Coronavírus

ACE2 no centro da COVID-19

ACE2 no centro da COVID-19

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Sanar Medicina

4 minhá 322 dias

As recentes publicações têm apontado que a patogênese da pneumonia induzida pela COVID-19 tem seu mecanismo de base explicado pela síndrome autoimune/autoinflamatória gerada. 

Algumas perguntas que permanecem ainda sem resposta são quais mecanismos estão envolvidos nos espectros diferentes apresentados pela doença, desde indivíduos assintomáticos, até casos graves e óbito.

Qual o gatilho envolvido no desenvolvimento de uma resposta imune/inflamatória exacerbada? Este é o tema abordado no artigo de que trata este post, intitulado “ACE2 no centro da COVID-19, de infecções paucisintomáticas à pneumonia grave” (tradução livre).

O artigo buscou mostrar as evidências de que o receptor ACE2, além de funcionar como porta de entrada do vírus na célula, pode estar associado com o desenvolvimento do dano pulmonar e hiperinflamação, levando à síndrome da angústia respiratória aguda.

É preciso primeiro compreender o papel fisiológico do receptor ACE2. Como ilustrado na figura 1 abaixo, o receptor ACE2 age como mecanismo contrarregulatório da produção de Angiotensina II pela ACE (Angiotensin Converting Enzyme). Você deve se lembrar que este receptor (ACE) é o alvo de uma classe de anti-hipertensivos denominados genericamente de IECA (inibidores da enzima conversora de angiotensina). Além do mecanismo hipertensivo de vasoconstrição, a ligação da Angiotensina II aos receptores AT2R1 está associado à ativação de células do sistema imune e produção de citocinas inflamatórias. 

ACE2 no centro da COVID-19

Figura 1: Sistema de ativação da Angiotensina II.

Fonte: ACE2 at the centre of COVID-19 from paucisymptomatic infections to severe pneumonia

É aí que entra o papel protetor da ACE2, enzima responsável por inativar a Angiontensina II. O problema é que o vírus, ao utilizar o receptor ACE2 para entrar na célula, causa downregulation da expressão destes receptores, seja por ocupar seu sítio de ligação, seja pela destruição da célula invadida. A consequência é a ativação exacerbada da Angiotensina II, devido à falta do mecanismo contrarregulador da ACE2 (figura 2).

Figura 2: Excesso de ativação da Angiotensina II na presença do SARS-CoV-2

Fonte: ACE2 at the centre of COVID-19 from paucisymptomatic infections to severe pneumonia

Ao estudar a expressão da ACE2 nas células pulmonares, verificou-se que esta é expressa pelos alvéolos tipo II, que correspondem apenas à 5% das células alveolares, mas possuem 2 funções importantíssimas: (1) são as células alveolares de surfactantes e (2) são os precursores dos alvéolos tipo I, responsáveis por 95% das células alveolares. Portanto, a célula-alvo atacada pelo SARS-CoV-2 está envolvida na reserva de células regenerativas e produção de surfactantes, eventos essenciais para o reparo do dano alveolar sofrido.

O que poderia então explicar o espectro clínico tão variado da doença, e sua diferença marcante entre jovens e idosos? Conforme ilustrado na figura 3, em jovens temos (1) o maior número de receptores ACE2, associado à (2) maior capacidade de regeneração e (3) resposta imune mais eficiente, o que os leva à livrar-se do vírus de maneira mais fácil, apresentando poucos ou nenhum sintoma. Por outro lado, temos a situação de indivíduos idosos, que possuem menor expressão de ACE2, ou a presença de comorbidades como Hipertensão, que interfere no sistema da angiotensina, ou Diabetes, que prejudica o sistema imune. Nestes indivíduos, a maior carga viral e o dano sustentado das células que expressam ACE2, levam a perda da capacidade regenerativa, causando inflamação pulmonar e com grande risco de desenvolvimento de SARA devido a resposta inflamatória descontrolada.

Figura 3: Possível mecanismo explicando a diferente resposta imune entre indivíduos jovens e idosos.

Fonte: ACE2 at the centre of COVID-19 from paucisymptomatic infections to severe pneumonia

O artigo finaliza assinalando a necessidade de maior investigação para confirmar a hipótese, porém ressalta a importância do aprofundamento destes fenômenos, que podem impactar no manejo da terapia do COVID-19, visando aumentar a atividade da ACE2 e a capacidade regenerativa das células pulmonares.

Confira o vídeo:


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