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Amamentação: como funciona e qual a importância | Colunistas

Amamentação: como funciona e qual a importância | Colunistas

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Ana Luísa Tano

12 min há 273 dias

A gravidez é um momento de mudança na vida de uma família, mas principalmente na vida da mulher. A gestante passa por várias transformações hormonais, corporais e mentais que marcam a decisão de desenvolver um novo ser humano.

            Um dos momentos mais importantes nos primeiros meses de vida do ser humano é o da amamentação. Durante esse período o bebê recebe sua primeira nutrição, a qual será importantíssima no desenvolvimento, como será visto adiante.

            Você verá a seguir os aspectos mais importantes e relevantes para entender o processo fisiológico envolvido na lactação, com ênfase nas principais ações hormonais a ele correspondentes e na ejeção do leite.

As mamas

            As mamas são compostas por tecido glandular, conjuntivo e adiposo, sendo extremamente vascularizadas e inervadas, fator que contribui para o processo de lactação. Podem apresentar tamanhos variados em decorrência da deposição de gordura local, sem correlação com a função secretora e fisiológica das glândulas mamárias.

            Durante a gestação as mamas são devidamente desenvolvidas e terminam a maturação a partir de alterações hormonais que ocorrem durante esse período.

            São compostas por até 20 glândulas mamárias denominadas lobos que se subdividem em lóbulos. Cada lobo desemboca em um ducto lactífero que, ao chegar na região logo abaixo da aureola mamária (superfície mais rugosa, escura e central), se dilata e passa a ser chamado seio lactífero. Esses canais por onde o leite flui são revestidos por células mioepiteliais que

apresentam função contrátil.

Legenda: A imagem mostra o crescimento dos lóbulos e alvéolos para a amamentação

Preparação do corpo materno

            A gravidez é acompanhada por várias mudanças hormonais e corporais para desenvolver um feto saudável, como aumento na liberação de hormônios hipofisários, tireoidianos e hipotalâmicos, bem como aceleração do metabolismo.

            Com a formação da placenta a partir da 12ª semana, a secreção de estrogênio e progesterona aumentam consideravelmente. Suas funções serão vistas a seguir.

Estrogênio

            Hormônio esteroide conhecido por atuar no aumento do tamanho do útero e da genitália materna durante a gravidez, bem como no desenvolvimento de mamas e ductos lactíferos.

            Promove a estimulação do crescimento e a ramificação do sistema de ductos presentes na mama, aumenta o estroma mamário (tecido conjuntivo de sustentação e nutrição) e gera a deposição de gordura no tecido adiposo, fatores que preparam as glândulas para amamentação futura.

Progesterona

            A progesterona é outro hormônio esteroide importante, que atua em um segundo momento após o aumento das mamas causado pelo estrogênio. Suas funções principais incluem o crescimento dos lóbulos, aumentando o número de alvéolos (“reservatório” de leite), além de contribuir para o aparecimento das características secretoras nesse complexo.

            Ambos os hormônios citados, progesterona e estrogênio, atuam de forma inibitória à lactogênese promovida pela prolactina, evitando a produção e estoque de leite antes do necessário.

Prolactina

            A prolactina é secretada pela hipófise anterior a partir da quinta semana de gestação. Como já dito, não exerce efeito produtor de leite devido à inibição causada pelos hormônios esteroides liberados pela placenta, ficando responsável apenas pelo crescimento mamário durante a gravidez.

            Após o nascimento e expulsão da placenta do útero, esse hormônio é estimulado pela sucção do bebê na mama através de sinais neuronais. A prolactina é liberada no sangue pela glândula pituitária até chegar às glândulas mamárias, onde exerce sua função lactogênica produzindo o leite materno. Sua liberação ocorre periodicamente e proporcionalmente à quantidade de mamadas que o bebê realiza.

O leito materno

Colostro

            Durante os últimos dias de gestação e os dias subsequentes ao parto, as glândulas mamárias secretam um líquido denominado colostro. Sua composição é similar ao leite materno, entretanto não apresenta nenhum teor de gordura. 

            Esse alimento é extremamente importante nos primeiros dias de vida do bebê devido à composição rica em proteínas e fatores imunológicos, protegendo ainda mais a criança logo após o nascimento, momento de maior vulnerabilidade.

Composição

            O leite materno apresenta inúmeros compostos importantes para o desenvolvimento do bebê, dentre os quais se destacam em importância: as proteínas, nutrientes essenciais, vitaminas, hormônios, sais minerais, lipídeos, água e fatores imunológicos. A função de cada um será discutida mais à frente.

            Além disso, contém peptídeos capazes de suprir a produção do próprio leite. Este é um dos fatores que explica porquê a amamentação deve ser realizada de forma periódica, evitando acúmulo de peptídeos supressores nos ductos e consequentemente deficiência na produção do leite.

Ejeção do leite

            A auréola e o mamilo (porção protuberante localizada no centro das mamas) são regiões que apresentam importante número de fibras neuronais. Quando o bebê realiza a sucção, estas fibras transmitem impulsos nervosos para o hipotálamo, estimulando a liberação da prolactina pela adeno-hipófise e ocitocina pela neurohipófise.

            Como já mencionado, a prolactina é responsável pela produção do leite, já a ocitocina desempenhará papel importante na secreção desse líquido. Transportada pelo sangue, a ocitocina chega nas células mioepiteliais dos ductos lactíferos e estimula sua contração, expulsando o leite para os ductos menores até o ponto em que o bebê consegue fazer a sucção.

            O tempo entre a primeira sucção do bebê na mama e a descida do leite gira em torno de 30 segundos.

            Importante ressaltar que a ação da ocitocina abrange ambas as mamas, por isso é importante que a mãe reveze a mama usada para amamentação, evitando o acúmulo de leite que pode levar a consequências já descritas.

Legenda: A imagem mostra o mecanismo de liberação de prolactina e ocitocina no complexo hipotalâmico-hipofisário após estímulo sonoro e sucção feita pelo bebê na mama.

Devido ao mecanismo neurológico hormonal citado, é possível que mulheres que não geraram o bebê sejam capazes de realizar sua amamentação através do estímulo adequado.

A importância do bem-estar materno

            O hipotálamo, por se tratar de um centro coletor de informações e apresentar vários núcleos neuronais importantes para a regulação do organismo, é capaz de influenciar a descida do leite por outros fatores.

            Por exemplo, situações estressantes, preocupações, cansaço e ansiedade causam a liberação de catecolaminas após estímulo hipotalâmico na medula adrenal. Quando a norepinefrina e a epinefrina são liberadas na corrente sanguínea, o organismo ativa o sistema luto-fuga e inibe a liberação de ocitocina. Por tal razão, para que a amamentação ocorra tranquilamente, a mãe deve estar descansada e despreocupada.

Desregulação endócrina

            A liberação hormonal, tanto de prolactina e ocitocina quanto de outros hormônios, é controlada majoritariamente por mecanismos de feedback. Dessa forma o corpo é capaz de impedir que haja sobrecarga do sistema e excesso de hormônios e outros produtos.

            É possível que ocorra uma desregulação desse mecanismo e a produção de leite fique exacerbada, resultando em um aumento da quantidade de leite nos alvéolos das mamas, aumentando a pressão interna e bloqueando a ação da ocitocina sobre as células mioepiteliais, ou seja, incapacidade de contração dos ductos. Nesses casos é necessário a remoção do leite materno com uso da ordenha.

Importância da amamentação

            O leite materno é balanceado para suprir as necessidades do bebê com todos os nutrientes que eles precisam do sexto ao nono mês de vida, garantindo melhor desenvolvimento motor e neural, além de reduzir os riscos de infecções, doenças crônicas e problemas de visão. Após a introdução de outros tipos alimentares, como papinhas e sucos, o aleitamento materno diminui sua importância.

            Os lipídeos constituintes do leite servem como rica reserva e fonte energética. Já as proteínas, nutrientes, vitaminas, sais minerais e até alguns hormônios são essenciais para o desenvolvimento geral da criança. A vitamina A, por exemplo, exerce grande importância no desenvolvimento da visão.

            Por último, os fatores imunológicos oferecem a proteção e defesa do organismo que o bebê necessita nos primeiros meses de vida através de células como leucócitos e macrófagos.

            Tudo isso mostra que o aleitamento materno pode contribuir também para a sociedade, através da redução do número de crianças adoecidas que precisam de atendimento médico. Além disso, acarreta a diminuição da mortalidade infantil, bem como atua na prevenção do aparecimento de câncer de mama nas lactantes.

            Um dos pontos mais importantes da amamentação que deve ser enfatizado pelos médicos e pela sociedade é a criação da ligação afetiva entre a mãe e o bebê, contribuindo ainda para o desenvolvimento psicossocial da criança.

            Saiba mais sobre a importância da amamentação clicando aqui.

Conclusão

            Fica evidenciada a importância da ação hormonal no preparo do corpo da mãe durante a gestação e pós-parto para o período de amamentação, com ênfase para os hormônios esteroides progesterona e estrogênios, bem como os hormônios hipofisários, prolactina com sua ação lactogênica e ocitocina, com o estímulo da função contrátil nos ductos lactíferos, contribuindo para expulsão do leite.

            A adesão a lactação é de suma importância para o crescimento saudável do recém-nascido, exercendo influência sobre o desenvolvimento motor e neural, além de oferecer proteção contra agentes infecciosos externos.

            Você pode saber mais sobre a fisiologia da lactação por aqui.

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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Referências:

GUYTON, A. C.; HALL, J. E. Tratado de fisiologia médica. 13 ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017.

ROLIM, L. M. O.; MARTINS, A. L. Aleitamento materno. Revista de Pediatria SOPERJ. 2002;3(1):0. Disponível em: http://revistadepediatriasoperj.org.br/detalhe_artigo.asp?id=1 

CIMINI, L. C. T. Benefícios do aleitamento materno até o sexto mês de vida. Corinto – MG. 2020. p 20. Disponível em: https://www.nescon.medicina.ufmg.br/biblioteca/imagem/2584.pdf

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