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A saúde mental dos estudantes de medicina em tempos de pandemia | Colunistas

A saúde mental dos estudantes de medicina em tempos de pandemia | Colunistas

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A COVID-19 é uma doença contagiosa devido à infecção pelo vírus SARS-CoV-2 da família Coronavírus, com alta capacidade de transmissão. O enfrentamento da pandemia por esse vírus baseia-se em medidas protetivas, como o uso de máscaras e demais Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), assepsia das mãos com álcool 70% e as medidas de isolamento e distanciamento social. Assim, este cenário promoveu grandes mudanças, dentre elas destacam-se as modificações na estrutura organizacional do ensino superior da educação médica, por exemplo: suspensão das atividades práticas e teóricas presenciais, suspensão dos estágios e a adoção da metodologia de ensino a distância (EAD). Concomitantemente, tem-se o agravamento dos dados referentes à saúde mental dos universitários, que relataram a presença de transtornos psiquiátricos, como a depressão, a ansiedade e o estresse pós-traumático. Os estudantes de medicina, em especial, apresentaram incertezas sobre o futuro da sua formação profissional, o que os submeteu a uma carga emocional que causou/deflagrou danos à saúde mental deles.

Aspectos sociais e o EAD

Para o enfrentamento à pandemia da COVID-19, foi preciso adotar medidas de distanciamento social (quarentena), fechar escolas e faculdades, suspender as aulas presenciais e adotar o método EAD. Assim, a pandemia contribuiu de forma significativa para o atraso da programação acadêmica e da prática clínica dos estudantes, interrompeu projetos de pesquisa e estágios; prejudicou a competitividade no mercado de trabalho e gerou preocupações dos estudantes em relação a possibilidade de matricularem-se em programas de residência médica, deixando-os mais ansiosos e deprimidos.

Esse cenário pandêmico proporcionou diversos debates sobre a adoção de novas tecnologias na educação médica e sobre os rumos da educação na atualidade e no período pós-COVID. As aulas on-line evidenciaram novas oportunidades para a educação, entretanto, é preciso enfrentar grandes desafios, pois nem todos os estudantes têm acesso à internet em casa para participar das aulas ou não possuem condições financeiras para comprar os aparelhos eletrônicos adequados para estudar e realizar suas provas e trabalhos. Dessa forma, a desigualdade social deve ser considerada como um problema acentuado na educação durante o período da pandemia. Embora o fechamento das faculdades e as aulas EAD sejam temporários, o prolongamento dessas medidas podem causar dor e sofrimento psicológico em diferentes níveis.

Inicialmente, os discentes de medicina apresentaram maiores níveis de ansiedade devido ao maior entendimento da pandemia da COVID-19. Porém, ao serem comparados com a população geral, que obtinha informações de vários canais e não conseguia distinguir as informações verídicas; os acadêmicos de medicina possuíam uma atitude mais otimista, devido a melhor compreensão e entendimento da doença e das medidas protetivas.

Além disso, existem outros elementos que impactam na saúde mental dos estudantes e que devem ser considerados, por exemplo: estudantes que não estão em suas cidades de residência, ou estudantes que moram/convivem com alguém que precisa sair para trabalhar, ou aqueles que moram sozinhos e se distanciaram da família e dos amigos. Esses fatores resultaram em dificuldade de ter uma rotina saudável, com uma boa noite de sono, realizar atividades físicas de forma regular e estudar.

Sintomatologia

Os estudantes de medicina brasileiros apresentaram ansiedade moderada, altas taxas de esgotamento e depressão, medo e estresse. Os sintomas somáticos mais frequentes são: sono comprometido, desconforto estomacal e cefaleia. Além desses, outros sintomas relatados incluem a má digestão, a falta de apetite, os tremores nas mãos, a dificuldade para tomar decisões e para pensar com clareza, o cansaço o tempo todo, o nervosismo, a preocupação excessiva, a tristeza; a tensão, a dificuldade de realizar trabalhos, os pensamentos depressivos, a perda do interesse pelas coisas, o sentimento de inutilidade, as ideias pessimistas, o sentimento de incapacidade sobre desempenhar um papel útil na vida e a ideação suicida.

O que fazer? Quais são as alternativas?

Praticar atividades físicas

Praticar atividades físicas é uma forma de restaurar a saúde dos efeitos negativos causados pela rotina estressante do trabalho e dos estudos, além de ser uma forma de lazer. Sabe-se que as pessoas ativas possuem melhor qualidade de vida, quando comparadas com as sedentárias. Além disso, evidências indicam que a prática de atividade física impacta também nos aspectos psicológicos e cognitivos, por isso os profissionais de saúde apoiam e incentivam a inclusão da prática de exercícios físicos na rotina de seus pacientes. Ressalta-se, ainda, que a prática de esportes contribui para a diminuição da ansiedade, depressão e irritabilidade. Logo, é evidente que a atividade física acarreta melhoras na qualidade de vida em todos os aspectos.

Alimentar-se bem

Quando se trata de saúde física ou mental, a alimentação possui um papel imprescindível. No entanto, é importante saber que a alimentação não depende exclusivamente do acesso a uma informação nutricional adequada, uma vez que depende também das preferências relacionadas com o prazer associado ao sabor dos alimentos, fatores culturais, psicológicos e sociais. Compreende-se que a alimentação racional tem em conta as necessidades do organismo, determinando um estilo de vida mais saudável. Assim, novos estudos surgem a cada dia, demonstrando que a nutrição e a dieta com desequilíbrio nutricional têm consequências imediatas e a longo prazo na saúde.

Fazer terapia on-line

Durante o período de quarentena devido à pandemia, onde é necessário manter o distanciamento e isolamento social, aumentou-se a oferta de terapia on-line para transtornos depressivos leves a moderados. Porém, é importante evidenciar que a afinidade e habilidade técnica individual para manusear aplicativos e aparelhos eletrônicos, as condições socioeconômicas e as interrupções das consultas por problemas domésticos devem ser considerados. Apesar disso, há relatos de que as terapias on-line com psicólogos e a telepsiquiatria obtiveram êxito no tratamento de ansiedade e depressão, sendo aplicadas perfeitamente sob as demandas geradas pela pandemia.

Conclusão

Torna-se evidente, portanto, que a pandemia da COVID-19 resultou na acentuação do sofrimento psíquico dos estudantes de medicina. Um período de grandes mudanças, desafios, perdas, incertezas e medos foi o responsável pelo aumento das taxas de ansiedade, depressão, estresse e esgotamento dos universitários. Dessa forma, é necessário atentar-se aos sintomas e procurar ajuda profissional, além de buscar por medidas que contribuam para a redução desses sintomas e que sejam favoráveis à saúde mental, como praticar atividade física, alimentar adequadamente e seguir uma rotina. Além disso, as terapias pela internet têm contribuído de forma satisfatória para o tratamento da ansiedade e da depressão, sendo grandes aliadas para este período e traçando novos caminhos para o futuro.

Autora: Letícia de Paula Santos.

Instagram: @leticiapaula.santos

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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Referências

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