A narrativa como alternativa na pesquisa em saúde

A narrativa como alternativa na pesquisa em saúde

Autores:

Nauristela Ferreira Paniago Damasceno,
Edson Malvezzi,
Cibele de Moura Sales,
Antonio Sales

ARTIGO ORIGINAL

Interface - Comunicação, Saúde, Educação

versão impressa ISSN 1414-3283versão On-line ISSN 1807-5762

Interface (Botucatu) vol.22 no.64 Botucatu jan./mar. 2018 Epub 03-Jul-2017

http://dx.doi.org/10.1590/1807-57622016.0815

RESUMEN

El potencial de las narrativas en la comprensión de los significados que las personas atribuyen al ambiente y a sí mismas contribuye para su utilización en investigaciones cualitativas. No obstante, son escasos los detalles procedimentales de esas investigaciones, principalmente de aquellas que integran los relatos en una única historia. Este trabajo describe la producción de conocimiento en la investigación cualitativa en salud a partir del estudio sobre placer, sufrimiento y enfermedad en docentes de la enseñanza superior. El conjunto de las vivencias relatadas en 25 entrevistas orientó, en análisis hermenéutico-dialéctico, la construcción de una nueva narrativa por parte de los investigadores. El material elaborado fue discutido y validado por los participantes en taller de validación. Los datos construidos colectivamente y la dinámica observa en el taller corroboran el potencial de ese tipo de investigación como alternativa metodológica en investigaciones cualitativas de salud.

Palabras-clave: Narrativa; Trabajo docente; Placer y sufrimiento en el trabajo; Prácticas educativas en salud

Introdução

As narrativas permeiam a vida das pessoas desde a infância, na família, na escola, às grandes narrativas sobre o mundo e a vida, interessando a vários campos, como a arte e as ciências1. Elas são relatos culturais do que faz pulsar os seres humanos, contribuindo para organizar a estrutura da experiência humana e a memória de acontecimentos por meio das histórias, dos mitos e das razões para fazer ou não fazer2,3.

No campo das ciências, as narrativas têm sido empregadas nas pesquisas qualitativas a partir de vários enfoques – história de vida, biografias, depoimentos, relatos orais ou escritos – que têm em comum a valorização da subjetividade dos participantes a partir das vivências que eles narram ao pesquisador. Nesse contexto, o processo dialógico é priorizado, bem como sua natureza relacional e coletiva na qual a subjetividade é considerada como uma construção social4.

Nas publicações sobre o emprego das narrativas em pesquisas, evidenciam-se notadamente as áreas da educação e da saúde. Na educação, as narrativas abordam o trabalho docente, principalmente, a formação5. Na saúde, as investigações referem-se à compreensão do processo saúde-doença1,6,7, à história de vida ou experiências relacionadas ao trabalho dos profissionais de saúde8,9 e às pesquisas avaliativas em programas de saúde coletiva10,11.

Entretanto, são limitadas as publicações, em pesquisas qualitativas, que apresentam detalhes capazes de esclarecer aos leitores sobre os procedimentos metodológicos de uso das narrativas, especialmente, daquelas que pretendem integrar em uma única história o material produzido pelos sujeitos, individual ou coletivamente.

Dessa forma, o que se pretende com este trabalho é descrever, detalhadamente, o processo de construção de uma narrativa, utilizada em uma pesquisa qualitativa sobre prazer e sofrimento no trabalho de docentes de uma instituição pública de ensino superior.

Nesta pesquisa, os dados produzidos pelos sujeitos, em entrevistas individuais, foram integrados em um novo relato narrativo, construído pelos pesquisadores, que foi validado coletivamente pelos mesmos sujeitos, resultando em uma narrativa que retrata as vivências de prazer e sofrimento desse grupo de trabalhadores. Neste estudo, optou-se pela oficina de validação com os mesmos participantes para aprofundar os achados. Contudo, seria possível realizá-la com outros sujeitos, inseridos no mesmo contexto, com os mesmos critérios de inclusão, se o objetivo fosse ampliar os achados. Em qualquer dessas opções, o que se busca, além da validação, é que os sujeitos da pesquisa também participem da análise dos dados, dos achados. Em ambas as situações, havendo novas contribuições, o que se faz operacionalmente é acrescentar o novo conteúdo ao relato inicial.

De acordo com Bolívar4, o emprego das narrativas como modo de construir conhecimento possui um enfoque específico de investigação, com características próprias de credibilidade e legitimidade, que diferem dos métodos lógico-científicos. Sustenta que essas diferenças não diminuem sua principal contribuição: representar um conjunto relevante de dimensões da experiência humana, que incluem sentimentos, intencionalidade, desejos, singularidade, entre outros4. No mesmo sentido, Polkinghorne12 afirma que as pesquisas narrativas se propõem a produzir conhecimentos que não estão ao alcance dos métodos tradicionais de investigação científica, como os significados que as pessoas dão às suas vivências, às situações e às ações de suas vidas, inseridas no grupo e na coletividade.

Bolívar4 diferencia dois tipos de pesquisas narrativas de acordo com o método de análise. O primeiro utiliza uma apreciação paradigmática dos dados da narrativa por meio de tipologias, ou categorias, com objetivo de alcançar generalizações do grupo estudado. O segundo tipo – que interessa a este trabalho – faz uso da análise narrativa propriamente dita. Segundo Bolívar4, esse tipo de pesquisa também faz uso do depoimento pessoal de diferentes informantes, mas o produto da análise é uma nova narrativa, produzida pelo pesquisador, com objetivo de integrar e dar significado aos dados, sem manipular a voz dos informantes, contemplando os elementos singulares que configuram as histórias e afastando-se das pretensões de generalizar esse significado.

Para Bolívar4, a pesquisa narrativa se baseia no “giro hermenêutico” (p. 4), que dá mérito a uma perspectiva interpretativa na qual o valor e o significado do relato são conferidos pela autointerpretação dos sujeitos, em narrativas na primeira pessoa, na qual a dimensão temporal e biográfica ocupa uma posição central. Nesse contexto, Minayo13 reforça que a hermenêutica-dialética não estabelece técnicas, mas oferece ao tratamento dos dados desse tipo de pesquisa um “caminho do pensamento” (p. 231). O desafio é, portanto, descobrir como trilhar esse caminho.

Minayo13 e Bolívar4 sustentam suas posições em Gadamer14, para quem “a tarefa hermenêutica se converte por si mesma num questionamento pautado na coisa, e já se encontra sempre determinada por este” (p. 405). Esse último autor14 esclarece ainda o papel do pesquisador na tarefa de compreender qual é esse caminho do pensamento, enfatizando a importância de não se entregar à casualidade de suas próprias opiniões prévias e ignorar o que é narrado pelo outro, mas assumir uma postura sensível e constante de deixar que ele diga alguma coisa por si, sendo sempre receptivo à peculiaridade do que lhe é comunicado.

Essa postura não pressupõe neutralidade, visto que também é tarefa do pesquisador dar-se conta das próprias opiniões prévias e preconceitos, apropriando-se delas justamente para separá-las do que é comunicado pelo outro, abrindo espaço para que este possa se apresentar e ser compreendido14. Dessa forma, não se pode deixar de lado o fato de que os atores envolvidos na pesquisa narrativa são também marcados pela história, pelo tempo, pelo grupo social e pela cultura. Onocko-Campos15, reportando-se especificamente aos pesquisadores da Saúde Coletiva, normalmente inseridos no contexto que investigam, ressalta que o pesquisador deve manter-se atento à sua capacidade de estranhar aquilo que lhe é familiar.

A pesquisa narrativa ocorre no espaço e no momento da relação entre a ação do informante e do pesquisador, na busca de compreensão dos significados daquilo que é narrado pelo primeiro. Para Gadamer14, essa compreensão se realiza por meio da interpretação do que é narrado em um processo dialético da pergunta e da resposta, sob a mediação da linguagem, que contempla o diálogo, a dialogia e a troca, no sentido de encontrar os argumentos.

Sobre as tarefas do pesquisador de interpretar e compreender, Minayo13 refere que:

a união da hermenêutica com a dialética leva a que o intérprete busque entender o “texto”, a “fala”, o “depoimento”, como resultado de um processo social e processo de conhecimento, ambos frutos de múltiplas determinações, mas com significado específico. Esse “texto” é a representação social de uma realidade que se mostra e se esconde na comunicação, onde o autor e o intérprete são parte de um mesmo contexto ético-político e onde o acordo subsiste ao mesmo tempo em que as tensões e perturbações sociais. (p. 227-8)

Essa concepção possibilita a reconstrução da perspectiva do sujeito sobre a realidade social de um grupo determinado de indivíduos, em um processo fundamentado na hermenêutica e que ocorre na interação, possibilitando, por meio da dialética, um construir e um desconstruir, um concordar e um discordar sucessivos dos atores envolvidos.

A utilização da narrativa em investigação sobre prazer e sofrimento no trabalho docente

A pesquisa que originou este trabalho partiu da proposta de utilização da narrativa, em abordagem interpretativa, em uma investigação sobre as vivências de prazer, sofrimento e adoecimento no trabalho dos docentes de ensino superior em uma instituição pública. Além disso, utilizou-se a análise fundamentada na hermenêutica-dialética para orientar o desenvolvimento de materiais pedagógicos.

Tendo sido atendidas todas as exigências éticas em pesquisa com seres humanos, 25 docentes foram inicialmente entrevistados individualmente, utilizando a técnica da história de vida tópica, com ênfase em determinada etapa ou setor da vida pessoal13. Foi elaborado um roteiro para a entrevista e a questão que norteou a história foi: Conte-me como tem sido a sua vivência de prazer, sofrimento e adoecimento aqui na Universidade.

Com objetivo de ampliar e aprofundar as reflexões, a partir da resposta ao tema central foram elaboradas duas questões auxiliares que seriam utilizadas caso fosse necessário: a) Quais fatores individuais e organizacionais você relacionaria ao prazer, ao sofrimento e ao adoecimento do docente nesta universidade?; e b) Quais estratégias de enfrentamento você utiliza para lidar com os fatores individuais e organizacionais relacionados com o sofrimento no trabalho nesta universidade?

As entrevistas foram audiogravadas e transcritas pelos pesquisadores. Os apontamentos realizados por eles durante as entrevistas foram inseridos no fim do texto da transcrição ou, quando considerado pertinente, entre chaves no relato do entrevistado. Os relatos foram organizados segundo dois critérios: conforme a ordem de realização das entrevistas (E1, E2... E25); e, de acordo com o tema investigado, foram destacadas, em cores diferentes, as partes de cada entrevista que se referiam ao prazer, ao sofrimento, ao adoecimento ou às estratégias de enfrentamento, que foram sistematizadas em tabelas de acordo com o conteúdo narrado pelos entrevistados. Dessa maneira, foram elaboradas quatro tabelas, uma para cada tema investigado (prazer, sofrimento, adoecimento e estratégias de enfrentamento). Esse procedimento também permitiu a verificação do critério de saturação, conforme proposto por Fontanella et al.16.

No Quadro 1, ilustra-se como esse processo foi realizado com um dos temas investigados – vivências de prazer no trabalho – por meio de exemplo hipotético que utiliza parte dos dados da pesquisa. Na situação retratada no quadro, a saturação para as vivências de prazer no trabalho ocorreu na quinta entrevista. Ressalta-se que o registro das recorrências foi utilizado apenas para verificar a saturação, visto que para a construção da narrativa foram considerados todos os núcleos argumentais, conforme descrito mais à frente.

Quadro 1 Exemplo hipotético de organização dos dados nas entrevistas 

Enunciados dos núcleos argumentais Entrevistas (E) Total de recorrências
1 2 3 4 5 6 7 8 9 n
Vivências de prazer no trabalho Realização por meio do trabalho X x x x x x x x 8
Horário de trabalho flexível X x x x 4
Reconhecimento dos alunos X x x x x x 6
Convivência com geração mais jovem X x x 3
Reconhecimento dos pares X x 2
Diferentes possibilidades de atuação profissional X x x 3
Autonomia X x x x 4
Remuneração X x x 2
Total de novos enunciados por entrevista 3 2 1 1 1 0 0 0 0 0 ---

Legenda: X – novo enunciado; x – recorrências.

Elaborada a partir da proposta de Fontanella et al.16 (p. 391).

Ao longo das transcrições e do processo de organização dos dados, bem como depois que todas as entrevistas estavam transcritas, foram realizadas muitas novas leituras dos textos e os ajustes necessários. Esse processo se assemelhou ao que Minayo13 chamou de enxugamento da classificação, visto que as primeiras são bastante grosseiras e, conforme os dados vão sendo construídos, durante o processo de pesquisa, é possível perceber relatos reincidentes, peculiaridades e discrepâncias, sendo que assim vão se definindo os núcleos argumentais mais relevantes. Também vão surgindo peculiaridades, tal como eventos em que os informantes contaram ter vivenciado, ao mesmo tempo, prazer e sofrimento; ou eventos que, para alguns, eram fontes de prazer, enquanto para outros provocavam sofrimento e adoecimento. Nesse sentido, a abordagem hermenêutica-dialética torna possível expressar, na narrativa construída, como são vivenciadas e percebidas todas essas aparentes contradições e incoerências que, de fato, subjetivam e enriquecem o repertório das experiências humanas.

Depois desse processo inicial, fazendo uma aproximação com a proposta de narrativa investigativa de Bolívar4 e também dos desenhos participativos produzidos por Onocko-Campos10,15, foi construída uma nova narrativa pelos pesquisadores, como parte do tratamento do material produzido nas entrevistas. Esse processo seguiu os núcleos argumentais que foram sendo alinhavados uns aos outros, juntamente com as observações dos pesquisadores, procurando reproduzir o vaivém natural do relato dos participantes, seus autoquestionamentos, espantos, encantamentos, concordâncias e discordâncias. Após a primeira construção, foram feitas releituras, verificação dos núcleos argumentais e alguns retornos aos relatos transcritos até que a narrativa estivesse integrando, consistentemente, o material produzido nas entrevistas.

Para delinear como foi esse processo de junção dos núcleos argumentais das entrevistas para construir a narrativa, apresenta-se no Quadro 2 um exemplo de como foi utilizado o material produzido nas entrevistas para compor um trecho da narrativa. Ressalva-se que, devido à limitação de espaço, não foram inseridas todas as entrevistas em que há referência aos núcleos argumentais citados.

Quadro 2 Exemplo de construção de trecho da narrativa. 

Entrevistas Narrativa
E1 [...] à tarde eu faço atividade em casa, mesmo porque a universidade não tem muito espaço pra professor [...]. A maioria de nós leva trabalho pra casa porque aqui não temos um espaço reservado para trabalhar, principalmente em atividades que exigem concentração, como leitura, elaboração de artigos, relatórios, preparação de aulas. Alguns cursos têm uma sala para todos os professores e outros compartilham salas com mais dois, três, quatro colegas. Imagine dois, três professores na mesma sala, um tentando orientar seus alunos, outro tentando preparar uma aula, outro discutindo um projeto com um colega? Simplesmente têm atividades que não têm como desenvolver aqui, no espaço físico da universidade. É um entra e sai... E o problema não é só o espaço físico! A parte de tecnologia também dificulta o trabalho. A internet não funciona bem, cai, trava. Têm períodos em que quando tem internet, não tem telefone... falta luz; quando tem telefone e internet não tem papel; quando tem papel não tem toner; quando tem os dois já ultrapassamos a cota.
E3 [...] aquela parte que a gente tem que parar pensar e fazer leitura, essa parte a gente acaba, eu pelo menos acabo fazendo em casa. [...] a sala em que eu fico de professores, eu fico com mais três ou quatro professores dependendo do dia [...] a gente tá trabalhando aqui e aí a internet tá lenta, aí cai, falta luz.
E11 [...] tem um sistema de internet ruim pra péssimo [...] a cópia impressa demanda cotas para impressão [...] quando você não venceu a sua cota acabou o papel. [...] aí quando você recebe o papel, acabou o toner [...].
E16 [...] eu fico aqui de manhã dando aula e fazendo os meus projetos e atendendo os meus alunos e à tarde eu tenho que tirar meu tempo, ficar na minha sala, na minha casa, pra eu preparar as minhas aulas, pra eu me concentrar [...].

Elaborada pelos autores.

Ressalta-se que, nesse processo de construção, além do cuidado para não manipular a voz dos informantes, houve uma significativa preocupação quanto aos vínculos dos pesquisadores com os entrevistados e também com o contexto organizacional, visto que alguns são funcionários da instituição. Um deles atua em um setor relacionado à saúde do trabalhador, além de ser aluno de um programa de mestrado profissional no qual alguns dos entrevistados são docentes. Essas implicações enfatizaram ainda mais a necessidade de assumir uma postura sensível e receptiva ao material que era construído pelos participantes durante a entrevista, com escuta atenta para as peculiaridades de cada narrativa e também para a capacidade de estranhamento ao que fosse familiar15.

Um desafio adicional, buscando favorecer sua leitura coletiva15 no grupo de validação, foi transformar as mais de duzentas páginas dos relatos individuais em um único texto com 15 páginas, contemplando todos os elementos relevantes do material coletado.

Finalizada a narrativa, ela foi apresentada aos mesmos docentes que participaram das entrevistas e que aceitaram participar de um segundo encontro, agora coletivo e organizado como uma oficina de validação na qual o disparador da discussão foi a narrativa construída pelos pesquisadores.

Nessa oficina, depois de fornecidas canetas e cópias da narrativa para todos, os participantes foram convidados a realizar uma leitura coletiva, destacando, no texto, os pontos que gostariam de aprofundar, alterar e esclarecer. Após a leitura, iniciaram-se as discussões sobre os pontos destacados, que demonstraram haver grande concordância e identificação com o conteúdo apresentado, trazendo a possibilidade de aprofundar alguns aspectos. A oficina também foi audiogravada e os pesquisadores fizeram apontamentos que foram inseridos no fim do texto da transcrição, tal como realizado nas entrevistas.

A organização da oficina aproximou-se da proposta de desenho participativo das pesquisas de Onocko-Campos15, que chama esse tipo de encontro de grupo hermenêutico, que tem finalidade de validar a produção do pesquisador e também de produzir efeitos de intervenção.

Esses efeitos de intervenção foram especialmente interessantes na oficina, pois os participantes demonstraram que se identificavam ao ouvir as suas histórias por meio de um coletivo integrado delas, que refletiam não apenas a sua vivência, mas outros elementos relevantes para a compreensão do contexto em que eles estavam inseridos. Conforme esperado, eles relataram identificações, na narrativa, com elementos que se lembravam de ter relatado nas entrevistas. Todavia, também se identificaram com elementos que eles não relataram e que foram inseridos pelos colegas ou pelos pesquisadores – com base em suas observações, realizadas durante as entrevistas.

Assim, os participantes destacaram pontos em que concordavam e discordavam de seus colegas e em que se colocavam no lugar dos demais para tentar compreender partes do relato com as quais não se identificavam, engajaram-se no debate sobre as vicissitudes do trabalho docente na instituição, apresentaram alternativas, fizeram analogias e utilizaram de metáforas que enriqueceram e aprofundaram a discussão. Essa dinâmica enfatizou a importância e a potencialidade desse momento, reconhecido pelos próprios participantes.

Conforme informado a eles, poderiam ser realizadas quantas oficinas fossem necessárias até que considerassem a narrativa concluída. Entretanto, ao fim desse encontro, que teve duração de aproximadamente duas horas e trinta minutos, os docentes consideraram que o processo estava finalizado, não havendo necessidade de realização de outros encontros.

Por fim, a construção da narrativa foi complementada com as alterações sugeridas pelos participantes da oficina e integrou a dissertação, sendo que esta é parte do material produzido e foi utilizada na análise das narrativas e na elaboração de materiais didático-pedagógicos relacionados ao tema investigado.

Considerações finais

Ao fim do processo descrito, ficou ainda mais evidenciada a potencialidade das narrativas como percurso metodológico em pesquisas qualitativas na área de saúde. Vislumbra-se também o potencial interativo e catalisador dos materiais didático-pedagógicos que as narrativas ajudarão a elaborar.

Ainda assim, é importante ressaltar que a complexidade do caminho percorrido, a delicadeza das relações envolvidas e o cuidado com as questões éticas e de validade dos produtos são preocupações acentuadas pelas dúvidas que surgem no decorrer do trabalho e também pela leitura das poucas referências sobre a construção de narrativas como recurso interpretativo em pesquisas qualitativas.

Nesse contexto, enfatiza-se que não foi solução fácil para os pesquisadores, conscientes do seu envolvimento com o objeto de estudo, manterem-se na posição de estranhamento daquilo que lhes é conhecido, cuidando para não criarem, mas escolhendo fazer recortes e ênfases com a intenção de se aproximarem desse objetivo de análise. A escolha, neste estudo, foi a de aprofundar e validar esses recortes e ênfases, em um movimento de adensamento. Essa escolha implicou deixar de considerar elementos que também poderiam ser significativos para os sujeitos do estudo, da mesma maneira que, provavelmente, o enredo narrativo seria diferente se outras escolhas teóricas fossem adotadas para análise e compreensão dos fenômenos abordados. Há nisso um inerente e reconhecido risco, ao mesmo tempo que um enfrentamento das incertezas.

Além disso, este estudo, por sua natureza, possibilitou que os participantes, ao construírem suas narrativas, trazerem vida aos seus relatos, expressassem suas histórias e compartilharem suas vivências, se deparassem com a oportunidade de refletir, em ato, sobre suas inserções e práticas e, nesse movimento, tivessem a perspectiva de se transformarem e modificarem suas relações cotidianas em um processo de mediação “entre o ‘interior’ e o ‘exterior’ ao ‘eu’, na relação ser-no-mundo”1 (p. 1068). Contudo, essas possíveis transformações não foram, assumidamente, objeto explorado exaustivamente neste trabalho, ainda que consideradas significativas.

Dessa forma, objetivou-se descrever detalhadamente a trajetória metodológica realizada na construção de uma narrativa e as poucas referências que auxiliaram nesse processo, sem pretender concluir a questão ou indicar um caminho que exclua outras possibilidades, uma vez que a narrativa pode ser útil em diferentes contextos, fazendo-se necessário repensar esse processo de construção e considerando suas limitações e potencialidades.

REFERÊNCIAS

1. Castellanos MEP. A narrativa nas pesquisas qualitativas em saúde. Cienc Saude Colet. 2014; 19(4):1065-76.
2. Bruner J. The narrative construction of reality [Internet]. Crit Inq. 1991 [citado 8 Nov 2015]; 18(1):1-21. Disponível em: .
3. Bruner J. Atos de significação. Porto Alegre: Artes Médicas; 1997.
4. Bolívar Botía A. “¿De nobis ipsis silemus?”: epistemología de la investigación biográfico-narrativa en educación [Internet]. Redie. 2002 [citado 2015 Nov 10]; 4(1). Disponível em .
5. Cunha MI. Conta-me agora!: as narrativas como alternativas pedagógicas na pesquisa e no ensino [Internet]. Rev Fac Educ. 1997 [citado 2 Set 2015]; 23(1-2):185-95. Disponível em .
6. Lira GV, Catrib AMF, Nations MK. A narrativa na pesquisa social em saúde: perspectiva e método. Rev Bras Prom Saude. 2003; 16(1-2):59-66.
7. Costa GMC, Gualda, DMR. Antropologia, etnografia e narrativa: caminhos que se cruzam na compreensão do processo saúde-doença. Hist Cienc Saude-Manguinhos. 2010; 17(4):925-37.
8. Schraiber LB. Pesquisa qualitativa em saúde: reflexões metodológicas do relato oral e produção de narrativas em estudo sobre a profissão médica. Rev Saude Publica. 1995; 29(1):63-74.
9. Moraes CJA, Granato TMM. Narrativas de uma equipe de enfermagem diante da iminência da morte. Psico. 2014; 45(4):475-84.
10. Onocko-Campos RT, Furtado JP. Narrativas: utilização na pesquisa qualitativa em saúde. Rev Saude Publica. 2008; 42(6):1090-6.
11. Malvezzi E. Contribuições da gestão da clínica para implantação de rede de atenção à saúde no SUS [dissertação]. São Paulo: Instituto Sírio Libanês de Ensino e Pesquisa; 2014.
12. Polkinghorne DE. Validity issues in narrative research. Qual Inq. 2007; 13(4):471-86. doi: 10.1177/1077800406297670
13. Minayo MCS. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 5a ed. São Paulo, Rio de Janeiro: Hucitec; 1998.
14. Gadamer HG. Verdade e método. Petrópolis: Vozes; 1997.
15. Onocko-Campos RT. Fale com eles! O trabalho interpretativo e a produção de consenso na pesquisa qualitativa em saúde: inovações a partir de desenhos participativos. Physis. 2011; 21(4):1269-86.
16. Fontanella BJB, Luchesi BM, Saidel MGB, Ricas J, Turato ER, Melo DG. Amostragem em pesquisas qualitativas: proposta de procedimentos para constatar saturação teórica [Internet]. Cad Saude Publica. 2011 [citado 07 Set 2015]; 27(2):388-94. doi: .
Política de Privacidade. © Copyright, Todos os direitos reservados.