A abordagem historiográfica dos séculos XIX e XX sobre a atuação de médicos e boticários jesuítas na América platina no século XVIII

A abordagem historiográfica dos séculos XIX e XX sobre a atuação de médicos e boticários jesuítas na América platina no século XVIII

Autores:

Eliane Cristina Deckmann Fleck

ARTIGO ORIGINAL

História, Ciências, Saúde-Manguinhos

versão impressa ISSN 0104-5970

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.21 no.2 Rio de Janeiro abr./jun. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702014000200011

Empenhados em garantir a saúde das almas e dos corpos – conciliando a busca do martírio e da edificação com a modernidade e o racionalismo –, os missionários jesuítas acabaram por conferir incontestável originalidade à Companhia de Jesus nos séculos XVII e XVIII, como se pode constatar no conhecimento médico e farmacêutico que produziram e fizeram circular pelos vários continentes. As reflexões em torno das múltiplas atividades exercidas pelos membros da Companhia de Jesus sempre dividiram as opiniões dos historiadores. Por mais de quatro séculos, recaiu sobre a Ordem uma apreciação negativa, associando-se a ela a oposição a qualquer inovação no campo da ciência moderna.

Essa tradição historiográfica se alterou significativamente a partir dos anos 1990, em decorrência de uma série de pesquisas que, com base em documentação acessada nos arquivos da Companhia de Jesus em Roma e na América, destacaram o inegável papel desempenhado pelos jesuítas na história intelectual do Renascimento, desde inícios da era moderna, e sua influência no conhecimento médico e farmacêutico vigente na atualidade.

Em recente resenha sobre a obra Science in the Spanish and Portuguese Empires: 1500-1800 (Stanford University Press, 2009), Iris Kantor (2010, p.295-296) chama a atenção para os efeitos da apropriação de “imagens negativas do colonialismo ibérico … pela historiografia decadentista (tanto na vertente liberal como na marxista) que, por sua vez, atribuiu à censura inquisitorial, ao catolicismo e aos jesuítas as principais obstruções do pensamento científico nos países e regiões de colonização ibérica”.1 Ela prossegue, afirmando que

Os estudos reunidos nessa coletânea procuram superar definitivamente a dicotomia entre prática científica e cultura católica, demonstrando que o enquadramento teológico político do mundo natural – sensibilidade científica barroca que conjuga a intervenção divina com o experimentalismo – não teria constituído um impedimento para formulação de modelos explicativos com validade universal (p.296).

Ao comentar o artigo assinado por Palmira Costa e Henrique Leitão, que integra a coletânea resenhada, a historiadora paulista compartilha da recomendação que fazem de que “o pesquisador deve percorrer as correspondências das autoridades metropolitanas e locais, os diários de viajantes e comerciantes, os relatórios de missionários e cronistas locais para captar a dimensão quotidiana dessas experiências”, que podem contribuir “para uma correta avaliação dos alcances e dos limites da cultura científica ibérica” (Kantor, 2010, p.295-296).

Trata-se, portanto, como bem observado por Ivonne del Valle (2009, p.240),

de uma leitura que de nenhum modo quer ser história e nem apologia da Companhia de Jesus, nem tampouco um estudo que analise documentos em si mesmos … senão mais bem uma leitura focada no papel desempenhado por estes documentos na criação de redes de conhecimento, seu lugar na formação de uma epistemologia particular no século XVIII e as manifestações mais localizadas desta episteme.

Ao longo do século XVIII, uma série de catálogos de plantas medicinais e de tratados de medicina e de cirurgia foi produzida por jesuítas, com destaque para os escritos por Pedro Montenegro e Segismundo Asperger. Já os padres Buenaventura Suárez, Bernardo Nusdorffer, Pedro Lozano, José Guevara e Martín Dobrizhoffer nos legaram valiosas informações relativas aos saberes e às práticas curativas adotadas pelos nativos. Os jesuítas, além de manterem extensa correspondência entre si, por meio da qual compartilhavam descobertas científicas das mais variadas, dedicaram-se à manipulação de medicamentos e à reprodução de tratados manuscritos de medicina e cirurgia e de receituários, que fizeram circular entre as reduções e os colégios das províncias jesuíticas na América platina e entre aqueles instalados na Europa e mesmo no Oriente.2 Em muitos desses espaços, encontraremos “pensadores”, como proposto pelo historiador equatoriano Cañizares Esguerra (2007), que, apesar de habitarem regiões marginais no cenário intelectual do período – áreas consideradas apenas e tradicionalmente receptoras de conhecimentos produzidos em outras partes do mundo –, foram personagens decisivos na construção de determinados conhecimentos.

No final do século XIX e nas primeiras décadas do XX, autores como o médico Pedro Arata, o naturalista e botânico Moisés Santiago Bertoni e os padres jesuítas Carlos Leonhardt e Guillermo Furlong retomaram a discussão sobre a contribuição da Companhia de Jesus para o conhecimento médico e farmacêutico, a partir da análise das obras que alguns de seus missionários produziram e fizeram circular pelos vários continentes em que atuaram.

Neste artigo, pretendemos não apenas situar historicamente as posições assumidas por esses quatro autores nas obras que selecionamos, visando à identificação e à análise das motivações que tiveram para publicá-las, das semelhanças e diferenças entre suas abordagens, e de sua vinculação com o incremento dos estudos relativos à história da medicina e das ciências. Pretendemos também inserir as obras no debate historiográfico sobre a efetiva contribuição da Companhia de Jesus para o pensamento científico nos países de colonização ibérica, iniciado ainda no século XIX.

As abordagens historiográficas do desenvolvimento científico na América platina

Por iniciativa do Comitê Interacadêmico do Bicentenário Argentino, as Academias Nacionais editaram, em setembro de 2010, um volume que se propôs a reconstituir o conhecimento histórico, cultural e científico que caracterizou a América platina no período que antecedeu e que se seguiu à primeira década do século XIX, com o intuito de homenagear a Revolução de Maio de 1810.

Representando a Academia de Ciências Exatas, Físicas e Naturais, Enrique J. Baran (2010, p.84-86), no artigo “Las ciencias exactas y naturales”, afirma que um grande número de jesuítas, sobretudo italianos e alemães – com boa formação científica – exerceu notável influência em diversas regiões da América, lançando as bases dos conhecimentos científicos sobre geografia, etnologia e ciências naturais, os quais circularam nas crônicas e cartas que redigiram sobre as viagens exploratórias ou de evangelização que realizaram.

De acordo com Baran, a expulsão da Companhia de Jesus, em 1767, produziu um impacto fortemente negativo no desenvolvimento científico e cultural das colônias espanholas na América, retardando significativamente o avanço de muitas atividades científicas e tecnológicas, comprometendo a continuidade de eventos e experimentos.

Nessa mesma obra, encontramos o artigo “La farmácia durante el período colonial y en los primeros años de vida independiente”, no qual seus autores reafirmam o papel destacado que, por mais de um século e meio, os jesuítas desempenharam na América platina, descrevendo-os como cultores da filantropia, bons naturalistas, botânicos, enfermeiros, boticários e médicos, “dentro das circunstância da época e do ambiente”3 (García et al., 2010, p.233). Sua importante atuação como boticários parece ter-se comprovado quando da instalação do Protomedicato de Buenos Aires, nas dependências do Colégio dos Jesuítas, a 17 de agosto de 1780.4 Os autores ressaltam que a primeira botica pública que existiu em Buenos Aires pertenceu aos jesuítas, contando com laboratório e despensa de medicamentos, além de uma pequena horta, na qual eram cultivadas plantas medicinais, sobre as quais os irmãos Heinrich Peschke e José Hennig tinham grande conhecimento.

Manuel Luis Martí (2010, p.327), acadêmico representante da Academia Nacional de Medicina, afirma que a Revolução de Maio encontrou as instituições médicas bastante precárias e pouco desenvolvidas, assim como profissionais pouco qualificados nas artes de curar, carentes de uma “disciplina científica” e desprovidos de “arsenal terapêutico”, o que aponta para a concordância com a percepção de Enrique Baran (2010), para quem a expulsão dos jesuítas comprometeu o desenvolvimento científico na América platina.

Já o representante da Academia Nacional de Ciências de Buenos Aires, o historiador e filósofo da ciência Miguel de Asúa (2010b, p.56), ressalta “o cenário científico surpreendentemente vital” de Buenos Aires no início do século XIX, apesar de seu isolamento geográfico e de sua escassa população, atribuindo-o a sua condição de cidade portuária cosmopolita e, sobretudo, à “existência de certa cultura material da ciência”, que se traduzia em “coleções de instrumentos, bibliotecas e gabinetes de história natural”, organizadas por clérigos ilustrados. Esse mesmo autor ressalta que, nos séculos XVII e XVIII, os jesuítas conseguiram realizar uma harmoniosa síntese entre ciência e religião, dedicando-se à astronomia, à cartografia, à botânica médica, à física experimental e à história natural, produzindo “uma ciência basicamente barroca com relações tardias com a ciência ilustrada do século XVIII, que esteve a serviço do projeto religioso da Companhia de Jesus” (Asúa, 2010c, p.472).

Debruçando-se sobre os temas ilustração, ciência e técnica na América, o historiador mexicano Juan José Saldaña (1995) afirma que não devem ser ignoradas as iniciativas da Coroa espanhola, sobretudo o estímulo às expedições e às missões técnicas e científicas, assim como a influência exercida por pesquisadores de outras nacionalidades europeias que percorreram vastas regiões ou atuaram como professores nos territórios americanos. Mas, segundo ele, não se deve perder de vista o fato de que o que permitiu realmente esse progresso foi o que os próprios americanos fizeram. [Assim] no plano intelectual [é preciso considerar] o antecedente da cultura ameríndia, o sentimento telúrico da população, o criollismo e sua cultura. Tudo isso fez com que a Ilustração americana adquirisse perfil próprio, distinguindo-se em múltiplos aspectos daquela ocorrida em outras latitudes (p.23).

Para esse historiador, as teorias científicas modernas tiveram antecedentes notáveis na América do século XVII – particularmente – em física, astronomia e matemática, com destaque para os jesuítas que se pronunciaram a favor do probabilismo e contrários ao sectarismo, que os impedia de desenvolver observações e experimentos fundamentados na filosofia e na ciência moderna. Os autores identificados com essa percepção acerca do papel desempenhado pela Companhia de Jesus para a ciência na América se aproximam da visão dos historiadores nacionalistas do século XIX, que mencionam a existência de uma “ilustração católica” e a inegável contribuição dos jesuítas para a difusão do pensamento científico ilustrado nas universidades coloniais.

Ao analisar a produção historiográfica argentina do século XX, a pesquisadora Celina Lértora (1995) constatou a existência de duas correntes, uma conservadora e outra liberal. A primeira – até 1940 – se caracteriza pelo predomínio de historiadores de filiação católica, hispanófilos, em sua maioria, e críticos das medidas liberais adotadas pelos políticos argentinos no século XIX. A partir de 1920, essa corrente sofrerá reorientação investigativa, caracterizada pelo aporte de documentação inédita e pelo estudo crítico-analítico das fontes, tendo como seu representante mais ilustre o padre jesuíta Guillermo Furlong.

Vale lembrar que quando Furlong escreveu sua vasta obra sobre os estudos filosóficos no rio da Prata,5 a documentação por ele utilizada era praticamente desconhecida, o que favoreceu uma nova abordagem sobre as cátedras e os autores estudados nas universidades argentinas nas décadas imediatamente anteriores à emancipação política, em 1810. Para o historiador jesuíta, o verdadeiro problema historiográfico, à época, era determinar o grau de influência exercido pelo pensamento ilustrado espanhol na mentalidade criolla, no que parece ter sido acompanhado por muitos outros estudiosos, incluindo alguns atuais.

A historiografia liberal, por sua vez, apresentava-se como corrente mais ampla, constituída por todos aqueles ideologicamente contrários ao enfoque dado pela corrente anterior, como, também, por aqueles que, devido à adoção de outros procedimentos metodológicos, faziam crítica radical aos resultados obtidos pelos conservadores em suas investigações. Caracterizavam-se, sobretudo, por seu anti-hispanismo, anticlericalismo e pelo positivismo científico, o que, no entanto, não impedirá a “visão estreita do iluminismo e da ilustração” que irão apresentar (Lértora,1995, p.121-125).

Dentre os estudos mais recentes, e representando as atuais tendências historiográficas de análise da temática, destacamos a obra Saberes, terapias y prácticas médicas en Argentina (1750-1910), da historiadora argentina María Silvia Di Liscia (2002), que aborda a medicina acadêmica (científica e ibérica), a popular e a indígena não como compartimentos estanques, mas como um campo fluido, caracterizado por contatos, apropriações e empréstimos em todas as direções, num “duplo jogo de incorporação e simultânea negação” (p.XIII). A autora ressalta, ainda, que a incorporação dos conhecimentos indígenas consistiu num processo de grande complexidade, iniciado com a aprendizagem das línguas indígenas, dos costumes e do entorno, da conservação das plantas e de seu cultivo em jardins botânicos anexos aos hospitais e colégios jesuíticos … até chegar à experimentação de determinados compostos nos pacientes e, na sequência, à sistematização de toda a informação por escrito (p.49).

A estreita relação entre saberes indígenas e a ciência da ilustração pode ser, segundo Di Liscia (2002), constatada nos registros feitos por jesuítas, como Pedro Montenegro e Pedro Lozano, e por viajantes ilustrados e naturalistas, como Hipólito Ruiz e Felix Azara, ou, então, nos periódicos argentinos de princípios do século XIX, tais como El Semanário de Agricultura e o Telégrafo Mercantil.

Para a historiadora argentina, no final do século XVIII e início do XIX, os textos elaborados pelos jesuítas haviam-se transformado em importante fonte de consulta para os naturalistas ilustrados, que deram continuidade a “um processo de apropriação e manejo da flora e da fauna com fins medicinais que se completaria no final do século XIX, quando o Estado nacional argentino pôde dedicar recursos para a atividade científica sistemática” (Di Liscia, 2002, p.299).

Em La ciencia de Mayo: la cultura cientifica en el río de la Plata, o filósofo e historiador da ciência Miguel de Asúa (2010a, p.192-193) afirma que “os jesuítas ocupavam o cenário cultural e científico do rio da Prata ... antes da expulsão da Companhia [de Jesus] em 1767”, e que, especialmente, nas reduções jesuíticas havia uma “interessante atividade científica”, como demonstram os trabalhos de Buenaventura Suárez e Ramón Maria Termeyer, “as histórias naturais do Novo Mundo e os manuscritos de matéria médica”, que as configuram como “a frente mais avançada da ciência no rio da Prata”.

Se considerarmos a produção historiográfica brasileira sobre ciência e ilustração na América, constataremos que “certas concepções teóricas e metodológicas vigentes até bem pouco [tempo] buscavam encontrar atividades científicas em tudo exatamente semelhantes às europeias. Assim, o caráter eclético e pragmático de nossa Ilustração foi considerado evidência de que aqui só houve ciência a partir do século XX” (Ferraz, Figuerôa, 1995, p.209). Enquanto para alguns estudiosos, como Simon Schwartzman (1979, p.51), “Portugal permanece[u] à margem da ciência moderna, isolado pelo jugo clerical da Contra-Reforma e da Inquisição”, para outros, como Maria Odila Leite da Silva Dias e Maria Beatriz Nizza da Silva, “o pragmatismo científico da época é encarado como a própria atividade científica, e não mais como uma evidência de nosso fracasso nesse domínio do saber” (Ferraz, Figuerôa, 1995, p.215).

Atestando a vitalidade da polêmica em torno da produção científica no Brasil, as posições assumidas por Dias (1968) e Silva (1986) são reafirmadas em trabalhos que apresentam novas perspectivas – históricas, sociais e culturais – de análise6 para o estudo das ciências no Brasil durante o período colonial a partir da consulta realizada a arquivos portugueses (Figuerôa, 2007, 2009; Alfonso-Goldfarb, Maia, 1996; Alfonso-Goldfarb, Ferraz, 2002; Alfonso-Goldfarb, Beltran, 2004; Beltran, 2000; Ferraz, 1997). Também inúmeros trabalhos têm contribuído para a compreensão do conhecimento científico que os jesuítas produziram sobre a natureza da América portuguesa, sobretudo, no século XVII, ao destacar tanto a originalidade do projeto científico da Companhia de Jesus quanto as posições filosóficas ecléticas e divergentes do neoaristotelismo escolástico evidentes nas disputas intelectuais entre seus membros (Camenietzki, jul.-dez. 1995, 2000, jan. 2001, 2002, 2007; Gesteira, 2006, 2012; Gesteira, Teixeira, 2009; Carolino, 1997; Carolino, Camenietzki, 2005).

Na Argentina, por sua vez, observa-se a consolidação, especialmente a partir da segunda metade da década de 1990, de estudos sobre as ciências, que têm fornecido valiosas informações para a reconstituição das condições de elaboração e de divulgação do conhecimento científico na região platina, preenchendo, assim, uma lacuna na prática historiográfica hispano-americana. Dentre os esforços realizados nessa direção pela historiografia, destacam-se trabalhos de Asúa (2010a, 2010c).

As posições de Arata, Bertoni, Leonhardt e Furlong

O farmacêutico, médico e professor universitário Pedro Narciso Arata nasceu em 29 de outubro de 1849, em Buenos Aires, e faleceu na mesma cidade em 5 de novembro de 1922. Graduou-se médico em 1879, com tese sobre propriedades químicas das plantas, tendo presidido durante vários anos a Academia Nacional de Medicina da Argentina. Em “Botánica médica americana”,7 Arata (1898, p.419) realiza um estudo comparativo de quatro manuscritos produzidos na América, “apresentando aos leitores médicos uma síntese de seu conteúdo e fazendo ao mesmo tempo uma crítica”, comprometendo-se a fazê-lo “com ideias modernas”, destacando as “propriedades atribuídas às plantas de que tratam e agregando os nomes científicos que lhes correspondem, além de observações referentes às mesmas”.

Arata aponta como as mais relevantes obras sobre botânica médica as produzidas pelo médico e botânico espanhol Francisco Hernandez (1514-1587), pelo médico e naturalista holandês Guilherme Piso (1611-1678) e pelo padre jesuíta Bernabé Cobo (1582-1657), que teriam exercido também grande influência sobre as matérias médicas redigidas por missionários jesuítas, que eram copiadas diligentemente para que pudessem ser utilizadas nas diferentes regiões de atuação da Companhia de Jesus. Segundo ele, nada mais equivocado que pensar que essas matérias médicas fossem estudos originais ou produzidos por diferentes padres ou irmãos jesuítas.

Referindo-se também aos jesuítas como “senhores absolutos de milhares de índios”, entre os quais atuavam como “médicos de almas e de corpos e também como enfermeiros”, Arata (1898, p.440) questiona a autoria e a originalidade dos manuscritos produzidos por missionários jesuítas na América. Em relação a Materia médica misionera, do irmão Pedro Montenegro, ele afirma que o jesuíta copiou imagens da obra De inidiae utriusque Re naturali et medica, de Guilherme Piso (publicada em Amsterdã, em 1638), sem qualquer referência à obra, limitando-se a adicionar imagens de alguns pássaros e anjos ao original. Quanto ao conteúdo da obra, Arata afirma que ela consiste de modificações que Montenegro fez de um manuscrito atribuído ao padre jesuíta Buenaventura Suarez.8

Ao destacar a prática da cópia e da apropriação de imagens de textos de outros autores, Arata cita a obra de outro jesuíta, o padre Segismund Asperger, afirmando que são bastante questionáveis as propriedades que ele atribui a determinadas plantas, e, que, se nos dermos ao “trabalho de cotejar as descrições feitas pelo padre Asperger com as que fez o irmão Montenegro, fica evidente que Asperger copiou os escritos daquele que deve ter sido seu mestre, Pedro Montenegro” (Arata, 1898, p.445), assim como Thomas Falkner, que também se teria valido de uma das inúmeras cópias do manuscrito de Pedro Montenegro que circularam pela América platina. Segundo Arata, na obra de Asperger, algumas passagens que remetem aos experimentos que o irmão Montenegro teria feito com determinadas plantas medicinais (como o araçá) são apresentadas como tendo sido realizadas por ele, que, na ocasião, tinha apenas 17 anos e ainda não havia sido enviado à América como missionário.

Ao denunciar o estado de calamidade social existente na Argentina nas últimas décadas do século XVIII e nas primeiras décadas do século XIX, decorrente tanto da falta de médicos quanto de sua péssima formação, Arata enaltece a “grande expedição botânica que deveria dar a conhecer a flora americana, mediante um estudo completo das utilidades das plantas medicinais de meio mundo”, financiada pelo rei Carlos III, a qual, segundo ele, conferiu cientificidade aos conhecimentos sistematizados pelos missionários jesuítas. Para ele, todo conhecimento de botânica médica então existente – produzido,  exclusivamente, por “empíricos” – foi “redescoberto à luz da ciência” por Azara, Demersay, Moussy, Humboldt, Bompland, Molina, Velloso e Arruda Câmara (Arata, 1898, p.187).

Tido como um dos últimos enciclopedistas por seus biógrafos, o naturalista e botânico suíço Moisés Santiago Bertoni nasceu em 15 de junho de 1857 e faleceu em 19 de setembro de 1929. Desde muito jovem, demonstrou interesse por agronomia, meteorologia, mineralogia, botânica e geografia. Por influência paterna, expandiu seus estudos também para os temas antropológicos e políticos.

Tinha apenas 17 anos quando montou seu primeiro observatório meteorológico em Lottigna, sua cidade natal. Em 1883, ainda na Suíça, lançou uma revista, Rivista Scientifica Svizzeta, que reuniu temas relacionados a ciências naturais, antropologia, sociologia, geografia, estatística e agricultura, além das observações meteorológicas que realizou. Estudou ciências jurídicas, físicas e naturais nas Universidades de Genebra e Zurique, tendo integrado “aquela plêiade de cientistas que, no século passado, veio para a América, fascinada pela novidade, pelo exotismo e pela possibilidade de realizar investigações nos extensos territórios virgens do continente” (Baratti, 2002-2003, p.45). Diferentemente, porém, de um Darwin ou de um Humboldt, Bertoni não veio à América na condição de explorador ou pesquisador, já que pretendia instalar uma colônia agrícola no Novo Mundo, o que se deu, primeiramente, na província de Misiones, Argentina (de 1884 a 1887), e, depois (de 1887 a 1929), no Paraguai,9 onde, em 1894, fundou a colônia Puerto Bertoni.10

Em uma época em que o enciclopedismo começava a ceder seu posto à especialização, Bertoni dedicou-se a estudar “desde a frequência das chuvas até os costumes dos nativos do lugar. Fez incursões na linguística, levado por seu interesse nos idiomas indígenas” (Baratti, 2002-2003, p.46). Se durante as quase quatro décadas em que viveu no meio da mata Bertoni não deixou de manter contato com a produção dos maiores centros de pesquisa científica da América Latina,11 sua maior atenção foi para as populações indígenas; em especial, para os guaranis. Postura evidenciada nesta afirmação:

Para o estudo sério da natureza – ao qual me propus – a vida em um centro populacional ou próximo dele é de pouquíssimo proveito. Ele não se dá mediante dados incoerentes obtidos em todas as partes, nem percorrendo – com pressa – campos e cruzando bosques, nem seguindo as vias fluviais ou terrestres mais frequentadas com o expresso desejo de regressar às delícias e à comodidade do lar. Não é assim que conseguimos penetrar os segredos dos seres que habitam os lugares mais remotos. A natureza, zelosamente, oculta seus segredos a quem a ela não se dedica fielmente e não a admira com toda alma (Bertoni, 1914).

O projeto de fundação de uma colônia agrícola autossustentável, com base em teorias políticas e sociais progressistas, tornou-se realidade após a concessão de 199 hectares, em uma região localizada a dez quilômetros da fronteira com Foz do Iguaçu. Nessa região do Alto Paraná, ele pôde não apenas dedicar-se às pesquisas sobre a fauna, a flora e os nativos paraguaios, mas a suas mais profundas reflexões sobre os sentidos da civilização, que, segundo Bertoni, consistia “no desenvolvimento da agricultura como base da vida material, da moral como base da vida psíquica, das artes como garantia do lazer e das relações sociais, e da liberdade e da democracia como meios de dignidade individual e coletiva” (Baratti, 2002-2003, p.47).

Foi em Puerto Bertoni que ele escreveu seus mais de quinhentos livros, redigidos em seis idiomas, entre eles o guarani, que foram divulgados por sua editora, a Ex Sylvis, além de artigos científicos remetidos a várias revistas e bibliotecas científicas. Entre seus trabalhos mais importantes estão o Almanaque Agrícola, os artigos publicados na Revista de Agronomia e nos Anales Científicos Paraguayos e a obra Descripción física, econômica y social del Paraguay, que não foi concluída. Em seus últimos anos de vida, Bertoni dedicou-se aos estudos antropológicos. Sua obra mais expressiva nesse campo de intitula La civilización guaraní (em três tomos). Neste artigo, deteremo-nos, mais especificamente, no segundo livro, La medicina guaraní, dedicado aos “jovens médicos paraguaios”, com a expectativa de “que alguns dentre eles encar[assem] estes estudos como uma dupla missão, científica e patriótica” (Bertoni, 1927, p.143).

Sabe-se que na sede dessa colônia Bertoni montou uma biblioteca com mais de dezessete mil obras,12 laboratórios experimentais, uma gráfica e uma agência de correio, por meio da qual despachava para muitos países seus trabalhos, cuja difusão e leitura garantiram-lhe convites para representar o Paraguai em vários congressos científicos internacionais, como por ocasião do 20º Congresso Internacional de Americanistas, de 1922, que ocorreu no Rio de Janeiro. Nessa ocasião, Bertoni proferiu a conferência “El futuro de la raza americana en América Latina”, na qual criticou enfaticamente o eurocentrismo e a crença de que as populações indígenas se encaminhavam para sua extinção completa. Sua principal intenção era demonstrar que os guaranis constituíam raça superior, e que sua superioridade biológica se refletia na moral, na alimentação e na medicina13 que praticavam, e, assim, desfazer a associação entre índio e selvagem, visando à reabilitação da esquecida e bela raça guarani.

Na atualidade, suas teses podem nos soar ingênuas e demasiadamente ideológicas, mas o estudo antropológico que realizou acabou assumindo importância para a história político-cultural do Paraguai inversamente proporcional a seu valor científico. Com sua obra, Bertoni contribuiu para o nascimento de uma geração cultural nacionalista-indigenista identificada com a valorização do elemento indígena, entendido como essência da identidade nacional paraguaia, o que o tornou alvo de críticas ferozes de intelectuais positivistas e liberais empenhados em “consagrar a inferioridade do índio em relação ao branco” (Bareiro Saguier, 1990, p.115).

Os historiadores paraguaios Justo Pastor Benitez e Efraim Cardozo e os antropólogos Miguel Alberto Bartolomé e Branislava Susnik caracterizam as teorias que ele defendia e os dados etnográficos que levantou como um verdadeiro “delírio etnológico” (citado em Baratti, 2002-2003, p.46). Já o antropólogo paraguaio Miguel Chase-Sardi (1990, p.95) afirma que as conclusões de Bertoni derivam, principalmente, das leituras feitas “com lentes deformantes e [a partir de] uma bibliografia impressionante”, e não de estudo de campo, pois, apesar de seus rigorosos estudos empíricos no campo das ciências naturais, “foi arrastado por um romantismo excessivo que faz com que seus estudos não tenham qualquer utilidade para a antropologia paraguaia”.

Sabe-se que, ao escrever La civilización guaraní, Bertoni reuniu e compilou informações de obras de cronistas coloniais como Jean de Lery, André Thevet, Pedro de Magalhães Gandavo, Yves D’Evreux, Fernão Cardim e Guilherme Piso, que integravam o acervo de sua biblioteca pessoal (Ramella, Ramella-Miguel, 1985). Em relação ao médico e naturalista holandês, Bertoni deixa claro, já na página seis do capítulo I, do Livro II, que sua obra foi fundamental para o estudo que realizou sobre a medicina guarani, o que, efetivamente, se constata em vários capítulos, já que ele recorrerá a Piso para reafirmar o avançado estágio da medicina indígena.

Segundo Bertoni, um estudo comparativo entre os conhecimentos médicos europeus dos séculos XV e XVI e os dos guaranis levaria, sem dúvida, à conclusão de que os últimos estavam muito mais adiantados, pois em suas crenças, apesar da forte presença do fantástico, não havia nada comparável ao absurdo que era a fitognomonia,14 doutrina que regeu a medicina prática dos europeus durante séculos, sendo difundida pelo ocultista e botânico renascentista Paracelso, pelo filósofo natural e astrônomo italiano Juan Bautista Porta e pelo astrólogo e astrônomo espanhol Jerónimo Cortés Valenciano.

As referências que Bertoni faz aos jesuítas ao longo da obra atribuem-lhes prudência e acerto por terem adotado – dos guaranis – muitos de suas medidas profiláticas, de seus procedimentos terapêuticos e, sobretudo, de seus conhecimentos sobre as propriedades curativas de plantas nativas. Para o botânico suíço, os guaranis aportaram notáveis conhecimentos à medi- cina europeia praticada pelos missionários jesuítas e, especialmente, ao conhecimento das plantas medicinais, o que significava dizer que os padres observaram e aprenderam com os indígenas:

A crença de que o conhecimento das plantas medicinais se deve principalmente aos padres jesuítas é bastante generalizada …, no entanto, é inexata. Não há dúvidas de que os jesuítas fizeram muito, mas foi no sentido de recolher informações dos índios – submetendo-as à comprovação através do experimentalismo – e de transmiti-las. Antes deles, no Paraguai, o célebre padre Bolaños havia dedicado uma pequena parte de sua incansável atividade a tais preocupações. Mais tarde, o padre Buenaventura Suarez escreveu a melhor resenha de plantas medicinais dessas regiões; mas, além dos índios, sua melhor fonte de informações foi a obra de Guillermo Piso. Os padres jesuítas Segismund Asperger e Pedro Montenegro também merecem ser referidos por seu importante aporte. O padre Lozano transmitiu numerosos dados. Outros, como Montoya, Del Techo e Restivo, descuidaram desse assunto. Mas, em todo caso, a fonte de informação consistiu dos índios guaranis ou de Guillermo Piso, que também teve acesso a eles devido ao contato com guaranis do Brasil, chegando a afirmar que as propriedades curativas de plantas medicinais nativas haviam sido descobertas pelos próprios indígenas, e não por europeus, leigos ou religiosos (Bertoni, 1927, p.150-151).

O próximo texto que analisaremos é de autoria do padre jesuíta Carlos Leonhardt, que, assim como os padres Pablo Hernández e Guillermo Furlong, atuou como historiador da Companhia de Jesus.15 Nas primeiras décadas do século XX, dedicou-se à tarefa de editar o corpus documental das Cartas ânuas da província jesuítica do Paraguay, que abarca o extenso período que vai de 1609 até 1762. Juntamente com o reconhecido historiador Emilio Ravignani, publicou as primeiras cartas ânuas entre 1927 e 1929, em dois volumes denominados Cartas ânuas de la província jesuítica del Paraguay de la Compañía de Jesús, na Colección de Documentos para la Historia Argentina, mais precisamente os tomos XIX e XX, editados pelo Instituto de Investigaciones Históricas de la Facultad de Filosofía y Letras, da Universidade de Buenos Aires.16

Em “Los jesuítas y la medicina en el rio de la Plata”, publicado em 1937, Leonhardt afirma que os jesuítas se dedicaram às “artes de curar”, apesar das proibições impostas, já que “em indulto apostólico” não deveriam exercer a medicina e nem a cirurgia. Sua atuação esteve associada à necessidade – “à penúria médica” – decorrente da inexistência de médicos e de remédios, apontada como “as especiais circunstâncias que exigiam a prática médica” (p.103), e da prática da caridade cristã, que visava à edificação e, portanto, os “forçava moralmente … a socorrer os necessitados” (p.105). Leonhardt (1937, p.103-105) ressalta que a autorização expedida pelo papa Gregório XIII, em 1576, especificava que os missionários deveriam atender excepcionalmente, isto é, “quando exigia a caridade ou a necessidade”. Empenhado em justificar a atuação dos membros da Companhia de Jesus, Leonhardt dedicou-se a descrever o lamentável estado sanitário que reinava nos países rio-platenses e as péssimas condições sanitárias das cidades fundadas pelos espanhóis, a partir da consulta a documentos conservados em arquivos públicos e privados ou publicados em obras de historiadores.

O jesuíta Leonhardt (1937, p.106-107) faz também questão de destacar que as boticas mantidas pelos jesuítas “obtiveram grande aceitação … goza[ndo] cada vez mais da procura de populares, por sua boa administração e pela prática de experimentados irmãos boticários”. Ressalta, ainda, que a venda de “remédios excedentes” “não é feita para auferir lucros … e que o pagamento se dá também por gratidão”, já que as boticas são procuradas por quem “tem confiança em nossa religiosidade, experiência e desinteresse” (p.107). Ele não descuida também de ressaltar a formação dos médicos e boticários jesuítas, que “eram homens bem preparados para seu ofício e geralmente reconhecidos por seus contemporâneos e também pelos historiadores modernos” (p.112).

Em relação a esse ponto, Leonhardt (1937, p.117-118) ressalta que mesmo os desafetos da Companhia de Jesus não deixaram de reconhecer “o preparo teórico e a atividade prática dos jesuítas nessa matéria … mesmo não conseguindo identificar qual o verdadeiro segredo de seu sucesso nesse ramo”. Isso, no entanto, não o impede de tecer duras críticas a todos os autores que vincularam o exercício dessas atividades a “motivos egoístas, de ambição e avareza”, afirmando não existirem evidências históricas para “semelhante severo veredicto” e para “uma intenção tão indigna de religiosos”, que não apenas “praticaram a caridade cristã, [como] perderam sua vida servindo e atendendo os doentes” (p.117-118). Para o historiador jesuíta, as situações vividas e registradas por padres e irmãos que atuaram como médicos, enfermeiros e boticários se assemelham a “casos de heroísmo, bastante frequentes entre os primeiros jesuítas do Paraguai”, que puseram em prática a “parábola evangélica do bom samaritano” (p.118).

Na continuidade, analisamos a obra publicada em 1947 pelo padre jesuíta Guillermo Furlong, insigne e prolífico historiador da Companhia de Jesus. Furlong nasceu em 21 de junho de 1889, na província de Santa Fé, Argentina, e faleceu em 20 de maio de 1974, aos 86 anos de idade. Iniciou sua formação como jesuíta em Córdoba, Argentina, depois em Aragão, Espanha, doutorando-se em ciências e filosofia na Universidade de Georgetown, em Washington D.C., em 1913.

Em 1920, regressou à Espanha, para cursar – durante quatro anos – teologia, em Barcelona. Nesse período, realizou pesquisas no Archivo de Índias, em Sevilha, e em outros arquivos espanhóis. Em 1924, regressou à Argentina, assumindo funções de professor de história argentina, apologética e instrução cívica no Colégio del Salvador. Em 1939, ingressou como membro na Academia Nacional de História; em 1942, foi um dos fundadores da Junta de Historia Eclesiástica Argentina, e, em 1956, esteve à frente da fundação da Academia Nacional de Geografia.

Segundo seus biógrafos, além de ter comprovado a influência exercida pelo iluminismo nas bases ideológicas da Revolução de Maio – mediante existência de obras que difundiam as novas ideias nas bibliotecas do rio da Prata –, dedicou-se a deixar evidenciada a influência que os jesuítas, homens de formação séria e de grande cultura, exerceram no desenvolvimento das ciências e da filosofia na América platina. Outros estudiosos de sua obra afirmam que seu maior mérito foi ter descoberto manuscritos e recuperado edições de livros já esgotados, que teriam contribuído decisivamente para a análise crítica que realizou da visão de uma infecunda escolástica largamente difundida na época em que divulgou seus trabalhos.

Essa percepção, aliás, fica bem evidente na obra Médicos argentinos durante la dominación hispánica; em especial, nas críticas que faz ao texto produzido pelo doutor Felipe Barreda Laos, que precede a obra Materia médica misionera, do irmão Pedro Montenegro, editado pela Biblioteca Nacional de Buenos Aires em 1945. Furlong (1947, p.68-71) qualifica o texto como “paupérrima e descentrada notícia”, acusando seu autor de “menosprezar a ciência médica colonial … vincul[ando-a] à cultura escolástica impregnada de aristotelismo” e, assim, não reconhecer o espírito de modernidade presente na obra do jesuíta Montenegro. Furlong desfere suas críticas a todos os pesquisadores que “tão desdenhosamente” têm tratado o assunto com “preocupações nada científicas”, manifestando-se “depreciativamente sobre a Escolástica” (p.70). Estes, segundo ele, “não apenas não são capazes de entender”, como percebem o passado como “o império do obscurantismo monacal” (p.71).

Para o autor, antes mesmo dos médicos fundadores da Escola de Medicina de Buenos Aires, os missionários jesuítas – que atuaram como médicos, cirurgiões, físicos, boticários e naturalistas – deveriam ter seus estudos reconhecidos, pois “trabalharam com dedicação e, ao mesmo tempo, com singular modéstia, na assistência aos enfermos e ao estudo da nossa flora medicinal, aportando valiosos dados, referidos pelos autores que se têm ocupado desses temas” (Furlong, 1947, p.72). Os jesuítas Suárez, Asperger, Montenegro e Falkner estão, segundo ele, à espera dessa condecoração, e merecem “ter reconhecida essa dívida pelas novas gerações” (p.72).

Furlong (1947, p.73) também adverte que “somente quando forem publicados os diversos códices de medicina missioneira que ainda permanecem inéditos se poderá avaliar o quanto seus autores foram – ou não – originais”. Para ele, assim como para o historiador Felix Garzón Maceda (1916), a obra Materia médica misionera, do irmão Pedro Montenegro, foi, sem dúvida, o manuscrito mais completo que circulou na região platina no século XVIII, “apresenta[ndo] muito de original, não se constituindo em simples cópia de trabalhos de autores doutos” (Furlong, 1947, p.74). Assim como Leonhardt, Furlong (1947, p.197-198) destaca também o trabalho realizado pelos irmãos boticários Heinrich Peschke e José Hennig e pelo padre Tomás Falkner, afirmando que

Cabe, sem dúvida, aos jesuítas, a glória de haver sido os que mais estudaram a botânica rio-platense e os que mais aproveitaram as propriedades médicas de nossas plantas. Sempre e em todos os países mostraram os jesuítas grande inclinação ao estudo da história natural, mas em nenhuma região se dedicaram com maior afinco e êxito do que nas virgens terras americanas. Tantas espécies novas, tantos gêneros inteiramente desconhecidos no e do Velho Mundo, tantos exemplares raríssimos, tantas novidades …, tanto no campo da botânica quanto no da zoologia, não podiam deixar de entusiasmar os jesuítas que atuaram nessas regiões do rio da Prata. Com toda razão disse [o botânico norte-americano] E. Y. [Elmer Yale] Dawson que a história natural no rio da Prata tinha contraído uma dívida de gratidão com a Companhia de Jesus.

Como se pode constatar, esses padres e irmãos jesuítas, apresentados por Leonhardt e por Furlong, tiveram ressaltados seu ardor apostólico e suas virtudes – a caridade e a singular modéstia –, enquanto sua capacidade de observação e seu empenho na aquisição de conhecimentos relativos à medicina e à farmacopeia americana são apresentados como decorrência dessa conduta exemplar e, especialmente, da observância das orientações da própria Companhia de Jesus.

A reconstituição das trajetórias de vida de padres e irmãos jesuítas que atuaram nas artes de curar empreendida por esses dois historiadores jesuítas esteve, sem dúvida, condicionada à valorização de um modelo de missionário – caridoso e abnegado – que a Ordem honra, celebra e guarda, desde sua criação no século XVI,17 mas também esteve – inegavelmente – associada à posição que a Companhia de Jesus assumiria diante de uma historiografia antijesuítica, empenhada em vinculá-la à obstrução “do pensamento científico nos países e regiões de colonização ibérica” (Kantor, 2010, p.295).

Considerações finais

Desde que chegaram à América, os jesuítas produziram documentos a respeito de suas atividades de missionação. Teceram, nas cartas que enviavam a seus superiores em Roma, relatos minuciosos sobre os avanços, os recuos e os problemas enfrentados no contato com os indígenas e com sua conversão ao cristianismo. Produziram, ainda, obras de caráter descritivo sobre a nova terra, seus habitantes e também sobre a natureza americana.

Apesar da significativa produção dos membros da Companhia de Jesus a respeito da natureza e dos costumes das gentes do Novo Mundo, poucos foram os historiadores que se dedicaram a analisá-la levando em conta seu papel na história intelectual do Renascimento e dos inícios da era moderna. A maior parte da produção historiográfica acerca da ordem jesuíta debruça-se sobre as estratégias de catequese que os missionários empregaram com as populações indígenas, dedicando-se, primordialmente, à análise de sua atuação como religiosos, desvinculando-os de qualquer atividade ou elaboração científica.

Neste artigo nos propusemos a identificar, a partir da análise das obras do médico argentino Pedro Arata, do naturalista e botânico suíço Moisés Santiago Bertoni e dos padres Carlos Leonhardt e Guillermo Furlong, as posições que esses autores assumiram em relação ao papel que a Companhia de Jesus desempenhou na introdução e no desenvolvimento das ciências na América platina, refletindo, ainda, sobre as ênfases que deram e as motivações que tiveram para a retomada – em termos historiográficos – da temática.

Escritas entre a última década do século XIX e o final da primeira metade do século XX, as obras dos leigos Arata e Bertoni e dos religiosos Leonhardt e Furlong constituem referência para essa discussão, uma vez que não apenas se propõem a analisar o conhecimento médico, farmacêutico e botânico produzido pelos missionários jesuítas nos séculos XVII-XVIII, como se inserem no esforço de compreensão e avaliação da efetiva contribuição da Companhia de Jesus para o pensamento científico nos países de colonização ibérica.

Se Arata e Bertoni tiveram motivações distintas para questionar a originalidade do pensamento e da prática científica dos missionários jesuítas, Leonhardt e Furlong reconstituíram e justificaram de forma diversa a atuação da ordem na América platina, atribuindo também diferentes razões para que padres e irmãos se dedicassem a ciências como a medicina e a botânica. Enquanto Arata e Leonhardt registraram sua convicção de que os jesuítas não atuaram como homens de ciência, mas primordialmente como missionários que, empenhados no atendimento espiritual e na prática da caridade, realizaram experimentos com plantas medicinais, Bertoni e Furlong se distanciam significativamente em suas posições acerca do papel desempenhado pela Companhia de Jesus para a cultura científica platina. O botânico suíço, apesar de reconhecer o papel desempenhado por alguns irmãos e padres jesuítas, com destaque para Montenegro e Asperger, creditará os avanços médicos e botânicos que a ordem viria a aplicar e divulgar mediante receituários e “matérias médicas” essencialmente aos indígenas guaranis e ao conhecimento já sistematizado por médicos e naturalistas europeus. Furlong, por sua vez, empenhado em contestar a tese de uma “infecunda Escolástica”, procurou evidenciar a influência que os jesuítas exerceram no desenvolvimento das ciências e da filosofia, associando-os à difusão do pensamento científico ilustrado e à renovação do cenário intelectual do século XVIII na América platina.

Se, por um lado, Leonhardt e Furlong convergem em suas posições, ao defender que a experimentação com plantas medicinais e a produção científica jesuítica estiveram a serviço do projeto religioso da Companhia de Jesus, por outro, as posições assumidas por Furlong parecem confirmar certa reorientação da prática historiográfica da ordem jesuítica ao final da primeira metade do século XX. Suplantando a visão da “profunda vocação missionária”, as obras de Furlong apresentam a Companhia de Jesus como fundamental para o estudo e a compreensão da história e da cultura do período colonial americano, não somente por ter desenvolvido “um projeto científico próprio”,18 mas por ter contribuído significativamente para os estudos das humanidades e das ciências realizados nos séculos seguintes.

Como se pode constatar, as posições assumidas por Arata, Bertoni, Leonhardt e Furlong na última década do século XIX e na primeira metade do século XX anteciparam as mais recentes reflexões, tanto sobre as inovações introduzidas pela ordem jesuíta no campo da ciência moderna desde o século XVII quanto sobre a contribuição que os indígenas – em especial, os saberes que possuíam sobre a farmacopeia americana – aportaram para o conhecimento médico, farmacêutico e botânico que os missionários da Companhia de Jesus fizeram circular nos continentes em que atuaram.

Refletindo sobre a “dívida de gratidão” para com a Companhia de Jesus – como proposto por Guillermo Furlong – e tendo em vista os estudos científicos que os jesuítas realizaram, sobretudo no campo da medicina, da farmácia e da botânica, Heloísa M. Gesteira (2006, p.1) constatou, referindo-se à produção historiográfica que aborda a atuação dos membros da ordem na América portuguesa, que

Mesmo quando se reconhece a ação dos missionários jesuítas … normalmente sublinha-se o fato deles terem se ‘apropriado’ das práticas indígenas; outras vezes, [são] valoriza[das] apenas iniciativas isoladas, como por exemplo, a triaga brasílica, fórmula que rendeu lucros ao Colégio de Salvador. Finalmente, os serviços médicos realizados nas aldeias e nas cidades são considerados como manifestação da caridade cristã.

Contestando essa visão bastante difundida, a historiadora propõe a valorização do “esforço de coleta e sistematização do conhecimento médico”, evidenciado nos “estudos sobre as virtudes das plantas e animais” que os jesuítas realizaram com base em “referenciais da História Natural e da Medicina hipocrática” (Gesteira, 2006, p.1). Essa é também a percepção de María Silvia Di Liscia (2002, p.43), para quem “o interesse por conhecer e sistematizar a flora e a fauna americana fez parte de um amplo processo de desenvolvimento da ciência ocidental, que pode ser observado tanto entre os religiosos quanto entre os viajantes europeus que percorreram o Rio da Prata ao final do século XVIII”. De acordo com essa autora, à admiração dos jesuítas pela flora americana se associava certa inquietação, posto que era preciso “aprender a reconhecer as plantas no campo, conhecer as suas propriedades ... recolhê-las, cultivá-las, separar as folhas das sementes e raízes, estudar os unguentos e as pomadas. Um processo complexo, que requeria ensaio e erro e um saber baseado na experiência e na razão, na prática e na teoria” (Di Liscia, 2002, p.35).

Também os investigadores Sabine Anagnostou e Fabian Fechner (2011, p.175) afirmam que “a história natural e a farmácia missioneira podem ser consideradas as duas facetas principais do naturalismo jesuítico na América do Sul”, uma vez que os jesuítas se dedicaram a “observar e descrever a natureza americana de maneira profunda e erudita”. Os autores ressaltam que as histórias naturais e a farmácia missioneira não devem ser percebidas como “precursoras deficientes das ciências atuais ou como cópias insuficientes dos modelos europeus, mas como formas independentes e singulares da história da ciência” (p.175). Essa singularidade fica evidenciada na “experimentação e na incorporação do saber etnofarmacêutico indígena”, que se origina na “posição relativamente imparcial e aberta dos jesuítas frente aos indígenas, baseada na espiritualidade inaciana”, que possibilitou “um intercâmbio intenso e persistente no campo da medicina” (p.190). Encarregados também das cópias de cartilhas com orientações para evitar o contágio, de fórmulas de medicamentos, recolhidas diligentemente em receituários, e de obras de botânica, medicina e cirurgia, muitos desses indígenas copistas tornaram possível a troca e a disseminação de uma série de saberes e práticas de cura entre as distintas e distantes terras de missão da Companhia de Jesus.19

Como se pode constatar, as abordagens historiográficas presentes nos estudos recentes que destacamos apontam para a conjugação da premissa de que os jesuítas promoveram consideráveis avanços científicos, a partir de sua atuação nas terras de missão americanas, como aquela que destaca a indiscutível contribuição dos indígenas para esse conhecimento científico difundido “através das redes de agentes da Companhia ... de informes e de cartas ... que satisfaziam a curiosidade de professores e estudantes nos colégios jesuítas das cidades mais importantes da Europa” (Millones Figueroa, 2005, p.28). As posições assumidas por Bertoni e Furlong, em suas obras publicadas na primeira metade do século XX, parecem ter efetivamente instigado os historiadores a refletir sobre o papel que indígenas e missionários desempenharam na conformação de uma cultura científica na América platina.

REFERÊNCIAS

ALFONSO-GOLDFARB, Ana Maria; BELTRAN, Maria Helena R. (Org.). Escrevendo a história da ciência: tendências, propostas e discussões historiográficas. São Paulo: Educ; Livraria Editora da Física; Fapesp. 2004.
ALFONSO-GOLDFARB, Ana Maria; FERRAZ, Márcia H.M. Raízes históricas da difícil equação institucional da ciência no Brasil. São Paulo em Perspectiva, v.16, n.3, p.3-14. 2002.
ALFONSO-GOLDFARB, Ana Maria; MAIA, Carlos. A. História da ciência: o mapa do conhecimento. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura. 1996.
ANAGNOSTOU, Sabine; FECHNER, Fabian. História natural y farmácia misionera entre los jesuítas en el Paraguay. In: Wilde, Guillermo (Ed.). Saberes de la conversión: jesuítas, indígenas e imperios coloniales en las fronteras de la cristiandad. Buenos Aires: SB. p.175-190. 2011.
ARATA, Pedro. Botánica médica argentina: los herbarios de las Misiones del Paraguay. La Biblioteca, año 2, t.7, p.432-443. 1898.
ASÚA, Miguel de. La ciencia de Mayo: la cultura científica en el río de la Plata, 1800-1820. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica. 2010a.
ASÚA, Miguel de. Las ciencias durante el período de la Independencia. In: Marzoca, Ángel et al. En torno a 1810. Buenos Aires: Abeledo Perrot. p.29-60. 2010b.
ASÚA, Miguel de. Una gloria silenciosa: dos siglos de ciencia en Argentina. Buenos Aires: Libros del Zorzal. 2010c.
BARAN, Enrique J. Las ciencias exactas y naturales. In: Marzocca, Ángel et al. En torno a 1810. Buenos Aires: Abeledo Perrot. p.81-118. 2010.
BARATTI, Danilo. Moisés Santiago Bertoni y la generación nacionalista-indigenista paraguaya. Bulletin Société Suisse des Américanistes, n.66-67, p.41-47. 2002-2003.
BAREIRO SAGUIER, Rubén. De nuestras lenguas y otros discursos. Asunción: Biblioteca de Estudios Paraguayos. 1990.
BELTRAN, Maria Helena Roxo. Imagens de magia e de ciência: entre o simbolismo e os diagramas da razão. São Paulo: Educ; Fapesp. 2000.
BERTONI, Moisés Santiago. La civilización guaraní. Tomo 3 [Etnografia: Conocimientos. La higiene guaraní su importancia científica y práctica. La Medicina Guarani. Conocimientos Científicos]. Alto Paraná: Ex Sylvis. 1927.
BERTONI, Moisés Santiago. Relación sucinta de un viaje de estudios al Brasil, en ocasión del Congreso Internacional de los Americanistas, del Centenário de la Independencia del Brasil y de la Exposición Universal. Anales Científicos Paraguayos, t.3, n.2. p.1-134. 1924.
BERTONI, Moisés Santiago. Resumen de prehistoria y protohistoria de los países guaraníes: conferencias dadas en el Colegio Nacional de Segunda Enseñanza de la Asunción los dias 26 de julio, 8 y 21 de agosto de 1913. Editor Juan E. O’Leary. Asunción: s.n. 1914.
CAMENIETZKI, Carlos Ziller. La ciencia barroca del padre Kircher. Artes de Mexico, v.82, p.28-31. 2007.
CAMENIETZKI, Carlos Ziller. Perscrutar os céus ad majorem Dei gloriam: a astronomia dos jesuítas de Salvador. Magis Cadernos de Fé e Cultura, v.2, p.101-119. 2002.
CAMENIETZKI, Carlos Ziller. Dissimulações honestas e cultura científica na idade barroca. Sigila, v.8, p.81-91. jan. 2001.
CAMENIETZKI, Carlos Ziller. A cruz e a luneta. Rio de Janeiro: Access. 2000.
CAMENIETZKI, Carlos Ziller. O cometa, o pregador e o cientista: Antonio Vieira e Valentin Stansel observam o céu da Bahia no século XVII. Revista da Sociedade Brasileira de História da Ciência, v.14, p.37-52. jul.-dez. 1995.
CAÑIZARES ESGUERRA, Jorge. Como escribir la historia del Nuevo Mundo: historiografias, epistemologías e identidades en el mundo del Atlántico del siglo XVIII. México: Fondo de Cultura Económica. 2007.
CAROLINO, Luís Miguel Nunes. A ciência e os topoi retóricos em Antonio Vieira: um caso de difusão cultural em Portugal e no Brasil durante o século XVII. Revista da Sociedade Brasileira de História da Ciência, v.18, p.55-72. 1997.
CAROLINO, Luís Miguel Nunes; CAMENIETZKI, Carlos Ziller (Org.). Jesuítas, ensino e ciência: séculos XVI-XVIII. Casal de Cambra: Caleidoscópio. 2005.
CHASE-SARDI, Miguel. El derecho consuetudinário indígena y su bibliografía antropológica en el Paraguay. Asunción: Ceaduc. 1990.
DEL VALLE, Ivonne. Escribiendo desde los márgenes: colonialismo y jesuítas en el siglo XVIII. México: Siglo XXI. 2009.
DIAS, Maria Odila Leite da Silva. Aspectos da ilustração no Brasil. Revista do IHGB, n.278, p.105-170, jan.-mar. 1968.
DI LISCIA, María Silvia. Saberes, terapias y prácticas médicas en Argentina (1750-1910). Madrid: Consejo Superior de Investigaciones Científicas. Instituto de História. 2002.
DOMINGUES, Beatriz Helena. Tão longe, tão perto: a ibero-América e a Europa ilustrada. Rio de Janeiro: Museu da República. 2007.
FERRAZ, Márcia Helena Mendes. As ciências em Portugal e no Brasil (1772-1822): o texto conflituoso da química. São Paulo: Editora da PUC-SP. 1997.
FERRAZ, Márcia H.M.; FIGUERÔA, Silvia F. de M. Ciência e ilustração na América: a historiografia brasileira da ciência colonial. In: Arango, Diana et al. La Ilustración en América Colonial. Madrid: Doce Calles; CSIC. p.201-223. 1995.
FIGUEIRÔA, Silvia Fernanda de Mendonça. História e filosofia das geociências: relevância para o ensino e formação profissional. Terrae Didatica, v.5, n.1, p.63-71. 2009.
FIGUEIRÔA, Silvia Fernanda de Mendonça. A propósito dos estudos biográficos na história das ciências e das tecnologias. Fênix, v.4, n.3, p.13. 2007.
FIGUEIRÔA, Silvia Fernanda de Mendonça; DANTES, Maria Amélia M; LOPES, Maria Margaret. Sciences in Brazil: an overview from 1870-1920. Boston Studies in the Philosophy of Science, v.290, p.95-106. 2011.
FLECK, Eliane Cristina Deckmann; POLETTO, Roberto. Circulação e produção de saberes e práticas científicas na América meridional no século XVIII: uma análise do manuscrito Materia Médica Misionera de Pedro de Montenegro (1710). História, Ciências, Saúde − Manguinhos, v.19, n.4, p.1121-1138. 2012a.
FLECK, Eliane Cristina Deckmann; POLETTO, Roberto. “Esto es lo que yo buscaba … el conocimiento de las yerbas, y su aplicación”: sistematização e difusão dos conhecimentos sobre virtudes de plantas medicinais (América meridional, séculos XVII e XVIII). Anos 90, v.19, n.35, p.411-436. 2012b.
FURLONG, Guillermo. História social y cultural del Rio de la Plata (1563-1810). Buenos Aires: Tipográfica Editora Argentina, 1969.
FURLONG, Guillermo. Pedro Lozano y sus observaciones a Vargas. Buenos Aires: Librería del Plata. 1959.
FURLONG, Guillermo. Médicos argentinos durante la dominación hispánica. Buenos Aires: Huarpes. 1947.
FURLONG, Guillermo. Los jesuitas y la cultura rioplatense. Montevideo: Urta y Curbelo. 1933.
GARCÍA, Roberto et al. La farmácia durante el período colonial y en los primeros años de vida independiente. In: Marzocca, Ángel et al. En torno a 1810. Buenos Aires: Abeledo Perrot. p.231-250. 2010.
GARZÓN MACEDA, Felix. La medicina en Córdoba: apuntes para su historia. Tomos 1-3. Buenos Aires: Talleres Gráficos Rodrígues Giles. 1916.
GESTEIRA, Heloísa Meireles. Instrumentos matemáticos e a construção do território: a missão de Diogo Soares e Domingos Capassi ao Brasil (1720-1750). In: Gesteira, Heloísa Meireles; Kury, Lorelai (Org.). Ensaios de história das ciências no Brasil: das Luzes à nação independente. Rio de Janeiro: Eduerj. p.207-224. 2012.
GESTEIRA, Heloísa Meireles. Manuscritos médicos e circulação de ideias nas missões jesuíticas na América. In: Encontro Internacional da Associação Nacional de Pesquisadores e Professores de História das Américas, 7., 2006. Anais Eletrônicos. S.l.: s.n. p.1-8. 2006.
GESTEIRA, Heloísa Meireles; TEIXEIRA, Alessandra dos Santos. As fazendas jesuíticas em Campos dos Goitacazes: práticas médicas e circulação de ideias no Império português (séculos XVI ao XVIII). Clio Revista de Pesquisa Histórica, v.27, n.2, p.132-134. 2009.
KANTOR, Iris. A ciência no império português e espanhol. História da Historiografia, n.4, p.294-298. mar. 2010.
KUHN, Thomas S. Estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva. 1978.
LEONHARDT, Carlos. Los jesuítas y la medicina en el Rio de la Plata. Estudios, v.57, p.101-118. 1937.
LÉRTORA, Celina. La ilustración americana em la historiografía argentina. In: Arango, Diana Soto et al. La ilustración en América colonial. Madrid: Ediciones Doce Calles; CSIC. p.121-140. 1995.
MARTÍ, Manuel Luis. La medicina. In: Marzocca, Ángel et al. En torno a 1810. Buenos Aires: Abeledo Perrot. p.327-356. 2010.
MILLONES FIGUEROA, Luis. La intelligentsia jesuita y la naturaleza. In: Millones Figueroa, Luis; Ledezma, Domingo (Ed.). El saber de los jesuitas, historias naturales y el Nuevo Mundo. Madrid: Iberoamericana. p.27-51. 2005.
MONTENEGRO, Pedro. Materia médica misionera. Buenos Aires: Edición de la Biblioteca Nacional de Buenos Aires. 1945.
OLIVEIRA, Paulo Rogério Melo de. Um estilo jesuítico de escrita da história: notas sobre estilo e história na historiografia jesuítica. História da Historiografia, n.7, p.266-278. nov.-dez. 2011.
RAMELLA, Lorenzo; RAMELLA-MIGUEL, Yeni. Bibliografía de Moisés Santiago Bertoni. Saint Louis: Missouri Botanical Garden. 1985.
SALDAÑA, Juan José. Ilustración, ciência y técnica en América. In: Arango, Diana et al. La Ilustración en América colonial. Madrid: Ediciones Doce Calles; CSIC. p.19-54. 1995.
SCHWARTZMAN, Simon. Formação da comunidade científica no Brasil. São Paulo: Editora Nacional; Rio de Janeiro: Finep. 1979.
SILVA, Clarete Paranhos da et al. Subsídios para o uso da História das Ciências no ensino: exemplos extraídos das geociências. Ciência e Educação, v.14, n.3, p.497-517. 2008.
SILVA, Maria Beatriz Nizza da. A cultura. In: Serrão, J.; Marques, A.H. O Império luso-brasileiro, 1750-1822. Lisboa: Estampa. p.445-498. 1986.
STORNI, Hugo. Catálogo de los jesuitas de la Provincia del Paraguay (1875-1768). Roma: Institutum Historicum S.I. 1980.
Política de Privacidade. © Copyright, Todos os direitos reservados.