A psicanálise e as transformações na concepção da infância nas crônicas e colunas de Clarice Lispector, 1952-1973

A psicanálise e as transformações na concepção da infância nas crônicas e colunas de Clarice Lispector, 1952-1973

Autores:

Alejandra Josiowicz

ARTIGO ORIGINAL

História, Ciências, Saúde-Manguinhos

versão impressa ISSN 0104-5970versão On-line ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.27 no.1 Rio de Janeiro jan./mar. 2020 Epub 23-Mar-2020

http://dx.doi.org/10.1590/s0104-59702020000100004

O artigo tem como objetivo estudar a influência da psicologia e da psicanálise nos modos de pensar a infância no período de 1950 a 1970, tendo como foco as colunas e crônicas publicadas em revistas e jornais de ampla circulação por Clarice Lispector ao longo do período que vai de 1952 a 1973. Nelas, estuda-se o papel que ocupou o discurso psicológico e psicanalítico entre o público geral nessas décadas, partindo da hipótese de que ele foi central na transformação das relações familiares, na subversão dos parâmetros tradicionais de educação, nos papéis de autoridade e obediência paterno-filial e na mudança no modo pelo qual era pensada a infância. A criança, que vinha sendo considerada, ao longo da primeira metade do século XX, central para a cidadania e futuro da nação, começa a ser concebida, nas décadas de 1960 e 1970, como núcleo do âmbito privado, em sintonia com a emergência da sociedade de consumo e com a modernização social e cultural. Pretendemos demonstrar que a abertura do discurso psicológico e psicanalítico para um público amplo, por meio de publicações de grande alcance, como revistas e jornais, teve papel central na redefinição dos modos de pensar a infância e a família, a partir de um processo de psicologização da infância, pelo qual ela se tornou símbolo da nova centralidade da subjetividade individual no período de 1950-1970 no Brasil. Ao trazer à tona um estudo das transformações na concepção da infância, tal como aparece da imprensa de massas, o artigo chama a atenção para a relevância do discurso sobre a saúde psicológica da criança das camadas médias, um tema menos abordado pela historiografia, que se centrou, em grande parte, nas preocupações sobre a saúde e a proteção da criança pobre, do ilegítimo e do “menor”, e as políticas públicas a eles dirigidas.

A saúde física e psíquica das crianças como núcleos da cidadania na primeira metade do século XX

Desde a proclamação da República e inícios do século XX no Brasil, a preocupação com a saúde e com o bem-estar das crianças ocupou lugar de destaque no discurso público e nas políticas sociais. Criou-se uma série de instituições destinadas à proteção da infância, com o intuito de estimular pesquisas e políticas, agências e programas envolvidos em seu bem-estar e sua saúde. Médicos, pediatras, higienistas e filantropos, como o doutor Moncorvo Filho e o doutor Antônio Fernandes Figueira, buscaram criar e difundir noções de higiene e puericultura, e políticas destinadas a diminuir as altas taxas de mortalidade infantil (Sanglard, 2015; Freire, 2015). Para esses médicos, garantir a saúde e o bem-estar das futuras gerações tornou-se condição essencial para o progresso coletivo, a harmonia social e a constituição da nação brasileira. O saber higienista, jurídico e pedagógico participou do processo de criação de políticas estatais de assistência e proteção à infância, destinadas à recuperação, educação e correição dos “menores”, termo que designou, sobretudo a partir da criação do Código do Menor em 1927, as crianças abandonadas, desvalidas, desamparadas moral ou materialmente (Rizzini, Pilotti, 1995). A infância constituía, como afirmou o senador Lopes Trovão em 1902, a “gênese da sociedade” (Rizzini, Pilotti, 1995, p.111).

A partir da década de 1930, com o surgimento do movimento da escola nova e com as políticas públicas instituídas pelos governos de Getúlio Vargas, cresceu ainda mais a importância do papel do Estado na proteção da infância (Carvalho, 1997; Corrêa, 1997). Tratou-se de um entusiasmo pedagógico e higiênico que implicou a substituição da ênfase na institucionalização, na correção e no castigo pela educabilidade e a “regeneração” das populações brasileiras, inculcando hábitos de trabalho e ajustando os futuros cidadãos às necessidades de uma sociedade capitalista moderna (Carvalho, 1997; Corrêa, 1997). O processo esteve atrelado à emergência do discurso psicológico, no qual as crianças começaram a ser percebidas como moldáveis e adaptáveis. Isso se traduziu, nos âmbitos do conhecimento e da assistência médico-psiquiátrica, na articulação do tratamento médico e da educação e na combinação da psicanálise com os saberes pedagógico e eugênico, com o propósito de assegurar a ação do Estado na prevenção dos problemas educativos e familiares (Da Silva, 2009; Reis, 2000). Assim, os psiquiatras e médicos da Liga Brasileira de Higiene Mental atribuíram grande importância à questão infantil, enfatizando a ação preventiva e as medidas de tipo eugênico, nos meios escolar e familiar, como modo de prevenir e ajustar as crianças, vistas não como incuráveis, mas como seres maleáveis e passíveis de adaptação à sociedade (Da Silva, 2009; Reis, 2000).1

A preocupação com a infância também teve presença destacada na difusão da psicanálise entre as camadas médias e educadas, com início nas décadas de 1920 e 1930, em livros de divulgação, programas radiofônicos e colunas em revistas: o psicanalista e divulgador Gastão Pereira da Silva manteve intensa atividade na imprensa escrita entre 1936 e 1956 – em jornais, revistas e rádio –, com ampla produção sobre psicanálise infantil e educação (Russo, 2002; Russo, Carrara, 2002).2 Pereira da Silva publicou Educação sexual da criança (1934) e O drama sexual de nosso filhos (1939) e manteve, na revista Vamos ler, uma coluna titulada “Página das mães”, da qual nasceu o livro Conheça seu filho. A psicanálise da criança (1942), reeditado inúmeras vezes entre 1942 e 1960 (Russo, 2002; Russo, Carrara, 2002). Em Conheça seu filho (1942), Pereira da Silva, leitor dos psicanalistas Ernst Jones, Stanley Hall, Wilhelm Steckel, Anna e Sigmund Freud, desnaturaliza grande parte das ideias tradicionais sobre a educação dos filhos: desvaloriza o uso dos castigos e punições, tanto físicos como psicológicos, e recomenda a “grande libertação dos instintos” das crianças, o que implica que a assistência e orientação adulta seja mínima e sutil, sem censura, sem ameaças e sem hostilidade (1952, p.45-51, 170). Para Pereira da Silva (1952, p.11), é responsabilidade dos pais adaptar-se aos modos específicos de “pensar, de criticar, de sentir e até mesmo de viver” dos filhos – e não o contrário. Trata-se de uma transformação da forma como era pensada a relação paterno-filial: o eixo estruturador já não é o mundo adulto, com suas normas, mas a criança e sua personalidade, que se torna objeto de interesse, observação e investigação, a partir de uma perspectiva psicológica e psicanalítica. Além disso, o foco das preocupações não é a “criança anormal” nem o “menor”, mas o filho (não patológico) das classes médias educadas, cujos pais contam com recursos, atenção e tempo suficientes para conhecê-lo, compreendê-lo e valorizá-lo em sua especificidade, o que asseguraria o desenvolvimento de sua personalidade e sua conversão futura em um adulto confiante, exitoso. Os textos de Pereira da Silva apontam para o início de um processo que se intensificou nas décadas de 1960 e 1970, período no qual a divulgação psicológica e psicanalítica nos meios de comunicação teve um crescimento inédito, ligada à transformação das relações paterno-filiais e à emergência de uma nova concepção da infância e da educação (Coimbra, 1995).

A psicologização das relações familiares, a imprensa de massa e o contexto da nova sociedade de consumo: 1950-1970

No Brasil, as décadas de 1950 a 1970 constituíram um período de emergência da sociedade de consumo e fortalecimento da classe média, sobretudo nos centros urbanos. O aumento demográfico no pós-guerra e a ampliação do acesso à educação em todos os níveis, inclusive o universitário, ocorreram paralelamente à modernização e à diversificação de uma cultura impressa de massa – surgida na primeira metade do século XX (Martins, 2001; Barbosa, 2007) –, que se organiza de forma capitalista e industrial, incluindo vários segmentos da indústria cultural, como as revistas e os jornais – com seus suplementos e semanários –, e o mercado do livro, dada a expansão de um público leitor diferenciado (Miceli, 2001). Como parte do processo que se inicia na primeira metade do século XX, a imprensa articulou-se cada vez mais ao discurso publicitário, ao mesmo tempo que se especializava em torno dos interesses diversificados do público consumidor, feminino, masculino e infantil (De Luca, 2012). Na década de 1950, os “anos dourados” da imprensa feminina, as publicações para mulheres revelavam a imagem de uma mulher que tinha acesso aos hábitos de consumo associados às novas tecnologias: a mulher casada, mãe, de classe média, urbana, capaz de escolher o que consumir dentre uma ampla variedade de produtos: alimentos, artigos de higiene, roupas, remédios, eletrodomésticos (De Luca, 2013, p.456; Schroeder, 1986; Kobayashi, 2012).

Embora tenha havido um aumento da participação da mulher no mercado de trabalho e mais acesso à educação formal, persistiu, em grande medida, uma divisão tradicional dos papéis de gênero e uma concepção da mulher dedicada à maternidade e à esfera doméstica, consagrada a seu marido e educadora de seus filhos (Bassanezi Pinsky, 1997, p.609). Só a partir da década de 1970 o aumento da capacidade de consumo e a mobilidade social ascendente das classes médias urbanas brasileiras trouxeram como consequência uma progressiva transformação dos modelos socioculturais e dos papéis de gênero, pelos quais a mulher começou a ser pensada fora do horizonte exclusivo do casamento e da maternidade (Berquó, 1998, p.413-414; Santos, 1982, 1990). Começaram então a ser abordados publicamente, nas revistas e nos jornais, temas como separação, sexualidade e métodos anticoncepcionais (De Luca, 2013). Na década de 1970, a psicanálise já tinha conquistado um êxito considerável entre as camadas médias do Brasil, com ampla difusão nos meios de comunicação e na televisão (Russo, 2002, 2012). Houve um verdadeiro boom psicanalítico nas classes educadas dos centros urbanos, processo que contribuiu para desestabilizar os papéis de gênero, e que colocou o foco na exploração da história individual, na própria personalidade, no autoconhecimento e na liberação do eu e dos próprios desejos (Russo, 2002, 2012). Tal como demostraram pesquisas sobre a divulgação da psicanálise nas revistas femininas das décadas de 1960 e 1970, embora o casamento se conservasse como núcleo da família, houve uma transformação no modo de pensar e viver a relação entre seus membros: os papéis fixos e imutáveis de homes e mulheres, pais e filhos, começaram a ser questionados em favor de novos valores morais, considerados “modernos”, como o autoconhecimento, a autonomia e a independência (Santos, 1982, 1990). A difusão do conhecimento psicanalítico entre o público leigo haveria contribuído para a modernização dos comportamentos sociais e o desprestígio das hierarquias entre sexos e faixas etárias diferentes (Santos, 1982, 1990). Quando os filhos começam a ser pensados cada vez mais como fruto de decisões conscientes, no entanto, isso se dá junto à manutenção do horizonte da família elementar e do casamento como padrão cultural balizador das relações sociais, ponto de referência na construção da identidade da criança (Dauster, 1988). O processo de psicologização da sociedade coloca o indivíduo como referência dominante, com a premissa da possibilidade de realização e expansão da individualidade (Velho, 2006). É importante ressaltar que, no caso das crônicas e colunas de Lispector, embora a psicanálise não aparecesse articulada às reivindicações do feminismo, ante as quais Lispector tem uma atitude de ambivalência e até de confronto – dado por um modelo de feminidade “moderno” porém ligado ao âmbito doméstico, ao casamento e à maternidade –, ela continua ligada ao processo de “modernização” das relações familiares e à transformação no modo de pensar a procriação, a criança e a educação dos filhos.3

A infância foi um dos eixos fundamentais nessa transformação sociocultural dos modelos familiares: incorporada ao longo da primeira metade do século ao mundo do consumo cultural moderno, a partir de 1950 e 1960 começa a ser interpelada pelas estratégias publicitárias cada vez mais diretamente como destinatária e participante do consumo (Brites, 2000; Josiowicz, 2018). A infância constitui, entre 1950 e 1970, um índice da transformação das relações familiares e do modo de pensar a subjetividade e a história individual. A divulgação da psicanálise contribuiu definitivamente para esse processo, por meio da intensificação do papel dos pais na socialização primária dos filhos, da ampliação da autonomia das crianças, sua individualidade e escolha, assim como do questionamento dos valores tradicionais e das convenções sociais. Desse modo, embora continuem existindo desigualdades entre homens e mulheres, os papeis como pais e mães se transformam, tendo como missão principal descobrir, estimular e cultivar a subjetividade dos filhos. Isso porque, de acordo com o novo paradigma de compreensão da infância, tornou-se importante cuidar não só da saúde física, da nutrição e do bem-estar físico, por intermédio de conhecimentos médicos, mas do equilíbrio psicológico e da personalidade. Assim, o novo modelo erigiu as crianças – não só os “menores” ou “anormais” – a objetos de cuidados tanto físicos e biológicos como psíquicos e psicológicos, isto é, de preocupações biopsíquicas, tornando-os verdadeiros interrogantes, objetos de investigação e estudo por parte de pais, psicólogos, professores e médicos.4

Psicologia, psicanálise e autoajuda em Clarice Lispector

Clarice Lispector começou a fazer terapia psicanalítica na década de 1940 (durante sua estada em Berna, Suíça), e continuou em contato com a psicanálise após sua volta ao Brasil em 1959, onde fez análise com vários psicanalistas. Lispector foi leitora de livros de psicologia, sexualidade e psicanálise. Sua biblioteca continha, junto a uma série de livros destinados ao público feminino, com conselhos de beleza, receitas, exercícios físicos, dieta, saúde e vestuário,5 uma bibliografia psicológica de considerável amplitude. Eram livros sobre psicanálise, como o escrito pela psicóloga feminista Karen Horney, ou os volumes de Wilhelm Reich e Erich Fromm, mas também folhetos, livros e best-sellers a respeito de psicologia, personalidade e autoconhecimento, como o do psicólogo norte-americano Jerome Bruner. Também havia publicações de sexologia e sexualidade, de autores como o psicólogo e sexólogo Albert Ellis, de autoajuda psicológica e de espiritualidade, além de manuais de autoajuda para mulheres, de educação sexual e de educação dos filhos, com perguntas e respostas acerca do comportamento infantil.

Trata-se de uma ampla bibliografia sobre psicologia, psicanálise, sexualidade, educação dos filhos e autoajuda que abrange da década de 1930 à de 1970, com presença expressiva de textos de autoajuda psicológica de origem norte-americana, que adaptam o saber psicológico ao público amplo e oferecem ferramentas psicológicas aplicáveis à vida cotidiana por meio do autoconhecimento e da reflexão a respeito da própria personalidade. Neles, o saber psicológico aparece como modo de fortalecer a autoconfiança, afastar o pessimismo e a frustração, lidando com temas como sentimentos de ansiedade e angústia, sexualidade e sucesso material e afetivo. Embora as leituras de Lispector abranjam uma variedade de fontes, nelas a psicologia encontra-se fortemente atrelada ao referencial psicanalítico.

Entre os livros mais anotados por Lispector, a questão do papel dos pais na educação dos filhos – o estímulo à formação da personalidade deles e o modo de assegurar sua bem-sucedida socialização – aparece com imensa relevância. Lispector anota profusamente as partes que dizem respeito à transformação na forma de criação dos filhos e no papel dos pais, ao questionamento da autoridade paternal e ao novo protagonismo dos próprios filhos e de suas escolhas individuais. Sublinha a importância de os pais abandonarem atitudes autoritárias, que paralisam e enfraquecem a pessoalidade dos filhos, e privilegiarem atitudes de confiança, compreensão e tolerância, capazes de estimular seu desenvolvimento. Em lugar de transmitir uma norma ou objetivo fixo, os adultos deveriam auxiliar os filhos na realização de suas potencialidades, sua espontaneidade e originalidade. Como parte dessas transformações, as leituras de Lispector ressaltam a necessidade de falar abertamente sobre sexo com as crianças, o que asseguraria o desenvolvimento saudável de sua capacidade sexual e amorosa.

Psicologia, psicanálise, transformações familiares e a nova centralidade da infância

O impacto dessas leituras, que dizem respeito ao interesse de Clarice Lispector pelo saber psicanalítico e psicológico sobre a infância, pode ser percebido na série de colunas destinadas ao público feminino que publica, sob pseudônimo, entre 1959 e 1961.6 Lispector redige a coluna “Entre mulheres” na revista Comício de maio a setembro de 1952, sob o pseudônimo de Teresa Quadros; escreve uma coluna no jornal Correio da Manhã entre agosto de 1959 e maio de 1961, sob o pseudônimo de Helen Palmer;7 e uma seção com o título “Só para mulheres” no tabloide Diário da Noite de abril de 1960 a março de 1961, como ghost writer da atriz de cinema e televisão Ilka Soares.8 É nas duas últimas que a maneira de pensar a maternidade e a infância têm maior centralidade.

Nessas crônicas, aparece um estereótipo de mulher associado à maternidade, à domesticidade e ao casamento. No entanto, não se trata da permanência do modelo de feminidade tradicional, mas de uma mulher que “acompanha o ritmo da vida atual”, é “moderna e interessante”. Uma mulher moderna, que é responsável pela modernização do âmbito familiar, capaz de repensar as relações familiares e a domesticidade a partir de um novo ponto de vista, compatível com uma sociedade de consumo. Trata-se de uma ambivalência no modelo feminino: a mulher é moderna, mas não necessariamente independente. Assim, a coluna feminina fala sobre separação e desquite não porque sejam opções abertas à escolha da leitora, mas para estimular sua compreensão psicológica e psicanalítica do núcleo familiar, do marido e dos filhos (Lispector, 30 dez. 1959). O vocabulário psicanalítico está associado a um modelo de família moderna no qual a mulher é uma analista no interior do lar, capaz de compreender as emoções, os afetos e a personalidade do marido, e no qual a psicanálise é uma ferramenta de resolução dos conflitos conjugais.

Quanto ao modelo de relação com os filhos, as colunas apresentam a mulher como enfermeira, que cuida da saúde física da criança, da alimentação, do vestuário, das atividades físicas e do descanso (Lispector, 15 jul. 1960), e, ao mesmo tempo, como uma psicanalista do lar: as crônicas citam o saber e a opinião dos “psicólogos” e transmitem um modelo de educação em que mães e pais devem “estudar detidamente os filhos”, dar a eles atenção, escutar o que têm a dizer, transmitir-lhes confiança, sempre evitando qualquer rótulo:

será de grande vantagem para a criança que os pais lhe deem atenção, escutando sem interromper as longas histórias que têm a contar, pontilhadas de erros e muitas vezes difíceis de ser interpretadas. O clima de confiança que a criança sentir em redor de si é de grande importância para o seu bom desenvolvimento psíquico e sua adaptação ao meio. As dificuldades que encontra em seus contatos com o exterior são neutralizadas pela eficiente orientação dada pelos pais. Uma criança bem compreendida em seu próprio lar tem as melhores armas para vencer na vida, quando tiver que enfrentá-la (Lispector, 5 ago. 1960, p.5).

Segundo Helen Palmer, esse tipo de educação, em um clima de respeito e diálogo, poderia assegurar sua saúde mental e sua exitosa adaptação social. Trata-se de uma educação atenta às particularidades da vida psíquica da criança, na qual os pais se tornam verdadeiros estudiosos delas, evitando qualquer rótulo ou imposição. Os pais deveriam ser amigos e companheiros das crianças, ter “tolerância e paciência” com suas necessidades e oferecer conselhos adequados. “Seria muito bom que certas mães saíssem de sua fria autoridade para discutir certos problemas de grande interesse para a sua filha, que muitas vezes parecem ao adulto assuntos tolos e infantis, mas que para os pequenos são de vital importância” (Lispector, 5 ago. 1960, p.5). A autoridade e a obediência são substituídas pela compreensão da vida emocional do filho, por uma perspectiva focada nas próprias crianças. Desse modo, redefine-se a “disciplina” não como imposição, mas como “justiça”, “carinho” e “firmeza”, isto é, não autoritária e não necessariamente baseada numa atitude de obediência passiva (Lispector, 22 fev. 1961.)

Nessa direção, Helen Palmer afirma que “ser mãe”:

Não é apenas dar à luz uma criança. Não é sofrer as dores do parto e depois esquecer o fruto de suas entranhas, deixando-o entregue a si mesmo. Uma verdadeira mulher e mãe sabe que seus deveres vão além de alimentar, enfeitar e agasalhar o seu filho. Antes de tudo, deve dar-lhe amor. Amor que é devoção, cuidado, orientação, e sobretudo participação em seus problemas e suas dificuldades. Toda mãe deve conhecer o filho que trouxe ao mundo, e isso consegue chegando-se a ele, ouvindo-lhe as primeiras queixas e os primeiros desejos. Deixá-lo inteiramente entregue aos cuidados de uma estranha, de uma babá, vendo-o por minutos, apenas, beijando-o apressadamente no momento de exibi-lo às visitas, é mais do que erro. É crime. Não acredito que as minhas leitoras sejam assim. Mas existem mulheres que o fazem. Depois se queixam dos desgostos que, adolescentes, essas crianças lhes trazem. Ressentem-se da predileção que o filho não esconde pelo pai ou pela própria babá. Desesperam-se ao descobrir que aquele que elas julgavam um bebê inofensivo e insignificante transformou-se num delinquente, um revoltado, num adulto que não a respeita nem lhe tem amor. Minha amiga, a primeira qualidade para uma mulher ser mulher é saber ser Mãe. Não se descuide desse dever. Não seja o monstro responsável pelas futuras falhas de seu filho, deixando-o levianamente crescer longe de seus olhos e de seus carinhos (Lispector, 9 set. 1959, p.5).

A crônica ressalta a transformação no modo de conceber a infância e a relação entre pais e filhos: já não se trata exclusivamente dos cuidados com a saúde física, mas de um tipo de proximidade afetiva que exige dos pais que sejam verdadeiros psicólogos no interior do lar, constantemente atentos às mudanças na personalidade dos filhos, que compreendam seus “problemas” e “dificuldades”, que ouçam suas “queixas” e seus “desejos”. Desse modo, a educação materna é redefinida, carregada de sentidos psicológicos profundos, dado que dela dependem a saúde psíquica da criança, sua socialização e sua adaptação à sociedade. A conduta do filho aparece assim carregada de sentidos e sintomas possíveis, fonte de investigação psicológica detalhada e cotidiana. O descuido ou a indiferença materna – assim como a mediação de uma babá – poderiam ter como consequência, na vida adulta, a “revolta”, a “delinquência”, isto é, o desajustamento social. As colunas solicitam às mães que olhem o mundo na perspectiva de seus filhos, que compreendam o sentido psicológico profundo de seu comportamento, as razões de seu agir e que sejam conscientes do papel central que têm na vida psíquica e afetiva das crianças.

Da mesma forma, na coluna “Explicando para as crianças: ‘amor’”, Ilka Soares comenta um livro de uma autora norte-americana que mostra “como ensinar as crianças a respeito ... da vastidão do sentimento de amor” (Lispector, 26 jul. 1960, p.19). Em lugar de explicar às crianças o mundo adulto, o livro solicita aos pais que se aproximem da perspectiva dos filhos, vejam o mundo por meio de seus olhos e falem na sua língua. Só a partir dessa compreensão poderiam atuar para modificar a conduta dos filhos, gradativamente, sem imposições, estimulando sua socialização, cultivando seu comportamento em público e sua sociabilidade, modo fundamental para assegurar sua adaptação social.

Várias colunas abordam o tema da educação das filhas adolescentes, moças a quem se chama de “transviadas” ou “desajustadas”. As responsáveis por seu comportamento são, segundo a colunista, as mães: “Antes de tudo, seja amiga de sua filha!”, recomenda Palmer, o que implica “conversar com ela, ouvi-la, ajudá-la em seus pequenos problemas”, conhecer seu “mundo íntimo”, conquistar sua confiança. “Não a contrarie em tudo, não lhe faça proibições ou exigências”. A mãe deveria dedicar “atenção permanente” à sua filha, compreendê-la, e não a reprimir: “Se não estivermos ao seu lado, a própria vida irá ensiná-la... mas a que preço! Aos vinte, ela poderá ser uma adulta amarga, revoltada, sem amor e sem respeito a ninguém. Será acusada – injustamente. A culpa é apenas nossa, de seus pais e, principalmente, de sua mãe!” (Lispector, 16 dez. 1959, p.5). Em vez de julgar os filhos a partir de um lugar de autoridade, os pais deveriam se aproximar deles, perceber o mundo de seu ponto de vista, entrar em profunda intimidade afetiva, conhecer sua vida psíquica, suas emoções. Desse modo, esse modelo de mãe-psicóloga aparece como o único capaz – e principal responsável – de determinar o sucesso ou o fracasso dos filhos na vida adulta, sua adaptação à sociedade, sua socialização. As mães seriam as encarregadas de diagnosticar os sintomas no psiquismo dos filhos e no seu comportamento, e também de determinar as formas de curá-los, por meio da sublimação de suas pulsões libidinais e agressivas.

A divulgação da psicologia e da psicanálise – o saber psicológico aparece fortemente atrelado ao referencial psicanalítico – encontra-se associada a um tipo de educação “moderna”, que implica a intensificação do laço materno-filial e o cultivo da intimidade afetiva e psíquica entre pais e filhos. Nesse modelo, os filhos são verdadeiros objetos de estudo e investigação psicológica por parte dos pais: como indivíduos espontâneos e originais, eixos de sua própria educação. Já não se trata de civilizar as crianças, adaptando-as aos parâmetros do mundo adulto; são os pais que devem adaptar-se ao modo de perceber e experimentar dos próprios filhos. Essa mudança de eixo, da autoridade adulta para a centralidade da experiência infantil, está ligada às transformações pelas quais passam as classes médias urbanas brasileiras nessas décadas, dada a emergência de uma sociedade de consumo cada vez mais cosmopolita, no marco do capitalismo avançado da última metade do século XX, em que o mercado de consumo torna-se uma instância fundamental de socialização e de formação de valores (Ortiz, 1998, p.101). Nesse tipo de sociedade, as crianças deveriam receber um tipo de educação que estimulasse sua capacidade de escolha individual e as liberasse de qualquer rótulo ou classificação: elas criariam a própria identidade, rejeitando modelos externos, em relação fluida e dinâmica com um mundo em rápida transformação. Essa educação psicológica, baseada na compreensão de seu psiquismo, no estímulo de suas capacidades individuais e de sua originalidade, seria capaz de assegurar sua socialização exitosa em um mundo carente de parâmetros e estruturas fixas, baseado no consumo e no mercado como instância de formação. Embora o papel da mulher continue atrelado à estrutura familiar convencional, o horizonte fundamental de referência e legitimação sofre uma redefinição que parte justamente da difusão dos vocabulários psicológico e psicanalítico entre o público leigo, entrando no âmbito doméstico e na vida cotidiana do núcleo familiar.

Infância e psicanálise no jornal

Nas crônicas que Lispector assinou no Jornal do Brasil entre agosto de 1967 e dezembro de 1973, dessa vez com seu próprio nome, alcançando uma ampla popularidade entre o público das classes médias, a presença da psicanálise no modo de conceber a infância e o laço materno-filial é particularmente forte em dois sentidos principais: em primeiro lugar, as crônicas – que foram consideradas o texto de Lispector mais próximo a uma autobiografia – têm um caráter autoanalítico, que narra a infância como forma de refletir sobre a própria subjetividade e a formação do psiquismo. Em segundo lugar, a psicanálise oferece um vocabulário para dar conta das tensões na relação entre a mãe escritora e seus filhos, revelando as transformações no modo de pensar a infância e a educação.

As crônicas de Lispector no Jornal do Brasil revelam o grande impacto que o discurso psicanalítico teve na sociedade brasileira das décadas de 1960 e 1970, amplamente divulgado entre os leitores comuns e as camadas médias dos grandes centros urbanos, que consumiam psicanálise, falavam sobre ela e pensavam em si mesmos a partir de uma estrutura psicanalítica (Russo, 2002). Tendo feito sua primeira terapia psicanalítica na década de 1940, o contato de Lispector com a psicanálise se intensificou após sua volta ao Brasil em 1959, quando, separada de seu marido, o diplomata Maury Gurgel Valente, morou com seus dois filhos no bairro do Leme, no Rio de Janeiro, e fez terapia psicanalítica com Inês Besouchet, Catarina Kemper e Jacob Azulay, sendo o último período provavelmente o mais importante e mais longo, entre 1968 e 1973, fase que abrange a publicação das crônicas no Jornal do Brasil (Moser, 2009, p.307).

Nas crônicas, há inúmeras referências à psicanálise, mencionadas ao acaso e como parte do cotidiano: narra o caso de uma empregada que fazia psicanálise, conta a interpretação de seus sonhos por um “amigo” psicanalista e de quando ofereceu um livro a outro psicanalista, “do grupo de Melanie Klein” (Lispector, 13 jul. 1968). Em outra crônica, é a própria escritora quem analisa seu psicanalista, o doutor Azulay (Lispector, 20 mar. 1971). A crônica em si mesma torna-se espaço de escrita psicanalítica não no sentido de uma reflexão teórica ou clínica, mas de autorreflexão e análise da própria subjetividade, por meio de um vocabulário leigo, compreensível por públicos amplos. A psicanálise, mais do que como uma disciplina médico-científica, aparece como um vocabulário apropriável e compreensível por qualquer pessoa, uma ferramenta para a autocompreensão, assim como para a observação atenta e sutil dos outros e do mundo.

A partir desse olhar psicanalítico leigo, atento às manifestações do inconsciente, as crônicas investigam, em situações da vida cotidiana, o laço entre a mãe – cronista – e os dois filhos com os quais convive no âmbito doméstico. Na crônica “O caso da caneta de ouro” (Lispector, 23 dez. 1976), por exemplo, a mãe parte da caneta de ouro que recebeu como presente para investigar detidamente o psiquismo de seus filhos, decifrar seus desejos inconscientes, dialogar com eles e entrar em seu mundo interior, de modo a compreender seu modo de raciocinar, suas percepções e emoções. A cronista torna-se uma verdadeira psicóloga do interior do lar, sempre disposta a oferecer uma escuta atenta a seus pensamentos e percepções, capaz de desentranhar suas pulsões inconscientes, sentimentos de culpa, desejo e frustração. Em algumas crônicas é o próprio filho quem atua como “analista” da mãe e interpreta sua conduta. A crônica “Liberdade” narra um conflito doméstico aparentemente sem importância, mas que revela uma transformação na relação materno-filial: o filho não gosta do corte de cabelo da mãe e reivindica o “direito dele de não ter uma mãe feia”, enquanto a mãe reivindica o direito “de ser eu mesma, por mais feia que fosse ... o meu direito total à liberdade” (Lispector, 26 abr. 1969, p.2). A crônica revela um questionamento da hierarquia entre mãe e filho, dado que ambos são igualmente considerados portadores de direitos e vozes autorizadas a falar sobre o outro – a mãe sobre o filho e o filho sobre a mãe –, como parte de um novo modelo familiar que se define pela “liberdade” de todos e de cada um. Algo similar acontece na crônica “Mãe-gentil”, na qual os filhos redescobrem a mãe: “Por um tempo atrás meus filhos andaram me descobrindo. Quero dizer como pessoa, pois como mãe me haviam descoberto desde que nasceram ... Foi tão curioso como, na descoberta, além de mãe, eles me consideravam uma pessoa com quem conversar” (Lispector, 12 out. 1968, p.2). A crônica revela, por meio da “descoberta” por parte dos filhos da “pessoa” Clarice Lispector, um abandono dos papéis familiares fixos, de “mãe” e “filho”, e um processo de redescoberta da identidade do outro com sua própria subjetividade, não exclusivamente como “mãe”. Trata-se de um processo de quebra e reinvenção da individualidade dos membros da família, no qual os filhos são verdadeiros protagonistas: suas percepções são valorizadas e eles são tidos como vozes autorizadas no interior do núcleo familiar.

Em outras crônicas, o vocabulário psicanalítico aparece como ferramenta de investigação da subjetividade dos filhos e das manifestações do seu inconsciente. Por meio de uma linguagem esteticamente elaborada, as crônicas procuram narrar a percepção da criança, com foco em dois momentos cruciais: o nascimento e o ingresso à linguagem. Assim, a crônica “O terror” entra na perspectiva da criança recém-nascida, no mundo informe de luzes, cores, sons, vozes e sensações físicas, carente de articulação linguística. O nascimento é pensado não como um momento idílico ou pleno, mas como a “morte de um ser uno se dividindo em dois solitários”, começo de um “terror secreto que duraria até a morte. Terror secreto de estar na terra, como uma saudade do céu” (Lispector, 5 out. 1968, p.2). Esse modo de conceber o nascimento como evento traumático, de cisão e quebra, que deixa uma marca duradoura na vida adulta, tem fortes ligações com as teorias de Melanie Klein, amplamente difundidas nos círculos psicanalíticos da segunda metade do século XX no Brasil, sobretudo na psicanálise infantil (Klein, 1997; Abrão, 2009).

Por outro lado, em “Menino a bico de pena”, a infância aponta para a fronteira do cognoscível, para o limite da linguagem, do dizível e da representação: “Como conhecer jamais o menino? Para conhecê-lo tenho que esperar que ele se deteriore, e só então ele estará ao meu alcance ... Não sei como desenhar o menino. Sei que é impossível desenhá-lo a carvão, pois até o bico de pena mancha o papel para além da finíssima linha de atualidade em que ele vive” (Lispector, 18 out. 1969, p.2). A criança habitaria um presente absoluto, e somente com o ingresso na linguagem e na representação ela será introduzida no mundo social e na temporalidade histórica. A crônica investiga de forma minuciosa as sensações e percepções da criança, em um momento prévio ao ingresso à linguagem: os atos de levantar, cair, sentir a própria mão, a saliva, chorar, chamar a mãe, sonhar, aparecem como fontes de investigação. “Menino a bico de pena” explora o momento de ingresso da criança na simbolização, da primeira articulação linguística: ela sai do silêncio, próprio do nível pré-linguístico, para entrar no mundo da palavra e da socialização. Essa entrada é representada como uma ruptura, uma quebra ou abandono do mundo da sensação pura, do puro presente:

O próprio menino ajudará sua domesticação: ele é esforçado e coopera. Coopera sem saber que essa ajuda que lhe pedimos é para seu autossacrifício ... Enquanto chora, vai se reconhecendo, transformando-se naquele que a mãe reconhecerá. Quase desfalece em soluços, com urgência ele tem que se transformar em compreensível senão ninguém o compreenderá, senão ninguém irá para o seu silêncio, ninguém o conhece se ele não disser e contar, farei tudo o que for necessário para que eu seja dos outros e os outros sejam meus, pularei por cima da minha felicidade real que só me traria abandono, e serei popular, faço a barganha de ser amado ... E sua segurança é saber que tem um mundo para trair e vender, e que o venderá (Lispector, 18 out. 1969, p.2).

Trata-se de uma domesticação, um autossacrifício, uma quebra da conexão com o inconsciente que caracteriza a criança pré-linguística. A aquisição da linguagem implica a construção de uma imagem do eu diante dos outros, que o torna “reconhecível”, “compreensível”, e também apropriável pelo mundo social, pelas expectativas e representações alheias, uma espécie de “traição”. “Menino a bico de pena” explora o que Julia Kristeva chamou de “chora semiótica”, uma articulação provisória, móvel, incerta e indeterminada, próxima de um ritmo, receptáculo nutritivo, materno e acolhedor (Kristeva, 1981, p.262; Jardim, 2008, p.27). A “chora semiótica” designa funções pré-edipianas, pulsões orais e anais, dirigidas e estruturadas em relação ao corpo da mãe, ligadas ao plano do inconsciente, que ainda não remete a um objeto significado por uma consciência (Kristeva, 1981). São estados pré-fonológicos, antepredicativos, dependentes das pulsões corporais, libidinais e agressivas, de fusão com o materno, que remontam a um momento prévio à significação. Segundo a teoria de Kristeva, na relação pré-simbólica e pré-significante com o materno, emerge a designação, que implica a rejeição do materno (Kristeva, 1981). Os primeiros balbucios, as formas de vocalização arcaica, responderiam a um impulso de rejeição: quando a negatividade recrudesce, temos a emergência do signo por meios fônicos, gestuais, semânticos, sintáticos, que separam e nomeiam o corpo da criança (Kristeva, 1981, p.285). “Menino a bico de pena” explora justamente a passagem da criança do estado pré-linguístico, que Lispector concebe como “real”, “de atualidade absoluta”, “verdade” da existência “pura” e da “loucura” (Kristeva ressalta sua similitude com o discurso psicótico) para seu ingresso na função simbólica. O ingresso no mundo do sentido e da significação, o início do processo de socialização, aparece como um processo marcado pela negatividade e pela violência, um “autossacrifício”, uma “traição”: trata-se da quebra do mundo de pulsões corporais e fusão com o materno, a partir da qual emerge o eu e a capacidade de nomear. A subjetividade e a capacidade de significação, portanto, desde o início, aparecem caracterizados pela falta, o que se traduz na visão cindida da vida psíquica adulta característica da psicanálise.

Há ainda outras crônicas de Lispector nas quais a marca psicanalítica é importante: são aquelas de caráter autoanalítico, que narram momentos-chave da vida psíquica infantil da narradora-cronista. Nelas, o psiquismo infantil aparece como altamente complexo: a criança como sujeito de pulsões libidinais e agressivas, capaz de crueldades, atos perversos e sádicos, e também de uma força desejante intensa e profunda, de fruição e sensualidade. Na crônica “Tortura e glória”, a narradora afirma: “Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com seu amante” (Lispector, 2 set. 1968, p.2). A crônica “Restos do carnaval”, por seu lado, narra as memórias de um carnaval na infância. A criança aparece como portadora de um complexo mundo interior, marcado pelo sofrimento – dado pela mãe doente e pela precária situação da família – e por uma “secreta” “capacidade de prazer” que o carnaval revela:

Eu tinha medo mas era um medo vital e necessário porque vinha de encontro à minha mais profunda suspeita de que o rosto humano também fosse uma espécie de máscara. ... se um mascarado falava comigo eu de súbito entrava no contato indispensável com o meu mundo interior, que não era feito só de duendes e príncipes encantados, mais de pessoas com o seu mistério (Lispector, 16 mar. 1968, p.2).

Em lugar do mundo da inocência, da imaginação e da fantasia, a percepção da criança aparece associada ao caráter cindido da subjetividade, ao inconsciente e ao caráter desdobrado do eu. Em Sigmund Freud (2000, p.57-99), igualmente, a infância não só possui uma particular proximidade com a linguagem do inconsciente, mas é um “perverso polimorfo” que – sobretudo na fase pré-genital – tende à crueldade, ao sadomasoquismo, assim como aos impulsos erógenos. Para Freud (1973a), a precocidade sexual estaria fortemente ligada à precocidade intelectual, à curiosidade e à busca de conhecimento. Nas crônicas de Lispector, a psicanálise constitui o vocabulário que permite interpretar a experiência infantil como chave da formação do psiquismo adulto. A infância aparece associada à fruição: na crônica “Banhos de mar”, por exemplo, a menina é sujeito de experiência e felicidade plena. A criança é o modelo de sublimação estética, em perpétuo êxtase, capaz de perder-se em cada experiência, e para quem as palavras são instrumentos de fruição corporal.

Por outro lado, nas crônicas aparece também a importância, apontada por Freud (1973b), de facilitar às crianças explicações sobre a vida sexual, o que poderia ajudar a combater sentimentos de culpa, desconfianças, conflitos psíquicos e repressões desnecessárias. Nessa direção, a crônica “A descoberta do mundo” relata o “descobrimento” da sexualidade na pré-adolescência como um evento traumático que deixa uma marca indelével no sujeito. Afirma Lispector (6 jul. 1968, p.2): “Sofri muito, o que poderia ter sido evitado se um adulto responsável se tivesse encarregado de me contar como era o amor. Esse adulto saberia como lidar com uma alma infantil sem martirizá-la com a surpresa, sem obrigá-la a ter toda sozinha que se refazer para de novo aceitar a vida e os seus mistérios”. A disponibilidade do adulto para dialogar e explicar “o amor” e “os fatos” da vida sexual poderia evitar traumas psíquicos e sofrimentos futuros.

Na crônica “Pertencer”, Lispector afirma ter ouvido de um “médico” – provavelmente um psicanalista – que a criança, desde o berço, é altamente perceptiva do que acontece ao redor. Adentra-se, então, na análise da cena de seu nascimento:

... fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão e eu falhei (Lispector, 15 jun. 1968, p.2).

No nascimento, aparece a marca do eu como falido, que não satisfaz a expectativa dos outros, o que provoca um sentimento de culpa, carência e falta, por não ter atingido o objetivo para o qual foi criada. Trata-se de uma “fome”, “intensa”, “sensação de precisar pertencer”, que vai determinar de modo indelével a vida psíquica do adulto. É importante ressaltar a relação com as teorias de Melanie Klein (1997), que concebe o nascimento como evento potencialmente traumático, que deixa marcas duradouras na vida adulta, e pensa a criança como um ser cindido, que experimenta desilusões, impulsos neuróticos e ansiedades, conflitos edípicos, sentimentos sádicos e masoquistas, culpa e angústias (Klein, 1997, 2011). Essas teorias foram amplamente influentes nos círculos psicanalíticos brasileiros da segunda metade do século XX, sobretudo na psicanálise de crianças e psicóticos (Abrão, 2009). Nas crônicas de Lispector, a criança é, desde a concepção, incorporada ao mundo das expectativas adultas, como fantasma do desejo alheio; o próprio eu está marcado por esse desdobramento primário, fonte de ansiedades, conflitos e alienação.

Considerações finais

A centralidade dos discursos psicológico e psicanalítico nas colunas e nas crônicas de Lispector publicadas em jornais e revistas femininas revela uma transformação na maneira de conceber a infância: um novo paradigma de educação, em que os filhos começam a ser núcleos e protagonistas da própria educação, verdadeiros mistérios psicológicos no interior do âmbito doméstico, e um novo modo de entender a própria experiência infantil como núcleo da análise do psiquismo adulto. Nos dois sentidos, as crônicas e colunas de Lispector revelam a importância que, num âmbito do consumo cultural moderno, como a imprensa de massa, adquiriu a infância como objeto de cuidado tanto físico como psíquico. Nesse sentido, embora o discurso da psicanálise seja psicogênico, as crônicas e colunas revelam um modelo biopsicológico para a compreensão do núcleo familiar, ligado à preocupação higiênica e psicológica pela saúde física e psíquica das crianças. Junto com as políticas públicas, higiênicas e eugênicas, de assistência à infância “menor” e desprotegida, e com a preocupação dos médicos e puericultores quanto à educação materna, emerge, a partir da divulgação psicológica e psicanalítica nas décadas de 1960 e 1970, a criança das classes médias como outro paradigma fundamental para entender a infância, núcleo do consumo cultural moderno. Esse paradigma se torna índice da importância da personalidade, das escolhas individuais, de um novo modo de entender a subjetividade infantil e sua relação com o psiquismo adulto. E revela um questionamento dos papéis fixos, de obediência e autoridade, entre a mãe e os filhos, e aponta para a nova centralidade que crianças e jovens adquirem na sociedade, como consumidores e verdadeiros núcleos estruturantes da subjetividade adulta.

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