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A ciência como verdade momentânea

A ciência como verdade momentânea

Autores:

Leonardo Silva

ARTIGO ORIGINAL

Brazilian Journal of Otorhinolaryngology

versão impressa ISSN 1808-8694versão On-line ISSN 1808-8686

Braz. j. otorhinolaryngol. vol.84 no.1 São Paulo jan./fev. 2018

http://dx.doi.org/10.1016/j.bjorl.2017.09.006

Recente editorial do BJORL toca em um ponto sensível relacionado à educação médica continuada (EMC) nos dias de hoje.1 Como podemos conciliar o tempo cada vez mais escasso com a atualização médica? A produção científica volumosa, facilmente acessível e por vezes contraditória tem tornado a EMC um assunto polêmico em todo o mundo. O que estudar, como estudar e de que forma? Qual a melhor base de dados? Onde se encontra o melhor estudo? Onde encontrar a resposta certa para determinada dúvida? Como separar artigos científicos de alta qualidade de publicações medianas?

Vale lembrar que a partir de uma dúvida apenas o método científico tem o poder de conduzir o pesquisador com segurança na busca da resposta adequada. Compreender esse ponto é fundamental para que se distancie a ciência da crença, nada mais comprometedor para qualquer estudo.

Indiscutivelmente um dos maiores avanços proporcionados à organização e difusão do conhecimento médico foi o advento da medicina baseada em evidência (MBE).2 Centros de MBE em todo o mundo, entre eles o de McMaster, no Canadá, e o de Oxford, na Inglaterra, se dedicam a desenvolver ferramentas que oferecem ao médico de forma sintética e simples produções científicas com qualificação hierarquizada, permitem acesso rápido a informações relevantes e de baixo custo. Entre essas ferramentas estão as revisões sistemáticas com metanálise.

Ao acessar fontes secundárias de qualidade nos debruçamos diretamente sobre o que realmente interessa, pois a separação do joio e do trigo já foi feita. Isso não significa que estudos com nível de evidencia superior devam escapar ao crivo atento e crítico do leitor.

Críticas à MBE existem e são muitas. A ciência e a verdade, contudo, não podem ser consideradas estáticas e imutáveis e obviamente esbarram nos limites epistemológicos próprios da fase em que a evolução do conhecimento humano se encontra. Assim, podemos afirmar como exemplo que até mesmo metanálises produzidas no século XVI que atestavam o geocentrismo estavam corretas. Evidentemente que não se deve confundir a ferramenta com a obra acabada. A "verdade científica" daquele momento era desvendada pelo substrato que os dados sustentavam à época, como uma foto. Negar isso seria negar a própria evolução do conhecimento humano.

Ao compreender, valorizar e difundir a MBE, contribuíram para a eficiência dos serviços de saúde, que, em última análise, dependem diretamente da produção, transmissão e aplicação do conhecimento de qualidade.

REFERÊNCIAS

1 Ribeiro FA. The meta-analysis. Braz J Otorhinolaryngol. 2017;83:497.
2 Richardson PE. David Sackett and the birth of Evidence Based Medicine. How to practice and teach EBM. BMJ. 2015;350:h3089.