Medicina Baseada em Evidências | Colunistas

“Vou negando as aparências, disfarçando as evidências…” As evidências são na atualidade a ferramenta aliada ao desenvolvimento promissor da saúde em sua totalidade. Pensar através de evidências fundamentadas em pesquisas sólidas faz da caminhada árdua em solos desconhecidos, um prazer inenarrável. Tudo isso, porque conforme já proferia Oscar Wilde “O homem é um animal racional que sempre perde a razão quando o chamam a agir racionalmente”³. Pensar de forma racional é nada mais do que saber o que relatar, quando relatar e o porquê relatar. Em 2007 um estudo realizado pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) mostrou que menos de 5% das Escolas Médicas naquela época, apresentavam em seu currículo a disciplina de Medicina Baseada em Evidências (MBE)¹. Nesse ínterim, é provável que inúmeras condutas tomadas por profissionais, formados durante esse período, sejam permeadas por vieses e decisões não racionais, baseadas apenas em um grau de evidência ínfimo que é a prática cotidiana do profissional. Em contrapartida, não se deve afirmar que o profissionalismo desses esteja afetado por um gargalo no currículo da sua formação há anos atrás, mas pode-se sem dúvidas associar muitos dos fatos relacionados à interpretação e indicação de condutas observados cotidianamente a esse déficit intelectual perpetuado por muitos anos dentro do ambiente acadêmico. Decorridos onze anos, observa-se que um desenho feito em 2018 pelo Centro Brasileiro de Saúde Baseada em Evidências não esboça um aumento considerável da integração da MBE na grade curricular das inúmeras escolas médicas do país. Conforme os autores do estudo, menos de 20% das escolas médicas têm conceitos da MBE inseridos em seus currículos². Poucas faculdades têm a disciplina de MBE e essa realidade ainda

Danilo Gustavo Santos

3 min25 days ago

Amamentação: barreiras e soluções | Colunistas

O contexto da gravidez, principalmente para as mães de primeira viagem, é envolto em mitos, opiniões e muitas dúvidas acerca de como cuidar da criança. Ao nascimento, infelizmente, essas questões apenas se multiplicam, destacando-se uma em especial: a alimentação. Diante disso, cabe ao profissional da saúde explanar acerca desse novo mundo adentrado pelas mães, pegar nas mãos delas e recitar o dogma: “Aleitamento materno exclusivo até os 6 meses de idade”. As demais questões são mais fáceis.  A Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Ministério da Saúde (MS) recomendam o aleitamento materno (AM) exclusivo (apenas leite materno direto da mama ou ordenhado) até os 6 meses de idade, a partir de quando podem ser adicionados alimentos sólidos ou semissólidos, a fim de fazer a transição alimentar, de forma que o aleitamento complementado se estenda até os 2 anos de idade ou mais. Nessa ótica, mesmo todas as evidências científicas provando a superioridade do aleitamento sobre outras formas de alimentar a criança, a maioria delas não é amamentada por 2 anos ou mais e não recebe leite materno exclusivo nos primeiros 6 meses. De fato, o AM possui inúmeros benefícios, como a redução da mortalidade na infância, a proteção contra diarreia, infecções respiratórias, alergias, a promoção do crescimento e do desenvolvimento cognitivo, entre outras.  Então, se esses ganhos são tão claros e relativamente bem divulgados pelos profissionais de saúde, por que ainda existe, no contexto brasileiro, uma dificuldade de se adotar a amamentação de forma adequada? Para se entender essa questão, demanda-se uma análise mais profunda do acompanhamento no puerpério. Durante o primeiro ano de vida, pediatras e médicos de família são os profissionais que mais investem tempo com

Gabriel Peres

4 min84 days ago

Rastreamento na Atenção Primária | Colunistas

Dando sequência na série de posts acerca de rastreamento em medicina, hoje não será discutido como rastrear uma doença, mas sim quais os critérios que certas doenças devem preencher para ter um programa de rastreamento. Dentro da medicina preventiva, há os níveis de prevenção em saúde que foram primeiramente estabelecidos em 1976 por Leavell & Clark. Dentre esses níveis de prevenção, destaca-se a prevenção secundária, classicamente definida como “ação realizada para detectar um problema de saúde em estágio inicial, muitas vezes em estágio subclínico, no indivíduo ou na população, facilitando o diagnóstico definitivo, o tratamento e reduzindo ou prevenindo sua disseminação e os efeitos de longo prazo.” E dentro desse nível, engloba-se o rastreamento e o diagnóstico precoce. Embora pareçam semelhantes, os termos “rastreamento” e “diagnóstico precoce” são utilizados em determinadas circunstâncias. O diagnóstico precoce representa as ações para identificar determinada doença a partir de sinais e/ou sintomas clínicos que o paciente apresenta na consulta médica, enquanto que o rastreamento é utilizado para representar as ações (o famoso “check-up”) com a finalidade de identificar indivíduos que têm doenças, porém sem apresentar sintomas. Então para se evitar qualquer doença, podemos rastreá-la desde cedo? Não é qualquer doença que tem um programa estabelecido de rastreamento. Por exemplo, no Brasil há um programa bem delineado para o rastreamento do câncer de mama e do câncer de colo de útero, contudo não há programas consolidados para os cânceres de pele ou mesmo para as neoplasias de pulmão. E quais os critérios para determinada patologia ter seu próprio programa de rastreamento? De acordo com o ministério da saúde (2010), os critérios para implantação de rastreamento são:

Gabriel Martinez

2 min89 days ago

Resumo de atenção básica à saúde: princípios e diretrizes | Ligas

A Atenção Básica é o conjunto de ações de saúde individuais, familiares e coletivas que envolvem promoção, prevenção, proteção, diagnóstico, tratamento, reabilitação, redução de danos, cuidados paliativos e vigilância em saúde, desenvolvida por meio de práticas de cuidado integrado e gestão qualificada, realizada com equipe multiprofissional e dirigida à população em território definido, sobre as quais as equipes assumem responsabilidade sanitária. (Origem: PRT MS/GM 2436/2017, Art. 2º) O que é a atenção básica? A atenção básica é conhecida como a “porta de entrada” dos usuários nos sistemas de saúde. Ou seja, é o atendimento inicial. Seu objetivo é orientar sobre a prevenção de doenças, solucionar os possíveis casos de agravos e direcionar os mais graves para níveis de atendimento superiores em complexidade. A atenção básica funciona, portanto, como um filtro capaz de organizar o fluxo dos serviços nas redes de saúde, dos mais simples aos mais complexos. A atenção básica se caracteriza por um conjunto de ações de saúde, no âmbito individual e coletivo, que abrange a promoção e a proteção da saúde, a prevenção de agravos, o diagnóstico, o tratamento, a reabilitação, a redução de danos e a manutenção da saúde com o objetivo de desenvolver uma atenção integral que impacte positivamente na situação de saúde das coletividades. Este trabalho é realizado nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), nas Unidades Básicas de Saúde Fluviais, nas Unidades Odontológicas Móveis (UOM) e nas Academias de Saúde.  Como funciona a atenção básica à saúde? No Brasil, a Atenção Básica é desenvolvida com o mais alto grau de descentralização e capilaridade, ocorrendo no local mais próximo da vida das pessoas. Ela deve ser o contato preferencial dos usuários, a principal porta de entrada e

Cuidados paliativos: a dignidade do morrer | Colunistas

– INTRODUÇÃO Falar da morte é um tabu para muitos pacientes, familiares e até mesmo para profissionais da área da saúde. Da mesma forma, os Cuidados Paliativos (CP) têm, por vezes, suas dificuldades de discussão por serem erroneamente vinculados de modo restrito ao estado de terminalidade próxima. Mas afinal, o que são Cuidados Paliativos e quando dar início às suas práticas? – BREVE HISTÓRICO Os primeiros conceitos e práticas de CP surgem liderados pela médica, enfermeira e assistente social Cicely Saunders no contexto de atuação nos “Hospices”, abrigos destinados a cuidar de enfermos em estado terminal. O cuidar passa a ter enfoque e há a necessidade de transformação na prática médica, não se restringindo à medicina curativa. – CONCEITO A Organização Mundial da Saúde (OMS), segundo atualização em 2002, afirma: “Cuidados Paliativos consistem na assistência promovida por uma equipe multidisciplinar, que objetiva a melhoria da qualidade de vida do paciente e seus familiares, diante de uma doença que ameace a vida, por meio da prevenção e alívio do sofrimento, por meio de identificação precoce, avaliação impecável e tratamento de dor e demais sintomas físicos, sociais, psicológicos e espirituais”. Este conceito nos faz refletir que o momento no qual muitos acreditam não haver mais o que fazer dentro das capacidades médicas para atingir a cura, podem surgir novas possibilidades, no paliativismo, que dimensionam as necessidades humanas na busca pela qualidade de vida do paciente em sua integralidade. Em consonância, o quinto módulo da Série “Cancer Coltrol: knowledge into action: WHO guide for effective programmes”, lançado em 2007 pela OMS, aborda o tema Cuidados Paliativos, trazendo em suas considerações iniciais o aspecto da necessidade humanitária e com caráter de urgência do exercício dos

Letícia Passos

4 min123 days ago

Entre a vida e a morte: Cuidados Paliativos | Colunistas

Introdução Você já se colocou em um momento que usou todos os tipos de tratamentos em seu paciente e o quadro dele não foi positivo? Será que o melhor é continuar tentando, colocando-o em exposição às intervenções dolorosas e desgastantes tanto para o paciente quanto para a família? Ao se pensar em fim de vida, imaginamos o ciclo de vida natural em que a morte é um dos seus pilares. Mas você já se perguntou de que forma iria querer sua morte? Realmente… é um assunto difícil de se cogitar, ainda mais quando se fala no processo de falecimento. Contudo, é incontestável o desejo comum da morte tranquila, sem dor e – se possível – sem sentir nada (“morrer como um passarinho”). Dessa maneira, diante de diversas doenças crônicas graves e a prevalência do câncer, o médico deve saber o momento de reconhecer a “impossibilidade de cura” e as tentativas de intervenções invasivas sem resultados. Além de entender que onde existe vida, há morte e que ela faz parte da natureza. O médico não deve olhar para a morte como um fracasso e com o objetivo de derrotá-la de todas as formas possíveis, mas sim entender que em certos momentos é hora de cuidar do paciente e não mais da sua doença.  Isso não quer dizer que o paciente não deve ser tratado, mas o especialista deve se perguntar o porquê de mais um tratamento. Seria apenas para prolongar o quadro atual do paciente ou por que o médico não consegue entender o ciclo natural da vida? Nem todo tratamento é benéfico ou capaz de recuperar/curar, ainda mais quando se fala de pessoas gravemente enfermas. Nesse momento, muitas vezes o que o paciente mais precisa

Letícia Sousa Oliveira

6 min124 days ago

O que todo médico e futuro médico deve saber sobre cuidados paliativos | Colunistas

Os cuidados paliativos têm sua origem ainda muito recente, na década de 1960 no Reino Unido, pelas mãos de Dame Cicely Saunders, uma médica, enfermeira  e assistente social britânica, cuja história é muito interessante (nas referências se encontra o link para sua bibliografia no site oficial da Instituição que recebe seu nome). Apenas em 1990 a OMS definiu seus conceitos e princípios, recomendando a sua prática. Sendo um recente conhecido para a realidade médica e por estar relacionado com um assunto que ainda é tabu para a sociedade – o fim da vida, trago para você neste artigo pontos essenciais que você deve saber sobre esta arte de assistir o paciente – e não só ele, como veremos – no seu momento de maior fragilidade. Vamos lá? Pequeno histórico e definição Em 1967, a senhora Cicely Saunders, que tinha uma base humanista, fundou “St. Christopher’s Hospice”, com o financiamento de um paciente em estado paliativo para o qual prestou cuidados. Surge assim uma nova forma de se enxergar o que deve-se ser feito com um paciente quando este chega em um estágio impossibilitante de cura. Suas ideias se propagaram principalmente para os Estados Unidos e Canadá. Em 1982 ocorre o primeiro evento de ordem mundial para a discussão das melhores formas para se oferecer alívio e cuidado a pacientes com câncer, propostos pelo Comitê de Câncer da Organização Mundial de Saúde-OMS. Como já mencionado, em 1990 a OMS dá a definição para cuidados paliativos, revisada em 2002:  “Abordagem que promove a qualidade de vida a pacientes, que enfrentam doenças que ameacem a continuidade da vida e seus familiares, por meio da prevenção e alívio do sofrimento, necessitando de identificação precoce, avaliação e

Bárbara Galardino

5 min172 days ago

Afinal, o que é a Medicina do Estilo de Vida? | Ligas

Introdução As doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) correspondem hoje uma das maiores causas de morte e incapacidade prematura no mundo. Além disso, causam grande impacto econômico para a sociedade em geral. Entre elas, as principais são: Hipertensão Arterial, o Diabetes, Cânceres e as Doenças Respiratórias Crônicas. Entre os fatores de risco para essas doenças estão os modificáveis ((sexo, idade e herança genética) e os comportamentais (tabagismo, má alimentação, sedentarismo, consumo de álcool e outras drogas). Sendo que, segundo a Organização Mundial de Saúde, o tabagismo, o consumo excessivo de bebidas alcoólicas, a má alimentação e o sedentarismo, todas relacionadas ao estilo de vida, representam 51% dos fatores causais para as DCNT. Dessa forma, é necessário um olhar maior para esses fatores através da prevenção e promoção da saúde. A medicina do Estilo de vida busca a promoção de um estilo de vida saudável, seja para diminuir as complicações decorrentes de uma em curso ou para evitar que novas doenças apareçam consecutivamente a uma má qualidade de vida. Dessa forma, podemos definir que a medicina do estilo de vida como uma abordagem científica interdisciplinar para a promoção e manutenção de hábitos de vida saudáveis. Possui seis pilares fundamentais para a saúde, sendo eles: controle de tóxicos, atividade física, saúde mental, conexões pessoais e interpessoais, saúde do sono e alimentação saudável. Controle De Tóxicos. No Brasil, o consumo de álcool e tabaco são legalizados por lei. A ingestão de bebidas alcóolicas se relaciona diretamente com o aumento de morbimortalidade em pacientes jovens, relacionado à causas externas, principalmente, e aumenta o risco de doenças crônicas. Assim como o álcool, o tabaco também é classicamente associado

LAMEV ESCS

4 min253 days ago
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