A Saúde do Médico no Brasil | Colunistas

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Comunidade Sanarmed
6 min286 days ago

A chegada da classe médica no Brasil data do século XVI, período colonial em que esses profissionais se depararam com uma situação de calamidade na saúde pública, tomando para si a responsabilidade de enfraquecer o mal, palavra usada para denominar as doenças na época. Desde então, o médico tem papel fundamental no contexto social. A comunidade passa a enxergá-lo como a pessoa que cura, muitas vezes designado como super-humano, aquele que não adoece.

Essa construção social permeia até hoje no imaginário dos estudantes e profissionais médicos, o que resulta no esgotamento do exercício da carreira médica. Essa exaustão tem início a partir da competitividade no processo de ingresso à faculdade. Tal fato estressor perpetua durante a vida acadêmica e tem seu segundo ápice na seleção para a residência médica. 

Apesar da entrada na esfera institucional da Medicina ser manifestada a partir de uma escolha e/ou vocação individual, o médico deseja realização profissional e uma boa remuneração financeira, no entanto, antagonicamente é visto pela sociedade como “rico”, e por isto, em resposta a essa expectativa social desempenha inúmeras atividades laborais, incluindo plantões, sem com isso ter a garantia de férias remunerada e aposentadoria digna.

O trabalho excessivo não gera socialização e nem identidade a não ser sentimentos de solidão e angústia. Um bom número dos médicos passa uma parte significante de suas vidas em diversos locais de trabalho, plantões exaustivos, distante da família e sem momentos de lazer. Se esse tal empenho pode trazer alguma recompensa monetária, o que está distante de ocorrer para a maioria dos médicos, consiste somente uma satisfação de ordem prática, entretanto, não se traduz em bem estar pleno.

 A satisfação médica ocorre quando existe boas condições de trabalho e uma disponibilidade mínima de recursos tecnológicos para que uma Medicina moderna viável possa ser realizada. Infelizmente, a carência de recursos no serviço de saúde pública é o que prevalece e constitui uma imensa fonte de desprazer, sentimento de inutilidade e de estresse, o que impossibilita o exercício médico de forma digna.

Preocupados em tratar a população, os médicos esquecem que também são sujeitos às doenças. Há um bloqueio em visualizar suas fraquezas e sofrimento, o que impede a colocação do médico no papel de paciente. O Conselho Federal de Medicina (CFM) divulgou um estudo (apresentado no livro A saúde dos médicos no Brasil) realizado com 7700 médicos que evidenciou a presença de ansiedade ou depressão em 44% dos entrevistados e sensação de desânimo em relação à sua profissão em outros 53%. 

A pesquisa se tornou reflexo do processo de adoecimento psíquico pelo qual estudantes e profissionais médicos têm passado. Dentre as inúmeras batalhas que esses atores sociais enfrentam, destacam-se esgotamento profissional (síndrome de burnout), sentimentos de preocupação e frustração e sofrimento emocional. Além disso, os problemas de saúde enfrentados pelos médicos brasileiros estão no âmbito de distúrbios orgânicos calculados em: relacionados aos olhos (26,4%), ao sistema osteomuscular e tecido conjuntivo (22,2%), ao aparelho circulatório (21,8%) e doenças endócrinas, metabólicas e nutricionais (19,1%).

Muitos desses sentimentos e sintomas têm sua explicação fundamentada no estilo de vida que o médico vivencia, colocando a Medicina como objeto de prioridade, devido esta ser, na maioria das vezes, sua fonte exclusiva de renda. O CFM evidenciou que 85% dos médicos exercem duas ou mais atividades em Medicina; 55,4% realizam três ou mais e 28,2% quatro ou mais atividades médicas o que revela uma carga de trabalho extenuante, o que diminui o tempo que seria dedicado idealmente a outros aspectos da vida, como família, amigos, prática de esportes e sono adequado, fatores que agiriam como proteção contra o adoecimento.

Deve ser falado também sobre um tabu na população e mais ainda na sociedade médica: o suicídio. É notório cada vez mais notícias nos principais meios de comunicação sobre o suicídio de médicos e estudantes de Medicina. Estudos recentes evidenciam uma taxa três vezes maior de suicídio entre a população médica do que a população geral e segundo a Fundação Americana para a Prevenção do Suicídio, 300 a 400 norte-americanos tiram a própria vida a cada ano. No Brasil, há uma escassez de pesquisas sobre a temática do suicídio apesar de que se tenha conhecimento que cada vez mais médicos se suicidam ou dão entrada em serviços de emergência na tentativa de tirar sua própria vida.

 A única pesquisa realizada no Brasil sobre suicídio entre médicos é um importante levantamento feito pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), UFPR (Universidade Federal do Paraná) e Uniad (Universidade de Pesquisa em Álcool e drogas) com suporte do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (CREMESP). Este levantamento feito entre 2000 a 2009 revela que a causa da morte de 1,7% dos médicos paulistas foi o suicídio, ficando atrás apenas de acidente de carro e se contar somente as causas por morte externa, o suicídio é responsável pela morte de 18% dos homens e 21% das mulheres. Grande parte desses médicos relutam em procurar ajuda pois sentem no dever de preservar a imagem de herói criada pela família, sociedade e eles próprios.

É necessário lembrar que o suicídio é multifatorial e os motivos são diversificados. Contato frequente com a dor e sofrimento, cobranças, medo de errar, limitação do conhecimento médico em relação às perspectivas do paciente, desavença familiar, falecimento de ente querido, término de um relacionamento amoroso e dificuldade financeira são alguns dos problemas que podem estar relacionados com a ideação suicida.

Quando esses problemas ocupam a vida do médico sem deixar algum espaço para atividades que são fatores de proteção (lazer com a família, amigos, esportes e sono), podem estimular fatores que desencadeiam o suicídio: abuso de drogas e álcool, depressão, ansiedade e estresse.

Em suma, as informações sobre a saúde do médico no Brasil são escassas. Assim, estudos nacionais sobre esta temática são de extrema importância. A busca de melhores condições de trabalho, melhor remuneração, redução do número de empregos e plantões são meios efetivos para melhorar o quadro de saúde dos médicos brasileiros. Lazer, atividades físicas, dieta equilibrada. Nada disso pode se obter quando o profissional médico é submetido a um regime estafante perante a precariedade da remuneração pelos seus serviços e falta de recursos para o seu trabalho.

Referências:
BARBOSA, Genário Alves et al. A SAÚDE DOS MÉDICOS DO BRASIL. Brasília: Conselho Federal de Medicina, 2007. 220 p.
GRACINO, Mariana Evangelista; ZITTA, Ana Laura Lima; MANGILI, Otavio Celeste. A saúde física e mental do profissional médico: uma revisão sistemática. Saúde em Debate, v. 40, n. 110, p.244-263, set. 2016. FapUNIFESP (SciELO). http://dx.doi.org/10.1590/0103-1104201611019
OLIVEIRA, Isabela de. Pesquisa aponta que um a cada quatro médicos possui sinais de depressã. 2015. Disponível em: . Acesso em: 03 maio 2019.
OLIVEIRA, Sibele. OS MÉDICOS ESTÃO DOENTES: O que leva alguém que teria de salvar a vida dos outros a querer acabar com a própria. 2019. Disponível em: . Acesso em: 04 maio 2019
 

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