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Acne na atenção básica | Colunistas

Acne na atenção básica | Colunistas

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Todo profissional da saúde que trabalhar na rede de atenção básica irá se deparar, ao menos uma vez, com um caso de acne. Esse é o esperado, uma vez que essa dermatose acomete em torno de 80% dos adolescentes e entre 40% e 50% das pessoas em idade adulta. Por conta disso, é fundamental que esse não lhe seja um tema estranho: vamos dominar o básico sobre ele!

Impacto na qualidade de vida

A acne, tanto no adulto quanto no adolescente, impacta negativamente a autoestima, a autoimagem e a qualidade de vida do doente. Isso porque a pele, em nossa sociedade, ainda está associada aos padrões estéticos de beleza e, portanto, as lesões acneicas fugiriam desse padrão. Por isso, não é incomum que alguns dos doentes deixem de utilizar roupas abertas ou, até mesmo, de comparecer à eventos sociais, por medo e/ou vergonha de exporem seus corpos alheios ao padrão idealizado pela nossa cultura. Em outras palavras, tornam-se reféns da própria pele.

Tendo em vista esse contexto de profundo impacto na vida do doente, percebe-se a importância de tratar essa dermatose o quanto antes. Além disso, vale lembrar que, caso não seja tratada de maneira eficiente e rápida, a probabilidade das lesões marcarem a pele com cicatrizes aumenta, sendo estas também fontes de grande impacto negativo na vida do indivíduo.

Patogenia

Relembrando a anatomia da pele: esse orgão é constituído por folículos pilosos que contém, dentre outras estruturas, as glândulas sebáceas. Essas glândulas produzem um material sebáceo que, via de regra, acompanha os fios atuando como lubrificante Além disso, outras funções desse óleo é: ajudar na manutenção das barreiras da pele e de sua microbiota. Na pele de pessoas acneicas, essa produção está exacerbada, o que confere o caráter oleoso à pele dessa pessoa.

Além dessa produção excessiva, há a hiperqueratinização do folículo, que pode obstruir a passagem desse material sebáceo para o exterior, levando ao acúmulo deste dentro do folículo. Fica evidente quando ocorre essa obstrução de folículos quando vemos comedões, os famosos cravos, na pele. Eles nada mais são do que material sebáceo impactado dentro do folículo piloso. Quando a ponta desse material fica tempo suficiente exposta ao ar, ela  é oxidada, e fica com o clássico aspecto enegrecido.

Outro fator que participa na patogênese da acne é a presença da bactéria Propionibacterium acne dentro do folículo. Quando ocorre sua disbiose no organismo e, concomitantemente, a produção excessiva de oleosidade, ela tende a provocar processos inflamatório no local. Esse processo inflamatório se expressa com eritema, dor e calor na área lesionado, ou seja, forma as famosas espinhas!

A soma de todos esses fatores, então, resulta em lesões como comedões, nódulos, pápulas, pústulas e abcessos. Ainda vale ressaltar que fatores emocionais também podem afetar o surgimento de lesões, uma vez que causam alterações hormonais que podem levar a atuação excessiva das glândulas sebáceas.

Graus de acne

Visto a patogenia e os impactos que a acne causa na vida do doente, é preciso aprender a tratá-la da melhor forma. O primeiro passo do tratamento consiste em identificar o grau da acne. Essa escala vai de grau 1 até grau 5, sendo o grau 1 a forma de acne mais branda e o grau 5 a forma de acne mais severa.

Os 5 graus são:

Grau 1: apresenta comedões abertos ou fechados

Grau 2: além das lesões de grau 1, surgem pápulas

Grau 3: além das lesões de grau 1, surgem nódulos furunculóides e pústulas

Grau 4: além das lesões de grau 1, surgem pus, abcessos e fístulas

Grau 5: além das lesões de grau 1, surgem febre, artralgia, leucocitose, hemorragia e necrose de lesões

Tratamento:

Classificada o grau da acne, precisamos conduzir o tratamento ao doente. Em primeiro momento, deve-se explicar sobre os cuidados gerais que ele deve ter com sua pele. Esses cuidados envolvem uma boa higienização da pele utilizando sabonetes específicos para pele oleosa/acneica, Além disso, recomenda-se que não esprema os comedões, porque, embora ocorra uma melhora aparente no momento, isso pode causar uma infecção no local agravando ainda mais a ferida.

Após a explicação sobre os cuidados gerais, pode-se seguir para os tratamentos medicamentosos disponíveis. Como eles se baseiam no grau das lesões acneicas, pode variar desde tratamento tópico, que envolvem comedolíticos, bactericidas, até tratamento via oral com antibioticoterapia sistêmica.

Encaminhamento para serviços especializados:

Deve-se encaminhar o doente para os serviços especializados de dermatologia quando o tratamento de, pelo menos, 6 meses não surtir efeito ou em casos de acne grau 4 e 5. Fora esses casos, o profissional da saúde da atenção básica é plenamente capaz de lidar com casos de acne que surgirem.

Conclusão:

A pele está ligada aos padrões de beleza em nossa sociedade, o que faz com que lesões acneicas deteriorem a qualidade de vida, autoestima e autoimagem do doente. Logo, para tratá-la o quanto antes, o profissional da saúde da atenção básica deve ser capaz de identificar qual o grau da doença e, a partir disso, definir qual terapia medicamentosa usar somada às indicações de cuidados gerais para peles acneicas. Caso não surja efeito após 6 meses de tratamento ou a acne seja grau 4 e 5, o doente deverá ser encaminhado a serviços especializados em dermatologia. Pronto, você dominou esse tópico que aparece tantas vezes no cotidiano dos profissionais de saúde da atenção básica!

Autor: Victor Henrique Murback dos Reis.

Instagram: @murback_

 

Referências:

BVS – Ministério da Saúde https://bvsms.saude.gov.br/bvs/dicas/249_acne.html#:~:text=Acne%20Grau%20I%3A%20apenas%20cravos,e%20bem%20inflamadas%20(cistos).


O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.

Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.