corredores dos quais ramificam-se consultórios/celas, facilitando o monitoramento/vigilância e o exercício do poder institucional sobre os seus internos (quer sejam pacientes ou encarcerados). A partir dessa visão, Foucault desenvolveu o conceito de biopoder, o qual demonstra como o poder disciplinar afeta as relações sociais na medicina (FREITAS, 2020). Ademais, o conceito de biopolítica também está associado ao funcionamento de instituições disciplinares (tais como escolas, presídios e hospitais), ou seja, locais onde as relações de poder ditam tanto a organização espacial quanto o comportamento dos indivíduos e a produção da sua subjetividade. Logo, dentro do contexto da história da medicina, perceba que a contribuição foucaultiana para a atividade médica é extremamente necessária para que você possa compreender a própria organização atual da assistência prestada nos estabelecimentos de saúde (ALVES et al, 2019).

Em suma, foram apresentadas a você as contribuições dos filósofos Platão, René Descartes e Michel Foucault, como exemplos do quanto a ciência médica pode desenvolver-se a partir da análise médico-histórica. Perceba que o estudo do passado tem o condão de trazer à luz acontecimentos e eventos, ideias e pensamentos, análises e observações, com o intuito de utilizar todo esse arcabouço histórico para o avanço da medicina na contemporaneidade.  Por conseguinte, conhecer as valiosas lições do passado é essencial ao próprio aprimoramento da ciência médica em si e, portanto, da sua prática profissional cotidiana também. Aproveite essas reflexões sobre o passado, aprenda com elas e faça deste ano novo que se inicia uma oportunidade para o seu crescimento profissional. E um feliz 2021 para você!

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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Referências bibliográficas

ALVES, A. P W.; BATISTA, G.G; MARCULAN, G.M; HORTA, P.H.M.N. Biopolítica e Medicina Social em Foucault. Textos Graduados. v.5, n.1,p.31-49. Janeiro, 2019.

FREITAS, F.S. A perspectiva biopolítica da medicina social: sus, psf, neoliberalismo e pandemia. Kínesis, v. 12, n. 31, p.186-213, julho, 2020.

GUSMÃO, S. História da Medicina: evolução e importância.Jornal Brasileiro de Neurocirurgia. Belo Horionte, v. 15, n.1, p.5-10, 2004.

PINTO, H. A medicina no “Discurso do Método” de Descartes: Um Breve Apontamento. Arquivos de Medicina, Lisboa, v.23, n.1, p. 23-29, 2009.

SIQUEIRA-BATISTA, R.; SCHRAMM, F. R. Platão e a medicina. História, ciências, saúde. Rio de Janeiro, v.11, n.3, p.619-634, set-dez, 2004.

SOARES, S. Medicina filosófica : as relações entre medicina e filosofia na Grécia antiga e em Kant. 2008. 133 f. Dissertação (Mestrado em Filosofia)- Univerrsidade Federal do Rio Grande do Norte. 2008.

ZORZANELLI, R. T.; CRUZ, M. G. O conceito de medicalização em Michel Foucault na década de 1970. Interface: Communicação, Saúde, Educação. Botucatu, v. 22, n.66. p. 721-731, 2018.