Ciclos da Medicina

Água mole em pedra dura: A arte de estudar farmacologia médica | Colunistas

Água mole em pedra dura: A arte de estudar farmacologia médica | Colunistas

Compartilhar

João Pedro Delgado

12 minhá 71 dias

A farmacologia é definida por Rang et al. (2015) como sendo o estudo das ações e efeitos dos fármacos sobre os sistemas biológicos, através de receptores, enzimas ou quaisquer outros meios que interajam com as principais células do corpo humano. Sendo assim, a farmacologia nada mais é do que um modo terapêutico desenvolvido e aprimorado para modular ações fisiológicas, representando, portanto, um grande avanço para a medicina. Desse modo, é possível perceber o porquê de as disciplinas Farmacologia Médica e Fisiologia Humana serem tão interligadas nas graduações da área da saúde.

Por ser a base de muitas condutas na prática médica, a disciplina de Farmacologia Médica gera muito temor nos alunos do curso de medicina, na medida que se sentem pressionados no que diz respeito à fixação de todos os incontáveis nomes de fármacos existentes na indústria farmacêutica. Pode-se afirmar que a maior dificuldade relacionada à disciplina é como saber estudar e se organizar num cenário com incontáveis nomes e teorias. Porém, o que pouco se sabe é que existe solução para este desafio e ela está longe de ser uma fórmula mágica, ou algo do tipo. O segredo é insistir.

Dificuldades marcantes dentro da disciplina

Como já demonstrado, a maior dificuldade dentro do estudo da farmacologia é fixar todos os nomes dos fármacos, já que cada classe medicamentosa possui uma gama de medicamentos, cada um com uma especificidade e espectro de ação diferenciado. Exemplificando, dentro de antibióticos, tem-se a classe dos antibióticos beta-lactâmicos, assim classificados por conta da presença do anel beta-lactâmico. Sabe-se que os beta-lactâmicos são divididos em penicilinas, cefalosporinas, cefamicinas, carbapenêmicos, monobactâmicos dentre outros (BRUNTON et al. 2018). Dentro de cada uma dessas subclassificações, existe uma variedade de medicamentos, cada um com um espectro antimicrobiano diferenciado. Decorar todos os nomes, mecanismos e espectro de ação, indicações clínicas e efeitos adversos é uma missão difícil e longa.

Porém, o que muitos estudantes relatam é que o tempo disponível para o aprendizado de tanta informação é curto, visto que dentro de um semestre não há somente a disciplina de farmacologia para se aprender, demandando do estudante uma dificuldade maior de conciliar todo o conteúdo aprendido com outras informações de disciplinas variadas da grade curricular, também importantes para a vivência e formação médica. Assim, é evidente que, apesar de seis meses parecerem um prazo ideal para o estudo da farmacologia, existem outras disciplinas com teorias extensas e que possuem também grande importância e exigem dedicação e tempo.

Aliado a tudo isso, existe ainda o medo e a apreensão de que os alunos devem dominar todo o conteúdo para que não tenham dificuldades no momento de prescrição medicamentosa na prática médica. Essa cobrança é muito bem representada na famosa frase: “será que temos que saber tudo isso? ”, ou melhor, “como alguém consegue decorar tudo isso? Será que eu vou conseguir? ”. Ambas as indagações indicam que, além da dificuldade de se fixar todos os nomes da disciplina, existe medo e cobrança dos estudantes em relação ao futuro que os espera.

É importante dominar o estudo da farmacologia?

A resposta para essa indagação é bem relativa, pois “dominar” não seria a palavra certa. É mais usual e saudável dizer que é importante se atualizar continuamente no estudo da farmacologia, pois a matéria exige tempo e dedicação que, verdadeiramente, não se consegue em seis meses ou alguns anos. Pode parecer perturbador e confuso, mas todos os conteúdos aprendidos em um ou dois semestres vão fazer completo sentido não nos dias de estudo, confecção de resumos ou transcrições das aulas, e sim quando os estudantes são inseridos na prática médica, através de disciplinas como Semiologia Médica ou Clínica Médica. Assim, o primeiro passo para se livrar da cobrança culturalmente estabelecida de que todo médico precisa saber tudo sobre os fármacos é entender que não se tem apenas seis meses ou um ano para dominar toda a teoria, e sim o tempo necessário para se envolver com constantes atualizações e estudo ativo.

A disciplina é, sim, muito importante para a vivência médica, mas ela não pode se tornar um tendão de Aquiles na vida do estudante de medicina, uma vez que o estudo saudável e contínuo são etapas fundamentais para efetivar verdadeiramente o estudo dos fármacos. Assim, indagações como “tenho que decorar tudo isso?”, “não tenho tempo para saber todos esses nomes e mecanismos de ação” e “farmacologia é muito complicado e difícil”, devem ser substituídas por: “vou me preparar para entender todo o mecanismo de ação e depois focar em fixar todos os nomes, no meu tempo e da minha forma”, “eu tenho uma vida inteira para saber o nome desses fármacos, a partir da minha vivência” e “a farmacologia não é complicada, é desafiadora!”.

Métodos de estudo e fixação: como estudar farmacologia médica?

Como já relatado anteriormente, não existe fórmula mágica para dominar o estudo dos fármacos. O que se pode fazer é se envolver continuamente com a disciplina e ter o hábito de estudar aos poucos e ativamente. Apesar de não existir nenhuma solução concreta para estudar farmacologia, o seguinte passo a passo vai contribuir para o sucesso de aprendizado da disciplina durante os anos de graduação.

Passo a passo do sucesso – estudando efetivamente a Farmacologia Médica:

DURANTE A AULA:

No momento em que o professor estiver explicando toda a teoria, é ideal que o estudante se mantenha continuamente atento às suas explicações, para que tenha uma boa apresentação de toda aquela temática e para que se ambiente ao tema. Assim, não é indicado que o aluno fique continuamente anotando tudo o que é falado ou apresentado, visto que isso pode desviar o foco de informações importantíssimas que não estão relatadas de maneira direta nos livros da disciplina. Assim, o indicado é que durante a aula o aluno preste bastante atenção no que o professor tem a dizer, não se preocupando em fixar todo o conteúdo relatado pelo docente naquele momento. 

EM CASA:

Em casa, os dois focos essenciais a serem estabelecidos pelo aluno são: disciplina e memória. A disciplina é obtida através de métodos para manter o estudo em dia e, principalmente, organizado, otimizando a carga teórica extensa e, assim, permitindo que o aluno não acumule tantas matérias para o dia da prova. O uso de planners, agendas ou quaisquer outras ferramentas análogas são formas eficazes de se obter êxito neste primeiro foco, já que permitem uma melhor organização e visualização do que precisa ser estudado.

Em relação à memorização de todo o conteúdo, é válido ressaltar que, de acordo com Da Costa Pinto (2001):

[…] a aprendizagem e memória são interdependentes. Esta interdependência ocorre porque a estrutura e significado do “material a ser-aprendido” está em grande parte dependente do conhecimento atualmente retido na memória, isto é, daquilo que a pessoa já sabe e é capaz de recordar. O atual conhecimento de uma pessoa não só influencia a aprendizagem de novos conhecimentos e informações pelo aprendiz, mas também o modo como o material será organizado para retenção e recuperação futura.

Em outras palavras, o autor relata que toda informação é mais facilmente aprendida e fixada quando a pessoa já tem algum conhecimento prévio naquele determinado assunto visualizado. Assim, retornando a algo já relatado anteriormente no texto, se o estudante tiver uma atenção maior à aula e ao que o professor disser, quando ele for estudar a disciplina individualmente, os conceitos farão mais sentido e poderão ser entendidos e fixados de maneira mais fácil. Além disso, é válido ressaltar que, se o aluno estudar continuamente, mesmo que de pouco a pouco, a tendência de retenção e recuperação futura do conteúdo estudado será muito mais facilitada do que se o indivíduo estudar apenas uma ou duas vezes antes de alguma avaliação, por exemplo.

Assim, em resumo, pode-se definir que o estudo da farmacologia é melhor aplicado quando o aluno mantém uma agenda de metas, com todos os temas organizados e pré-definidos, além de seguir continuamente e à risca todas essas metas. Também, é válido que o estudante se mantenha continuamente visualizando e estudando aquele determinado tema dentro da farmacologia, vendo-o não apenas na véspera da prova, mas sim todos os dias, de pouco a pouco. 

Algumas estratégias de memorização efetivas para a farmacologia médica são:

  1. Flashcards – fichas em que se coloca, geralmente, o mecanismo de ação, ou indicação clínica do fármaco em um dos lados do papel e no outro a resposta de qual é aquele fármaco em questão. Com esse método é mais simples voltar ao assunto visto já há um tempo e, assim, memorizá-lo com mais facilidade. Além disso, contribui para que o estudante saiba no que tem que focar antes das provas, de acordo com os erros e acertos;
  2. Vídeo-aulas, super materiais, mapas mentais e exercícios do SanarFlix – a plataforma do SanarFlix oferece uma gama de conteúdo dentro da disciplina de Farmacologia Médica e, por isso, após a aula tida na universidade, o aluno pode retomar o conteúdo de maneira otimizada e dinâmica, através da melhor e maior plataforma de estudos médicos do Brasil. Os exercícios são excelentes formas de fixação e permitem que estudante saiba no que deve focar mais numa próxima leitura ao conteúdo;
  3. Professor por um dia – talvez a melhor estratégia seja o simples fato de, após visualizar um conteúdo, tentar explicar e explanar – com as próprias palavras – todas as informações vistas para alguém. É ainda melhor caso essa pessoa seja alguém que não tenha conhecimento na área, para que o desafio de explicitar um conteúdo tão complexo de maneira mais fácil te faça fixar melhor toda teoria;
  4. Estudos em conjunto – estudar com algum colega de classe também é uma ótima ferramenta, visto que ambos podem fazer uma espécie de quiz (utilizando, inclusive, os flashcards) e, assim, fazerem indagações uns aos outros. O estudo fica mais dinâmico e divertido;
  5. Mecanismo de ação dos fármacos – o mecanismo de ação é a base de todo fármaco e, a partir dele, fica muito mais fácil de se entender e lembrar dos efeitos adversos, efeitos clínicos, indicações clínicas, entre outras propriedades da farmacologia;
  6. Dominar a farmacologia e farmacodinâmica – já foi dito que a palavra “dominar” é muito forte e não usual dentro do cenário da farmacologia, porém, neste caso, estes dois conteúdos apresentados devem, sim, ser aprimorados cada vez mais pelo estudante de medicina, uma vez que, a partir deles, tem-se muitas questões importantes e usuais em cada classe medicamentosa. Saber, por exemplo, as vias de administração ou classificações de agonistas e antagonistas são noções importantíssimas para qualquer classe medicamentosa e, portanto, contribui para a memorização;
  7. Idealização de mnemônicos – os mnemônicos são ótimas formas para se fixar o nome dos fármacos, uma vez que representam formas que o indivíduo encontrou de lembrar o nome de determinado medicamento. Assim, abuse da criatividade e idealize os melhores mnemônicos na hora de fixar determinado nome farmacológico;
  8. Não estudar cada droga isoladamente – estude as classes farmacológicas e dentro de cada uma fixe os fármacos ali contidos. Essa é talvez uma das melhores dicas para se fixar o conteúdo, uma vez que, visualizando cada classe, o aluno tem maior facilidade em lembrar quais e quantos fármacos são ali contidos. O mecanismo de ação, por sua vez, também será mais facilmente fixado. Exemplificando, quando o tema for “antagonistas adrenérgicos”, não é ideal que se comece estudando pelo propranolol ou pela prazosina, e sim pela classe dos beta-bloqueadores e alfa-bloqueadores, nas quais, respectivamente, esses dois fármacos estão inseridos;
  9. Não à cobrança – como já descrito, o estudante terá uma vida inteira de vivências clínicas para aprimorar e fixar todos os nomes e mecanismos de ação dos fármacos. Portanto, não são apenas seis meses ou alguns anos para aprender todo o conteúdo, são anos e mais anos, disciplinas e mais disciplinas. A memorização dos fármacos vem com o tempo e a prática. Dê tempo ao tempo!;
  10. Por fim, motivação – todos os estudantes de medicina estão inseridos em um contexto de muitas informações e cobranças. Por isso, é ideal que não seja criada uma noção negativa a nenhuma matéria do curso, visto que ela poderia se transformar em um grande empecilho na vida do estudante. Assim, é ideal que a motivação seja uma forte aliada no estudo da farmacologia ou qualquer outra matéria mais complicada dentro da graduação, para que o aprendizado seja prazeroso, e a memória possa se efetivar da melhor maneira.

Gostou do artigo? Quer ter o seu artigo no Sanarmed também? Clique no botão abaixo e participe

REFERÊNCIAS

RANG, Rang et al. Rang & Dale Farmacologia. Elsevier Brasil, 2015.

BRUNTON, Laurence L.; HILAL-DANDAN, Randa; KNOLLMANN, Björn C. As Bases Farmacológicas da Terapêutica de Goodman e Gilman-13. Artmed Editora, 2018.

DA COSTA PINTO, Amâncio. Memória, cognição e educação: Implicações mútuas. Educação, cognição e desenvolvimento: Textos de psicologia educacional para a formação de professores, 2001.

Compartilhe com seus amigos:
Política de Privacidade. © Copyright, Todos os direitos reservados.