A redação de um artigo científico: por onde começar?

A redação de um artigo científico: por onde começar?

Autores:

David Normando

ARTIGO ORIGINAL

Dental Press Journal of Orthodontics

versão impressa ISSN 2176-9451

Dental Press J. Orthod. vol.19 no.1 Maringá jan./fev. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/2176-9451.19.1.001-001.edt

"Era só começo o nosso fim." (Yuri Popoff, contrabaixista e compositor mineiro)

Não é objetivo, nas próximas linhas, transformar o nosso leitor em um escritor contumaz de artigos científicos. A redação científica requer prática, e existem bons cursos para conduzir-nos por atalhos. No entanto, existem alguns conselhos importantes, que repasso pelas experiências que vivo como revisor, editor e, principalmente, como autor.

A boa pesquisa científica começa com uma ideia original, executada por meio de um robusto conjunto de métodos. Diante de uma boa pergunta, a resposta virá de forma mais interessante. Se você encontrou a resposta de maneira confiável, falta apenas uma pequena dose de comunicação eficiente. Já tive contato com excelentes trabalhos que se perderam por uma redação deficiente, como, também, boas redações tentando salvar trabalhos deficientes, o que é mais corriqueiro. O corpo editorial terá mais interesse em corrigir problemas na redação do que deficiências metodológicas.

Por onde começar a redigir? Que tal pelo fim? Sim, pela conclusão. Uma das falhas mais comuns, no meu entendimento, é começar a redação pela introdução. Como apresentaremos algo, se ainda não sabemos o que é? Esse caminho rotineiro decorre, em minha opinião, de tentarmos aproveitar o projeto que deu origem ao estudo, ora em redação. A consequência é uma introdução longa e distante da mensagem principal de seu trabalho: a conclusão. Então, começar pela conclusão incute em sua mente o desenho de um caminho que você deseja descortinar ao seu leitor.

Seguindo, mantenha a conclusão em mente para redigir todo o artigo, mas seja breve e linear. Um dos erros mais comuns na redação científica é ser prolixo, escrever mais do que o necessário, principalmente na introdução. O pesquisador vive intensamente o que faz, dorme e sonha com os objetos de seu experimento ou observação. Por uma inebriante osmose, passa a acreditar que tudo o que escreve é importante. Convém, então, se colocar no lugar do outro, do leitor. Nesse caso, menos é mais. Vivemos na era da comunicação rápida. Textos curtos e palavras certas são mais apropriados. Então, simplesmente, leia e releia o que escreveu e corte, sem medo ou complexo de culpa, tudo que imaginar não ser importante para a compreensão do texto. Muitas revistas científicas de maior impacto na ciência, como a Nature e Science, estão solicitando submissões com um texto bem menor do que nos deparamos na Odontologia. Há um bom motivo.

Desenhe. Isso mesmo. Faça um traçado estratégico, um esqueleto, de todas as informações que deseja apresentar, e defina a localização de cada item dentro da estrutura do texto. Lembre-se de manter a conclusão em mente. À medida que encontre alguma informação interessante, primeiro pergunte a si mesmo se esse conhecimento é realmente importante para a compreensão do texto. Somente depois da resposta afirmativa e convincente, indique a posição desse questionamento na estrutura do texto.

Dentro da estrutura IMRaD (Introdução, Metodologia, Resultados e Discussão), depois da conclusão, normalmente, passo para os resultados, em seguida, à discussão e ao material e métodos. A introdução será a última parte. Em todos esses capítulos, não tenha receio de cortar gorduras. O pesquisador tem, geralmente, dificuldade de descartar dados de seu experimento que não produziram informação útil, assim como há dificuldade em entender que dar um passo atrás, buscando uma nova informação, pode ser fundamental para o sucesso do estudo. Cortar dados excessivos facilita, sobremaneira, a redação do manuscrito.

Deixe o título para o final. Você pode, até, redigir um título provisório, porém, quando o texto estiver pronto, analise se o título está adequado para informar, principalmente, o que se apresenta na conclusão do estudo. Entenda que o título é o resumo do resumo, porém não o alongue mais do que o necessário. Títulos longos, tal qual textos longos, suscitam o desinteresse do leitor. O título não precisa, necessariamente, comunicar tudo.

Releia o título do presente editorial. Tudo bem, não é uma pesquisa. O editorial tem mais liberdade para devaneios. Mas, analise-o. No texto não há relato, apenas, de como iniciar a redação de um manuscrito. Existem outras informações importantes. É bem provável que se eu as tivesse inserido no título, o nosso começo teria chegado ao fim, já nas primeiras palavras.

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