A trajetória de Virgínia Schall: integrando Saúde, Educação, Ciência e Literatura

A trajetória de Virgínia Schall: integrando Saúde, Educação, Ciência e Literatura

Autores:

Denise Nacif Pimenta,
Miriam Struchiner,
Simone Monteiro

ARTIGO ORIGINAL

Ciência & Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1413-8123versão On-line ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.22 no.10 Rio de Janeiro out. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/1413-812320172210.33932016

CONSTRUTORES DA SAÚDE COLETIVA COLLECTIVE HEALTH BUILDERS

Sinto que minha saudade é produto da paixão que tenho pela vida. Trecho do Poema “Sentindo” escrito por Virgínia Schall.

Virginia Torres Schall de Matos Pinto ou Virgínia Schall (1954-2015) foi pesquisadora pioneira na articulação dos campos da Saúde, Educação e Divulgação Científica no Brasil. Quem teve o privilégio de conhecer a pessoa, a mulher, a cientista, a poetisa e a contadora de histórias, sabe que falar de Virgínia é descrever um ser múltiplo. Com um olhar amplo, holístico e interdisciplinar estabeleceu conexões entre diversos campos do saber, contribuindo para a construção e a consolidação de uma abordagem acadêmica integrada e inovadora.

Fomentadora de ideias e parcerias inter e intra institucionais, cooperou de forma efetiva para a divulgação da ciência no país. Auxiliou na consolidação de políticas públicas nas áreas da saúde, educação e divulgação cientifica, a partir da atuação em diversas instâncias do governo na definição de prioridades nas temáticas onde atuava. No plano nacional, foi consultora dos Ministérios da Saúde e da Educação, da CAPES, CNPq, FAPERJ e FAPEMIG. No plano internacional, atuou em comitês da Organização Mundial da Saúde (OMS), Special Programme for Research and Training in Tropical Diseases (TDR/OMS) e da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS); além de editora de diversos periódicos científicos nacionais e internacionais.

Era grande entusiasta e incentivadora do potencial humano. Foi professora e orientou mais de 100 estudantes, do ensino básico ao pós-doutorado, que hoje atuam como pesquisadores e educadores no país e no exterior. Igualmente, implantou e coordenou o Programa de Vocação Científica na Fiocruz-RJ, em 1988, mais tarde a Iniciação Cientifica Júnior do CNPq, abrindo espaço para jovens do ensino médio iniciarem precocemente sua formação científica. Trouxe o mesmo programa para Fiocruz-Minas.

Além de professora e pesquisadora, expressou ideias e sentimentos em diversas obras literárias e poemas, sendo integrante da Academia Feminina Mineira de Letras. O presente texto objetiva salientar sua atuação enquanto produtora de conhecimento, inovadora de práticas e aglutinadora de pessoas e saberes, lamentavelmente interrompida pela sua morte precoce.

A trajetória de Virgínia Schall: notas biográficas

Mineira de Montes Claros e primogênita entre cinco mulheres, Virgínia, desde muito nova, teve atração pelo conhecimento. Em Alvinópolis-MG estudou em colégio de freiras, onde havia professoras “comunistas” que praticavam a Teologia da Libertação. Este contato possibilitou uma sensibilidade para questões sociais e de equidade que marcaram profundamente a trajetória profissional de Virgínia no campo da saúde coletiva e da educação em saúde.

Mais tarde, enquanto pesquisadora e professora incentivou uma visão crítica sobre as ‘maravilhas dessas descobertas científicas’ e o fazer científico, indicando sua importância bem como suas incongruências, relações de poder e iniquidades inerentes ao sistema capitalista e às formas de organização da sociedade. Lutou sempre para dar voz aos que tinham muito a dizer, mas raramente eram escutados. Como exemplificado em sua poesia Silêncio se de palavras e gestos se tecem vidas. Calar faz destinos1.

Virginia graduou-se em Psicologia em 1978 pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Em função do interesse pelos aspectos biológicos e fisiológicos do comportamento, foi bolsista de Iniciação Científica do CNPq de Fernando Pimentel de Souza, que utilizava caramujos como modelo experimental para estudo do cérebro humano. Em 1975, ganhou o Prêmio Jovem Cientista do Instituto Brasileiro de Educação, Ciência e Cultura com o trabalho sobre o comportamento do caramujo Biomphalaria glabrata, hospedeiro do Schistosoma mansoni. Seguiu estudando esse tema no Mestrado em Fisiologia e Biofísica na UFMG (1978-1980).

Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1980, quando passou a dar aulas no Departamento de Ciências Fisiológicas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). No ano seguinte, foi trabalhar no Instituto Oswaldo Cruz (IOC) a convite de Pedro Jurberg, professor da UERJ e pesquisador da Fiocruz, que estudava o comportamento do caramujo Biomphalaria Glabrata.

Em 1981, Virgínia tornou-se pesquisadora da Fiocruz sediada no então Departamento de Biologia do Instituto Oswaldo Cruz (IOC). No IOC foi responsável pela criação do primeiro laboratório de pesquisa voltado para educação e saúde, credenciado, em 1990, como Laboratório de Educação em Ambiente e Saúde (LEAS). Ademais, participou ativamente da concepção do curso de pós-graduação de Ensino em Biociências e Saúde, criado em 2004 no IOC.

No LEAS, inaugurou uma linha de pesquisa voltada para a produção e a avaliação do uso de coleções literárias para o público infanto-juvenil – Ciranda da Saúde (1986), Ciranda do Meio Ambiente (1989), Ciranda da Vida (1994) – que abordam, de forma lúdica, o ensino de questões de saúde, ambiente e ciência, possibilitando trabalho pedagógico integrado em escolas e outros ambientes não formais de ensino. Sua atuação na interface entre Educação e Saúde foi inspirada pela Pedagogia Libertadora de Paulo Freire2,3, e pela perspectiva socioconstrutivista sobre o desenvolvimento e a aprendizagem elaborada por Vygostky4.

Ao integrar a literatura com temáticas e práticas de saúde, Virgínia abordou de forma inovadora assuntos tradicionalmente trabalhados de forma descontextualizada pelos modelos de educação sanitária da época. Argumentava que ao falar de saúde com as crianças é preciso associá-la à qualidade da água que bebemos, do ar que respiramos, dos alimentos que ingerimos, de como nos relacionamos com os outros e com o ambiente a nossa volta. É necessário, em linguagem apropriada, estabelecer um diálogo crítico sobre o consumismo desenfreado, os diferentes estilos de vida e de condições de trabalho, a pobreza e a desigualdade social, a manutenção de recursos destinados às guerras, em prejuízo aos investimentos sociais e humanitários. A construção de um conhecimento crítico sobre saúde e qualidade de vida desde a infância é fundamental para o movimento coletivo de transformação da realidade e alcance de autonomia e realização pessoal5.

Ainda no campo da produção e inovação de estratégias educativas, atenta às mudanças sociais, introduziu o tema Aids em um estudo com escolares, que resultou na coautoria do jogo educativo Zig-Zaids (1990) voltado para a prevenção das DST/Aids e solidariedade entre as pessoas com HIV/Aids. Patenteado pela Fiocruz (BR PI 9000407) e editado comercialmente, o jogo Zig-Zaids foi amplamente utilizado em todo país e distribuído pelo Programa Nacional de DST e Aids do Ministério da Saúde (100 mil exemplares)6. Virgínia igualmente colaborou no desenvolvimento do Jogo da Onda (1998)7 sobre uso de drogas, do jogo Trilhas: Descubra o Mapa Cultural e Científico do Rio (2001) voltado para a divulgação das instituições culturais e científicas do Rio de Janeiro, do jogo TransAção: sexo e sexualidade na adolescência (2008), dentre outros jogos.

A linha de pesquisa do LEAS que resultou na produção, edição e avaliação das coleções de livros e de jogos, bem como no uso dos mesmos em programas governamentais, tornou-se uma referencia, dentro e fora da Fiocruz. Tais iniciativas reiteram a importância da pesquisa aplicada na qualificação de ações e políticas públicas no campo da educação e saúde e da divulgação cientifica.

Virginia foi herdeira de uma visão progressista de Educação em Saúde no Brasil, instaurada por Hortência de Hollanda8, cujo princípio fundamental centrava-se na importância da interação dos saberes, da prática cotidiana, das representações sociais e da afetividade. Essa perspectiva visava se contrapor à concepção de educação pautada meramente no aspecto cognitivo, que enfatizava prioritariamente o acúmulo de informação, a memorização, sem a necessária contextualização e envolvimento dos sujeitos. Tal enfoque termina por implicar na legitimação de saberes sobre saúde que tendem a mistificar o saber científico e a desconsiderar as vivências sobre saúde e doença da população9. Este lugar que a educação ocupa nas práticas de saúde configura um ponto crítico de reflexão que sempre esteve presente no trabalho de Virgínia.

Em 1999 Virgínia voltou para Minas, sendo transferida para o Centro de Pesquisas René Rachou (CPqRR), sede da Fiocruz-MG, onde criou o Laboratório de Educação em Saúde e Ambiente (LAESA). Por meio de uma abordagem integrada, com participação da população envolvida e o comprometimento das autoridades locais, o LAESA desenvolveu estudos sobre doenças negligenciadas (leishmanioses, esquistossomose, dengue, hanseníase, malária e doença de Chagas) e doenças infecciosas e crônicas (tuberculose, Aids, asma, câncer, diabetes e saúde mental); bem como pesquisas na área de saúde sexual e reprodutiva de adolescentes e estudos de gênero, em especial, a saúde do homem.

O LAESA manteve forte compromisso com a divulgação científica, desenvolvendo uma série de produtos e recursos educacionais, com destaque para as temáticas do câncer, da saúde do homem e da dengue, como o “Evidengue”, uma capa para pratos coletores de água de vasos de plantas desenvolvido em 2007. Na Fiocruz-MG, Virgínia coordenou a implantação do Programa de Pós-graduação em Ciências da Saúde e auxiliou na implantação do Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva, em 2011.

Para além da carreira de cientista, Virginia publicou livros de poesia e recebeu vários prêmios como poeta: Concurso de Poesias Vinicius de Moraes, da Prefeitura do Rio de Janeiro (1994), Concurso Poesia na Vale da CVRD (1995), Prêmio Raul de Leoni da União Brasileira de Escritores (1998, 2000), Academia Feminina Mineira de Letras e Medalha de Prata no Concurso de Poesias “Brasil – 500 Anos” (MG).

Integração de saberes: a atuação acadêmica e política de Virgínia Schall

A nuvem de texto sobre a produção bibliográfica e técnica de Virgínia, ilustrada na Figura 1, evidencia a riqueza de temáticas e identifica os conceitos que circulam em torno do grande eixo da Saúde, presentes nos 131 artigos, 27 livros (acadêmicos e literários), 39 capítulos de livros, 21 textos em jornais e/ou divulgação, 48 materiais e/ou produtos informativos/educativos, 28 eventos (mostras, seminários etc.) e duas patentes. Todos publicados e produzidos entre 1976 e 2015.

Figura 1 Nuvem de títulos da produção bibliográfica e técnica de Virgínia Schall gerado a partir do Currículo Lattes (http://lattes.cnpq.br/1247570488977577). 

O interesse de Virgínia pela prevenção da esquistossomose teve sua origem a partir dos estudos sobre a presença da esquistossomose autóctone no RJ. Em 1984, durante férias no Nordeste, observou a presença da planta Avelós, da família Euphorbiaceae, em solo árido. Ao ser informada por um taxista sobre a toxidade da planta, coletou o material para estudá-lo. Dedicou muitos anos ao estudo do látex e mais tarde da coroa de cristo, da família Euphorbiaceae, que apresentou resultado positivo como molusticida para o caramujo transmissor da esquistossomose. Em 1988, o processo de obtenção do látex da Coroa de Cristo (Euphorbia splendens var. hisloppi) e sua aplicação no combate aos moluscos vetores da esquistossomose foi patenteado pela Fiocruz10.

Paralelamente às pesquisas sobre o comportamento da Biomphalaria e o uso da coroa de cristo como molusticida natural, a partir de 1987, Virgínia iniciou estudos sobre a prevenção e o controle de doenças infecciosas e parasitárias por meio da participação social e da Educação em Saúde, entre crianças e adultos. Tal enfoque foi estimulado pelo curso de Especialização em Educação em Saúde no Núcleo de Tecnologia Educacional para a Saúde (NUTES) da UFRJ e, posteriormente, aprofundado no curso de doutorado em Educação na PUC-RJ (1991-96) sobre Saúde e afetividade na infância: O que as crianças revelam e a sua importância na escola, sob orientação de Regina de Assis e Lúcia Rabello de Castro.

Historicamente, a aproximação entre Educação e Saúde não significou necessariamente a constituição de uma unidade. As ações e as práticas pedagógicas, bem como as intervenções no âmbito da saúde – sejam em processos de elaboração ou de transmissão de informação – sempre refletiram a concepção de saúde e doença adotada. A hegemonia do modelo biomédico perpetuou as práticas de saúde e voltaram-se preferencialmente para as ações curativas, ficando as ações preventivas e educativas confinadas a um segmento restrito, como os centros de saúde e as campanhas sanitárias. Esta dicotomia evidenciou a falta da unidade entre a educação e a saúde, com a ação educativa muito frequentemente despontando enquanto ação essencialmente instrumental, subalterna e secundária nas práticas de saúde11.

No Brasil, a educação em saúde teve seu desenvolvimento de forma associada às campanhas de controle das grandes endemias infecto-parasitárias. Caracterizada, desde o início, por uma pedagogia higienista e uma prática de orientação vertical, encontrou, na década de 1950, uma nova abordagem e uma mudança radical de procedimentos a partir da atuação de Hortênsia de Hollanda no Departamento Nacional de Endemias Rurais (DNERU)12. Virgínia alinhou-se ao modelo que reafirma a participação social sobre os determinantes sociais do processo saúde-doença, visando à transformação social, mediante ampliação do poder do segmento popular, como é o caso da educação popular e da Educação em Saúde13.

Como consequência, pode-se afirmar que a concepção atual da educação em saúde, predominante nas reflexões teóricas, expressa o processo teórico-prático que visa integrar os vários saberes – científico, popular e do senso comum – possibilitando aos sujeitos envolvidos visão crítica e participação responsável e autônoma14-16. Todavia, embora conceitualmente a saúde não seja mais definida apenas como ausência de doenças, nas sociedades contemporâneas, as ações ainda estão direcionadas à prevenção de doenças no modelo biomédico. Como já destacado, talvez as nomenclaturas expressem mais numa mudança de designação do que numa verdadeira mudança de paradigma.

Interessada na história e memória do campo da Saúde no Brasil, em 1998, Virgínia reconstruiu a trajetória de Hortênsia de Hollanda no campo da Educação em Saúde, destacando o pioneirismo da educadora12. Em 2001, publicou o livro “Contos de Fatos”, centrado na história de vida de diversos pesquisadores na Fiocruz e recebeu o Prêmio Alejandro José Cabassa da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro. Desde cedo, teve fascínio pelos aspectos sociais contingenciais do fazer científico e suas descobertas. Nas suas palavras: Queria saber mais sobre as pessoas que transformavam o mundo, que estão presentes em casa minuto do nosso cotidiano, desde o momento em nos levantamos e acendemos uma luz até quando temos a vida ameaçada e a ciência nos ampara17. Interessada nos fatores presentes na descoberta científica e a própria história da ciência, estudou a vida de outros proeminentes cientistas e a constituição de campos como a parasitologia, a educação e a saúde coletiva.

Coerente com essa perspectiva, boa parte do seu trabalho foi dedicado à pesquisa e à produção tecnológica em uma dimensão aplicada, sendo pioneira na inovação metodológica a partir do desenvolvimento e avaliação do uso de diversos recursos educativos, como já assinalado.

Para compreender o papel da Virginia para a divulgação científica, é importante destacar que esse campo, em que pese sua real fragilidade ao longo do tempo, tem pelo menos dois séculos de história. Nos anos 1960, sob o influxo de transformações ocorridas na educação em ciências nos EUA, iniciou-se no Brasil um movimento educacional renovador, apoiado na importância da experimentação para o ensino de ciências. Esse movimento levou ao surgimento de centros de ciência espalhados pelo país que, embora ligados mais diretamente ao ensino formal, contribuíram para ações de popularização da ciência. A partir dos anos 1980, novas atividades de divulgação começaram a surgir na mídia, incluindo a criação de seções de ciência em jornais de grande circulação, de programas de TV voltados para a ciência e de revistas especializadas na área. Desde então, acompanhando a tendência internacional, por todo o país vêm sendo criados dezenas de centros de ciência desde o início dos anos 198018.

Todavia, nas atividades de divulgação, ainda é hegemônica uma abordagem denominada “modelo do déficit” que, de uma forma simplista, vê na população um conjunto de analfabetos em ciência que devem receber o conteúdo redentor de um conhecimento descontextualizado e encapsulado. Aspectos culturais importantes em qualquer processo de divulgação e as interfaces entre a ciência e a sociedade raramente são considerados18.

Frente a esse cenário, a atuação de Virgínia na área da divulgação científica e popularização da ciência ganhou ainda mais relevância, em 1991, com a idealização do projeto do Museu da Vida na Fiocruz. A partir de 1993, a proposta foi redimensionada, tornando-se um amplo programa coletivo. Hoje, o Museu da Vida configura-se como um espaço de integração entre ciência, cultura e sociedade aberto ao público, voltado para informação e educação em ciência, saúde e tecnologia, por meio de exposições, atividades interativas, multimídias, teatro, vídeo e laboratórios.

Nos espaços originalmente concebidos estão Ciência em Cena, teatro adaptado em uma das tendas da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro, em 1992. A tenda foi solicitada pela pesquisadora à prefeitura e, desde então, abriga peças sobre Saúde, Ciência e Arte na Fiocruz. No Museu, Virginia coordenou o projeto Laboratórios de Percepção e Emoção, que permite vivências associadas aos fenômenos da percepção, além de desenvolver, junto com outros profissionais, o almanaque Colorindo a Fiocruz, voltado para a divulgação científica e para fatos históricos dos pesquisadores (pioneiros e atuais) da Fiocruz. Pelos trabalhos realizados, em 1991, recebeu o Prêmio José Reis de Divulgação Científica e Tecnológica do CNPq e participou como jurada do prêmio a partir de 1992.

Ainda no contexto de popularização da ciência, de 1997 a 2000 foi consultora do Canal Futura, colaborando com temas e conteúdos para o programa Viva legal, cujo objetivo foi ampliar a divulgação de conhecimentos e gerar discussões críticas sobre saúde e qualidade de vida. Recebeu, em 2002, o Prêmio Francisco de Assis Magalhães Gomes de divulgação Científica da Secretaria Estadual de Ciência e Tecnologia de Minas Gerais.

Atuou de forma ativa na divulgação de atividades da Semana Nacional de C&T e foi coordenadora da Regional Minas-Sul da Olimpíada de Saúde e Meio Ambiente (OBSMA). Criada em 2011, a OBSMA é um projeto educativo promovido pela Fiocruz que objetiva estimular a realização de trabalhos voltados para a melhoria das condições ambientais e de saúde no Brasil e o desenvolvimento de atividades interdisciplinares nas redes de ensino (pública e privada) do país. Além disso, Virgínia concebeu o projeto As quatro Estações do Corpo: da célula ao cérebro, no espaço museológico voltado para as ciências da vida e da saúde no interior do Museu de História Natural da UFMG.

O legado de Virgínia Schall

Virgínia contribuiu para a construção e a disseminação, em diferentes contextos multidisciplinares de pesquisa e de práticas, de um conceito amplo de saúde que superou a perspectiva da saúde concebida apenas como ausência de doença. Foi igualmente crítica de uma abordagem comportamental, ainda centrada nos aspectos biológicos do binômio saúde-doença, que atribui aos sujeitos a responsabilidade de adotar comportamentos preventivos de forma mecânica e descontextualizada. Esta concepção ampla de saúde, aliada a importantes correntes da pedagogia crítica e da psicologia de aprendizagem de base construtivista, está enraizada nas inúmeras produções acadêmicas e no desenvolvimento de materiais e práticas no campo da Educação em Saúde, que formou e ainda forma profissionais e pesquisadores nesta temática, no Brasil e na América Latina

A partir de uma perspectiva inter e multidisciplinar19, Virgínia integrou diferentes campos disciplinares no desenvolvimento de estudos e intervenções sobre: prevenção e controle de doenças infecciosas e parasitárias, educação e promoção da saúde, tecnologias educacionais e de informação sobre saúde, ambiente e ciências, ensino de ciências e espaços formais e não formais de aprendizagem. Sua qualificada e diversificada produção acadêmica e literária foi fundamental para o desbravamento e constituição dos campos da Educação em Saúde, Ensino de Ciências e Divulgação Científica no país.

Muitos foram os caminhos abertos por Virgínia. Almejamos destacar as suas principais contribuições nos campos do conhecimento pelo qual transitou e integrou. Contudo, é um olhar ainda limitado que conclama por aprofundamento. Nesta perspectiva, um projeto sobre a Biografia de Virgínia está em curso, que inclui uma coletânea com seus principais artigos científicos e o desenvolvimento de um repositório Biográfico Virgínia Schall, que visa organizar, divulgar e proporcionar acesso aberto a toda a sua produção acadêmica, literária e de produtos. Este será integrado ao ARCA (http://www.arca.fiocruz.br/), repositório institucional da Fiocruz que reúne e dá visibilidade à produção técnico-científica da instituição, representando parte significativa do esforço da pesquisa em saúde no Brasil20.

Em relação ao seu legado material e documental, está sendo organizado o Fundo Virgínia Schall que objetiva organizar o acervo de documentos escritos, imagens/fotos, entrevistas e outros registros sobre a educação em saúde no Brasil, a partir da trajetória da pesquisadora. Este será doado pela família da Virgínia e abrange o processamento técnico, incluindo a higienização, catalogação, classificação, indexação e inclusão na base de dados bibliográficos e do acervo arquivístico da Casa de Oswaldo Cruz (COC) na Fiocruz-RJ. Será, ainda, disponibilizado para acesso gratuito na Internet.

Para celebrar seu legado, em evento de homenagem à pesquisadora na Fiocruz, em junho de 2016, se condecorou a Tenda da Ciência do Museu da Vida como Tenda da Ciência Virgínia Schall. Singela homenagem que celebra as dezenas de crianças e adultos que hoje conhecem um pouco mais dos segredos da ciência, da saúde e da vida porque Virgínia existiu.

Assim, ao levantar sua história de vida e profissional, abre-se uma janela para a memória e a trajetória da construção da saúde coletiva como um todo no país. Ao integrar a Saúde, a Educação e a Ciência, com muita poesia, Virgínia deixou o mundo um pouco mais colorido. Artista de si mesmo e do mundo, desvendou enigmas, celebrou a vida e nos emocionou no processo.

REFERÊNCIAS

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