versão impressa ISSN 0104-5970versão On-line ISSN 1678-4758
Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.23 supl.1 Rio de Janeiro dez. 2016
http://dx.doi.org/10.1590/s0104-59702016000500014
This research report aims to demonstrate how the state of Paraná, Brazil, featured in the transnational context of different schools of biotypological thought present in Brazil as of the 1930s. The city of Curitiba is taken as a case study, where we can identify, in an academic lecture from 1938 and two mental health reports from 1950 and 1951, the observance of Ernst Kretschmer’s German constitutional medicine, despite the prevalence of the Italian school of thought in the bibliography on the subject. With this, we seek to identify through what channels and forums the precepts of the German school were legitimized.
Key words: biotypology; Curitiba; Paraná (state); German constitutional medicine; Ernst Kretschmer (1888-1964)
A presente nota é uma reflexão em torno dos desenvolvimentos de minha pesquisa de mestrado. Seu objetivo foi analisar a atuação de um grupo de médicos envolvido com as matérias e temáticas da neurologia, medicina legal e psiquiatria, intentando perceber como esse grupo figurou no processo de institucionalização da medicina por intermédio da Associação Médica do Paraná (AMP) entre 1930 e 1941 (Beraldo, 2016). Essa instituição é o órgão representativo da classe médica paranaense desde 1933, quando a categoria médica, alocada na cidade de Curitiba, capital paranaense, protagonizou a fusão de três agremiações que a representavam, a saber: Sociedade de Medicina do Paraná (1914), Sociedade Médica dos Hospitais do Paraná (1930) e Sindicato Médico do Paraná (1931) (Siqueira, 1993, p.23). Consideramos esse recorte e esse objetivo relevantes, e com base neles pretendemos dar uma contribuição à história da medicina paranaense e, particularmente, à historiografia sobre neurologia, medicina legal e psiquiatria a partir daquele grupo de médicos agremiados nos anos 1930. Para fazê-lo, temos optado por uma documentação que inclui as “atas de sessões” da AMP, “noticiários”, “conferências” e “artigos” publicados nas páginas da Revista Médica do Paraná (RMP), criada em 1931, bem como em bibliografia memorialística mapeada até o momento (Siqueira, 1993; Alves, Pilotto, 1994; Costa, Lima, 2007; Wittig, 2011).
Dito isso, nosso objetivo nesta nota, embora restrito, será apresentar alguns achados expressivos a respeito da interlocução entre prática psiquiátrica na cidade de Curitiba e a escola biotipológica constitucionalista de vertente alemã, a qual teve na figura de Ernst Kretschmer (1888-1964) seu articulador e principal correspondente. Será analisado o discurso “A ciência psiquiátrica, seu mérito, sua evolução e suas conquistas no terreno da clínica e da terapêutica”, proferido pelo médico Alô Ticoulat Guimarães em 1938 na Faculdade de Medicina do Paraná (FMP), fundada em 1913, e publicado na RMP. Posteriormente, tentaremos perceber como os parâmetros que orientavam a prática daquele médico apareceram em dois laudos de sanidade mental aqui inseridos.
Referir-se à biotipologia como campo biomédico, é importante dizer, implica tanto observá-la como “uma aplicação ‘prática’ da eugenia galtoniana” (Vallejo, 2004, p.220) quanto atentar para a relevância contextual de suas expressões complexas e singulares. Circunstâncias nacionais, políticas e culturais possibilitaram o florescimento de diferentes “escolas de biotipologia” (Eraso, 2007, p.794). Assim, poderíamos constatar, na Itália, por exemplo, como foi encampada a criação de institutos de biotipologia para vigilância, valoração e melhora de corpo e mente de coletividades, dos quais o Instituto Biotipológico e Ortogenético de Gênova é um importante exemplo (Vallejo, 2004, p.222-223); no México, ao observá-la como instrumento voltado para uma nova forma de diagnóstico e uma “teoria da diferenciação humana” (Stern, 2003, p.197); ou na Argentina e sua relação com controle demográfico e populacional (Miranda, 2005, p.191); e, finalmente, no Brasil, num contexto de busca de definições identitárias nacionais, a manifestação daquele campo como auxílio aos “esforços de classificação e definição de uma característica corporal própria dos brasileiros” (Vimieiro-Gomes, 2012, p.706).
No que se refere ao Brasil, a biotipologia teve diversas entradas e adaptações locais, embora figure na bibliografia a preponderância da escola de vertente italiana, representada por personagens como Nicola Pende, Mario Barbàra e Giacinto Viola. Esses médicos são atores centrais para pensar a articulação da biotipologia de vertente italiana e tiveram crédito atestado entre fomentadores brasileiros, como Waldemar Berardinelli, Juvenil Rocha Vaz e Isaac Brow (Vimieiro-Gomes, 2012, p.709-711). De minha parte, entretanto, procuro demonstrar como a escola de tendência alemã, com sua guinada psicológica e orientada por Ernst Kretschmer,1 figurou na prática médica em uma localidade do Sul do Brasil, na cidade de Curitiba, estado do Paraná. Vejamos.
Alô Ticoulat Guimarães (1903-1985),2 natural de Curitiba, médico formado pela FMP, defendeu, em 1927, a tese Cirrose atrófica de Laennec combinada com mal de Banti. Passou a fazer parte do corpo clínico do Hospício Nossa Senhora da Luz, fundado em 1903, logo após sua formatura. Na carreira desse médico conectaram-se ensino e prática médico-legal e clínica psiquiátrica, sendo livre-docente daquela em 1935 e primeiro professor desta em 1936 (Alves, Pilotto, 1994, p.54; Ouyama, 2006; Lima, Holanda, 2011; Wadi, 2012). Dois anos após a conquista da cátedra, no dia 7 de março de 1938, seu discurso “A ciência psiquiátrica...” externava para a plateia quais parâmetros orientavam sua prática médica. De um lado, a importância dos tratamentos biológicos como malarioterapia e insulinoterapia, de outro, as possibilidades diagnósticas da escola constitucionalista de Kretschmer (Guimarães, 1938, p.105).
Uma das preocupações de Alô T. Guimarães foi demonstrar, principalmente para médicos clínicos e cirurgiões da plateia, como a “ciência psiquiátrica” deveria ser colocada em pé de igualdade com a medicina em geral. Sua intenção era desmitificar a crença que separava, de um lado, os “trunfos do método experimental” no terreno da clínica médico-cirúrgica e, de outro, a “falível autoridade científica” e os “pouco convincentes índices de sua argumentação”. Para fazê-lo, igualou a “patologia mental” e a “patologia geral” quanto a suas origens, seus propósitos e desdobramentos (Guimarães, 1938, p.105-107). O que está subjacente é uma narrativa da psiquiatria em termos de evolução e melhoramento à medida que identifica o desenvolvimento das psicopatias, partindo de Hipócrates, até a nosografia psiquiátrica da escola organicista de Emil Kraepelin, passando por Pinel, Bayle, Morel e Magnan.
“Como se afirmam e corporificam o mérito, a extensão e as finalidades da ciência psiquiátrica?” – perguntava-se o médico na ocasião (Guimarães, 1938, p.107). E respondia positivando elementos laboratoriais responsáveis pela “pesquisa e experimentação anatomofisiológica” (reações no liquor e no sangue) e também por meio da observação das desordens endócrinas, da medição e extensão das lesões com o auxílio da encefalografia (p.109). Foi, entretanto, a respeito do tema “constituição” e “caráter” que aquele médico mais mobilizou autores, exemplos e demonstrações, e, com isso, gostaria de destacar que as teorias constitucionalistas lançaram mão de aportes da ciência experimental para mensurar “aspectos morfológicos, fisiológicos (sobretudo, dialogando com a endocrinologia) e psicológicos, por vezes tidos como de base hereditária”, e sua soma é o que se convencionou chamar de constituição (Vimieiro-Gomes, 2012, p.707).
Pautando-se em Robert Gaupp (psiquiatra alemão e mestre de Kretschmer), Alô T. Guimarães fez a seguinte leitura da obra de Kretschmer: as tendências organicistas e psicológicas da psiquiatria moderna não teriam dado respostas à questão constitucional e temperamental, mesmo admitindo as contribuições de Kraepelin à compreensão das doenças endógenas. Tais questões, contudo, estacariam no tema da constituição e temperamento (Guimarães, 1938, p.110-111). É importante ressaltar que, no plano das constituições, tudo se passa como uma questão de “correspondência”: formas exteriores do corpo relacionam-se à personalidade humana; as doenças relacionam-se às constituições morfológicas e aos temperamentos; e, mais, aos tipos psiquiátricos corresponderiam os tipos corporais. Por essa feita, a escola constitucionalista, afirmava Alô T. Guimarães citando o psiquiatra espanhol Antonio Vallejo- Nágera, pretendia “nos explicar a variabilidade existente de um indivíduo a outro em relação ao meio e, por conseguinte, a distinta aptidão individual para contrair a doença” (p.112). Analisando corpo e mente, constitucionalistas buscaram focar e entender “o indivíduo por trás da doença” (Eraso, 2007, p.794).
Em sua prática clínica, Alô T. Guimarães testou o modelo de configuração corporal de Kretschmer em indivíduos criminosos enviados à cidade de Curitiba para ser submetidos a exames de sanidade mental. Mais de dez anos depois de sua conferência de abertura do ano letivo de 1938, encontramos, já na década de 1950, a permanência de categorias utilizadas por aquele médico e seus assistentes para descrever a morfologia corporal de indivíduos. Seguem dois casos mapeados: (a) no dia 22 de agosto de 1950 compareceu à subdelegacia do distrito de Pinhão (PR) a senhora G.A.S., com 38 anos de idade, brasileira, doméstica, natural daquele estado, casada religiosamente e analfabeta. Estava sendo acusada de agredir gravemente seu marido com uma foice (Cedoc/G, 1950, fls.2-8); (b) no dia 5 de fevereiro de 1951 compareceu à subdelegacia do distrito de Pedro Lustosa o senhor G.F.R., com 37 anos, brasileiro, lavrador, acusado de crime de parricídio (Cedoc/G, 1951, fls.10-11).
Ambos os depoimentos apresentaram-se inconclusivos na época, e seus advogados acionaram a necessidade de intervenção médica. Ambos foram enviados à cidade de Curitiba e passaram pelo crivo de Alô T. Guimarães. No primeiro laudo de sanidade, constatamos o seguinte: “indivíduo de constituição fraca, panículo adiposo escasso, musculatura pouco desenvolvida, de estatura mediana, pertencente por seu aspecto morfológico ao tipo leptossômico da classificação de Kretschmer” (Cedoc/G, 1950, s.p.). No entender de Berardinelli, esses seriam indivíduos com tendência a desenvolver esquizofrenia (citado por Vimieiro-Gomes, 2012, p.710). Do segundo laudo, constou: “é o examinado de constituição forte, estatura mediana, panículo adiposo irregularmente distribuído, musculatura bem desenvolvida, pertencendo por sua conformação biotipológica ao pícnicodisplásico da classificação de Kretschmer” (Cedoc/G, 1951, fls.37-38). Seriam indivíduos baixos e com desproporção dos membros e tendências à maníaco-depressão. Kretschmer reconhecia dois tipos psicológicos básicos: circular e esquizofrênico. Pensou as personalidades circulares dentro de três grupos de características: (1) sociável, bem-humorado, amigável, genial; (2) alegre, bem-humorado, apressado; e (3) tranquilo, calmo, facilmente deprimido, coração mole. O primeiro grupo foi considerado o mais comum. Os tipos de personalidade esquizofrênica também se dividiriam em três grupos de características: (1) antissocial, silencioso, reservado, sério, (sem graça), excêntrico; (2) acanhado, tímido, sentimentos finos, sensível, nervoso, excitável, amante da natureza e de livros; e (3) flexível, gentil, honesto, indiferente, obtuso, em silêncio.3
Ambos os casos citados foram internados no hospício e lá faleceram. Não há como descartar o efeito do diagnóstico dado por aqueles médicos. Nesse caso, a justiça orientou-se por um prognóstico, no qual Alô T. Guimarães qualificava o quinhão da constitucionalogia e caracterologia: “contribuem com os elementos decisivos para a feitura do diagnóstico e, principalmente, para a ampliação e certeza das avaliações prognósticas” (Guimarães, 1938, p.114). Tal posicionamento dava aval ao dito “não há doenças, sim doentes” repetido pelo médico e atribuído a Juvenil Rocha Vaz, responsável pela cadeira de clínica propedêutica na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (FMRJ), onde funcionava um Gabinete Biotipológico.
A análise da composição da população brasileira, em particular a paranaense, pode ser observada em trabalhos produzidos a partir da década de 1930 no âmbito de serviços (Serviço do Prof. Rocha Vaz, FMRJ), gabinetes ou instituições assistenciais, como é o caso do espaço em que Alô T. Guimarães atuava, o Hospício Nossa Senhora da Luz. De um lado, uma obra intitulada Antropologia do brasileiro do interior paranaense foi escrita na década de 1940 por Augusto Sette Ramalho (citado em Vimieiro-Gomes, 2012, p.716) e se prestava a analisar os corpos de inscritos para o serviço do Exército, de outro, numerosos laudos de sanidade mental, conferências e trocas científicas foram professados por personalidades médicas no âmbito de instituições e agremiações médico-científicas, como a que é objeto desta pesquisa. Constituíram-se em espaços e meios de afirmação daqueles saberes.
Duas conclusões parciais podem ser aqui registradas. Primeiro: conquanto suas singularidades, a evidência de um repertório transnacional de teorias científicas e métodos, identificado por Stern (2003) para sua análise sobre o México, é expressiva no que concerne ao Brasil no diálogo com as escolas italiana, francesa e alemã entre as décadas de 1930-1950 (Vimieiro-Gomes, 2012, p.709-711). O caso do Paraná aqui analisado compõe um modesto capítulo a respeito da adaptação local da biotipologia em sua vertente alemã. As perspectivas se abrem quando pensamos nesse campo biomédico como modalidade ou detentor de um sentido prático para a eugenia (Vallejo, Miranda, 2004, p.231). É possível supor que em torno de Alô T. Guimarães constituiu-se uma tradição de classificação e correspondência com as escolas biotipológicas, uma geração que abarcava professores, alunos, assistentes e colegas de trabalho, como José Schetinni, Levi Miró Carneiro e Aramis Taborda de Athayde – este último, ministro da Saúde em 1954. Uma segunda conclusão possível é que, partindo da direção que aqui foi iniciada, uma abordagem mais ampla contribuiria para pensar numa relação transatlântica de ideias e nas “dimensões espaciais de contato” (Rinke, 2014, p.14-15), na permanência, pelos meios aqui explicitados, da correspondência entre Brasil e Alemanha, um caminho para refletir sobre a noção de “distância” no período entre as duas guerras mundiais.