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Afogamento | Ligas

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Afogamento é a aspiração de líquido causada por submersão ou imersão no mesmo (SZPILMAN, 2019). Aspiração refere-se à entrada de líquido não corporal nas vias aéreas, não devendo ser confundido com “engolir água” (SZPILMAN, 2019) Afogamento ocorre nas situações em que o líquido entra em contato com as vias aéreas da pessoa em imersão (água na face) ou por submersão (abaixo da superfície do líquido). Se ocorre o resgate, o processo de afogamento é interrompido, o que é denominado um afogamento não fatal. Se a pessoa morre como resultado de afogamento, isto é denominado um afogamento fatal. Qualquer incidente de submersão ou imersão sem evidência de aspiração deve ser considerado um resgate na água e não um afogamento (SZPILMAN, 2019).

Epidemiologia

No Brasil o número de óbitos por afogamento ocorrem acima de 5.700 casos ao ano e mais de 100.000 pessoas sofrem incidentes não fatais. Na população entre 1 a 29 anos de idade o afogamento está como uma das principais causas de morte. As praias são os locais onde ocorrem o maior número de salvamentos, porém em águas doces é onde ocorre o maior número de afogamentos com morte (SZPILMAN, 2019). No Brasil, 16 brasileiros morrem afogados diariamente, a cada 90 min um cidadão morre afogado. Além disso, 47% dos óbitos ocorrem até os 29 anos, homens morrem 6,8 vezes a mais que mulheres, 75% dos óbitos ocorreram em rios e represas, 52% das mortes na faixa de 1 a 9 anos de idade ocorreram em piscina e residência, crianças de 4 a 12 anos que sabem nadar se afogam pela sucção da bomba em piscinas, crianças acima de 10 anos e adultos se afogam mais em águas naturais (rios, represas e praias), 44% ocorrem no verão (dezembro a março) (SZPILMAN, 2019).

Afogamento é a:

  • 2º causa de óbito de 1 a 4 anos;
  • 4º causa de 5 a 9 anos;
  • 3º causa de 10 a 14 anos;
  • 4º causa de 15 a 24 anos.

Fisiopatologia

A fisiopatologia possui característica diferente entre água doce e salgada, porém, as variações são pequenas do ponto de vista terapêutico. As alterações significativas para cada tipo de água decorrem de hipoxemia e acidose metabólica e dependem da quantidade de líquido aspirado e de sua composição (SZPILMAN, 2019). O órgão mais acometido no afogamento é o pulmão. A aspiração de água gera insuficiência respiratória e alterações na homeostase dos capilares alveolares, além de distúrbios no equilíbrio ácido-básico (SZPILMAN, 2019). Os afogamentos em água do mar não alteram a qualidade do surfactante pulmonar, apenas a quantidade do mesmo, diferente do afogamento em água doce, que ocorrem alterações tanto na qualidade quanto na quantidade, causando um maior grau de áreas de atelectasia. Aspirar ambos os tipos de água gera alveolite, edema pulmonar não cardiogênico e aumento do shunt intrapulmonar, levando a hipoxemia (SZPILMAN, 2019).

Classificação

A classificação de afogamento considera o grau de insuficiência respiratória que, de forma indireta, relaciona-se com a quantidade de líquido aspirado, determinando a gravidade do quadro. Ela deve ser feita no local do acidente e a hospitalização é indicada em todos os graus de 2 a 6, sendo dividida em:

● Resgate: sem sinais e sintomas. Conduta: avaliar e liberar a vítima do local do afogamento.

● Grau 1: tosse sem espuma na boca ou nariz. Conduta: repouso, aquecimento, medidas para conforto do banhista. Não há necessidade de oxigênio ou hospitalização.

● Grau 2: presença de espuma em boca e/ou nariz em pouca quantidade. Conduta: oxigênio nasal (5 L/min), aquecimento corporal, repouso, tranquilização e observação hospitalar por 24 h.

● Grau 3: muita espuma na boca e/ou nariz e pulso radial palpável. Conduta: oxigênio com máscara facial (15 L/min) no local do acidente, colocar a vítima em decúbito lateral direito e internação hospitalar para tratamento em CTI.

● Grau 4: muita espuma pela boca e/ou nariz sem pulso radial palpável. Conduta: oxigênio com máscara (15 L/min) no local do acidente, observar a respiração da vítima com atenção, colocá-la em decúbito lateral direito, ambulância urgente para melhor ventilação e infusão venosa de líquidos e internação em CTI com urgência.

● Grau 5: parada respiratória com pulso carotídeo ou sinais de circulação presente. Conduta: ventilação boca-boca. Não deve-se fazer RCP. Após retorno da respiração espontânea, tratar como grau 4.

● Grau 6: Parada cardiorrespiratória. Conduta: RCP e, após sucesso da RCP, tratar como grau 4.

● Já cadáver: parada cardiorrespiratória com tempo de submersão maior que 1 hora, ou rigidez cadavérica ou decomposição corporal e/ou livres.

Quadro clínico

É bastante dinâmico, com piora ou melhora clínica, seguindo um período de estabilização com uma fase de recuperação mais lenta. Além de estar, também, associado ao tempo de submersão, quantidade de água aspirada, temperatura e etc. A vítima pode apresentar sintomas como: náuseas, vômitos, distensão abdominal, dor de cabeça e no peito, hipotermia, espuma na boca e/ou nariz, sibilos, queda da pressão arterial, apneia e parada cardiorrespiratória.

Fatores de risco

  • A falta de barreiras para o controle do acesso à água.
  • A falta de supervisão adequada para os bebês e as crianças pequenas aumentam o risco por afogamento.
  • Não ter domínio básico em natação e o desconhecimento dos perigos aquáticos.
  • O consumo de bebidas alcoólicas aumenta o risco de afogamento em jovens e adultos.
  • Outros fatores: transporte aquático, travessias aquáticas e catástrofes por inundações.

Exames a serem solicitados

Exames solicitados de acordo com a classificação do afogamento:

  • Grau 1: nenhum.
  • Grau 2: gasometria arterial e radiografia de tórax.
  • Graus 3 a 6: gasometria arterial, hemograma completo, eletrólitos, uréia, creatinina, glicemia, EAS, radiografia de tórax e tomografia computadorizada de crânio (se houver alteração no nível de consciência).

Tratamento

  • Pré-hospitalar: suporte básico de vida (SBV), suporte avançado de vida e hospitalar;
  • Antibioticoterapia (com indicação restrita).

Prognóstico

Os graus 3 a 6 são considerados afogamento grave e possuem potencial para provocarem lesões sistêmicas em múltiplos órgãos. Pacientes graus 1, 2, 3, 4 e 5, quando sobrevivem, raramente apresentam sequelas, evoluindo para cura.

O prognóstico para afogamento grau 6 depende, principalmente, da presença ou não de lesão neurológica relacionada diretamente ao tempo e grau da hipóxia (SZPILMAN, 2019).

Autores e revisores

Juliana Mandarino Martino e Silva
Valeska Ruas Lima de Freitas

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

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Referências

Associação de Prevenção do Afogamento. Disponível em: . Acesso em: 03/07/2021. DRAUZIO, Afogamento. Disponível em: . Acesso em: 03/07/2021.

SZPILMAN, David. Curso de Emergências Aquáticas. Disponível em: . Acesso em: 03/07/2021.

SZPILMAN, David. Afogamento. Revista brasileira de medicina do esporte, v. 6, n. 4, p. 131-144, 2000.