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A prática médica em tempos líquidos | Colunistas

Numa era de doenças crônicas e intensas incertezas, associar a palavra “cura” à Medicina parece soar até injusto aos profissionais da área. Contudo, cabe observar que o termo supracitado, por mais responsabilidade adicional que carregue consigo, em sua etimologia latina, faz referência ao ato de proteger ou cuidar. Essas ações, em seu âmago, possuem um pré-requisito – segundo o polonês Zygmunt Bauman, em total estado de liquidez – que, mais do que um sentimento, deveria se traduzir em ações: o amor.

“Amar é contribuir para o mundo, cada contribuição sendo o traço vivo do eu que ama. No amor, o eu é, pedaço por pedaço, transplantado para o mundo.”
– Zygmunt Bauman.

Fato é que, por mais rico que seja, o vocabulário português não contempla em sua plenitude as nuances do amor, seja ele interpretado como ação ou como sentimento. Em tentativa de posicionar e explicar o caráter do amor dentro da Medicina, é válido recorrer a um vocabulário mais vasto sobre ele. Eros, philia, agape, ludus, pragma e philautia. Essas definições gregas antigas dão noção da amplitude do sentimento e tomar como preceito de ação o terceiro termo dessa pequena lista abre nossos horizontes dentro da prática médica: agape é o amor ativamente altruísta, deliberadamente doado – “transplantar-se para o outro e para o mundo, pedaço a pedaço”.

O desenvolvimento tecnológico das últimas décadas, contudo, trouxe consigo mudanças que caminham no sentindo contrário a esse horizonte expandido. O médico, anteriormente tido como detentor único do conhecimento – autônomo em sua prática e figura de autoridade sobre o paciente –, dá lugar a um profissional que, baseado puramente em estatísticas, protocolos, diretrizes e consensos, afasta-se do paciente. Este, por sua vez, fascinado pela tecnologia e crente irrefletido de informações sem comprovação, concebe o atendimento como uma relação de consumo, balizada pelo pressuposto da desconfiança. Sobre esses preceitos, constrói-se na contemporaneidade uma “medicina líquida”.

Nesse sentido, por mais que seja fluida, disforme e de laços frágeis e efêmeros, a prática médica contemporânea levanta muros de difícil transposição. Ao procurar um médico, o paciente encontra-se em certo nível de vulnerabilidade e necessita de um médico que, mais que um corpo, recebe um Eu – instância psíquica definida por Sigmund Freud – a ser reparado. Dessa relação de assimetria, nasce a transferência – outro conceito freudiano, o qual define a atribuição de representações inconscientes do passado a figuras do presente de determinado indivíduo –, que, quando não assume um caráter positivo, gera conflitos psíquicos que, por exemplo, limitam a adesão ao tratamento pelo paciente e alimentam o clima de desconfiança supracitado.

“A importância da relação terapêutica explica por que a adesão ao processo terapêutico depende mais do médico do que das características pessoais do paciente, em particular, o paciente é muito mais inclinado a atender a prescrição se ele pensa que conhece bem o médico que está prescrevendo.”
Dixon M & Sweeney K 2000.The human effect in medi-cine: theory, research and practice. Radcliffe MedicalPress, Oxford.

Um olhar mais aprofundado para essa “medicina líquida” nos permite retomar Michel Foucault, que há mais de 50 anos, em seu livro “O Nascimento da Clínica” (1963), apontava o redirecionamento da atenção médica para as estruturas internas do organismo. Essa busca por causas físicas faz com que haja, há algum tempo, uma “biologização” do paciente, que leva o médico a enxergar “a doença do indivíduo” e não “o indivíduo com uma doença”. Hoje, por vezes, o paciente é tratado como apenas mais um número que compõe as estatísticas e bancos de dados, que alimentam esse círculo vicioso de ausência de empatia e de individualização da relação médico-paciente.

Desse modo, a formação básica e continuada deve enfatizar sobremodo as humanidades dentro da Medicina, com vistas a repensar a prática médica de um ângulo mais individualizado, empático, com relações mais fortes e comunicações mais efetivas. Na “modernidade líquida”, que tanto se fala de empatia e amor, sem ao menos conhecer os reais significados e exigências desses termos, contemplar o paciente como um ser biopsicossocial em sua plenitude é um importante início para novas atitudes. Afinal, amar, mais do um sentimento, é uma ação. E a Medicina, mais do que uma ciência, é uma prática humana.

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