Estimulação do nervo vago para tratamento da depressão: realização e perspectivas | Colunistas

A estimulação vagal consiste na implantação de um dispositivo gerador de pulsos elétricos que estimula as fibras desse nervo sob o tórax, no qual um fio é enrolado ao redor do nervo vago esquerdo na região do pescoço, de modo que impulsos nervosos sejam disparados e transmitidos ao cérebro. É um procedimento de caráter invasivo e que tem sido utilizado para tratamento de depressão refratária a tratamento medicamentoso – definida por falha de duas tentativas sucessivas de tratamento administrado em dose apropriada e tempo suficiente – e com consentimento do paciente. Locais de Estimulação A estimulação do nervo vago ou VNS, do inglês “Vagus Nerve Stimulation”, foi desenvolvida nos anos 1990 e consiste na implantação de um eletrodo conectado a um marcapasso situado no hemitórax esquerdo e que se comunica com o nervo vago do mesmo lado – o direito está contraindicado pelo risco de bradicardia e arritmia –, na região do pescoço. Seu mecanismo de ação ainda não foi completamente elucidado, mas sugere-se que os impulsos provenientes do marcapasso se dirigem para as seguintes regiões: – Locus Ceruleus: estrutura localizada na ponte e que possui corpos de neurônios capazes de sintetizar catecolaminas como noradrenalina e adrenalina; – Núcleos da Rafe: localizados no tronco cerebral – em específico: bulbo e ponte – são responsáveis pela produção de serotonina; – Núcleo do Trato Solitário: situado no bulbo, é um núcleo sensitivo que recebe impulsos aferentes do IX, X e XI pares cranianos ligados ao paladar e a secreção de saliva, estando ainda relacionado com a via de ativação do locus ceruleus. Sabendo disso, pesquisas indicam que um dos efeitos da VNS é

David Augusto Batista

4 min11 days ago

Resumos: manejo de agressividade e agitação psicomotora no pronto socorro | Ligas

Introdução Saber manejar um paciente agressivo e/ou agitado é importante para qualquer médico, uma vez que esse quadro constitui uma emergência médica que está sujeita a se apresentar tanto em hospitais gerais, como nos serviços psiquiátricos. Na área da psiquiatria, contudo, o tema ganha destaque, visto que estudos epidemiológicos apontam para o fato que os indivíduos com diagnóstico psiquiátrico prévio têm risco aumentado para apresentar esses comportamentos, com destaque para os pacientes esquizofrênicos, bipolares e com transtorno de personalidade. Nos serviços psiquiátricos, estima-se que entre 20% e 50% dos atendimentos emergenciais são por quadros de agitação e/ou agressividade, e 10% dos pacientes podem se tornar agressivos ao longo do atendimento. É importante retomar, todavia, que os quadros de agitação e agressividade não são exclusivos da psiquiatria, podendo compor a apresentação de síndromes demenciais, traumas cranioencefálicos, Acidente Vascular Encefálico, intoxicação por substâncias e diversas outras condições médicas gerais. Desse modo, o diagnóstico diferencial é de extrema importância para garantir o manejo adequado do paciente. Definições No manejo do paciente agitado e/ou agressivo, três conceitos se destacam: a agitação, a agressividade e a violência. A agitação é marcada pela elevação das atividades motoras e/ou cognitivas e pela exacerbação de comportamentos motores/verbais improdutivos. Cursa, ainda, com inquietação, excitabilidade psíquica, resposta exagerada aos estímulos, irritabilidade e comportamento inadequado. A agressividade, por seu turno, é o ato intencional de causar dano físico ou psíquico em outra pessoa ou, por vezes direcionado a um objeto. Por fim, a violência é a concretização da agressividade, isto é, é o ato que causa propriamente o dano físico a outra pessoa, podendo ou não se associar com agressividade verbal. Avaliação do Paciente O

Diagnóstico e manejo da Intoxicação por Lítio | Colunistas

1. Introdução Segundo dados do Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (SINITOX) e da Fiocruz, em 2016, ano de última atualização, ocorreram 32.311 casos de intoxicações medicamentosas no Brasil, sendo que 115 destes evoluíram com óbito (aproximadamente 0,4%).  Clicando aqui, você pode acessar o SINITOX para obter mais informações acerca dos dados nacionais sobre intoxicações1. Dentre as medicações listadas, encontra-se o Lítio. Essa substância possuí propriedades antimaniácas e estabilizadoras de humor, sendo usada amplamente no tratamento dos transtornos bipolares. Seu emprego é relatado desde séculos passados, mas foi somente em 1970, nos EUA, que seu uso foi aprovado pelo FDA (Food and Drug Administration).2 Apesar de ser uma medicação eficaz, ela pode ser danosa já que apresenta um intervalo terapêutico estreito, com níveis séricos entre 0,6 e 1,5 mEq/L. Esse quadro de intoxicação por lítio pode ser influenciado ainda por fatores como idade, função renal, status volêmico e interação com outros fármacos3,4. Imagem 1 2. Aspectos farmacológicos O lítio pode ser absorvido opor via oral, na forma de sal com citrato ou carbonato. A sua meia vida depende da função renal, e em indivíduos saudáveis é de cerca de 12 a 27 horas. A molécula apresenta baixa ligação a proteínas plasmáticas e distribuição lenta para o sistema nervoso central (SNC)3. Em nível renal, o lítio é filtrado livremente nos glomérulos e reabsorvido no túbulo proximal, alça de Henle e ducto coletor. Esse processo de reabsorção é semelhante ao do sódio e do potássio. Logo, quadros de retenção desses eletrólitos (como desidratação, poliúria, diarreia) podem cursar com aumento nos

Renan Torres

5 min19 days ago

Anedonia: Quando tudo perde a graça | Colunistas

Por definição, o termo anedonia significa falta ou perda da capacidade de sentir prazer ou satisfazer-se. Etimologicamente, pode ser traduzido por ausência de prazer. A partir desse princípio, a anedonia é caracterizada como um sintoma depressivo que, assim como muitos outros, tem impacto direto não só na permanência da vida do paciente, como também na qualidade dela. Nesse sentido, torna-se válido refletir acerca da importância do prazer para o indivíduo. Desde a antiguidade a busca pelo prazer sempre determinou muitos comportamentos em diferentes sociedades. Em um breve resgate histórico, é possível citar movimentos como o Hedonismo – doutrina filosófica que se baseava na ideia de que o prazer é o bem supremo da vida humana, ou o Epicurismo – um sistema filosófico que pregava a procura dos prazeres moderados para atingir um estado de tranquilidade e de libertação do medo. Mas, e hoje? Como o ser humano encara o prazer? Qual o nível de importância da sua busca? O prazer e a satisfação permeiam diversos momentos de nossas vidas. Desde situações corriqueiras como apreciar uma boa comida, assistir sua série favorita, ouvir sua música preferida, atingir um orgasmo, tomar banho quente num dia frio, achar fotos antigas, rever velhos amigos, cantar num karaokê, ver o pôr do sol na praia, estar em família, até eventos mais marcantes, como sua formatura, o primeiro emprego, conquistas materiais, viagens especiais, o grande amor da sua vida… Tudo isso representa uma minúscula parte das inúmeras possibilidades de alcançar e sentir prazer ao longo da vida. No entanto, para além da satisfação pessoal, algumas situações da procura pelo prazer podem não ser tão positivas. A velocidade em que as coisas acontecem, a fluidez dos nossos vínculos, a mecanização das nossas relações e

Gileno Trozzi

3 min46 days ago

O que é anedonia? | Colunistas

Definição Do grego, “a” (prefixo de negação) + “hedon” (prazer, derivado de Hedone, deusa do prazer). Segundo o Dicionário Online de Português, anedonia é a “falta ou perda da capacidade de sentir prazer e/ou satisfazer-se”. O DSM-V (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) define como “capacidade reduzida de ter prazer resultante de estímulos positivos, ou degradação na lembrança do prazer anteriormente vivido” e “falta de envolvimento ou energia em relação às experiências de vida; déficits na capacidade de sentir prazer ou se interessar pelas coisas”. Ou seja, pode ser um sintoma ou um estado emocional caracterizado pela perda do prazer por atividades que outrora eram prazerosas, como socialização, prática esportiva, namoro; e, ainda, falta de energia para desempenhar ações corriqueiras, como higiene pessoal, estudo, trabalho, etc. Existem subtipos de anedonia, dentre os principais: anedonia social (na qual há desinteresse/desprazer no contato social) e anedonia física (incapacidade de sentir prazer com contato físico, sexual ou ainda com alimentação). Embora possa ser decorrente de condições orgânicas, como insuficiências vitamínicas e Doença de Alzheimer, trata-se de um sintoma muito frequente em diversos tipos de transtornos mentais, com ênfase nos transtornos de humor. Ademais, reduz significativamente a qualidade de vida e tem íntima relação com ideação suicida. Pode acometer qualquer pessoa em algum momento da vida, de modo independente da caracterização patológica, como um sintoma isolado e passageiro. Nestes casos, sempre é preciso estar alerta para a cronicidade ou agravamento, sendo indicada a procura médica. Aspectos Neurológicos Encontra-se na literatura dados referentes à neurobiologia da anedonia, cuja explicação se baseia em déficits de várias facetas do sistema de recompensas.

Isabela Simões

2 min60 days ago

O que é anedonia? | Colunistas

Anedonia faz referência a Hedone, uma deusa grega do prazer e, com seu “a de negação”, já sabemos o que a palavra quer dizer. Anedonia é a dificuldade ou incapacidade de uma pessoa sentir prazer ou se motivar a realizar atividades que antes eram prazerosas. Por exemplo, reuniões com amigos, atividades de lazer ou mesmo o prazer sexual não são mais importantes para a pessoa, esta que passa a relatar que “a vida perdeu o sabor” ou que “não consegue mais ficar feliz com as realizações”. É válido salientar que ocorre com maior frequência na Depressão (fator importante para o diagnóstico), porém pode acontecer na Esquizofrenia e em quadros crônicos de outros transtornos.             Diante dessa definição, muitas pessoas acabam por confundir anedonia com apatia. Ambas estão frequentes nos transtornos mentais e nem sempre estão presentes simultaneamente. A primeira tem relação maior com a alteração das emoções do que com o humor e o sentimento, isto é, a pessoa não sente prazer; já a segunda é a incapacidade de sentir afetos, o que envolve o comprometimento desde o humor até os sentimentos, como que em uma ausência completa de experiência afetiva.             A nível cerebral, o prazer está envolvido em diversas estruturas e interconexões, perpassando três passos a fim de haver sua geração: a excitação (ou expectativa), a avaliação (identificar se determinada atividade ou situação está realmente sendo prazerosa ou não) e a expressão da emoção desencadeada (por alterações neurovegetativas ou comportamentais). Tudo isso é fruto da atuação do sistema de recompensa cerebral, ou seja, associa situações consideradas positivas com a sensação do prazer e impulsiona o indivíduo a repeti-las. Nesse contexto, percebem-se dois grandes conjuntos de estruturas envolvidas: o sistema ventral e o sistema dorsal.

Vinício Sallet

2 min67 days ago

Delirium com foco na análise de pacientes idosos e considerações sobre COVID-19 | Colunistas

Introdução O delirium é uma manifestação neuropsiquiátrica caracterizada por uma síndrome confusional aguda, que afeta principalmente a atenção, a consciência, leva à alterações no ciclo sono-vigília e que apresenta curso flutuante. Historicamente, há evidências de que tal condição foi um dos primeiros transtornos mentais descritos na literatura médica, passando, porém, por diferenças e evoluções conceituais até a atualidade. A importância no entendimento e reconhecimento do delirium está na sua dificuldade diagnóstica e nas complicações decorrentes do quadro. Sua epidemiologia é variável, devido principalmente ao seu subdiagnóstico (pela similaridade do quadro com seus diagnósticos diferenciais como demência e depressão; pelos casos de delirium hipoativo por vezes, passarem despercebidos pela equipe; como também pela multiplicidade de fatore etiológicos – a insuficiência cerebral aguda apresenta-se como via final de diferentes processos patológicos). Fatores como o próprio envelhecimento fisiológico também podem dificultar o diagnóstico correto do delirium, sendo a população idosa de fato a mais acometida por essa condição clínica (os índices são ainda mais significativos para idosos hospitalizados). A psicopatologia e a psiquiatria clássicas abordam termos como o “Estado Onírico” e “Amência”, ambos relacionados à ideia do sonho vívido como processo alucinatório, de diferentes intensidades, à agitação psicomotora e à confusão mental. Tais considerações são hoje englobadas pelo delirium. Etiologia A etiologia relacionada ao delirium pode ser multifatorial, relacionando-se com: infecções (principalmente pneumonias e infecções do trato urinário), abstinência ou uso de drogas (incluindo medicamentos). De modo sintético, qualquer situação que comprometa a função cerebral pode acarretar em delirium: substâncias, infecções, doenças cardíacas, distúrbios metabólicos, transtornos do sistema nervoso central, neoplasias, traumatismos (incluindo cirurgias) e mudanças de ambiente (como a hospitalização). Fisiopatologia A

Letícia Passos

6 min88 days ago

Borderline: definição, sintomas, diagnóstico e tratamento | Colunistas

Transtornos de Personalidade Borderline é classificado pelo DSM-V (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) como Transtorno de Personalidade. Mais especificamente, está no grupo B desses transtornos (com transtorno de personalidade antissocial, narcisista e histriônica), os quais são caracterizados pela manipulação e impulsividade. O DSM-V define transtornos de personalidade, de modo geral, como: “padrão persistente de experiência interna e comportamento que se desvia acentuadamente das expectativas da cultura do indivíduo”. Em outras palavras, essa categoria traduz uma série de padrões comportamentais atípicos em relação ao comportamento social comum; porém, de modo muito acentuado e patológico, causando prejuízos e sofrimento, diferindo de um simples traço de personalidade. Transtorno de Personalidade Borderline O Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) tem início, predominantemente, na adolescência e na vida adulta; no entanto, segundo literatura mais recente, há manifestações desde a infância. Há prevalência média de 1,6% a 5,9% na população, com predomínio de diagnósticos no sexo feminino (o que muito se deve à menor procura médica do sexo masculino). Sintomas Os sintomas são difusos e em várias esferas, dentre eles: Distúrbios afetivos marcados pelo constante vazio, medo da solidão, raiva e terror;Humor instável com abruptas e extremas mudanças ao longo do dia;Alterações na cognição, ideias superestimadas, dissociação (pela perda da percepção da realidade e despersonalização), comumente associadas a episódios psicóticos (ilusão e alucinação);Impulsividade caracterizada por comportamentos autodestrutivos, automutilação, abuso de sexo ou drogas, direção imprudente, explosões verbais;Relacionamentos intensos e instáveis marcados pelo extremo medo do abandono e alternância entre idealização e desvalorização. Diagnóstico A intensidade com que os sintomas se manifestam fazem com que algum transtorno seja facilmente identificado pela família e

Isabela Simões

2 min88 days ago

Relação médico-paciente: transferência, contratransferência e empatia | Colunistas

“Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana.” (Carl G. Jung) 1. HUMANIZAÇÃO Em uma relação médico-paciente é necessário, sobretudo, que tenha um atendimento humanizado, através de princípios éticos e políticas de gestão em saúde. Conforme a Política Nacional de Humanização (HumanizaSUS), a humanização é: “a valorização dos usuários, trabalhadores e gestores no processo de produção de saúde. Valorizar os sujeitos é oportunizar uma maior autonomia, a ampliação da sua capacidade de transformar a realidade em que vivem, através da responsabilidade compartilhada, da criação de vínculos solidários, da participação coletiva nos processos de gestão e de produção de saúde” ⁴. 2. TRANSFERÊNCIA E CONTRATRANSFÊNCIA  Supostamente, a relação médico-paciente começou na medicina hipocrática, com objetivo de beneficência humana, com a visão da pessoa por completo e não somente patológica. Esta relação é formada por processos psicossociais⁵, como, por exemplo, a transferência e contratransferência – descobertas e estudadas pelo psicanalista Freud, trazendo um entendimento para prática médica e a relação com seus pacientes².  A transferência é a relação do paciente referente ao médico. Especificamente, é os sentimentos de uma relação ou pessoa do passado que são transferidos para situações atuais ou para relação com médico. Existem dois tipos, a negativa e a positiva. A negativa são sentimentos ruins, como ódio, ira, ressentimentos e tristezas; por outro lado, a positiva são sentimentos bons, de amor, respeito e confiança². Outrossim, na contratransferência ocorre o oposto da transferência, tendo a relação do médico perante ao paciente. Mais afundo, são respostas emocionais do médico frente às manifestações do paciente, que dependem da

Lucas Crizostomo

3 min172 days ago
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