A morte e os milagres de frei Fabiano de Cristo: conexões entre crenças religiosas e cura de doenças no Rio de Janeiro setecentista

A morte e os milagres de frei Fabiano de Cristo: conexões entre crenças religiosas e cura de doenças no Rio de Janeiro setecentista

Autores:

William de Souza Martins

ARTIGO ORIGINAL

História, Ciências, Saúde-Manguinhos

versão impressa ISSN 0104-5970versão On-line ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.26 no.4 Rio de Janeiro out./dez. 2019 Epub 28-Nov-2019

http://dx.doi.org/10.1590/s0104-59702019000400004

Dentre os habitantes da cidade do Rio de Janeiro que gozavam de fama de santidade no século XVIII, sem dúvida ocupava lugar destacado o religioso franciscano Fabiano de Cristo. Segundo os autores que deram testemunho das atividades do referido frade, Fabiano era natural de Soengas, freguesia de São Martinho, situada na comarca e vila de Guimarães, arcebispado de Braga, em Portugal. Filho de Gervásio Barbosa e de Senhorinha Gonçalves, nasceu a 8 de fevereiro de 1676, dia em que a Igreja católica celebra São João da Mata, fundador da Ordem da Santíssima Trindade ( Vauchez, 2000 , p.1335-1336). Por esse motivo, segundo o cronista franciscano frei Apolinário da Conceição, recebeu o nome de batismo de João Barbosa. Além dele, o casal de lavradores minhotos tinha concebido mais cinco filhas. Quanto ao perfil socioeconômico da família, detinha “medianos cabedais” (Conceição, 1748, p.4; ver também Castro, 1944 , p.7-16; Sinzig, 1928 , p.7-9). Em data incerta, João Barbosa partiu para o Rio de Janeiro, atuando no comércio do caminho das Minas.

Segundo os referidos cronistas, em 1704, quando se encontrava residindo na vila de Paraty, dois acontecimentos influenciaram a entrada do comerciante minhoto na ordem franciscana: a tentação provocada por uma “mulher desonesta”, e a notícia do assassinato de seu sócio comercial. A decisão de ingressar na ordem religiosa fora precedida pela doação de bens materiais que beneficiaram templos situados na localidade de nascimento. A entrada oficial de João Barbosa na ordem franciscana realizou-se a 11 de novembro de 1704, quando ingressou como noviço no Convento de São Bernardino da vila de Angra dos Reis. Após cumprir o período de noviciado, fez a profissão solene no ano seguinte, no dia 12 de novembro, tendo adotado na vida religiosa o nome de Fabiano de Cristo ( Conceição, 1748 , p.4-8; Castro, 1944 , p.28-44; Sinzig, 1928 , p.9-12). No âmbito da Ordem de São Francisco, frei Fabiano ocupava a condição de irmão leigo, responsabilizando-se pela execução de trabalhos manuais nos conventos. Tal nomenclatura era usada para diferenciar os irmãos daquela condição dos clérigos. Os leigos, “por falta de estudos, não podem receber as ordens sacras” ( Castro, 1944 , p.33).

No final de 1705, por determinação do prelado franciscano da província da Imaculada Conceição, frei Fabiano de Cristo foi transferido para o Convento de Santo Antônio da cidade do Rio de Janeiro, que exercia a função de cabeça de toda a província ( Röwer, 1957 , p.47-48). Segundo os cronistas já citados, frei Fabiano de Cristo exerceu por aproximadamente três ou quatro anos a função de porteiro do convento de Santo Antônio. Como revelam os estatutos da província, a escolha de um religioso recém-ingressado para ocupar a portaria conventual era um tanto inusitada, pois: “nunca poderão ser eleitos para porteiros senão religiosos de muita prudência, confiança e virtude; e nas casas grandes serão sempre religiosos que tenham sido prelados, e ao menos sejam confessores de seculares” ( Chagas, 1717 , p.48). Segundo os cronistas, as excepcionais qualidades apresentadas por frei Fabiano levaram os superiores a dispensarem o preceito de idade para assumir o cargo de porteiro ( Castro, 1944 , p.48-49). Além da responsabilidade pela abertura e fechamento da porta conventual, o ofício de porteiro obrigava aqueles que o desempenhavam às práticas caritativas: “com os pobres haja com grande caridade, sendo muito solícito em ajuntar tudo o que puder para a panela, que tem para eles, e a nenhum (podendo ser) despida desconsolado, e quando não haja que lhe dar, com palavras de compaixão lhe satisfaça” ( Ressurreição, 1708 , p.496). De acordo com o cronista franciscano Apolinário da Conceição (1748 , p.16), frei Fabiano repartia com os pobres “não só o que a Comunidade destina para o tal socorro ..., como também a maior parte da sua ração, e tudo o mais que podia adquirir dos devotos para remediar os necessitados”.

Por volta de 1709, frei Fabiano de Cristo foi nomeado enfermeiro do Convento de Santo Antônio do Rio de Janeiro. Dedicou-se à referida função ao longo de 38 anos, até o fim da vida, em 1747 ( Conceição, 1748 , p.10). Eram consideráveis as exigências para ocupar o posto de enfermeiro. Segundo os estatutos, o ministro provincial, a quem cabia a escolha, devia selecionar “religiosos de muita virtude, e caridade e modéstia para este efeito” ( Chagas, 1717 , p.164). A enfermaria do Convento de Santo Antônio não atendia apenas os religiosos desse estabelecimento, mas também os de outros conventos da província:

e porquanto em alguns conventos não se podem os enfermos curar comodamente, ou por falta de cirurgiões, ou de medicamentos necessários, se ordena que os frades do Convento da Ilha Grande, Cabo Frio e de São Boaventura da Vila de S. Antônio de Sá, sendo as doenças perigosas e que necessitem de médicos e cirurgiões, que se venham curar no Convento de S. Antônio ( Chagas, 1717 , p.163-164).

Em 1719, um pouco depois da entrada de frei Fabiano na enfermaria do convento, a província franciscana do Rio de Janeiro contava com 251 frades. Por sua vez, em princípios do século XVIII, havia, somente no convento de Santo Antônio, 120 religiosos, dos quais setenta eram sacerdotes ( Castro, 1944 , p.35-47). Segundo os estatutos da província franciscana do Rio de Janeiro, os enfermeiros dos conventos deveriam zelar também pela salvação das almas dos pacientes que se encontravam sob seus cuidados: “o enfermeiro terá muito particular cuidado e vigilância de mandar confessar e comungar o enfermo à terceira sangria” ( Chagas, 1717 , p.164). Segundo o cronista franciscano que relatou as atividades de frei Fabiano de Cristo, tais recomendações eram pontualmente seguidas por ele: “no tratamento dos enfermos se afervorava a sua caridade, pois na assistência pronto, sem receio da mais contagiosa enfermidade ... e quando via que infalivelmente acabavam da enfermidade presente, recorria ao Tribunal Divino suplicando a Deus desse ao seu enfermo uma feliz morte” ( Conceição, 1748 , p.16-17).

No exercício das atividades de porteiro e, particularmente, de enfermeiro do convento de Santo Antônio, frei Fabiano de Cristo parece ter granjeado certa popularidade entre os devotos do Rio de Janeiro. A crer nas descrições do cronista já citado, os gastos ocorridos na enfermaria do convento eram, pelo menos em parte, sustentados pelos devotos de frei Fabiano: “sei a devoção que todos lhe tinham, tanta que com liberalidade era socorrida e provida a Enfermaria de tudo o necessário, como roupas, alfaias de cama e cozinha, e tudo o mais ainda de Boticas, que todos os anos lhe ia de Lisboa, sem despesa da Comunidade” ( Conceição, 1748 , p.26; 1754, p.591). De modo análogo, “mandado pela obediência a pedir na cidade esmola para alguma precisão de obras, e outra coisa de considerável despesa, valia mais uma saída sua que a de outros religiosos, ainda de graduação maior” ( Conceição, 1748 , p.26).

Após o falecimento, ocorrido no dia 17 de outubro de 1747, chegaram ao conhecimento dos superiores da província da Imaculada Conceição diversos prodígios sucedidos no corpo de frei Fabiano, como também notícias de curas e de outras ocorrências sobrenaturais relatadas por devotos que haviam solicitado a intercessão do religioso franciscano. Diante de tais acontecimentos, frei Domingos do Rosário, visitador-geral da província, nomeou em 3 de março de 1748 a frei José dos Anjos para tirar “com diligência e cuidado informação jurídica e autêntica das maravilhas e favores que Deus com larga mão está fazendo, por intercessão do sobredito seu servo Fr. Fabiano de Cristo, e nomeamos para seu escrivão e notário ao irmão confessor frei Antônio de Santa Catarina de Sena” ( Moraes, 1867 , p.215).

O primeiro objetivo deste artigo é examinar os relatos referentes à morte de frei Fabiano de Cristo, associando-o às concepções devocionais da época, assim como às convenções da narrativa hagiográfica. O segundo e mais importante objetivo do presente texto é analisar os 29 testemunhos fornecidos por diferentes devotos aos freis José dos Anjos e Antônio de Catarina de Sena, apurados posteriormente à morte de frei Fabiano de Cristo. Os referidos testemunhos constituíam peças de um inquérito judicial local (fase informativa) conduzido pelos religiosos franciscanos com a permissão do bispo diocesano, dom frei Antônio do Desterro. Se esse processo ordinário fosse conduzido a bom termo, passaria à jurisdição da Santa Sé em Roma, tornando-se um processo apostólico. Entre 1588 e 1969, este último instrumento jurídico era produzido na Sagrada Congregação dos Ritos, que ouvia novas testemunhas, como também as considerações dos propositores da causa e as rigorosas inquirições do promotor da fé. Se ficasse provado que o “servo de Deus” era portador de “virtudes cristãs em grau heroico ou morreu como mártir, ele ganhava o direito de ser chamado de ‘Venerável’” ( Woodward, 1992 , p.81). Os passos seguintes constituíam o reconhecimento da beatificação e da canonização, ambas controladas pelo papa, e que, para ter validade, dependiam do reconhecimento de milagres obtidos pela intervenção do servo de Deus ( Ditchfield, 2007 , p.201-224; Po-Chia Hsia, 2005 , p.127-143; Weinstein, Bell, 1982 , p.141-150).

No caso de frei Fabiano de Cristo, não há informações a respeito da existência do processo apostólico. Existem apenas os 29 testemunhos citados, que presumivelmente formariam o embrião do processo ordinário para o reconhecimento da santidade. Os 29 testemunhos arrolados pelos dois religiosos franciscanos após a morte de frei Fabiano; a patente por meio da qual ambos foram nomeados pelo visitador-geral da província da Imaculada Conceição; e dois documentos, assinados pelas maiores autoridades no Rio de Janeiro na ocasião, o governador Gomes Freire de Andrada e o bispo diocesano dom frei Antonio do Desterro, foram registrados em primeiro lugar no livro do tombo do convento de Santo Antônio. Uma cópia completa das referidas fontes foi realizada no século XIX por Alexandre José de Mello Moraes, que serviu de base à análise (Moraes, 1867, p.214-263; 1868, p.23-150). Cópias parciais de alguns documentos, particularmente a patente de nomeação e as atestações do governador e do bispo, foram também compiladas por outros cronistas ( Conceição, 1754 , p.598-599; Macedo, 2004 , p.239-242; Sinzig, 1928 , p.30-41; Castro, 1944 , p.181-189).

Apenas uma parte da documentação citada foi explorada pela historiografia recente que se debruçou sobre a trajetória de frei Fabiano de Cristo, articulando-a às crenças religiosas do período ( Mott, 1993 , p.226-236; Oliveira, 2011 , p.45-68). Não obstante, é importante salientar que os dois autores citados não tinham como objetivo específico analisar a morte e os milagres de frei Fabiano. Por sua vez, à exceção dos estudos relativos ao padre jesuíta José de Anchieta, canonizado pela Igreja católica em 2014 ( Viotti, 1996 ; Fleck, 2015 ), as análises sobre servos de Deus que morreram com fama de santidade na América portuguesa pouco utilizaram os processos ordinários ou apostólicos. A documentação constituída pelos 29 testemunhos que referem supostos milagres operados pela intercessão de frei Fabiano de Cristo constituem um acesso privilegiado para analisar as relações entre as crenças religiosas e a cura de doenças, no período colonial. A referida articulação foi observada de modo geral nas pesquisas de Márcia Moisés Ribeiro (1997) . Por sua vez, os estudos de Vera Regina Beltrão Marques (2003 , p.163-195) e de Márcio de Sousa Soares (2001 , p.407-438) relacionam a prática de cura das doenças à devoção aos santos, mas focalizando em cultos já oficialmente reconhecidos pela Igreja. Próximo dos temas aqui abordados, pode ser referido o artigo de Jorge Victor de Araújo Souza (2013 , p.537-552), a respeito das doenças e dos rituais de morte ocorridos no Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro, no período colonial.

Em síntese, a partir da análise dos 29 testemunhos de supostos milagres aparecidos após a morte de frei Fabiano de Cristo, e de outras fontes secundárias que ser referidas em seu tempo, espera-se constituir um breve quadro das moléstias passíveis de ser curadas graças à intercessão do servo de Deus em questão ou com o recurso a suas relíquias, segundo as crenças religiosas da época.

Caracterização das fontes

Não é possível dar prosseguimento à análise sem antes detalhar as fontes que serviram de base à reconstituição da trajetória de frei Fabiano de Cristo e dos supostos milagres ocorridos após a sua morte. Até aqui, os autores de tais fontes têm sido identificados como cronistas, mas tal classificação é insuficiente aos propósitos deste trabalho. Daí a importância de contextualizar a produção dos diferentes discursos a respeito do religioso franciscano falecido em 1747. Dentre as diferentes fontes, destaca-se a obra de frei Apolinário da Conceição (1692-1760), religioso franciscano leigo, isto é, que não tinha recebido a ordem sacerdotal, à semelhança de frei Fabiano de Cristo. Ainda que estivesse habilitado somente ao exercício de ocupações manuais e humildes, frei Apolinário destacou-se na atividade de cronista da província franciscana da Imaculada Conceição do Rio de Janeiro, atividade para a qual foi oficialmente nomeado em 1740 ( Palomo, 2014 , p.111-137). Na vasta obra de frei Apolinário, recorrer-se-á mais diretamente a dois livros, que abordam as atividades de frei Fabiano: Eco sonoro da clamorosa voz ( Conceição, 1748 ), e Pequenos na terra, grandes no céu: memórias históricas dos religiosos da Ordem Seráfica, que no humilde estado de leigos subiram ao mais alto grau de perfeição ( Conceição, 1754 , p.588-609).

Como indica o subtítulo da segunda obra citada, frei Apolinário da Conceição estava preocupado em destacar os feitos gloriosos de religiosos leigos, entre os quais aqueles pertencentes à província da Imaculada Conceição do Rio de Janeiro, lugar de sua vinculação institucional. Nesse sentido, os dois escritos aludidos estão pautados pela lógica da narrativa hagiográfica, isto é: não são biografias no sentido contemporâneo, mas “vidas” de homens que morreram com fama de santidade ( Fernandes, 1999 ). Desde o nascimento, frei Fabiano de Cristo e outros frades franciscanos são mencionados como se estivessem destinados a se tornar santos. Desde os princípios do cristianismo, as narrativas das vidas de santos seguem convenções muito definidas e estereotipadas, para as quais serviu de modelo a vida do próprio Cristo ( Vauchez, 1989 ; Sánchez Lora, 1988 ). Assim, na maior parte das vidas de santos, existe um momento marcado pela “conversão” do servo de Deus que, nas narrativas a respeito de frei Fabiano, corresponde aos episódios da tentação dirigida por uma mulher e do assassinato do sócio comercial. As duas tentações podem ser vistas como exempla . A partir do século XIII, as narrativas de vidas de santos incorporaram um gênero distinto, o exemplum , que, surgido nos sermões pregados nas cidades pelas ordens mendicantes, pode ser definido como uma pequena narrativa edificante, tida como verossímil e próxima da oralidade, destinada a persuadir a audiência de fiéis ( Franco Jr., 2006 , p.13-14; Schmitt, 1999 , p.144). A partir da conversão, a vida dos servos de Deus se torna uma sucessiva coleção de feitos maravilhosos.

Os dias do servo de Deus terminam com uma morte gloriosa, ou melhor, representam a vitória da vida sobre a morte, cujos indícios são o cheiro agradável que emana do cadáver, a flexibilidade do corpo e os contínuos milagres operados a partir da intermediação do servo de Deus, ou com o uso de suas relíquias. No caso dos relatos acerca de frei Fabiano publicados por frei Apolinário da Conceição, é notável a proximidade das datas de publicação das duas obras que dedicou a ele – 1748, Eco sonoro , e 1754, o quinto volume de Pequenos na terra – com relação ao falecimento do servo de Deus (outubro de 1747), em um contexto marcado pelas restrições à atividade de impressão. Esse dado realça a estratégia de promoção da santidade de frei Fabiano de Cristo, cujo reconhecimento formal poderia ser obtido a partir da abertura de um processo apostólico de beatificação, fato ainda não ocorrido até os dias de hoje ( Menezes, 2004 , p.193). Em síntese, ainda que os relatos de Apolinário da Conceição constituam fontes insubstituíveis para o conhecimento das atividades de frei Fabiano de Cristo, é necessário levar em conta que atendem à clara intenção de promover o culto do dito servo de Deus.

O mesmo procedimento pode ser encontrado nos cronistas franciscanos que referiram, no século XX, a trajetória de frei Fabiano de Cristo. Durante o período colonial, as relações entre a monarquia portuguesa e a Igreja católica foram pautadas pelo regime do padroado, marcado pelo caráter oficial do catolicismo e pelo compromisso régio em expandir e sustentar materialmente a religião católica ( Marcocci, 2012 , p.369-453). A partir do reinado de dom José I (1750-1777), uma série de medidas alteraram as diretrizes da referida relação. Na segunda metade do século XIX e princípios do século XX, aparentemente havia caído no esquecimento a devoção a frei Fabiano de Cristo, em um contexto marcado pelo fechamento dos noviciados ao ingresso de novos religiosos, ditado pela autoridade monárquica e, em decorrência disso, pela utilização do Convento de Santo Antônio para acomodar o sétimo Batalhão de Infantaria do Exército ( Röwer, 2008 , p.193). Com o início da República e o término do regime do padroado, a província da Imaculada Conceição foi restaurada e pôde receber novos religiosos. Nesse contexto é que ocorreu, em fevereiro de 1924, a descoberta do túmulo do servo de Deus Fabiano de Cristo ( Castro, 1944 , p.208-209). No mesmo ano, apareceu a primeira edição do relato de frei Pedro Sinzig acerca de frei Fabiano, cujo exemplar não se pôde consultar, sendo utilizada apenas a segunda edição (Sinzig, 1928). Em 1930, foi estampada a primeira edição da obra do franciscano João José Pedreira de Castro, que foi consultada na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, apresentando poucas diferenças em relação à edição de 1944 ( Castro, 1944 ). As duas obras mencionadas articulam-se quanto ao objetivo de promover novamente a causa de frei Fabiano de Cristo, recolhendo para tanto informações atualizadas acerca de curas milagrosas operadas pelo servo de Deus ( Sinzig, 1928 , p.51-65; Castro, 1944 , p.211-214). Todas as fontes aqui referidas devem ser lidas a partir de uma perspectiva muito crítica, pois, além da adoção dos códigos da escrita hagiográfica, tais obras foram produzidas a partir de iniciativas institucionais, sendo os seus autores membros da própria Ordem de São Francisco, interessados diretamente na promoção do culto a frei Fabiano de Cristo.

O último conjunto de fontes que será aqui mencionado é constituído pelos 29 testemunhos de curas e de outros fatos milagrosos apurados no Rio de Janeiro em 1748, poucos meses depois da morte de frei Fabiano de Cristo. Diferentemente das convenções da escrita hagiográfica presentes nos cronistas que narraram a vida do religioso franciscano, os depoimentos dados aos frades José dos Anjos e Antônio de Santa Catarina de Sena pautavam-se por formulários jurídicos. Cada testemunha era perguntada sobre sua condição ou ocupação, local de moradia e idade. Após jurar com a mão direita sobre os evangelhos, era perguntada “se sabia que Nosso Senhor tivesse concedido a alguém alguma mercê, por intercessão do seu servo, Fr. Fabiano de Cristo”. Depois do relato do benefício milagroso recebido por intermédio do servo de Deus, a testemunha era em geral perguntada “se depois de invocar em seu socorro ao servo de Deus, se lhe tinham aplicado remédios naturais, contrários ao achaque”. Outra pergunta que vinha em seguida era se tinha invocado a intercessão de algum outro santo, mediante promessa e, em decorrência disso, obtido a cura da doença. Os religiosos indagavam também se a doença tinha procedido de malefícios ou da presença do demônio ( Moraes, 1867 , p.216). Articuladas entre si, essas três perguntas buscavam identificar se efetivamente frei Fabiano de Cristo podia ser considerado o intercessor da cura milagrosa, afastando outros potenciais agentes. A testemunha era também indagada se conhecia alguém que soubera da ocorrência do referido milagre, e se tinha conhecimento de outros benefícios operados pelo servo de Deus. No final, o depoimento era lido em voz alta a cada testemunha, e esta, se soubesse escrever, assinava o termo jurídico. Em síntese, o conjunto dos 29 testemunhos fornecem diferentes informações sobre as curas milagrosas sob o patrocínio de frei Fabiano de Cristo, ocorridas entre os dias 11 de março e 5 de julho de 1748.

A morte de frei Fabiano

Uma vez que as curas milagrosas obtidas por intercessão de frei Fabiano ocorreram após a sua morte e, em muitos casos, com o recurso a relíquias constituídas por objetos que tinham sido de sua posse, é necessário analisar os desdobramentos deste último momento para melhor compreender os padrões daquelas curas. Segundo o relato de Apolinário da Conceição (1748 , p.24), frei Fabiano de Cristo padecera por cerca de quarenta anos de erisipela, a qual lhe originara grande inchação nas pernas, entre outros sintomas: “continuou sempre o primeiro achaque com muitas dores e formidável inchação, muito mais depois que os humores lhe fizeram na direita uma grande e horrorosa chaga, e tão copiosa purgação que era preciso de hora a hora estar a mudar e ensopar panos daquele tenaz humor”. Ainda de acordo com o mesmo relato, o mal da erisipela parece ter sido a causa da morte do servo de Deus: “das pernas lhe subia a malignidade ao ventre; e o sufocava e punha nos últimos extremos da vida” ( Conceição, 1748 , p.24). A referência ao sofrimento contínuo de doenças por muitos anos constitui um elemento relativamente comum dos relatos hagiográficos do período, revelando que era um dos sinais por que se reconhecia a santidade.

Uma das principais características de uma morte considerada santa consistia na flexibilidade e nas cores do cadáver, cuja aparência assemelhava-se à de um corpo vivo ( Delooz, 2000 , p.192-200). Os religiosos do convento de Santo Antônio foram os primeiros a verificar as referidas qualidades no corpo de frei Fabiano, no dia 17 de outubro de 1747, quando faleceu. No dia seguinte ao da morte, dois doutores em medicina, o presbítero Manoel de Andrada Góes e Antônio Antunes de Menezes, fizeram um exame mais detalhado no corpo. Examinaram

a flexibilidade do cadáver, registraram a chaga da cintura mais notável ..., a horrorosa em vida na perna direita, que quando animada brotava humor fétido, agora se via aprazível e muito encarnada, vertendo sangue líquido e cheiroso, como bálsamo odorífero ... cujas circunstâncias reconhecidas destes exímios doutores as contestaram como sobrenaturais, sendo o Reverendo Padre Andrada o primeiro que na chaga da perna tocou com as suas contas ( Conceição, 1748 , p.34).

A santidade era vista na Idade Média como uma espécie de energia que emanava do corpo ( virtus ). Os principais signos que a identificavam eram a flexibilidade do cadáver, sua incorruptibilidade e as fragrâncias odoríferas que emanava ( Vauchez, 1997 , p.427-433). Conforme comentado, as duas maiores autoridades do Rio de Janeiro, o governador Gomes Freire de Andrada, que era um particular devoto de frei Fabiano de Cristo, e o bispo dom frei Antônio do Desterro, presentes ao momento de sepultamento, também confirmaram em declarações oficiais o aspecto prodigioso assumido após a morte pelo corpo do servo de Deus ( Moraes, 1867 , p.214-215; Conceição, 1754 , p.598-599; Sinzig, 1928 , p.30-34). Ainda que a legislação eclesiástica exigisse que a ocorrência de milagres fosse confirmada pela autoridade médica, é patente no referido contexto que a autoridade se encontrava mergulhada em crenças devocionais ( Gélis, 2010 , p.70-71). Não obstante, a obrigação do exame médico dos corpos nos processos ordinários e nos de canonização representava uma novidade no Período Moderno.

Compareceram muitos devotos às cerimônias fúnebres realizadas para frei Fabiano bem como ao sepultamento. Segundo o principal relato, os moradores da cidade ocuparam toda a extensa ladeira do convento de Santo Antônio. Os religiosos, que cuidavam do cadáver, distribuíam contas, medalhas e enxugavam “em lenços o sangue da chaga da perna” do servo de Deus. Além desses objetos, quaisquer outros relacionados a frei Fabiano de Cristo, ou que tivessem mantido contato com seu corpo, eram disputados pelos fiéis. Três hábitos que revestiam o corpo foram consumidos pelos devotos, que guardavam como relíquias os pedaços das vestes. Além disso, foram também extraídos do corpo “os cabelos da cabeça e cortado também um dedo do pé”. Para evitar que ocorressem maiores excessos, os religiosos determinaram o sepultamento imediato do respectivo corpo ( Conceição, 1748 , p.37). Desde os princípios do cristianismo, a crença no poder das relíquias foi um dos aspectos mais importantes do culto aos santos, cujo nascimento ocorreu justamente a partir das peregrinações feitas pelos fiéis aos túmulos dos mártires ( Vauchez, 1989 ; Geary, 1990 ). Ao longo da Idade Média, quando a experiência do martírio se tornou mais rara, o modelo ascético e o ideal da imitação de Cristo se tornaram vias mais frequentes para o reconhecimento da santidade, características que se estenderam ao Período Moderno.

De forma análoga, a lenta e gradual preparação para o último momento caracterizou o ideal da boa morte no Período Moderno. Segundo Cláudia Rodrigues (2005 , p.56-57), “esse impulso na concepção que valorizava a vida piedosa e o bem viver como garantia para o ‘bem morrer’ expressou-se no grande salto do índice das publicações de manuais de preparação para a morte”. Frei Fabiano de Cristo não foi o único religioso do Convento de Santo Antônio a falecer em “odor de santidade” e a ter as suas relíquias procuradas pelos fiéis. O principal cronista da província da Imaculada Conceição do Rio de Janeiro refere outros religiosos capuchos que mereceram as referidas homenagens. Assim ocorreu com frei Estêvão de Jesus, que professou em 1658, vindo a falecer em 1687. Durante vários anos, ocupou também o ofício de enfermeiro do convento. No dia de sua morte, os devotos “cortaram o primeiro hábito em bocadinhos, que com muita consolação levavam. Ao segundo [hábito] que lhe vestiram iam fazendo o mesmo. A que acudiram os religiosos, enterrando-o com toda a pressa; mas não se livraram com toda ela de o enterrarem já sem ele até os joelhos” ( Conceição, 1972 , p.104 – primeira edição de 1730; ver também Freitas, 1931 , p.22). Outro religioso franciscano cuja morte ocorreu em condições semelhantes foi Antônio de São Gregório, conhecido vulgarmente por Antônio Capareiro, que professou na ordem em 1676, vindo a falecer em 1732. Por ocasião da morte, “ficou seu corpo flexível e tratável em seus membros”. De forma análoga, “não faltou ainda gente, que cortando-lhe do hábito partículas, deixaram o corpo sem ele, passando a cortar-lhe os cabelos da cabeça, e panos menores; a que acudindo a Comunidade se lhe vestiu de novo hábito, e o sepultaram” ( Conceição, 1738 , p.418). A fama de santidade de frei Antônio Capareiro levou aliás a província a elaborar uma inquirição de testemunhas após a morte do religioso, para apurar supostos milagres verificados a partir da sua intercessão (p.412).

As informações apresentadas acima permitem inserir a morte de frei Fabiano de Cristo no interior de um quadro coletivo, que abrangia não somente outros religiosos capuchos (franciscanos reformados), mas também alguns dos principais modelos de santidade da Reforma Católica, como santa Rosa de Lima, a primeira santa nascida nas Américas, falecida em 1615 e canonizada em 1671 ( Graziano, 2004 ). Para melhor compreender as curas, supostamente milagrosas, operadas por frei Fabiano de Cristo, é necessário aproximá-lo também de outros padrões coletivos existentes no contexto em que viveu. Para esse efeito, serão feitas algumas considerações metodológicas e teóricas.

Conceitos, metodologia e hipótese

Para começar a discussão, é fundamental esclarecer o conceito de santidade utilizado no presente texto. Para os objetivos da pesquisa, pareceu particularmente adequada a definição ampliada associada ao referido conceito pelo sociólogo da religião Pierre Delooz (1983 , p.193) que, indo além da concepção canônica ou institucional, alude ao contexto social e cultural:

Confinando-nos à oficial noção do santo católico – uma pessoa que a Igreja venera com um culto oficial – nós não esquecemos que a santidade é um valor que vai além dessa aplicação particular ... Nesse sentido mais amplo, santidade é observada como um valor. Para o sociólogo, então, como todos os outros valores ele está situado nas representações coletivas e deve ser expresso em sistemas de conduta ou comportamento, associado dentro de uma dada rede de relações sociais.1

Outra análise importante do mesmo autor é a conclusão de que a santidade existe somente em função do reconhecimento de outras pessoas. Assim, “todos os santos são mais ou menos ‘construídos’ porque, sendo necessariamente santos ‘para outras’ pessoas, eles são remodelados na representação coletiva que deles é feita” ( Delooz, 1983 , p.195; destaques no original). Tanto as narrativas de cunho hagiográfico a respeito de frei Fabiano de Cristo quanto os depoimentos das testemunhas que alegavam ter o conhecimento de curas milagrosas constituem vestígios de um processo social e cultural de construção da santidade.

Em outra obra, em que trabalha com mais de duzentos processos de beatificação e de canonização desde o início do funcionamento da Sagrada Congregação dos Ritos, em 1588, Pierre Delooz traz contribuições ainda mais importantes para o estudo da articulação entre milagres e cura de doenças. Nos séculos XVII e XVIII, o êxito da beatificação ou da canonização dependia cada vez mais de que a existência dos milagres fosse confirmada por um juízo profano, elaborado pelo saber médico, que, a partir de critérios científicos, afastasse qualquer explicação racional sobre os benefícios produzidos pelos servos de Deus. Nos processos trabalhados pelo autor, a maior parte dos milagres assim confirmados é constituída por curas milagrosas. Quanto a estas últimas, a maior parte foi obtida pela aposição, sobre o enfermo, de uma imagem ou de uma relíquia do candidato à beatificação ou à canonização. De acordo com Jacques Gélis (2010 , p.98), “o culto das relíquias se baseia na possível transferência da sacralidade do corpo do santo para o devoto”. Além disso, muitas curas milagrosas foram também obtidas invocando-se o nome do servo de Deus que intermediava a operação ( Delooz, 2000 , p.20-59). Tanto a utilização das relíquias quanto a prática das invocações constituem elementos claramente aludidos pelas testemunhas que declararam ter presenciado milagres obtidos pela intercessão de frei Fabiano de Cristo, como pode ser visto na Tabela 1 .

Tabela 1 : Perfil das doenças curadas por intercessão de frei Fabiano de Cristo (1748) 

Beneficiário Descrição da moléstia Uso de relíquias de frei Fabiano Invocação a frei Fabiano Promessas feitas a frei Fabiano
Teresa de Jesus Fluxo de sangue Não Sim Rezar todos os dias parte de suas contas pela sua alma.
João de Moraes Leal Dor que oprimia o peito e o ventre, quando ingeria alimentos. Sim. Lenço umedecido na chaga que o frade trazia na perna. Fita que cingia a perna do frade. Não Não
Manoel Gonçalves Loureiro Impingem próxima aos olhos Sim. Retalho do hábito do frade. Sim Sim. Prometeu ser pregoeiro das virtudes do servo de Deus.
João Batista de Souza Flato hipocondríaco na boca do estômago Sim. Rosário de uso pessoal que tinha tocado o corpo do frade, no sepultamento. Não Não
Joana, nação Benguela Pleuris, com forte inchação no braço e no peito direitos Sim. Pano com que o servo de Deus curava a sua perna. Dedal que servira ao mesmo frade. Não Não
Filha de Luiza Josefa de Grinalda e de Manoel de Souza de Andrade Impingem na face Sim. Fragmento do hábito Sim. “Frei Fabiano, se vós sois santo, mostrai aqui o seu milagre”. Não
Manoel Álvares de Souza Flato colérico e hipocondríaco na parte direita do corpo, que o deixava paralisado Não Sim. Pediu ao servo de Deus remédio para a sua enfermidade. Não
Inácia da Encarnação Dor de madre Sim. Para curar-se bebeu água passada por uma relíquia do hábito do servo de Deus. Sim. Pediu-lhe saúde. Sim. Prometeu uma missa pela alma do servo de Deus e um retrato em que manifestasse a maravilha.
Francisco Muniz de Albuquerque Rigorosas sezões, por espaço de 16 dias Sim. Bordão que o servo de Deus usou em vida. Sim Sim. Prometeu-lhe duas missas pela alma.
João Rodrigues dos Reis Carnosidade que o impedia de urinar sem utilizar a tenta Sim. No dia do sepultamento, levou a sua tenta e a mandou tocar na perna onde havia a chaga. Não Não
Manoel Ferreira Maciel Impedimento de urinas causado por duas pedras que se lhe atravessaram na via Sim (não especificada) Sim Não
Sebastiana, parda Dor de madre, veemente Sim. Bebeu com um pouco de água uma parte da relíquia do hábito do servo de Deus. Não Não
Ana, crioula Febre contínua Não Sim O senhor e testemunha, Amaro Teixeira Machado, prometeu uma missa pela alma do servo de Deus.
Gonçalo Sarampo, sezões e um grande catarrão Não Sim O pai, Manoel da Silva Santos, e Gonçalo prometeram fazer notório o milagre em um painel.
Francisco Indeterminada. A moléstia o deixava com a língua fria Sim (não especificada). Foi bebida com um pouco de água. Não Não
Francisco Rodrigues da Cruz Privação dos sentidos de audição, olfato e paladar Não Sim Prometeu manifestar-lhe o prodígio. Deu ao servo de Deus o prazo de um dia para curar-se.
Manoel de Souza Lobo Tísica, que lhe gerava contínuos suores Sim. Lenço rubricado com o sangue da chaga da perna do servo de Deus. Sim Prometeu uma esmola para a enfermaria onde o servo de Deus fora enfermeiro.
Catarina, preta Retenção de urinas por espaço de três dias, que lhe intumesceu o ventre Sim. Água do púcaro que servia em vida ao servo de Deus. Não Não

Fonte: Moraes (1867 , p.214-263; 1868, p.23-150).

Na América portuguesa de meados do século XVIII, as fronteiras entre práticas médicas, crenças religiosas e concepções mágicas eram marcadamente tênues. Tal como na Europa de princípios do Período Moderno, o corpo humano era concebido como um microcosmo aberto às influências externas de uma ordem cósmica mais ampla ( Laqueur, 2001 , p.151-159; Santos, São Bento, 2015 ). Uma vez que “o homem era um microcosmo, um resumo do universo, que possuía dentro de si as mesmas qualidades essenciais da natureza”, tornava-se factível remediar as doenças “com elementos vindos do próprio homem ... significava devolver-lhe os princípios da vida e da saúde” ( Ribeiro, 1997 , p.75). Conforme salienta essa autora, constituía prática corriqueira utilizar fragmentos de corpos de defuntos para reabilitar corpos doentes. Do sistema de correspondências entre o macro e o microcosmo derivava uma série de relações analógicas, presente até em tratados médicos da época, como o Erário mineral (1735), do cirurgião Luís Gomes Ferreira. Este observava, para obter a cicatrização de feridas, “a eficácia de determinados pós medicinais postos sobre panos embebidos no sangue derramado” ( Ribeiro, 1997 , p.79). No contexto descrito, a crença no poder curativo dos santos e da Virgem mantinha-se como uma crença inabalável. No que tange à última, deve-se mencionar a obra do padre Ângelo de Siqueira, a Botica preciosa, e tesouro precioso da Lapa (1754). Com relação aos poderes terapêuticos dos santos, pode-se referir, por exemplo, a obra do padre Luiz Cardoso, a Revista universal ou breve notícia dos santos especiais advogados contra os achaques, doenças, perigos e infortúnios, publicada em 1727 ( Marques, 2003 , p.179-180). Desde pelo menos o início do Período Moderno, os fiéis atribuíam a santos específicos poderes curativos mais eficazes sobre certas doenças, originando-se assim uma especialização terapêutica entre os advogados celestes ( Christian Jr., 1981 ).

É no âmbito do referido quadro de práticas e de concepções médicas e devocionais que podem ser compreendidas os benefícios curativos obtidos a partir da intercessão de frei Fabiano de Cristo. Como já foi discutido, o referido frade não foi o único no contexto em questão a se destacar como taumaturgo. Não obstante, a proximidade que havia entre crenças religiosas e práticas médicas criava condições propícias para que o religioso enfermeiro do convento de Santo Antônio fosse lembrado, após a morte, como intermediário para a obtenção de curas milagrosas. A relação descrita era tão forte, que outro religioso enfermeiro do convento, frei Estêvão de Jesus, como já foi visto, teve também as respectivas relíquias disputadas por devotos no momento do falecimento, embora as fontes silenciem a respeito de curas efetuadas com o recurso àqueles objetos. Um cronista do convento de Santo Antônio observou, aliás, que frei Estêvão foi o “precursor” de frei Fabiano de Cristo ( Röwer, 2008 , p.69). Em ambos os casos, a ação caritativa e religiosa dos enfermeiros, conseguindo curas por vezes difíceis e consolando os doentes até os últimos momentos da vida, parece ter preparado o terreno para os tornar, no post mortem , potenciais intermediários para a cura de doenças. A acreditar nos relatos de frei Apolinário da Conceição, o exercício de tais virtudes foi particularmente destacado no caso de frei Fabiano de Cristo. Em certo sentido, pode-se afirmar que a atividade de enfermeiro produziu um santo para os fiéis, cuja percepção foi remodelada pela narrativa hagiográfica e confirmada a partir das curas realizadas após a morte do servo de Deus.

Uma vez esboçada a principal hipótese desta investigação, deve-se detalhar a metodologia que será aplicada à análise das 29 testemunhas que corroboraram os feitos milagrosos de frei Fabiano de Cristo. A partir dos dados do processo jurídico ordinário realizado após a morte do frade, foram montadas tabelas descrevendo o perfil de cada testemunha bem como o padrão das moléstias que foram objeto de cura. Após a composição das tabelas, serão detalhados o modo como o servo de Deus foi invocado como agente intercessor da cura e também o uso que foi feito das respectivas relíquias. Uma vez feita a referida análise, serão comparadas as curas milagrosas efetuadas por frei Fabiano com aquelas registradas para o servo de Deus Antônio de São Gregório, também registradas pelo cronista Apolinário da Conceição.

Tipologia das testemunhas, dos beneficiários e das moléstias curadas

O perfil das testemunhas e dos beneficiários encontra-se mapeado na Tabela 2 . As testemunhas depuseram perante os dois religiosos franciscanos que conduziam o processo ordinário entre os dias 11 de março e 5 de julho de 1748. A maior parte dos benefícios e das curas milagrosas tinha ocorrido no ano anterior, quando a morte de frei Fabiano de Cristo se encontrava fresca na memória dos depoentes. Em alguns casos, as próprias testemunhas foram beneficiadas com milagres e outros prodígios. Abordagens recentes têm destacado o papel dos mediadores de milagres, isto é, indivíduos que tinham acesso e manipulavam as relíquias, e que assumiam um papel ativo nos processos de cura milagrosa ( Archambeau, 2017 ). Testemunhas referidas no processo ordinário podem ser vistas como praticantes de cura (ver Tabelas 1 e 2 ). Por vezes, algumas testemunhas mencionaram nos respectivos depoimentos outras pessoas que haviam presenciado os milagres, que, em alguns casos, foram chamadas também a depor. Do total das 29 testemunhas, 17 (58,6%) eram homens, e 12 eram mulheres. No interior de cada subconjunto, há uma diferença significativa de grau de instrução. Assim, das 12 mulheres que depuseram, somente quatro assinaram o próprio termo. O restante, “por não saber escrever”, teve o respectivo termo assinado pelo notário, o frei Antônio de Santa Catarina de Sena, exceto Rosa Maria de Jesus, que pediu que o marido assinasse seu depoimento. Para o grupo dos homens, a situação é inversa: apenas Amaro Teixeira Machado não assinou o próprio relato. Entre os depoentes, constavam dois sacerdotes e dois licenciados, que possuiriam maior instrução que as demais testemunhas. Quanto ao perfil socioeconômico, não é possível extrair muitos dados. Duas aparecem como donas, título característico daquelas mulheres cujos maridos haviam recebido mercês honoríficas ou exercido cargos na vereança ou na milícia local ( Silva, 2002 , p.95-96). Por sua vez, Francisco Muniz de Albuquerque pode ser inserido na nobreza da terra, pois ocupava a função de vereador na Câmara Municipal.

Tabela 2 : Perfil das testemunhas que depuseram no processo ordinário realizado após a morte de frei Fabiano de Cristo (1748) 

Número da testemunha Nome da testemunha Estado/ ocupação Residência Alfabetização Idade (anos) Nome do beneficiário do milagre Estado/ocupação do beneficiário Condição do beneficiário Idade (anos) Relação entre beneficiário/ testemunha
1 Teresa de Jesus Viúva pobre Rua de Nossa Senhora do Parto Não 24 Teresa de Jesus - - - -
2 Isabel Marques Pereira - Rua da Ajuda Não 50 Teresa de Jesus - - - Assistiu a dita em sua casa
3 João de Moraes Leal Casado, oficial de alfaiate Rua de Nossa Senhora do Rosário Sim 33 João de Moraes Leal - - - -
4 Bernarda dos Santos da Silva Casada Rua de Nossa Senhora do Rosário Não 24 João de Moraes Leal - - - Mulher do dito
5 Francisco de Sales e Souza Solteiro, trata de seu negócio Rua do Cano, fora dos muros da cidade Sim 33 Eusébio, crioulo Oficial de alfaiate Escravo, provavelmente - Escravo da testemunha
6 Manoel Gonçalves Loureiro Casado, ajudante de auxiliares Rua do Cano, dentro dos muros Sim 61 Manoel Gonçalves Loureiro - - - -
7 João Batista de Souza Casado Rua da Ajuda Sim 47 João Batista de Souza - - - -
João Batista de Souza Casado Rua da Ajuda Ver acima 47 Joana, nação benguela - Escrava - Escrava da testemunha
8 Maria Luiza da Conceição Casada Rua da Ajuda Sim 56 Joana, nação benguela - Escrava - Escrava da testemunha
9 Luiza Josefa de Grinalda, dona Casada Rua dos Pescadores Sim 23 Filha anônima - - 3 meses Filha da testemunha
10 Manoel de Souza de Andrade Casado, ajudante de cavalaria Rua dos Pescadores Sim 50 Filha anônima - - 3 meses Filha da testemunha
11 Manoel Álvares de Souza Casado, licenciado, cirurgião aprovado R. da Ajuda Sim 43 Manoel Álvares de Souza - - - -
12 José de Faria Casado, oficial de pintor Vila de Santo Antônio de Sá de Cacerebu Sim 39 Manoel Álvares de Souza - - -
13 Inácia da Encarnação Solteira Rua da Vala Não 30 Inácia da Encarnação - - - -
14 Luzia Maria de Anchieta Viúva Rua da Vala Não 60 Inácia da Encarnação - - - Mãe da beneficiária
15 Francisco Muniz de Albuquerque Casado, vereador da Câmara Rua detrás do Hospício da Conceição dos Pardos Sim 44 Francisco Muniz de Albuquerque - - - -
16 Maria Pimenta de Menezes, dona Casada Rua detrás do Hospício da Conceição dos pardos Sim 44 Francisco Muniz de Albuquerque - - - Mulher do beneficiário
17 João Rodrigues dos Reis Solteiro Rua Direita, de São José para a Misericórdia Sim 46 João Rodrigues dos Reis - - - -
18 Manoel Ferreira Maciel Casado, vive de suas lavouras Araruama, distrito de Cabo Frio Sim 48 Manoel Ferreira Maciel - - - -
19 Maria da Assunção Casada Araruama, distrito de Cabo Frio Não 46 Manoel Ferreira Maciel - - - Mulher do beneficiário
20 Maria de Souza Viúva R. de Nossa Senhora do Rosário Não 50 Sebastiana, parda - Escrava - Escrava da testemunha
21 Amaro Teixeira Machado Casado, marchante Travessa da Cadeia Não 38 Ana, crioula - Escrava 3 Escrava da testemunha
22 Manoel da Silva Santos Casado, trata de seu negócio Rua de Santo Antônio Sim 33 Gonçalo - - 7 Filho da testemunha
23 Rosa Maria de Jesus Casada Rio de Aguassu Não 40 Francisco Oficial de carpinteiro Escravo de Bento Coelho - -
24 Luiz da Mota Leite Padre Rua Direita Sim 45 Francisco Oficial de carpinteiro Escravo de Bento Coelho - -
25 Francisco Rodrigues Cruz Casado, oficial de alfaiate Beco de Gaspar Gonçalves, junto a Santa Rita Sim 33 Francisco Rodrigues Cruz - - - -
26 Manoel de Souza Lobo Solteiro, vive de sua agência Rua da Ópera dos Vivos Sim 43 Manoel de Souza Lobo - - - -
27 Boaventura Dias Lopes Solteiro, licenciado, com seu negócio Rua da Ópera dos Vivos Sim 38 Manoel de Souza Lobo - - - -
28 Pedro Nolasco Padre, clérigo in minoribus Prainha, junto à capela de São Francisco Sim 48 Narciso, crioulo - Escravo - Escravo da testemunha
29 Caetana Maria da Conceição Casada Rua de Marcos da Costa Sim 30 Catarina, preta - Escrava - Escrava de Ana dos Santos, mãe da testemunha

Fonte: Moraes (1867 , p.214-263; 1868, p.23-150).

As 29 testemunhas produziram informações para vinte casos de intercessão com resultados extraordinários, realizados pelo servo de Deus. Dos vinte indivíduos beneficiados, em 18 casos foram reportadas curas milagrosas, enquanto dois casos, correspondentes às testemunhas 5 e 28, dizem respeito à recuperação de escravos fugidos. A historiografia tem argumentado que alguns advogados celestes, particularmente Santo Antônio, eram procurados pelos devotos com vistas à recuperação de cativos desaparecidos ( Mott, 1996 , p.127-129; Vainfas, 2003 , p.28-37). Uma vez que o foco do presente texto é a ligação entre a devoção e a cura de doenças, não serão aqui detalhados os dois casos de fugas de escravos.

Tratando assim somente das 18 curas milagrosas atestadas por diferentes testemunhas no processo ordinário, 11 (61,1%) envolvem benefícios extraordinários concedidos a homens, e sete a mulheres. Esse perfil difere daquele encontrado por Pierre Delooz que, trabalhando com uma base de dados muito maior, levantou 1.091 pessoas beneficiadas por milagres em aproximadamente duas centenas de processos de beatificação e canonização. Do referido total, cerca de 65% correspondia a mulheres (Delooz, 2000, p.166-169). Com relação ao perfil dos fiéis beneficiados, cinco escravos são referidos. Somando-se este número àquele relativo às fugas, percebe-se bem como as relações escravistas pesavam no contexto até mesmo quanto à apuração de milagres. Outro dado relevante é o caráter local da devoção a frei Fabiano de Cristo. Das 29 testemunhas que depuseram, apenas quatro residiam fora da cidade: em Araruama, em Aguassu e na vila de Santo Antônio de Sá. Não obstante, tais localidades situavam-se nos limites da capitania do Rio de Janeiro. Por fim, dos vinte beneficiados com milagres atribuídos a frei Fabiano de Cristo, três foram crianças de menos de 7 anos. Nos processos analisados por Delooz (2000 , p.174), “a extrema juventude de uma criança se assinala explicitamente com frequência. Esclarece o milagre de um modo que o torna menos trivial, mais apropriado para magnificar a influência daquele ou daquela que foi invocado”.

A Tabela 1 sintetiza os 18 casos de curas supostamente milagrosas efetuadas por frei Fabiano e apuradas no processo ordinário. As informações contidas nesse instrumento jurídico não distinguem as causas das doenças dos respectivos sintomas, situação também encontrada na documentação examinada por Delooz (2000 , p.84) que, a esse respeito, observou: “será necessário então tomar os diagnósticos pelo que são, mais descritivos do que normativos, mais da ordem do sintoma bem observado do que da etiologia”. É possível observar que os poderes terapêuticos do servo de Deus abrangiam um leque relativamente amplo de moléstias, como problemas digestivos, doenças de pele, males relacionados às vias urinárias, doenças infecciosas como pleuris e tísica, febres cuja causa não aparece especificada, entre outras doenças. É importante assinalar que, em 13 curas (72,2%), foi decisivo o uso de relíquias associadas ao servo de Deus. Entre os referidos objetos de devoção, aparecem com destaque lenços, um rosário e até uma tenta, que tinham tocado a ferida da perna do servo de Deus. Assim, a chaga que contribuíra para a morte de frei Fabiano era vista pelos fiéis como uma fonte de cura e de vida, o que confirma as conclusões da pesquisa de Márcia Moisés Ribeiro, a respeito do uso de partes dos corpos de defuntos para reabilitar a saúde de doentes. Conforme visto na narrativa hagiográfica da morte do servo de Deus, a mudança do aspecto da ferida foi representada pela tópica do “odor da santidade”: vertia agora “sangue líquido e cheiroso, como bálsamo odorífero” ( Conceição, 1748 , p.34). Fragmentos do hábito de frei Fabiano tiveram também um lugar destacado, sendo mergulhados em água, que era depois ingerida pelos fiéis. Um dedal e o bordão de frei Fabiano também foram utilizados como relíquias, mostrando que, para os fiéis, a santidade era “contagiosa”, irradiando-se para todos os objetos tocados pelo servo de Deus, conforme destacou Peter Burke (1999 , p.140): “na imputação da santidade, contiguidade era importante assim como similaridade (ou como Roman Jakobson poderia dizer, metonímia bem como metáfora). O sagrado parece ser contagioso”.

Um aspecto interessante encontrado nas curas produzidas por frei Fabiano é a subordinação do saber médico ao plano devocional. Manoel Álvares de Souza, cirurgião aprovado, tinha declarado no processo ordinário que fora acometido de “um flato colérico e hipocondríaco” na parte direita do corpo. Por não encontrar alívio em nenhum medicamento ao longo de 18 ou 19 dias, o doente já tinha recebido os sacramentos, preparando-se para a morte. Nesse estado se encontrava quando, sete dias após o sepultamento de frei Fabiano, um amigo foi a sua casa e “lhe contou largamente o que se tinha passado neste convento quando se deu à terra o corpo do servo de Deus”. O relato lhe inspirou uma tal fé em frei Fabiano, que Manoel Álvares de Souza lhe pediu “remédio para a sua enfermidade”, favor que lhe foi concedido no dia seguinte, quando despertou livre de moléstia e com o uso pleno das funções vitais ( Moraes, 1868 , p.24). Outro caso análogo ocorreu com Manoel Ferreira Maciel, que por cerca de dois meses padeceu de impedimentos nas vias urinárias, ficando os últimos dois dias sem urinar quase nada. Foi visitado por Estêvão Ribeiro, cirurgião que o tinha assistido em toda a enfermidade, “dizendo-lhe este que se valesse do patrocínio do servo de Deus, e que para melhor o fazer lhe traria uma relíquia sua; cobrou ele testemunha tal fé no dito servo de Deus que, trazendo-lha no dia seguinte, a aplicou à parte lesa com tal fortuna que, fazendo isto em um dia à noite, no seguinte pela manhã, lançou uma das pedras, urinando copiosamente” ( Moraes, 1868 , p.78).

Além das 18 curas realizadas após a morte de frei Fabiano de Cristo, o principal cronista de suas atividades refere mais dois benefícios conquistados por intercessão do frade, que não foram registrados no processo ordinário:

João Jorge, de ofício forrador e morador da mesma cidade, confessou também publicamente que tendo um menino, que por não tomar o peito à mãe havia vinte e quatro horas, nem admitir outra sorte alguma de alimento, se desconfiava de sua vida, e que levando-se do servo de Deus quando estava na igreja uma rosa tirada das que tinha no capelo, lavando-se em água a deram à criança, e logo sucessivamente recebeu o peito ( Conceição, 1748 , p.44).

Por sua vez, um homem cujo nome não foi declarado, havendo perdido um crédito de bastante dinheiro e, depois de feitas várias diligências, não esperava encontrá-lo, “implorando a Deus pelos merecimentos deste seu servo, logo apareceu o crédito” ( Conceição, 1748 , p.44).

Tendo verificado que, no processo ordinário de frei Fabiano de Cristo, 90% ou 18 dos casos registrados constituem notícias de curas milagrosas operadas pelo servo de Deus no post mortem , fica no ar a pergunta se o mesmo padrão se encontrava presente em outros religiosos capuchos do convento de Santo Antônio do Rio de Janeiro que faleceram com fama de santidade ou, em contraste, constituía particularidade daquele primeiro religioso. Infelizmente, as fontes consultadas se mostraram muito lacunares a respeito. Frei Apolinário da Conceição alude a outros religiosos com fama de virtudes no convento. Entretanto, por ocasião da respectiva morte, não há registros da busca frenética de fragmentos dos hábitos por parte dos fiéis. Com relação à província da Imaculada Conceição, que abrangia conventos fundados nas capitanias do Rio de Janeiro, São Paulo e Espírito Santo, os cronistas trazem informações pontuais de servos de Deus que morreram em circunstâncias semelhantes. Somente com o recurso à documentação manuscrita da província é que será possível efetuar uma comparação mais sistemática, que foge aos limites deste trabalho. Por enquanto, pode ser feito um paralelo mais limitado entre os servos de Deus Fabiano de Cristo e Antônio de São Gregório, ou Capareiro. Frei Apolinário da Conceição também reconstituiu em sua crônica informações extraídas do processo ordinário do último, falecido em 1732, no convento de Santo Antônio do Rio de Janeiro.

As informações do processo ordinário de frei Antônio Capareiro registram cinco curas relatadas por testemunhas e realizadas quando o servo de Deus ainda se encontrava vivo. Aqui, já existe uma diferença em relação ao processo ordinário de frei Fabiano de Cristo, que apenas registrou curas realizadas no post mortem . Dos 12 feitos extraordinários realizados em vida, cinco constituem curas realizadas, das quais quatro se referem a escravos. Desses, Francisca se pôs de pé, depois de uma paralisia de vários anos; Cláudia se curou do mal de bexigas; Gonçalo, de uma pleuris maligna; e Maria, do mal “a que chamam no Brasil de quigilha [ sic ] (do qual por tempos aos que o padecem costumam cair dedos, mãos e pés, e disso finalmente vêm a morrer)”. Maria Vieira, que não era escrava, foi curada de um tumor no rosto. Por fim, o capitão-mor Francisco Gomes Ribeiro fora curado de um mal nas vias urinárias ( Conceição, 1738 , p.412-420). Após a morte de Antônio Capareiro, em contato com as partículas do hábito deste, se livraram de doenças: Joaquim de Almeida, afligido por dor de cabeça; um homem anônimo, de uma perna entrevada; Helena de Souza, de uma inchação na barriga; e Maria Antônia, de uma “terrível e contumaz tosse”. Por fim, uma preta da Guiné, escrava de Francisco da Cunha, foi curada de uma inflamação no rosto. Essa escrava tinha sido recuperada pelo respectivo senhor graças também à intercessão milagrosa de frei Antônio Capareiro ( Conceição, 1738 , p.419-420).

A partir dos dois casos trabalhados, e acrescentando o relato mais pontual de frei Estêvão de Jesus e de outros religiosos falecidos na província da Conceição do Rio de Janeiro, pode-se inferir que, por ocasião da morte de servos de Deus que viveram com fama de santidade, criava-se entre os fiéis a expectativa de possuir restos mortais dos corpos e objetos que aqueles haviam possuído em vida, para finalidades terapêuticas. Assim, ainda que investigações mais completas devam ser feitas, a impressão é de que frei Fabiano de Cristo não foi um exemplo isolado, ecoando um padrão mais difuso na vida religiosa de seu tempo. É possível sugerir que a fama de santidade do frade franciscano foi construída predominantemente após a sua morte. Antes, apenas duas passagens dos escritos de frei Apolinário da Conceição (1748, p.27-28) narram feitos extraordinários praticados pelo servo de Deus: o prognóstico do bom êxito da viagem realizada pelo religioso carmelita Bernardo de Vasconcellos, e a previsão da cura do governador do Rio de Janeiro.

Considerações finais

Encontrando-se inserido em um padrão geral de devoção e de expectativas de curas miraculosas, até certo ponto frei Fabiano distancia-se de outros servos de Deus que tiveram fama de santidade no convento de Santo Antônio e até na província da Imaculada Conceição do Rio de Janeiro. Em primeiro lugar, o cronista Apolinário da Conceição realizou um esforço adicional quanto à promoção da santidade do referido servo de Deus, dedicando-lhe uma obra em particular – o Eco sonoro – fato que não encontra equivalente em nenhum outro dos religiosos leigos capuchos cujas vidas narrou em Pequenos na terra, grandes no céu . Além disso, talvez por iniciativa do próprio frei Apolinário da Conceição, a notícia da morte de frei Fabiano de Cristo apareceu publicada em 11 de junho de 1748 na Gazeta de Lisboa , um dos mais longevos periódicos de caráter oficial impressos em Portugal ( Moura, 2016 , p.127-128). No século XIX, intelectuais como Joaquim Manuel de Macedo e Alexandre José de Mello Moraes, influenciados pelo projeto de memória da nação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, dedicaram espaço em suas crônicas às atividades de frei Fabiano de Cristo (Macedo, 2004, p.234-242; Moraes, 1867 , 1868 ). Por fim, a redescoberta do túmulo do servo de Deus na década de 1920 fez com que os religiosos franciscanos do Rio de Janeiro promovessem novamente a sua devoção, por meio da publicação de diferentes obras sobre ele e o aparecimento de novos milagres atribuídos a frei Fabiano. Essa multiplicação de testemunhos particularizou sem dúvida frei Fabiano em relação a outros confrades do mesmo convento e da província.

Existe uma ampla historiografia que trata da santidade e do seu reconhecimento formal pela Igreja no Período Moderno. Para responder às críticas dos reformadores protestantes, Roma centralizou e tornou mais rígidos os procedimentos para a constituição dos novos santos. A criação da Sagrada Congregação dos Ritos, em 1588; as medidas do pontificado de Urbano VIII (1623-1644), atribuindo ao papa o controle absoluto sobre as novas canonizações; e a publicação da obra do pontífice Benedito XIV sobre a beatificação dos servos de Deus e a canonização dos beatos (1734-1738), referendando o modelo jurídico da promoção das causas, constituem momentos importantes do processo descrito ( Woodward, 1992 , p.72-75). As mudanças operadas no reconhecimento da santidade no século XVII levaram Roma a priorizar, entre os servos de Deus cujas causas eram promovidas, a posse de virtudes heroicas e teologais – como a fé, a esperança e a caridade –, em detrimento da realização de milagres. Em contraste, estes últimos continuavam a ser essenciais para a perspectiva dos fiéis. A referida diferença levou alguns autores a assinalar a existência no período de duas visões distintas da santidade: a do herói da fé, partilhada pela hierarquia eclesiástica, e a do santo curandeiro, próxima das demandas dos fiéis ( Woodward, 1992 , p.218-219; Po-Chia Hsia, 2005 , p.139-141). Segundo este último autor, no século XVIII Roma tornou-se mais receptiva ao reconhecimento de santos “inspirados pela espiritualidade franciscana, caracterizada pela simplicidade, apelo popular e cura” ( Po-Chia Hsia, 2005 , p.143).

A análise efetuada sobre as fontes discutidas no trabalho permite afirmar que a construção da santidade de frei Fabiano de Cristo apoiou-se em elementos derivados dos dois modelos referidos. Nas fontes de caráter hagiográfico, predomina a visão do servo de Deus como herói da fé. No Eco sonoro , frei Apolinário da Conceição (1748 , p.9-25) elenca um verdadeiro catálogo de virtudes praticadas por frei Fabiano: humildade, obediência, castidade, pobreza, caridade, devoção a Cristo, penitência e paciência. Na obra de frei João José de Castro (1944 , p.66-158), redigida bem depois, toda a segunda parte, constituída por 21 capítulos, é dedicada às virtudes do servo de Deus. Por sua vez, no processo ordinário realizado após a morte de frei Fabiano, predomina a visão dos fiéis do servo de Deus como um taumaturgo responsável pela cura de várias doenças. Acredita-se ter apresentado indícios suficientes para afirmar que, no contexto focalizado, é impossível pensar as referidas práticas de cura dissociadas da crença na intervenção de servos de Deus e dos santos.

REFERÊNCIAS

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