Abordagem Imunofarmacológica do Carvedilol na Cardiomiopatia Chagásica Crônica

Abordagem Imunofarmacológica do Carvedilol na Cardiomiopatia Chagásica Crônica

Autores:

Carla Paixão Miranda,
Fernando Antônio Botoni,
Manoel Otávio da Costa Rocha

ARTIGO ORIGINAL

Arquivos Brasileiros de Cardiologia

versão impressa ISSN 0066-782X

Arq. Bras. Cardiol. vol.103 no.4 São Paulo out. 2014

https://doi.org/10.5935/abc.20140153

Prezado Editor,

Dados indicam que aproximadamente 12 milhões de indivíduos na América Latina estejam infectados com o Trypanosoma cruzi, apresentando a doença de Chagas1. Embora a doença tenha sido descrita há mais de 100 anos, a quimioterapia contra seu agente etiológico se resume a dois compostos efetivos apenas na fase aguda da doença1: benzonidazol e nifurtimox. Neste contexto, a cardiopatia chagásica crônica (CCC) carece dfe estudos a nível imunofarmacológico, tendo em vista que a sua patogênese envolve um desequilíbrio no sistema imunológico do hospedeiro. Na fase crônica, a CCC apresenta aumento do estresse oxidativo com intensa e extensa inflamação e fibrose no miocárdio, com consequente disfunção autonômica e produção de anticorpos dirigidos aos miócitos, receptores beta adrenérgicos e neurônios1-3. Rocha e cols.1 mostram em seu estudo que pacientes que desenvolvem a CCC apresentam níveis aumentados de TNF-alfa e CCL-2 quando comparados a indivíduos com a forma indeterminada da doença de Chagas1. Um paralelo pode então ser traçado com estudos realizados por Yue e cols.4 que mostram que a produção de ânions superóxidos se faz a partir da ativação do sistema NADPH promovida por citocinas pró-inflamatórias, especificamente o TNF-alfa4. De fato, estudos sugerem que os efeitos antioxidantes do carvedilol são bastante efetivos na terapêutica de pacientes com CCC. Além disto, a presença de grupos carbazol e metabólitos hidroxilados na estrutura molecular conferem alta atividade antioxidante ao carvedilol2,3. Estudos acentuam a capacidade do carvedilol em atuar como metal de transição na doação de elétrons para espécies reativas de oxigênio (ROS), bem como para espécies reativas de nitrogênio (RNS), na tentativa de neutralizar os efeitos dos danos oxidativos causado pelo T. cruzi na fase aguda, mas que repercutem até a fase crônica4. Budni e cols.3 no seu estudo confirmam esta hipótese. Nele, os autores mostram que antes de uma intervenção terapêutica com carvedilol, pacientes com comprometimento cardíaco apresentaram altos níveis de marcadores oxidativos enquanto que os pacientes que receberam a intervenção com o carvedilol apresentaram aumento nos níveis de óxido nítrico (NO) e adenosina deaminase (ADA), importantes elementos coadjuvantes na defesa oxidativa e na melhora da resposta imune3,4. Portanto, estudos serão necessários para identificar tratamentos capazes de prevenir os danos cardíacos causados por essa infecção e fornecer ferramentas para melhorar a sobrevida e proporcionar uma melhor qualidade de vida aos indivíduos afetados.

REFERÊNCIAS

Rocha MOC, Ribeiro ALP, Teixeira MM. Clinical management of chronic Chagas cardiomyopathy. Front Biosci. 2003;8(1):44-54,
Botoni FA, Poole-Wilson PA, Ribeiro AL, Okonko DO, Oliveira BM, Pinto AS, et al. A randomized trial of carvedilol after renin-angiotensin system inhibition in chronic Chagas cardiomyopathy. Am Heart J. 2007;153(4):544-8.
Budni P, Pedrosa RC, Garlet TR, Dalmarco EM, Lino MR, Simionato EL, et al. Carvedilol attenuates oxidative stress in chronic Chagasic cardiomyopathy. Arq Bras Cardiol. 2012;98(3):218-24.
Yue TL, Cheng HY, Lysko PG, McKenna PJ, Feuerstein R, Gu JL, et al. Carvedilol, a new vasodilator and beta adrenoceptor antagonist, is an antioxidant and free radical scavenger. J Pharmacol Exp Ther. 1992;263(1):92-8.