A constituição global da nação brasileira: questões de imigração nos anos 1930 e 1940

A constituição global da nação brasileira: questões de imigração nos anos 1930 e 1940

Autores:

Frederik Schulze

ARTIGO ORIGINAL

História, Ciências, Saúde-Manguinhos

versão impressa ISSN 0104-5970

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.21 no.1 Rio de Janeiro jan./mar. 2014 Epub 25-Out-2013

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702013005000014

ABSTRACT

This article shows that the concept of nation and nationalist interpretations were at the heart of discourses about immigration in Brazil in the 1930s and 40s. These national references cannot, however, be comprehended unless they are seen from a global perspective. The historical actors were engaged in scientific debates that were circulating around the globe, and they were also aware of the international nature of the subject. I intend to demonstrate these hypotheses with the help of two examples: the sociology of migration in Brazil, and the discourses of German-speaking immigrants to Brazil.

Key words: immigration; globalization; global history; nation; Brazil

À primeira vista, migrações são obviamente um exemplo clássico para os processos globais de interação entre as várias regiões do mundo, os quais se intensificaram principalmente a partir do século XIX. Parece evidente que migrações foram e são parte do processo que chamamos de globalização e cujo primeiro auge ocorreu no final do século XIX, segundo historiadores da globalização como Roland Robertson ( 1992, p.59). Esse processo foi caracterizado pelo aumento do comércio mundial, pela formação da mass-media, pelos novos meios de comunicação e de transporte, pela circulação de ideias políticas, científicas e culturais, por nova cultura cotidiana e, sobretudo, pelo imperialismo europeu. Nos últimos anos, a historiografia ocidental e também asiática, sob o nome da global historye da história da globalização, analisou esses entrelaçamentos globais e interpretou ‘globalização’ como processo heterogêneo e fragmentado ( Geyer, Bright, 1995; Stuchtey, Fuchs, 2003; Manning, 2003; Mazlish, Iriye, 2005; Conrad, Eckert, 2007). Nesse contexto, integrantes da historiografia de migração também exigiram perspectivas globais (Lucassen, Lucassen, Manning, 2010), enquanto o foco dessa área de pesquisa até os anos 1980 foi nas histórias econômica e social. Cultures in contact, do historiador norte-americano Dirk Hoerder ( 2002), e várias coletâneas tentaram aplicar o novo programa e elaboraram panoramas globais ou analisaram correntes globais de mercadorias e pessoas ( Hoerder, Moch, 1996; Gungwu, 1997; Kraler et al., 2007; Lucassen, Lucassen, Manning, 2010). Em um segundo momento, entretanto, devemos reconhecer que esses estudos nem sempre trazem resultados completamente novos e que uma análise histórica de migrações, transnacionais ou globais per se, já existe há mais tempo do que a ênfase historiográfica em perspectivas globais. Então a pergunta é: para que precisamos de uma nova perspectiva global na história da imigração? Será que o assunto ‘migrações’ é pelo contrário um bom exemplo para mostrar que perspectivas globais na historiografia não são tão novas e revolucionárias quanto se pretendem?

Tento mostrar neste artigo que considerar aspectos globais seguramente pode abrir novas perspectivas para a história migratória. Escolhi para isso duas perspectivas da história global: a ênfase analítica no intercâmbio intelectual e na circulação de conhecimentos devidos à técnica e à mídia, o que resultou na concentração de discursos e informações. Esse intercâmbio foi importante sobretudo na área de imigração. A segunda perspectiva é a análise da consciência de nexos globais, ou seja, de globalidade ( globality) dos atores históricos. Eles não só pensaram em categorias nacionais, mas muitas vezes voltaram sua atenção para o panorama mundial. Trato ambos os aspectos no nível discursivo e exponho, então, como os discursos sobre a imigração para o Brasil mudaram e se dinamizaram tanto pela circulação global do saber como pela consciência global nos anos 1930. Essa década constituiu período no qual tendências nacionalistas assim como autoritaristas ganharam forte influência no mundo, sendo, por isso, considerada de abrandamento da globalização ( Osterhammel, Petersson, 2005). Tendo em vista que os discursos sobre imigração nessa época tratavam da consciência nacional e nacionalista e da busca da nação, podemos falar em constituição global da nação, um novo campo de pesquisa para o qual Conrad e Eckert ( 2007) chamaram a atenção há alguns anos em sua introdução à história global, sendo Bender ( 2006) um exemplo. O foco em entrelaçamentos globais, segundo os autores, não desvaloriza a nação como categoria de análise, mas leva a maior contextualização da história nacional e pode também apresentar explicações importantes para o desenvolvimento de nações. Nesse sentido, aspectos nacionais e globais aparecem como complementares e inseparáveis nas fontes que analiso, embora elas sejam sobretudo textos nacionalistas.

Tenciono comprovar essa hipótese através de dois exemplos. Em primeiro lugar, mostro como cientistas e políticos brasileiros se pronunciaram sobre imigração durante o governo de Vargas (1930-1945). Em segundo lugar, apresento um exemplo do contexto da imigração de língua alemã no Brasil, no qual se tematiza a identidade alemã em terras brasileiras diante da conquista do poder por Hitler. Nos dois exemplos, tanto referências nacionais como globais são relevantes.

Quando Getúlio Vargas assumiu o poder em 1930, o nacionalismo brasileiro ganhou maior destaque. Para o novo governo autoritário, a nação foi o centro das atenções, antes de mais nada para superar os regionalismos da República Velha. A ‘nação brasileira’ foi construída intencionalmente pelas elites como ‘comunidade imaginária’ ( Anderson, 1983). Enquanto os políticos brasileiros descobriram no século XIX a imigração europeia como meio de melhorar e ‘civilizar’ sua nação, o governo de Vargas enfatizou a delimitação para fora, a fim de criar uma identidade brasileira homogênea.

Nesse contexto, os objetivos e a solução dos problemas relativos à imigração foram discutidos por cientistas e políticos brasileiros nos anos 1930 e principalmente 1940 com nova intensidade. Isso se evidencia na fundação do Conselho de Imigração e Colonização (CIC), em 1938, e de sua Revista de Imigração e Colonização, em 1940. Em vista do novo nacionalismo forçado por Vargas, muitos sociólogos e etnólogos dedicaram-se a estudos sobre a brasilidade e definiram qual seria a imigração desejada e útil para a nação brasileira. Muitas dessas pesquisas foram realizadas pelo próprio CIC e resultaram na criação de política e de legislação imigratórias ( Seyferth, 1999; Sales, Salles, 2002). Suas questões diziam respeito à maneira como o Brasil poderia aproveitar a imigração o máximo possível e como a assimilação dos imigrantes à sociedade brasileira poderia ser feita. Sobretudo os imigrantes alemães e japoneses foram considerados grupos que recusaram a assimilação no Brasil e por isso constituiriam um perigo para a unidade nacional ( Seyferth, 1997; Takeuchi, 2008). Eles deveriam tornar-se verdadeiros brasileiros e também perder a cultura de seu país de origem. A alteridade de imigrantes foi construída não só pelas culturas e línguas diferentes, mas também pelo conceito de ‘raça’. O racismo pseudocientífico do século XIX classificou a humanidade em várias ‘raças’ e definiu a ‘branca’ como avançada, civilizadora e melhor do que a ‘negra’ e a ‘vermelha’. Por isso, pessoas que pertenciam a essas ‘raças’, foram consideradas imigrantes indesejáveis ( Ramos, 1996; Seyferth, 1996).

Sem dúvida, essas questões já foram discutidas – o dito perigo alemão do início do século XX é um exemplo –, mas nos anos 1930 pode-se observar aporte cada vez mais científico para o qual o intercâmbio intelectual global foi essencial. O Brasil não constituiu caso especial no debate sobre nacionalidade e assimilação de imigrantes. Essas questões foram discutidas também em outros países de imigração, principalmente nos EUA, onde conflitaram a ideia de uma cidadania cívica capaz de incorporar à nação todos os imigrantes e um aporte racista que tentava excluir da nação certos grupos de imigrantes ( King, 2000; Gerstle, 2001). Depois de os EUA terem estabelecido um sistema de quotas contra imigrantes indesejáveis da Ásia e da Europa meridional no início do século XX, nasceu na Universidade de Chicago, conhecida como Escola de Chicago, nos anos 1920 a sociologia migratória ( Heisler, 2008). Hipóteses científicas como a teoria de assimilação e da aculturação foram desenvolvidas principalmente por Robert E. Park, Ernest W. Burgess, Melville Herkovits e seus alunos. Park e Burgess pesquisaram a adaptação de imigrantes à nova sociedade e os possíveis problemas desse processo. Inventaram, entre outros, o conceito do ‘homem marginal’ ( marginal man) e defenderam a hipótese da assimilação, isto é, a integração completa de imigrantes, mais cedo ou mais tarde, na sociedade anfitriã ( Park, Burgess, 1921; Park, 1928). Herskovits desenvolveu, juntamente com Robert Redfield e Ralph Linton, o conceito da aculturação que considerou conflitos mais amplos e a adaptação recíproca de imigrantes e da sociedade anfitriã ( Herskovits, Redfield, Linton, 1936).

Essas teorias, modernas na época, também foram discutidas no Brasil. E a transferência de saber científico não foi via de mão única; pelo contrário, cientistas brasileiros não só adaptaram as teorias norte-americanas para o Brasil como continuaram a desenvolvê-las e também possuíam influência mundial. Nesse contexto, Gilberto Freyre é certamente o exemplo mais proeminente, globalmente interligado, como, aliás, muitos outros cientistas da época: Oliveira Vianna, por exemplo, foi membro da Sociedade dos Americanistas de Paris, da Academia de Sciencias Sociaes de Havana e de diversas sociedades portuguesas; e Arthur Ramos ( 1942, p.46) foi docente e pesquisador em várias universidades norte-americanas como na Louisiana State University em 1940 e 1941.

Estudos brasileiros sobre migração dos anos 1930 e a Revista de Imigração e Colonizaçãopermitem entender que os cientistas brasileiros, além de copiar as teorias norte-americanas enfatizaram a tradição científica do próprio país. Autores como Arthur Ramos ou Arthur Neiva, que foi presidente do CIC de 1946 a 1947, trabalharam explicitamente com teorias de sociólogos norte-americanos, mas citaram, simultaneamente e com ênfase, cientistas brasileiros. Em Assimilação e populações marginais no Brasil: estudo sociológico dos imigrantes germânicos e seus descendentes, Emilio Willems ( 1940), sociólogo alemão-estado-unidense que trabalhou também no Brasil, aplicou o conceito de assimilação e do homem marginal à imigração alemã no Brasil para mostrar como esses imigrantes aqui se comportavam. Em A aculturação negra no Brasil, Arthur Ramos ( 1942) usou o conceito da aculturação para descrever os processos culturais recíprocos, devidos à presença de escravos africanos e de seus descendentes no Brasil. Para isso, Ramos ( p.32-36) discutiu minuciosamente as contribuições de Park, Burgess e Herskovits e suas teorias sociomigratórias. Ao mesmo tempo, enfatizou a própria tradição intelectual, referindo-se ( p.29-31) a estudos de Nina Rodrigues e de seu colega cubano Fernando Ortiz. No mesmo sentido, Estudos sobre a imigração semita no Brasil, de Arthur Neiva ( 1945), é bom exemplo de estudo sobre migração com base em sociólogos norte-americanos que se ocupou criticamente com teóricos do racismo europeu e, desse modo, inscreveu-se em contexto de saber global. Teorias racistas da França e da Alemanha também foram adaptadas por intelectuais brasileiros, como mostra Raça e assimilação, de Francisco José de Oliveira Vianna ( 1934). Nesse livro ( p.91-126), o autor utilizou os conceitos de Park, Herskovits, o conceito do melting-pot, textos de teóricos racistas como Hankins, Hertz, Kretschmer, para mencionar apenas alguns, e também os estudos de Nina Rodrigues. Embora a ciência brasileira seja enfatizada em todos os estudos mencionados, o uso dos conceitos vindos dos EUA e da Europa mostra que a sociologia migratória e em seguida a fundação do CIC e a legislação imigratória no Brasil só são compreensíveis num contexto intelectual global em que se discutiram perguntas sobre a identidade nacional e a integração de imigrantes à sociedade. Isso também vale para a Revista de Imigração e Colonização, que, aliás, publicou vários artigos de cientistas estrangeiros.

Além do intercâmbio intelectual global, a consciência de globalidade tem papel importante na construção da nacionalidade. As contribuições na Revistailustram isso: muitos autores compararam a situação migratória no Brasil com a de outros países de imigração, como os EUA ou a Argentina, chamando atenção, entretanto, para as singularidades brasileiras. Assim, o caso brasileiro aproveitou as experiências levadas a cabo em outras partes do mundo, e o assunto da imigração no Brasil foi considerado parte de uma temática maior. Lincoln Nodari ( 1940), cientista italiano que trabalhou junto com o CIC, em artigo sobre seus estudos na Líbia, onde pesquisou os métodos de colonização dos italianos, fez propostas sobre como o Brasil se poderia beneficiar desses métodos. Aristóteles de Lima Câmara ( 1940) publicou estudo sobre a distribuição dos grupos sanguíneos no mundo e a relevância disso para a política migratória do Brasil, citando principalmente biólogos, geneticistas e teóricos raciais franceses. Estudo de Couto ( 1941) analisou os problemas da assimilação étnica, sobretudo dos japoneses e alemães, no melting potdos EUA. Também a Argentina foi considerada exemplo, mas, concomitantemente, foi enfatizada a independência do caso brasileiro. Câmara e Neiva ( 1941) 27refletiram o sistema norte-americano de quotas e seu significado para o Brasil. Os autores trabalharam com estudos de sociólogos dos EUA e também do Brasil. Nesses e nos demais artigos da Revistasobre assimilação e nacionalidade, os autores sempre pensavam o contexto global e nunca analisavam o Brasil de maneira isolada do mundo, mas sempre como parte de problemática maior. Estanislau Fischlowitz ( 1943), sociólogo polonês que imigrou para o Brasil, referiu-se até ao ‘problema internacional das migrações’.

Os cientistas usaram conceitos sociológicos que circulavam globalmente, adaptando-os ao contexto brasileiro. Ênfase no nacional, discussões globais e a contextualização do Brasil no mundo foram, desse modo, partes de uma só discussão. No campo científico, um caminho brasileiro próprio se realizou antes de mais nada depois do Estado Novo, quando as teorias de aculturação de Gilberto Freyre se espalharam, fazendo do Brasil um país que não só adaptou teorias norte-americanas, mas possuía influência em debates globais.

Enquanto os atores brasileiros pensaram sobre a assimilação de imigrantes, muitos grupos de imigrantes no Brasil inventaram identidades próprias, de forma ora criativa, ora nacionalista ( Lesser, 1999; Seyferth, 2005). Alguns descendentes de imigrantes alemães, especialmente intelectuais, assumiram discursos nacionalistas e coloniais da Alemanha ( Conrad, 2006), que exigiam evitar a assimilação de emigrantes alemães e preservar a identidade original. Desse modo, a Alemanha poderia ter influência informal e vantagens comerciais num mundo combatido pelas potências imperialistas da Europa. Esses discursos não tinham origem nos anos 1930, existindo desde meados do século XIX e se acham nas páginas dos jornais de língua alemã publicados no Brasil (para os almanaques, por exemplo, Grützmann, 2004). Referindo-se aos discursos coloniais alemães, muitos intelectuais brasileiros de língua alemã acreditavam que a germanidade dos imigrantes alemães no Brasil deveria ser preservada ( Seyferth, 1981; Gans, 2004). ‘Germanidade’ significava uma imaginada comunidade étnica de todos os alemães, constituída não por cidadania, mas por ascendência, língua, moralidade, religião e costumes. A germanidade devia permanecer pura para que o povo alemão, supostamente um povo elevado, pudesse cumprir sua missão cultural no Brasil como povo colonizador e ser economicamente útil ao Império alemão. De acordo com esse pensamento, a mistura tanto racial quanto cultural com brasileiros ou a perda dos supostos costumes e características alemães ou da língua germânica não eram desejadas. A assimilação foi chamada, então, de abrasileiramento.

A partir do final da Primeira Guerra Mundial esse discurso se modificou, embora se mantivesse a política cultural na América Latina (Rinke, 1996). Devido ao trauma da guerra perdida, surgiu a ideia de uma comunidade do povo alemão ( deutsche Volksgemeinschaft), lutando no mundo inteiro por sua existência, ameaçada sobretudo nas regiões europeias que o Império alemão perdeu depois da guerra, por exemplo a Alsácia e os Sudetos. A fundação do Deutsches Ausland-Institut (Instituto Alemão do Exterior) em 1917 em Stuttgart deve ser vista nesse contexto. O objetivo do instituto foi exatamente a preservação da germanidade no mundo inteiro. Ser alemão significou a partir de 1918 ser vítima, e isso em escala global. Os nazistas continuaram com esse discurso e radicalizaram-no, integrando antissemitismo e a ideia de um povo arraigado ao solo ( Volksboden). Por isso, a política dos nazistas enfatizou a conquista da Europa oriental. O discurso de vítima de pós-guerra também apareceu no Brasil, onde, durante a guerra, se realizou campanha nacionalizadora contra alemães e italianos, tendo sido proibido o uso da língua alemã, entre outras restrições ( Luebke, 1987). Por isso, as experiências de muitos brasileiros de fala alemã puderam ser vinculadas à nova autoimagem dos alemães.

Como fonte deste estudo escolhi o jornal Neue Deutsche Zeitung, de Porto Alegre, que foi publicado a partir 1905. Esse periódico simpatizou fortemente com os adeptos da nova política germanista de pós-guerra e, a partir de 1933, também com a política de Hitler. O jornal constitui, por isso, bom exemplo para analisar aspectos globais dos discursos alemães. Certamente, jornais brasileiros de língua alemã noticiavam eventos globais já desde a introdução da comunicação telegráfica; entretanto, só a partir da segunda metade dos anos 1920 é possível constatar mudança nos discursos sobre imigração e germanidade no Neue Deutsche Zeitung. Por um lado, nota-se o intercâmbio intelectual global. Muitos artigos informavam sobre a germanidade em distintas regiões do mundo, nos Sudetos, nas antigas colônias alemãs na África, na Romênia, na Rússia, no Chile, por exemplo, e quase todas as reportagens foram escritas por correspondentes locais. Assim, podemos presumir que artigos desse tipo sobre o Brasil tenham sido publicados em jornais alemães de outras regiões do mundo. Além desse intercâmbio entre as diásporas alemãs, o Neue Deutsche Zeitungtambém reproduzia artigos sobre teorias raciais e sobre política de imigração, refletindo debates globais e sendo, portanto, parecidos com os da Revista de Imigração e Colonização, apesar de os programas políticos dos dois periódicos serem bem diferentes. No jornal era destacado, por exemplo, o dito perigo amarelo ( Riet, 3 abr. 1935), isto é, a questão da imigração japonesa no Brasil e seus supostos perigos ( Takeuchi, 2008).

Por outro lado, tudo isso ilustra muito bem a consciência de globalidade. Experiências próprias foram pensadas em um contexto global. O ‘destino’ dos alemães nas distintas regiões do mundo formou, desse modo, um mosaico de experiências do qual o Brasil também fazia parte. A comunidade global dos alemães era visível por meio dos artigos do mundo inteiro, e os autores articularam essa visão global. Wolfgang Ammon ( 30 abr. 1932), por exemplo, descreveu em artigo intitulado “Uma organização mundial da germanidade” várias sociedades alemãs que atuavam globalmente, como a Verein für das Deutschtum im Ausland (Sociedade para a Germanidade no Estrangeiro), a Bund der Auslandsdeutschen (Associação dos Alemães no Estrangeiro) e o já mencionado Instituto Alemão do Exterior, enfatizando: “E que pensamento sublime: a germanidade do mundo inteiro, reunida inteiramente em uma cooperação cultural e econômica comum!” 1 ( p.3) Um artigo de 1933 celebrou a conquista do poder por Hitler como renascimento alemão, ilustrando bem a dimensão global:

E o ano 1933 ficará uma advertência para todos nós, porque a devoção renascida à maneira e à moral alemã, e o irromper do povo alemão em casa também é uma devoção a nós, aos alemães do mundo inteiro, cuja promessa solene ao homem alemão foi e será inalterável para sempre.

Seja o 25 de julho o dia que também nós, teuto-riograndenses, participemos nessa experiência coletiva dos alemães do mundo inteiro e que nos leve, lento, mas firme, à verdadeira comunidade teuto-brasileira.

Somos o povo dos cem milhões que está unido fortemente por uma língua. É verdade, moramos em todas as zonas do mundo, mas nenhum poder do mundo inteiro pode nos separar 2 ( S., 25 jul. 1933, p.1).

A globalidade fortaleceu aqui o sentimento da unidade nacional e da comunidade alemã. Por consequência, há no Neue Deutsche Zeitungmanifestações contra a assimilação dos alemães no Brasil. Ao mesmo tempo, provavelmente como reação às tendências nacionalistas brasileiras, o jornal destacou que os alemães no Brasil eram cidadãos fiéis. Feodoro Lanzer ( 30 abr. 1934, p.1) registrou em português: “Somos brasileiros todos nós que aqui nascemos … Não é o fisico nem a origem que determinam o verdadeiro brasileiro, mas sim o coração, o sentimento da unidade, da comunidade. … Não é pelo modo de vida, de costumes, que tanto variam de ser para ser, que se conhece o brasileiro, mas pelo modo de pensar, sentir e agir.”

Espero que os dois exemplos tenham mostrado que discursos brasileiros – sejam em português ou alemão – sobre imigração e identidade nacional nos anos 1930 e 1940 estavam ligados ao contexto intelectual global e eram marcados pela consciência global dos atores. É interessante que isso tenha resultado no aumento de tendências nacionalistas, seja no caso brasileiro, em que o governo de Vargas implementou política nacionalizadora, seja no caso alemão, em que o nacionalismo crescente levou ao surgimento do nacional-socialismo. Conexões intelectuais globais e pensamento global não eram algo completamente novo, mas alcançaram nova dimensão. Estabeleceu-se nova maneira estatal de falar sobre imigração através do CIC e de sua Revista, que usou modelos científicos modernos nessa época, e a atitude global dos nazistas foi interpretada pelo Neue Deutsche Zeitungcomo algo revolucionário. As duas maneiras de falar sobre imigração expressaram também o desconforto com a globalidade e tentaram reagir ao desafio das identidades nacionais, rejeitando o outro e preservando o próprio na forma mais pura possível. A transformação do próprio pelos processos globais gerou medo, principalmente no lado alemão. O Brasil reagiu com mais confiança à nova situação. Ambos os casos mostram que perspectivas globais ajudam a entender melhor manifestações nacionais.

REFERÊNCIAS

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