Medicina da Família e Comunidade

A pandemia e o poder de salvar vidas do oxigênio medicinal | Colunistas

A pandemia e o poder de salvar vidas do oxigênio medicinal | Colunistas

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Imagem de perfil de Natália Migliore

Vários pacientes, incluindo recém-nascidos e crianças, com pneumonia, DPOC, fibrose pulmonar e outras doenças, requerem oxigenoterapia. O Murdoch Children’s Research Institute estimou que, em 2020, aproximadamente 38 milhões de pessoas em países de média e baixa renda foram admitidos em hospitais por hipoxemia e afirmou ainda que 9 em cada 10 hospitais nesses países não possuíam acesso à oximetria de pulso e oxigenoterapia e, assim, apenas 20% dos pacientes que precisavam de oxigênio medicinal tiveram acesso ao recurso (1). 

No dia 25 de fevereiro de 2021, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou uma emergência de oxigênio mundial e lançou, assim, uma força-tarefa para poder medir a demanda e garantir o fornecimento de oxigênio e suporte técnico para os países mais afetados. Na época, a OMS estimou que mais de meio milhão de pessoas em países pobres precisavam de mais de 1,1 milhão de cilindros por dia, porém, o fornecimento, já escasso antes da pandemia, foi ainda mais afetado por causa dela (2). Devido a essa escassez, em diversas unidades de saúde, foram observados inúmeros óbitos capazes de ter sido evitados com o uso do oxigênio medicinal.

Oxigênio e a pandemia 

Na maioria dos casos, mesmo assintomáticos, o principal sintoma da pneumonia por SARS-CoV-2 é a hipóxia, que pode piorar e progredir para Síndrome Respiratória Aguda Grave, na qual, edema alveolar e intersticial ocorrem devido a permeabilidade aumentada do capilar pulmonar, levando à infiltração de fluido rico em proteínas e células imunes no parênquima do pulmão. O acúmulo de fluido no alvéolos diminui a eficácia da troca de ar entre os alvéolos e a vasculatura, o que resulta em hipoxemia e hipóxia alveolar (3). A  Síndrome Respiratória Aguda Grave precisa ser tratada, inicialmente, com grandes quantidades de oxigênio (4). 

Oxigênio é a base do tratamento para pacientes COVID-19, uma vez que o principal mecanismo de lesão e morte em COVID-19 está ligada à hipóxia, a qual pode resultar em aumento da proliferação viral, liberação de citocinas, inflamação, coagulação intravascular e vasoconstrição pulmonar hipóxica (5).

Em 2020, mais de 75% de pacientes hospitalizados devido a COVID-19 precisaram de suplementação de O2 (6). Segundo recomendações da ABRAMEDE, a suplementação deve ser feita para todo paciente com satO2 em ar ambiente menor ou igual a 94% por meio de cateter nasal de O2, máscara com reservatório não reinalante e cateter nasal de alto fluxo (7). 

Administração de oxigênio 

Algumas das formas de administração de oxigênio são: 

Cateter nasal de oxigênio é a mais comumente utilizado na etapa inicial de oxigenoterapia em pacientes com hipóxia leve, devido à sua simplicidade, menor custo,  facilidade de uso e geração mínima de aerossol. O cilindro de oxigênio é acoplado ao equipamento e o próprio pulmão puxa o ar para dentro. Ele só pode fornecer até aproximadamente 40% da fração inspirada de oxigênio (FiO2) e requer umidificação quando o fluxo de oxigênio está acima de 6 litros por minuto. Portanto, esse método não é eficiente em pacientes com hipóxia grave devido a danos pulmonares significativos (8). 

Máscaras faciais de oxigênio, especialmente sem reinalação, oferecem maior fluxo de oxigênio em comparação com o cateter, podendo fornecer oxigenoterapia com FiO2 mais alta. Elas, no entanto, não aumentam a pressão na faringe e, portanto, não são eficientes o suficiente para tratar hipóxia devido a danos pulmonares graves e colapso alveolar significativo (8).

O cateter nasal de alto fluxo é mais eficiente, em termos de oxigenação, do que a oxigenoterapia convencional por cateter nasal ou máscara facial de oxigênio. Ela permite administrar ar aquecido e umidificado com diferentes níveis de concentração de O2. Há uma maior comodidade e aceitação em comparação à ventilação não-invasiva. No início da pandemia de COVID-19, devido à falta de ventiladores mecânicos invasivos e sua facilidade de uso, ele foi utilizado em alguns pacientes que precisavam de oxigênio (8).

A ventilação não-invasiva é um respirador mecânico, ou seja, um equipamento que promove o movimento do oxigênio dos cilindros para dentro dos pulmões. Segundo a ABRAMEDE, “o cateter nasal de alto fluxo parece ter maiores vantagens que o uso da ventilação não-invasiva no contexto do COVID-19” (7).

Importância do oxigênio medicinal 

Diversas doenças podem resultar em hipoxemia. Períodos extensos de privação de oxigênio podem gerar acidose, inflamação, falência na produção de energia, estresse e morte celular (9). Em casos graves, a hipoxemia pode interferir em múltiplas funções, como cardíacas e cerebrais. Assim, é recomendada a prescrição da oxigenoterapia para reversão desse quadro (10). 

Em pessoas com quadros graves de COVID-19, a infecção viral dos pulmões e subsequente reação inflamatória pelo sistema imune pode reduzir muito a capacidade dos pulmões em captar o oxigênio. Ao prover oxigênio medicinal, permite-se que o paciente continue vivo para eliminar o patógeno. Vários estudos demonstraram que o acesso precoce e adequado ao oxigênio está relacionado à menor mortalidade e severidade da doença (11).

Conclusão

Durante a pandemia houve um rápido desenvolvimento de novas tecnologias, testes e vacinas, porém também evidenciou-se a falta de oxigênio medicinal, a qual impactou o tratamento de pacientes no Brasil e em outros países, como a Índia, Peru e Nigéria. 

O oxigênio medicinal é uma ferramenta essencial para salvar vidas, reconhecida como tal na lista de medicamentos essenciais da OMS e sendo especialmente importante para pacientes com quadros severos de COVID-19 (11). A disponibilidade de oxigênio, principalmente no contexto atual, configura um fator decisivo para a sobrevivência de vários indivíduos, tornando clara a necessidade de tratar o acesso ao oxigênio, até então negligenciado, como prioridade. 

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

Referências Bibliográficas

  1. USHER, Ann Danaiya. Medical oxygen crisis: a belated COVID-19 response. The Lancet, v. 397, n. 10277, p. 868–869, 2021.
  2. COVID-19 oxygen emergency impacting more than half a million people in low- and middle-income countries every day, as demand surges. Disponível em: <https://www.who.int/news/item/25-02-2021-covid-19-oxygen-emergency-impacting-more-than-half-a-million-people-in-low–and-middle-income-countries-every-day-as-demand-surges>. Acesso em: 25 ago. 2021.
  3. JAHANI, M.; DOKANEHEIFARD, S.; MANSOURI, K. Hypoxia: A key feature of COVID-19 launching activation of HIF-1 and cytokine storm. Journal of Inflammation, v. 17, n. 1, p. 33, dez. 2020
  4. Você sabe o que é síndrome respiratória aguda grave? Disponível em: <https://coronavirus.saude.mg.gov.br/blog/75-o-que-e-sindrome-respiratoria-aguda-grave>. Acesso em: 3 set. 2021.
  5. SOMERS, Virend K.; KARA, Tomas; XIE, Jiang. Progressive Hypoxia. Mayo Clinic Proceedings, v. 95, n. 11, p. 2339–2342, 2020.
  6. WIERSINGA, W. Joost; RHODES, Andrew; CHENG, Allen C.; et al. Pathophysiology, Transmission, Diagnosis, and Treatment of Coronavirus Disease 2019 (COVID-19): A Review. JAMA, v. 324, n. 8, p. 782, 2020.
  7. GUIMARÃES, Hélio Penna; SCHUBERT, Daniel Ujakow Correa. Recomendações sobre Oxigenioterapia no Departamento de Emergência para Pacientes Suspeitos ou Confirmados de COVID-19 Versão 4; atualizada em 06/03/2021.
  8. JIANG, B; WEI, H. Oxygen therapy strategies and techniques to treat hypoxia in COVID-19 patients. p. 8.
  9. BICKLER, P. E. et al. Effects of Acute, Profound Hypoxia on Healthy Humans: Implications for Safety of Tests Evaluating Pulse Oximetry or Tissue Oximetry Performance. Anesthesia & Analgesia, v. 124, n. 1, p. 146–153, jan. 2017. 
  10. Hypoxemia: Symptoms, Causes, Treatments. Disponível em: <https://my.clevelandclinic.org/health/diseases/17727-hypoxemia>. Acesso em: 6 set. 2021. 
  11. Gasping For Air – The deadly shortages in medical oxygen for COVID-19 patients. Disponível em: <https://msf.or.ke/en/publications/gasping-air-deadly-shortages-medical-oxygen-covid-19-patients>. Acesso em: 6 set. 2021.