A redesignação vocal em pessoas trans

A redesignação vocal em pessoas trans

Autores:

Rodrigo Dornelas,
Raphaela Barroso Guedes Granzotti,
André Filipe dos Santos Leite,
Kelly Silva

ARTIGO ORIGINAL

CoDAS

versão On-line ISSN 2317-1782

CoDAS vol.29 no.2 São Paulo 2017 Epub 13-Mar-2017

http://dx.doi.org/10.1590/2317-1782/20172016168

Prezadas Professoras

Roberta Gonçalves da Silva e Ana Luiza Navas,

Foram publicadas em junho do ano corrente, pela Universidade da Califórnia – San Francisco, as diretrizes para atendimento inicial à saúde integral das pessoas transgêneras e gêneros não binários. O objetivo do documento é capacitar profissionais visando facilitar o acesso à saúde desta população. Dentre as justificativas utilizadas que motivaram a elaboração do “Guidelines for the Primary and Gender-Affirming Care of Transgender and Gender Nonbinary People1”, os autores citam um estudo realizado na Califórnia com mais de 600 pessoas transgêneras que relataram como as principais barreiras para procurar um serviço de saúde a discriminação e o desrespeito por parte dos profissionais, sendo que 50% das entrevistadas ainda relataram que necessitam esclarecer aos profissionais os procedimentos sobre sua saúde.

Cada tópico do documento foi escrito por um grupo de especialistas convidados com base em publicações científicas sobre o tema e consultas realizadas a pessoas transgêneras e passou, posteriormente, por uma revisão por pares. O capítulo de interesse à Fonoaudiologia tem como título: Transgender voice and communication - vocal health and considerations, escrito por Sarah Schneider (University of California San Francisco, Department of Otolaryngology Head and Neck Surgery University of California San Francisco, Voice and Swallowing Center) e Mark Courey (University of California San Francisco, Voice and Swallowing Center).

O capítulo aborda a preocupação de profissionais fonoaudiólogos com a saúde de pessoas transgêneras na perspectiva de uma produção vocal saudável e uma comunicação global eficiente. A pluralidade da voz é trazida com a multidisciplinaridade, em que vários profissionais podem contribuir na construção de uma nova imagem vocal para essa população. Dentre os aspectos trabalhados na comunicação de pessoas trans, estão incluídos: timbre, entonação, intensidade vocal, fadiga, ressonância, qualidade vocal, articulação, velocidade de fala, linguagem e comunicação não verbal.

Os autores apresentam inicialmente queixas vocais que podem não estar relacionadas à redesignação sexual, divididas em orgânicas, não orgânicas, iatrogênicas e idiopáticas. Posteriormente trazem os itens que necessitam ser trabalhados relacionados à redesignação vocal, organizados em feminização vocal para mulheres trans e masculinização no caso de homens trans, a saber: pitch, ressonância, entonação, intensidade, terapia vocal comportamental, efeitos hormonais na terapia de voz e considerações cirúrgicas. Recomendam ainda que, antes de iniciar qualquer tipo de tratamento vocal, a pessoa trans deverá passar por uma avaliação com o médico otorrinolaringologista, que inclui exame de imagem videolaringoscopia com luz estroboscópica para avaliar a anatomia e fisiologia das estruturas relacionadas com a produção vocal e avaliação com um fonoaudiólogo.

Vale ressaltar que, segundo as diretrizes, tanto em mulheres trans como em homens trans, as técnicas de fonação em fluxo e voz ressonante são comumente utilizadas. Porém, exercícios de função vocal parecem não ter resultados satisfatórios com a população de mulheres trans. Com relação aos homens trans, a procura por atendimento vocal é menor quando comparada à mulheres trans, o que pode ser justificado pelo efeito positivo na voz do tratamento hormonal em homens trans. A hormonioterapia e a terapia comportamental são eficazes para 90% de homens trans, assim, a cirurgia em pregas vocais é raramente indicada. Como orientação, sugere-se a realização de estudos sobre intervenção em voz de homens trans. O capítulo é finalizado com 46 referências de artigos científicos que abordam o tema transexualidade, comunicação e voz, todos disponíveis em língua inglesa.

O atendimento a essa população no Brasil não é recente e a cada ano observa-se o aumento da procura pela terapia fonoaudiológica. Assim, é importante que o fonoaudiólogo se aproprie da temática não só no aspecto técnico, mas sim na perspectiva da despatologização das identidades trans, uma tendência política e dos movimentos sociais nacionais e internacionais. A leitura das diretrizes contribuirá para o conhecimento global das necessidades em saúde das pessoas trans, inclusive no aspecto de acolhimento, fazendo com que o profissional se aproxime do contexto social destas pessoas e suas necessidades de cuidado em saúde integral.

REFERÊNCIAS

1 Deutsch M. Guidelines for the primary and gender-affirming care of transgender and gender nonbinary people. 2. ed. San Francisco: University of California; 2016.
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