Ácido úrico sérico e sua associação com hipertensão, nefropatia precoce e doença renal crônica em pacientes diabéticos tipo 2

Ácido úrico sérico e sua associação com hipertensão, nefropatia precoce e doença renal crônica em pacientes diabéticos tipo 2

Autores:

Mohamed Fouad,
Hoda Fathy,
Amal Zidan

ARTIGO ORIGINAL

Brazilian Journal of Nephrology

versão impressa ISSN 0101-2800versão On-line ISSN 2175-8239

J. Bras. Nefrol. vol.38 no.4 São Paulo out./dez. 2016

http://dx.doi.org/10.5935/0101-2800.20160065

Introdução

A prevalência de diabetes mellitus tipo 2 (DM2) tem aumentado significativamente em todo o mundo, o que resultou em um aumento do fardo sobre os indivíduos e sobre os sistemas de saúde.1 A nefropatia diabética (ND) é uma complicação comum do diabetes e seu sinal clínico mais precoce é uma discreta elevação na excreção urinária de albumina - microalbuminúria (MA). Acredita-se que tal extravasamento progrida inexoravelmente para proteinúria bruta, que destrói néfrons e causa doença renal terminal (DRT).2

A doença renal crônica (DRC) é um problema de saúde pública em todo o mundo, com prevalência crescente, desfechos ruins e elevados custos de tratamento.3 A detecção precoce da DRC é crucial para prevenir sua progressão e, assim, potencialmente melhorar seu desfecho.4

O ácido úrico (AU) é o produto final do metabolismo da purina em seres humanos, e cerca de 70% do AU é eliminado pelos rins.5 Vários estudos prospectivos documentaram que o nível elevado de ácido úrico no soro (AUS) está associado ao desenvolvimento de DM2,6 hipertensão7, doença cardiovascular8 e fatores de risco da síndrome metabólica (SM).9 O AU tem vários efeitos relatados pelos quais pode causar ND, incluindo: disfunção endotelial10, aumento da atividade do sistema renina-angiotensina aldosterona (SRAA)11 e indução de cascatas inflamatórias12, além da ativação de citocinas profibróticas13, todas as quais têm demonstrado contribuir para a progressão da doença microvascular e, assim, Lesão renal na ND.

Apesar dos avanços que tivemos na compreensão dos fatores que contribuem para a evolução e progressão da doença renal diabética, a fisiopatologia da nefropatia diabética é complexa e ainda não está completamente elucidada.14 Além disso, a MA pode não ser tão sensível e específica para prever a ND, como sugerido anteriormente.15 Assim, realizamos este estudo para investigar a relação entre AUS e hipertensão, nefropatia precoce e progressão da DRC em pacientes com DM2.

Pacientes e métodos

Formatação do estudo e população

Foi realizado um estudo caso-controle entre pacientes com DM2 atendidos no Hospital Universitário Zagazig entre janeiro de 2015 e fevereiro de 2016. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética Institucional local e conformado para com a Declaração de Helsinque. O objetivo do estudo foi explicado, obtendo-se consentimento informado.

As informações demográficas foram coletadas. O número de inscritos foi de 986 participantes, sendo 484 do sexo masculino e 502 do sexo feminino, com idade média de 49,8 ± 10,6 anos.

Os critérios de inclusão foram os seguintes: pacientes com DM2 atendidos no ambulatório do hospital da Universidade Zagazig para tratamento e com idade atual ≥ 18 anos. Os pacientes que tiveram outras doenças crônicas inflamatórias, autoimunes ou malignas, pacientes com diabetes tipo 1, diabetes indeterminado, pacientes com outras causas de DRC foram excluídos, assim como aqueles pacientes que receberam medicação para hiperuricemia ou drogas conhecidas por influenciar ambos os níveis de ácido úrico ou a excreção urinária de albumina. Entretanto, os pacientes hipertensos não foram excluídos se não houvesse evidência de um papel causal da hipertensão na proteinúria.

De acordo com a presença e a duração do diabetes, as populações estudadas foram classificadas em três grupos. Grupo I: Grupo Controle, selecionado a partir de 250 indivíduos saudáveis com idade, gênero e IMC, comparáveis a outros participantes. Grupo II: incluiu 352 pacientes diabéticos tipo 2, com início de diabetes inferior a 5 anos. O Grupo III: incluiu 384 diabéticos tipo 2, com início de diabetes há mais de 5 anos. Entre os pacientes diabéticos, 486 estavam em uso de hipoglicemiantes orais, e os restantes 250 em terapia insulínica.

Exame físico e medidas

Todos os participantes deste estudo foram submetidos a exame físico completo e medidas antropométricas. Altura (a altura foi medida usando estadiômetros calibrados com os indivíduos em pé e descalços, com os pés juntos e olhando para frente). Peso (a balança foi calibrada diariamente). Circunferência da cintura (CC): medida abaixo da margem costal ao nível do umbigo). Índice de massa corporal (IMC) = PC/h2 kg/m), pacientes com IMC ≥ 30 foram considerados obesos.16 O exame de fundo de olho foi realizado para confirmar a retinopatia diabética em participantes com proteinúria evidente para confirmar o diagnóstico de ND. A pressão arterial foi medida com um esfigmomanômetro de mercúrio no braço direito com o paciente em posição sentada após um descanso de 5 min. A hipertensão foi definida como uma pressão arterial sistólica ≥ 130 mmHg e/ou uma pressão arterial diastólica ≥ 85 mmHg e/ou o uso atual de medicação anti-hipertensiva.

Exames laboratoriais

O sangue venoso foi colhido pela manhã após um jejum noturno. Todos os participantes foram submetidos a exames rotineiros, incluindo CrS, HbA1C, perfil lipídico, incluindo HDL-C, lipoproteína de baixa densidade (LDL), colesterol total (CT) e TG além da razão TG/HDL-C. E, por fim, o AUS foi medido pelo método enzimático uricase/peroxidase. A hiperuricemia foi definida como o nível de AUS em 7,0mg/dl.17 A síndrome metabólica (SM) foi definida pela presença de pelo menos três dos seguintes: HDL-C < 40 mg/L para homens ou 50 mg/dl para mulheres; glicemia de jejum > 100 mg/dl; nível de TG em jejum superior a 150 mg/dl, PA ≥ 130/85 mmHg, CC ≥ 102 cm para homens ou ≥ 88 cm para mulheres.18

Todos os participantes foram instruídos sobre como obter uma amostra da primeira urina da manhã, fresca e limpa para excluir a proteinúria ortostática. As amostras de urina foram examinadas em termos da Razão Creatinina/Albumina (RCA) urinária. A nefropatia precoce foi definida por RCA na urina ≥ 30 mg/g, e a nefropatia evidente foi definida como a RCA urinária ≥ 300 mg/g. A albuminúria foi medida por imunoturbidimetria. Todos os casos positivos foram reexaminados após três meses para confirmar o diagnóstico.

A TFG foi estimado pela fórmula da equação CKD-EPI, como se segue: Fórmula CKD-EPI = 141 × min (CrS/κ,1)α × max (CrS/κ, 1)-1,209 × 0,993Idade × 1,018 [se feminino] × 1,159 [se negro].19 DRC foi definida de acordo com as diretrizes KDIGO para avaliação e manejo da DRC por taxa de filtração glomerular (G1-5): G1 Normal ou alta ≥ 90 mas com sedimento urinário ativo, G2 discretamente reduzido 60-89, G3a discretamente a moderadamente reduzido 45 - 59, G3b moderadamente a severamente reduzido 30 - 44, G4 severamente reduzido 15 - 29 e G5 Insuficiência renal < 15, bem como albuminúria (A1-3) A1 normal a ligeiramente aumentado < 30 mg/g < 3 mg/mmol, A2 moderadamente aumentado 30 - 300 mg/g 3-30 mg/mmol e A3 severamente aumentado > 300 mg/g > 30 mg/mmol.4

Análise estatística

Os resultados foram expressos como média ± desvio padrão (DP). A análise de variância foi feita por ANOVA e a análise post hoc com testes de LSD para comparar as diferenças entre os grupos. Os dados de CrS e RCA foram expressos como mediana devido à distribuição dispersa, e analisados pelo teste de Kruskal/Wallis. Os dados qualitativos foram expressos sob a forma de números e percentagens e a comparação entre os dados foi realizada utilizando-se o teste Qui-quadrado. A correlação entre as variáveis foi calculada utilizando-se os testes de correlação de Pearson e Spearman. Os valores preditivos foram avaliados pela área sob a curva/a curva característica do operador receptor (AUC/ROC). A AUC/ROC foi utilizada para se determinar a capacidade discriminatória do fator de risco na detecção de DRC. O critério de significância estatística foi fixado em p < 0,05. Todos os cálculos foram realizados utilizando-se um pacote estatístico padrão (SPSS versão 19, Inc., Chicago, EUA).

Resultados

Dados demográficos e características do estudo

O número estudado foi de 986 participantes, com idade média de 47,9 ± 11,8 anos, o sexo masculino foi representado por 484 (49%) participantes e o sexo feminino por 502 (51%) participantes do total do estudo. Idade, gênero, tabagismo e IMC não diferiram entre os 3 grupos estudados. O AUS foi significativamente maior nos pacientes diabéticos do que no grupo controle saudável, enquanto os níveis de AUS foram significativamente maiores em pacientes diabéticos com mais de 5 anos de duração do que naqueles com menor duração do diabetes. Da mesma forma, as PAs sistólica, diastólica, média, a duração do diabetes, HbA1C, TG, TC, LDL, TG/HDL-C, CrS e RCA foram significativamente maiores no grupo III do que nos grupos I, II; da mesma forma maior no Grupo II do que no Grupo I. Por último, a eTFG foi significativamente menor no grupo III do que nos grupos I, II; igualmente inferior no grupo II do que no grupo I (Tabela 1).

Tabela 1 Características demográficas e laboratoriais do estudo 

Variável Controle 250 Diabéticos < 5 anos 352 Diabético > 5 anos 384 p
Idade (anos) 48,5 ± 10,13 49,72 ± 11,07 50,38 ± 11,38 NS
Gênero: NS
Masculino % 122 49% 175 49,7% 187 49%
Feminino % 128 51% 177 50,2% 197 51%
Tabagismo: 63 25% 95 27% 92 24% NS
IMC: (Kg/m2) 30,5 ± 9,48 31,28 ± 6,45 31,95 ± 789 NS
PA sistólica (mm Hg) 119,59 ± 11,46 126,88 ± 14,95a 141 ± 18,72ab < 0,001
PA diastólica (mm Hg) 74,31 ± 9,54 78,75 ± 5,04a 84,88 ± 9,19ab < 0,001
PAM (mm Hg) 92,95 ± 8,62 94,59 ± 8,6a 104,22 ± 10,97ab < 0,001
Duração do diabetes: (y) 4,01 ± 0,88 11 ± 5,31 < 0,001
HbA1C 5,12 ± 0,54 772 ± 1,44a 8,83 ± 1,99ab < 0,001
T,G mg/dL 100,5 ± 40,5 155,5 ± 60,5a 182,4 ± 78,6ab < 0,001
Colesterol mg/dL 189,5 ± 32,9 201,3 ± 45,9a 210,1 ± 49,6ab < 0,001
LDL mg/dL 104,7 ± 25,7 113,6 ± 31,4a 122,2 ± 38,8ab < 0,001
HDL mg/dL 50,6 ± 5,9 45,1 ± 6,3a 39,5 ± 71ab < 0,001
Razão TG/HDL-C 1,91 ± 1,2 3,44 ± 0,98a 4,15 ± 1,8ab < 0,001
CrS: (mg/dl) 0,90 ± 0,17 1,1 ± 0,21a 2,04 ± 1,44ab < 0,001
Razão Creat,Alb (mg/gm) 6,55 ± 3,93 36,06 ± 5789a 940,52 ± 200771ab < 0,001
eTFG: (ml/min/m2) 105,34 ± 18,8 82,31 ± 16,9a 56,37 ± 20,4ab < 0,001
Ácido úrico: (mg/dl) 4,61 ± 1,8 5,26 ± 1a 740 ± 1,32ab < 0,001

adiferença significativa em comparação com o grupo controle.

abdiferença significativa em comparação com o Grupo II.

Prevalência e significado do aus

Na coorte de pacientes diabéticos tipo 2, a prevalência global de hiperuricemia foi de 32%, e o valor médio do AUS foi significativamente maior entre hipertensos, obesos, aqueles com controle glicêmico deficiente, altas razões de TG/HDL-C e pacientes com RCA ≥ 300 mg/g, seguido de RCA ≥ 30 mg/g. Entretanto, não houve diferença significativa no nível de AUS em relação ao gênero e à linha de tratamento (Tabela 2).

Tabela 2 Diferença comparativa entre níveis de AUS 

Variável num. Ácido úrico M ± SD p
Gênero NS
Masculino 362 6,5 ± 1,58
Feminino 374 6,3 ± 1,41
PA < 0,001
Normotensos 455 6,13 ± 0,82
Hipertensos 281 6,81 ± 1,42
IMC < 0,001
< 30 485 5,76 ± 0,72
≥ 30 251 6,91 ± 1,25
HbA1 c < 0,001
< 7,0% 5,1 ± 1,09
≥ 7,0% 6,95 ± 1,28
Razão TG/HDL < 0,001
< 4 5,3 ± 0,93
≥ 4 7,2 ± 1,4
Tratamento NS
Insulina 250 6,2 ± 1,7
Hipoglicêmico oral 486 6,4 ± 1,66
RCA < 0,001
< 30 253 4,97 ± 0,97
≥ 30 mg/g 276 6,11 ± 0,75
≥ 300 mg/g 207 7,51 ± 1,3

Correlação do aus com parâmetros do estudo

Embora a idade, gênero, duração do diabetes, IMC, CC, PA média, HbA1c, CT, HDL-C, LDL, TG, TG/HDL-C, CrS, RCA e TFG foram avaliados em associação com o AUS, somente a idade (r = 0,30; p = 0,05), duração do diabete (r = 0,47; p = 0,001), IMC (r = 0,42; p = 0,001) p = 0,01), HbA1c (r = 0,4; p = 0,001), CT (r = 0,31; p = 0,05), HDL-C (r = 0,36; p = 0,01), LDL (r = 0,33; p = 0,001), TG (r = 0,45; p = 0,001), TG/HDL-C (r = 0,59; p = 0,001) 0,001), foram positivamente correlacionados com AUS, enquanto que o HDL (r = 0,36; p = 0,01) e a eTFG (r = -0,65; p = 0,001) foram negativamente correlacionados com AUS. Assim, o AUS esteve significativamente associado a todos os componentes da SM (Tabela 3).

Tabela 3 Correlações do AUS com outros parâmetros do estudo 

Variável R p
Idade 0,30 0,05
Gênero 0,14 NS
Duração do diabetes 0,47 < 0,001
IMC 0,42 < 0,001
CC 0,44 < 0,001
PA Média 0,35 0,01
HbA1C 0,40 < 0,001
Colesterol total (mg/dl) 0,31 0,05
HDL-C (mg/dl) -0,36 0,01
LDL-C (mg/dl) 0,33 0,05
Triglicérides (mg/dl) 0,45 < 0,001
Razão TG/HDL-C 0,59 < 0,001
RCA (mg/gm) 0,51 < 0,001
CrS (mg/dl) 0,6 < 0,001
eTFG (ml/min/m2) -0,65 < 0,001

Sensibilidade e especificidade do AU

Na coorte de pacientes diabéticos tipo 2, o AUS em nível > 6,1, > 6,2 e > 6,5 apresentou maior sensibilidade 86,8%, 81,25%, 65,4% e especificidade 82,8%, 85,94%, 77,1% para identificação de hipertensão arterial, nefropatia precoce e reduzida TFG, respectivamente (Tabela 4).

Tabela 4 Validade do AUS em prever hipertensão, nefropatia precoce e TFG prejudicada 

Ponto de corte Parâmetro AUC Sensibilidade Especificidade VPP VPN Precisão
> 6,1 mg/dl Hipertensão 0,90 86,8 82,8 76,7 90,6 84,4
> 6,2 mg/dl Nefropatia precoce 0,94 81,25 85,94 74,3 90,2 84,4
> 6,5 mg/dl TFG prejudicada 0,93 80,4 84,1 71,5 89,7 82,5

Características demográficas, clínicas e laboratoriais dos pacientes com AUS acima e abaixo de 6.2 Mg/dl.

A idade média, a duração do diabetes, a PA, o IMC, a HBA1C, a razão TG/HDL-C e a CrS foram significativamente maiores nos pacientes com AUS > 6,2 mg/dl. Da mesma forma, a prevalência de hipertensão, RCA ≥ 30 mg/g e RCA ≥ 300 mg/g foi significativamente maior entre pacientes com AUS > 6,2 mg/dl. Além disso, os pacientes com AUS > 6,2 mg/dl apresentaram menor eTFG (Tabela 5).

Tabela 5 Características demográficas, clínicas e laboratoriais de pacientes com AUS acima e abaixo de 6.2 mg/dl 

Variável Acido Urico ≤ 6,2 402 Acido Urico > 6,2 334 p
Idade (anos) 47,23 ± 11,35 53,34 ± 10,47 < 0,001
Gênero % NS
Masculino 193 48% 169 50,5%
Feminino 209 52% 165 49,5%
Duração do diabetes (anos): 6,63 ± 3,82 11,97 ± 5,55 < 0,001
Tabagismo %
Não 71,4% 75,9% NS
Sim 28,6% 24,1%
HPT %
Não 74,3% 37,9% 0,003
Sim 25,7% 62,1%
Pressão arterial
Sistólica 127,43 ± 16,19 141,79 ± 17,73 < 0,001
Diastólica 78,43 ± 5,22 85,9 ± 8,85 < 0,001
Média 102,93 ± 9,81 113,84 ± 12,08 < 0,001
IMC 28,9 ± 6,04 32,5 ± 7,2 < 0,001
HBA1C 7,82 ± 1,72 8,81 ± 1,81 < 0,001
Razão TG/HDL-C 2,72 ± 1,1 3,35 ± 1,4 < 0,001
RCA ≥ 30 mg/g 37,1% 93,1% < 0,001
RCA ≥ 300 mg/g 22,9% 82,8 < 0,03
CrS (mg/dl) 1,17 ± 0,29 2,04 ± 1,53 < 0,001
TFG: (ml/min/m2) 86,46 ± 18,3 50,17 ± 22,6 < 0,001

Discussão

A detecção precoce da ND tem um papel fundamental na prevenção da DRT.20 Existem dados conflitantes sobre o papel do AUS em pacientes com DM2; O presente estudo teve como objetivo avaliar a relação entre AUS e hipertensão, taxa de excreção de albumina e DRC em uma coorte de pacientes com DM2.

A hiperuricemia é geralmente definida como um nível de AUS de 7,0 mg/dl e de ≥ 6 mg/dl nas mulheres.17 No presente estudo, demonstramos que apenas 32% dos diabéticos eram hiperuricêmicos, mas em contraste com os indivíduos saudáveis do grupo controle o AUS estava mais elevado nos doentes com DM2 com início de diabetes inferior a 5 anos e continuou a aumentar com a progressão da doença e a apresentação clínica da ND. Além disso, observamos também uma correlação positiva entre AUS e HbA1C. Nossos achados foram consistentes com outros relatos que relacionam não apenas uma associação positiva entre níveis elevados de AUS e diabetes21, mas também com ND.22

Ao contrário dos nossos resultados, outros estudos descobriram que níveis mais elevados de AUS estavam inversamente associados a diabetes mellitus.23 A explicação para tais resultados contraditórios é a hiperinsulinemia/resistência à insulina, que é característica fundamental do DM2.24 Tem sido proposto que concentrações plasmáticas elevadas de insulina podem diminuir o clearance de ácido úrico urinário em indivíduos com resistência à insulina.25 Contrariamente, a hipouricemia pode ser conseqüência da hiperfiltração glomerular, tipicamente definida por uma TFG entre 125 mL/min e 140 mL/min/1,73m2, conseqüentemente aumentando a depuração renal de urato,26 enquanto que a média da TFG de nossos pacientes esteve muito menor.

Inesperadamente, não conseguimos encontrar uma correlação entre os níveis de AUS e gênero; Entretanto, a possível razão que pode explicar esses resultados conflitantes, é a média de idade das mulheres, que foi significativamente maior, com a maioria delas acima de 50 anos, além disso a maioria delas estavam na menopausa. Uma vez que mulheres na menopausa têm níveis mais elevados de AUS do que mulheres na pré-menopausa.27 O estrogênio é conhecido por promover a excreção de ácido úrico, de modo a reduzir a prevalência de hiperuricemia em mulheres pré-menopáusicas.28

No presente estudo, encontramos um nível mais alto de AUS entre os pacientes hipertensos. Os níveis de AUS foram associados ao risco de hipertensão e, além disso AUS de 6.1 mg/dl identifica o início da hipertensão em DM2. Nossos achados foram consistentes com aqueles de outros estudos que relataram que maiores concentrações de AU estavam independentemente associadas à maior probabilidade de desenvolver hipertensão.29 Os mecanismos potenciais por trás da ligação entre a hiperuricemia e o desenvolvimento da hipertensão incluem o óxido nítrico e as vias RAAS. O AU pode levar à disfunção das células endoteliais via óxido nítrico sintase e estimular a proliferação das células do músculo liso vascular.10 Além disso, o AU também pode estimular diretamente o RAAS.11

A hiperuricemia tem ganhado atenção, uma vez que foi relatado que ela desempenha um papel importante no desenvolvimento da SM. Sugeriu-se que a razão sérica TG/HDL-C pode servir como um marcador simples e facilmente acessível para o diagnóstico de SM e resistência à insulina.30 No presente estudo, encontramos AUS negativamente correlacionado com HDL-C e positivamente correlacionado a outros componentes da SM tais como, IMC, CC, PA, HbA1C, TG, TG/HDL-C. Além disso, pacientes diabéticos com nível de AUS > 6,2 mg/dl têm maior IMC, PA, TG/HDL-C. Assim, o aumento da concentração de AUS pode ser um fator de risco adicional para a SM. Os mecanismos subjacentes podem explicar a associação entre AUS e SM, incluindo os efeitos deletérios do AU sobre a função endotelial10, metabolismo oxidativo31 e o estado inflamatório sistêmico.32 Nossos achados foram consistentes com outros relatos sobre a ligação entre AU e SM.33

O AU é produzido pela xantina oxidoredutase. A atividade da oxidoredutase também contribui para a formação de células de espuma e inflamação, e acredita-se que a ativação de macrófagos esteja envolvida na patogênese da ND.34 A MA é um marcador de disfunção endotelial e está associada a um risco aumentado de morbidade cardiovascular em pacientes com diabetes.35 No presente estudo, foram avaliadas as relações entre concentração de AU e grau de excreção urinária de albumina. Demonstramos não apenas um nível mais elevado de AUS em doentes com RCA ≥ 30 mg/g, mas também uma correlação positiva entre RCA ≥ 30 mg/g, e a um nível de corte de > 6.2 mg/dl identificando o aparecimento de nefropatia precoce em Diabéticos tipo 2. Além disso, o nível de AUS continua a aumentar com a progressão de pacientes com nefropatia diabética evidente com RCA ≥ 300 mg/g, e ainda positivamente correlacionado com RCA ≥ 300 mg/g. Em geral, estes resultados parecem compatíveis com outros estudos que relataram que a concentração de AUS estava associada à microalbuminuria (MA) e ao aumento da progressão para nefropatia em doentes com DM2.36 Os níveis de AUS, mesmo dentro da faixa de normalidade > 6,3 mg/dl, podem predizer o aparecimento de nefropatia.37

A nefropatia evidente resultou em um aumento do risco de declínio da função renal em DM2. O papel do AU em doentes com DM2 ainda não foi bem estudado, particularmente em associação à diminuição da função renal. No presente estudo, demonstramos que níveis mais elevados de AUS estavam associados a declínios na eTFG e identificam o início da progressão rápida da DRC, além de um nível de corte > 6.5 mg/dl poder estar associado à progressão da DRC em doentes com DM2. Os resultados foram consistentes com os achados anteriores, que registraram que a hiperuricemia parecia ser um fator de risco independente para o desenvolvimento de DRC incidente, em vez de associada à nefropatia evidente,37 e até mesmo em pacientes com DM2 e normoalbuminuria.38

Coletivamente, no presente estudo, descobrimos que os pacientes com DM2 com AU ≤ 6,2 mg/dl eram mais jovens, recentemente diabéticos, com melhor controle glicêmico, normotensos, menor IMC, TG/HDL-C comparativamente ideais, menor prevalência de nefropatia precoce e explícita e TFG Preservada. Os dados atuais são importantes, destacando-se a necessidade de manter o AUS ≤ 6,2 mg/dl.

Conclusão

Mesmo o alto nível normal de AUS foi associado ao risco de hipertensão, SM, nefropatia precoce e declínio da eTFG. Além disso, o nível de AUS pode identificar e estar associado ao início da hipertensão, nefropatia precoce, uma progressão da nefropatia e da DRC em DM2. Medir os níveis de AUS rotineiramente pode ajudar a identificar pacientes de alto risco, bem como grande atenção para manter o AUS ≤ 6,2 mg/dl. São necessários mais estudos para avaliar o impacto da redução dos níveis de AUS nas complicações diabéticas.

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