A história e as mudanças na publicação científica: resistência ou adaptação?

A história e as mudanças na publicação científica: resistência ou adaptação?

Autores:

André Felipe Cândido da Silva

ARTIGO ORIGINAL

História, Ciências, Saúde-Manguinhos

versão impressa ISSN 0104-5970versão On-line ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.26 no.3 Rio de Janeiro jul./set. 2019 Epub 16-Set-2019

http://dx.doi.org/10.1590/s0104-59702019000300001

A história e as mudanças na publicação científica: resistência ou adaptação?

Em clima bastante festivo, comemoramos os 25 anos de nossa revista em encontro ocorrido entre 26 e 28 de junho deste ano na Casa de Oswaldo Cruz. Além de ser uma reunião comemorativa, o workshop “Presente e futuro das publicações de história” teve por finalidade debater questões concernentes à publicação científica na área de história. O workshop foi o resultado de vários eventos acadêmicos que organizamos nos últimos anos para pensar nossa revista. Editores científicos de Brasil, Argentina, Colômbia e México abordaram aspectos da rotina editorial e de mudanças que impactam profundamente tais rotinas, como a proposta dos preprints e da ciência aberta. As modificações trazidas por essas inovações ressignificam o papel dos editores e dos próprios periódicos como veículos “intermediadores” do conhecimento.

As mudanças em geral são pensadas para as ciências naturais e exatas, que apresentam ritmos, perfis e demandas específicas de produção, circulação e divulgação do conhecimento. Às ciências sociais e humanas fica reservado o papel de aderir ou resistir às transformações. As resistências em linhas gerais partem do argumento de que estas áreas obedecem a démarches diferentes das ciências naturais, de maneira que as inovações propostas ou, em alguns casos, impostas não se aplicam a elas. No workshop, ficou bastante clara a necessidade de abandonar essas posições dicotômicas. Antes de mais nada, é preciso que historiadores e outros profissionais das humanidades se familiarizem com as modificações indicadas e as analisem criticamente, no sentido de verificar em que extensão são pertinentes ao seu ofício. Se as especificidades da área não devem ser um obstáculo erguido aprioristicamente em resistência a quaisquer mudanças na prática da divulgação do saber, por outro lado é importante que elas sejam levadas em conta nos debates sobre tais mudanças. É importante reconhecer não só as diferenças de campos do conhecimento, como também a identidade dos periódicos, que dialogam com audiências próprias e estão inseridos em contextos institucionais, geográficos e cognitivos igualmente particulares. Reconhecer essa diversidade é fundamental para assegurar e promover a atividade científica em todas as suas instâncias e etapas.

A comemoração dos 25 anos de História, Ciências, Saúde – Manguinhos deixou claro o papel da revista na conformação de uma área do conhecimento muito pouco desenvolvida, em muitos países latino-americanos, à época em que foi criada. Com exceção da Revista Brasileira de História da Ciência, criada em 1985, não havia no Brasil publicação consolidada que divulgasse trabalhos especificamente da história das ciências biomédicas e da saúde pública. Na atualidade, podemos afirmar com segurança que é um campo robusto, praticado por profissionais de diferentes formações, mas com forte presença de historiadores. Diferentemente do contexto em que a revista surgiu, hoje historiadores em instituições nacionais e latino-americanas se dedicam a analisar os fenômenos da saúde e da doença em perspectiva histórica. Anteriormente, os próprios profissionais da saúde e das ciências biomédicas historiavam seus campos de atuação, preocupados em compreender e legitimar suas práticas, intervenções e identidades. Isso continua a ocorrer, mas com uma nova forma de encarar a transdisciplinaridade da história das ciências e da saúde que, acreditamos, nossa revista promoveu: a transdisciplinaridade entendida como um mecanismo de fertilização cruzada de abordagens, perspectivas e temáticas que favorecem o avanço no conhecimento. É pelo diálogo com outras áreas que o conhecimento histórico pode influenciar no debate de políticas públicas, algo bastante defendido, por exemplo, pelos historiadores da saúde pública e da medicina. A ampla e rica interface com outros campos do conhecimento, especialmente com os estudos de divulgação científica e de preservação e gestão do patrimônio cultural das ciências e da saúde, própria da área de competência da revista, tem sido beneficiada pelo ambiente institucional no qual a revista se insere.

Em seus 25 anos de circulação contínua, História, Ciências, Saúde – Manguinhos consolidou-se nacional e internacionalmente como revista que promove, a partir da história – sua “espinha dorsal”, como gosta de dizer o ex-editor Jaime Benchimol –, o diálogo com variados campos do conhecimento. Como a maioria dos periódicos internacionais da área de história, que abordam temas específicos da historiografia (como história econômica, demográfica, ambiental, das mulheres, do trabalho) ou de regiões específicas (como Europa, sudeste Asiático, América Latina), História, Ciências, Saúde – Manguinhos é especializada em história da medicina, da saúde pública e das ciências da vida. Nesse sentido, contrasta com o perfil generalista das revistas de história prestigiadas no Brasil cujo histórico de criação e desenvolvimento encontra-se em grande parte vinculado a departamentos ou programas de pós-graduação que criaram veículos específicos para escoar sua produção. Com a profissionalização da área e das práticas editoriais, a complexificação da história e as políticas de avaliação implementadas por agências de fomento, com consequente demonização da endogenia, essas revistas se desenvolveram. O saldo dessa condenação e dos incentivos à internacionalização é no mínimo dúbio, como colocou, em nosso workshop, Julio Pimentel Pinto, atual editor da Revista de História da USP (<http://www.revistahcsm.coc.fiocruz.br/editores-de-periodicos-de-historia-encaram-novos-desafios/>).

No evento, ficou evidente a necessidade de ampliar os fóruns de debate coletivo entre os editores de revistas de história acerca das modificações na publicação científica. Os historiadores, que por tempos se sentiram desconfortáveis em reconhecer sua prática como científica, agora são convidados, não só na qualidade de editores, mas também de autores, leitores e pareceristas, a se habituarem com questões complexas cujos debates são capitaneados pelas ciências naturais na maior parte das vezes. Tal familiarização é crucial para que as novas práticas editoriais propostas atendam às especificidades da história, para a qual, por exemplo, não é tão premente a rapidez na divulgação dos achados. O conteúdo publicado nos artigos históricos é – ou deveria ser – fruto de pesquisa documental, de exegese delongada, de argumentações que se sedimentam em reflexões oriundas do diálogo ativo com a historiografia. Não é tão evidente o que se pode tomar como “dados de pesquisa” que possam ser disponibilizados em acesso aberto. O período médio de citação dos artigos em história não é tão efêmero como em outras áreas. Como mostrou Pablo Yankelevich, editor da tradicional revista Historia Mexicana, existem artigos publicados há 50 anos que ainda contam entre os mais acessados e citados. Em suma, o amadurecimento da compreensão das especificidades e de como elas devem ser consideradas nos novos processos editorais é importante para que editores de revistas de história analisem criticamente quais mudanças pretendem adotar. Os periódicos em história não são obstáculos à divulgação célere do conhecimento, mas instâncias responsáveis pela qualidade do conteúdo publicado, pela obediência de parâmetros éticos, além de alavancas na formação, desenvolvimento e inovação de campos do conhecimento, como História, Ciências, Saúde – Manguinhos vem sendo desde a sua criação. Estamos satisfeitos que a comemoração dos 25 anos da revista tenha cumprido o papel de promover e intensificar as discussões sobre publicação científica entre historiadores.

A revista segue adiante sua trajetória em novas bases. No editorial do primeiro número de 2019 (Silva, Cueto, 2019), comunicamos a mudança na composição do comitê editorial. Os mandatos de quatro anos foram estabelecidos por Marcos Cueto e eu logo que assumimos a revista, em janeiro de 2015. A finalidade foi institucionalizar a rotatividade do corpo editorial de maneira a garantir sua renovação, consoante o dinamismo e a diversidade do próprio campo acadêmico. Como afirmamos na referida carta, continuam como editores adjuntos Nelson Rodrigues Sanjad, Luiz Antônio de Castro Santos e Karina Ramaciotti. A eles se juntam Vanderlei Sebastião de Souza, professor da Universidade Estadual do Centro-Oeste (PR); Rafael Huertas, pesquisador do Consejo Superior de Investigaciones Científicas (Espanha); Mariola Espinosa, professora da University of Iowa (EUA); Stefan Pohl-Valero, professor da Universidad del Rosario (Colômbia); e Carlos Henrique Assunção Paiva, pesquisador da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz. A seção “Livros & Redes” continua pelos próximos quatro anos com a professora da Universidade Federal de Minas Gerais Ana Carolina Vimieiro-Gomes. Assume a seção “Imagens” Charles Monteiro, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, ao passo que a seção “Fontes” passa a ser compartilhada por Luciane Quillet Heymann, pesquisadora da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, e Rogério Rosa Rodrigues, professor da Universidade do Estado de Santa Catarina. A seção “Divulgação Científica” fica nas mãos de Marina Ramalho e Silva, pesquisadora do Museu da Vida da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.

Nesse novo arranjo, Marcos Cueto prossegue como editor científico pelos próximos quatro anos. Eu, André Felipe Cândido da Silva, deixo a editoria científica e passo a acompanhar a revista na função de editor adjunto. Quero aproveitar este espaço para manifestar minha profunda gratidão a todos que participaram desses quatro anos de muitos aprendizados. Agradeço ao companheiro de jornada, Marcos Cueto, à editora executiva, Roberta Cardoso Cerqueira, a toda a equipe, Mônica Auler, Mônica Cruz Caminha, Camilo Papi, Vinícius Renaud, Marciel Mendonça Rosa, bem como às jornalistas Marina Lemle e Vivian Mannheimer, pelo apoio carinhoso, generoso e compreensivo. Concordo inteiramente com Jaime Benchimol quando diz que a equipe fabulosa que hoje integra a revista é a principal expressão do nível de profissionalização e excelência que ela atingiu. Também agradeço a autores, leitores, editores e pareceristas com quem interagi nesse período como editor, assim como à Casa de Oswaldo Cruz – especialmente a seu diretor Paulo Elian –, cujo apoio ininterrupto tem sido fundamental.

Estou seguro de que História, Ciências, Saúde – Manguinhos atravessará com êxito esses tempos de profundos desafios, não pelo conforto passivo da reputação construída, mas por capacidade e consciência de Marcos e da equipe sobre a necessidade de adaptação contínua, inovação constante e zelo diligente para que a revista se perpetue, com distinção, por muitos anos mais.

REFERÊNCIAS

SILVA, André Felipe Cândido; CUETO, Marcos. 2019: um ano de debates, projetos e agradecimento. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, v.26, n.1, p.9-10. 2019.
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