A identidade da “raça cósmica”: a experiência da eugenia no México

A identidade da “raça cósmica”: a experiência da eugenia no México

Autores:

Leonardo Dallacqua de Carvalho

ARTIGO ORIGINAL

História, Ciências, Saúde-Manguinhos

versão impressa ISSN 0104-5970versão On-line ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.23 supl.1 Rio de Janeiro dez. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/s0104-59702016000500019

Desde os anos 1990, um bom número de pesquisadores tem se dedicado a pensar a eugenia como uma ciência polimorfa e multifacetada que adquiriu características próprias em contextos sociais distintos. A América Latina, em particular, pode ser considerada uma espécie de laboratório para a compreensão das rupturas e permanências dos debates e aplicações eugênicas em comparação aos movimentos eugênicos desenvolvidos em outras partes do mundo. Pertencente a essa historiografia, o trabalho de Laura Suárez y López Guázo, publicado em 2005, propõe o debate da eugenia diante das diferenças raciais e a apropriação de conceitos, como o de “raça cósmica“, proposto pelo intelectual José Vasconcelos, na interpretação da identidade nacional mexicana. O conceito de “raça cósmica”, por exemplo, constituiria uma possibilidade de explicação harmônica para a mistura racial no país. Enfatizando as diversidades étnicas e culturais do México no início do século XX, a obra apresenta as propostas de saúde pública relacionadas à aplicação de medidas eugênicas, contribuindo para a análise comparativa de uma história da eugenia latino-americana em diferentes contextos. Laura Suárez y López Guázo é vinculada ao Laboratorio de Historia de la Biología y Evolución e professora titular da Universidad Nacional Autónoma de México.

Em diálogo com trabalhos como os de Nancy Stepan e Raquel Álvarez Peláez sobre história da eugenia em países da América Latina, a autora procura situar as teses eugênicas de Francis Galton (1822-1911) em paralelo com sua recepção no contexto mexicano e suas transformações socioculturais. Seu interesse é compreender até que ponto as ideias eugênicas podem ser ditadas e interpretadas no jogo duplo entre a herança biológica e o projeto de nação e constituição da identidade nacional no México da primeira metade do século XX. A importância dessa temática insere-se na própria formação populacional do México em termos de composição étnica. A forte miscigenação entre índios, brancos e negros ajuda a estabelecer um “mosaico étnico” no país, cujas vicissitudes abrangem os diversos quadros de interações de uma sociedade em formação. Ao se aproximar de Stepan e Álvarez Peláez, a autora reflete sobre o desenrolar da experiência eugênica no país e os conflitos políticos e intelectuais desencadeados pelas múltiplas interpretações assumidas pelo termo “raça”, especialmente ao ajustar conceitos biológicos para uma afirmação identitária.

Eugenesia y racismo en México estrutura-se em quatro capítulos, dos quais os dois primeiros privilegiam uma análise da eugenia galtoniana por meio de outras teorias sociobiológicas. De início, devemos destacar a singularidade do primeiro capítulo no que tange ao tratamento das fontes documentais. Suárez y López Guázo debruçou-se sobre as obras de Galton na tentativa de compreender suas teses sobre a herança hereditária em vista do estado do saber de uma ciência oitocentista. Sobre as conclusões de Galton a respeito da herança genética de “variação“ e “regressão”, a autora mostra que o cientista inglês via nesses termos propostas importantes para pensar a eugenia “tanto para o desenvolvimento das qualidades intelectuais como para a eliminação das características ‘não desejáveis’, de acordo com os padrões socioculturais de sua época” (p.36).1

No capítulo 2, busca ampliar a discussão entre os contextos históricos e a maneira como o debate científico da época procurou descrever o mundo social e nele intervir. Em outras palavras, a autora procura compreender como a biologia evolutiva, a genética mendeliana ou mesmo a antropologia foram absorvidas por um discurso ideológico que respingou na interpretação das diferenças humanas e raciais. Mais ainda, como se deram as negociações intelectuais entre o entendimento de “raça” e “sociedade” em vista da seleção de um “tipo almejado”.

É apenas no terceiro capítulo que Laura Suárez y López Guázo se dedicará exclusivamente às particularidades de eugenia, ciência e sociedade no México. Os decênios iniciais do século XX e a atmosfera da revolução mexicana deflagraram os supostos problemas raciais mexicanos em torno das ideias ligadas à identidade nacional. O indígena foi visto como um atraso para o progresso, e medidas eugênicas poderiam, nesse sentido, “reformular” a constituição racial da população. No caso do mestiço, a mistura racial gerou interpretações plurais respaldadas em conceitos evolucionistas e sociobiológicos que questionaram a positividade ou negatividade dessa miscigenação. Essa seria uma das marcas da eugenia no México, cuja sociedade se “encontrava constituída fundamentalmente por índios e mestiços” (p.98).

No último capítulo, a autora analisa a importância das discussões sobre os “degenerados” para compreender como ocorreu o debate eugênico e sanitário no México em torno da biotipologia. São retomadas as influências de autores como Buffon, Gobineau e Morton para a realização de estudos biotipológicos dos “tipos” populacionais. A mescla de teorias estrangeiras sobre saúde mental com a influência de intelectuais mexicanos e da sociedade permitiu que a ciência do período apresentasse soluções atreladas à prática da craniometria ou biotipologia, empregada para o controle da criminalidade. Essa mistura cientificista do período ajudou a impulsionar o discurso da eugenia “negativa” como solução para o combate à criminalidade. Nesse caso, a esterilização serviria como ferramenta para uma profilaxia social contra o crime; o alcoolismo crônico, doenças mentais e prostituição apareceriam como gênese hereditária da sua causa.

Laura Suárez y López Guázo sugere ao leitor situar as particularidades das discussões científicas, biossociais e eugênicas em uma sociedade etnicamente multifacetada e atravessada pelas turbulências políticas do início do século XX, como foi o período da dura e violenta revolução mexicana. A autora entende a eugenia não como o discurso de uma ciência anômala voltada para o extremismo do extermínio de grupos sociais, mas como integrante de um movimento científico que buscou no estudo da hereditariedade compreender seu sentido de nação e sua mescla populacional. Essa ligação parece necessária para a percepção do tipo de trabalho que a autora pretendeu ao colocar o México como produtor e receptor de conhecimentos científicos.

Apesar de citações excessivas, o rigor empregado para a utilização das fontes demostra a escolha investigativa de pinçar todos os elementos possíveis para a construção do quadro étnico, social e científico do México. Prova disso foi a constatação dos referenciais utilizados pelos eugenistas mexicanos, cujas ideias estavam em diálogo com homens de ciência desde a Inglaterra de Galton, a Itália de Lombroso, a França de Broca, até os EUA de Davenport, assim como das relações desses personagens no trato do diálogo da eugenia com países latino-americanos, como era o caso de Peru, Argentina, Brasil, Cuba e outros. A pesquisa de Laura Suárez y López Guázo nos faz pensar, ainda, em outras opções sobre as diversas relações comparativas entre esses países, além do próprio debate acerca da eugenia e da hereditariedade no México, mostrando que muitos aspectos ainda podem ser pensados por meio desse intercâmbio entre as Américas.

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