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Adaptação do Dyslexia Early Screening Test - Second Edition para o Português Brasileiro: resultados preliminares

Adaptação do Dyslexia Early Screening Test - Second Edition para o Português Brasileiro: resultados preliminares

Autores:

Tatiana Ribeiro Gomes da Matta,
Debora Maria Befi-Lopes

ARTIGO ORIGINAL

CoDAS

versão On-line ISSN 2317-1782

CoDAS vol.27 no.3 São Paulo maio/jun. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/2317-1782/20152014191

INTRODUÇÃO

Dificuldades no processo de aquisição de leitura e escrita causam efeitos de longa duração. No Brasil, calcula-se que cerca de 10% dos estudantes apresentam distúrbios de leitura e escrita, sendo a dislexia um dos transtornos de maior impacto nas salas de aula( 1 ).

Diversas teorias discutem a distinção da dislexia e do distúrbio de aprendizagem. No geral, compreende-se a dislexia como um transtorno específico de origem neurológica caracterizado por um déficit no componente fonológico da linguagem. O distúrbio de aprendizagem refere-se a um grupo heterogêneo de alterações significativas no processo de aquisição e uso das habilidades de linguagem, raciocínio e matemática( 2 ).

Intervir previamente nos distúrbios de desenvolvimento da linguagem pode reduzir as dificuldades de leitura e suas consequências sociais e emocionais. O ideal é que as crianças com risco sejam identificadas no início da alfabetização, antes de apresentarem falhas e vivenciarem experiências de fracasso e desmotivação na escola( 3 - 5 ).

A utilização de ferramentas padronizadas pode ser uma estratégia eficaz na detecção das alterações de linguagem. Esses instrumentos são de baixo custo e rápida aplicação, e apresentam boa sensibilidade e especificidade; contudo, a escassez desses aparatos para a realidade brasileira é significativa( 6 , 7 ).

O Dyslexia Early Screening Test - Second Edition (DEST-2)( 8 ) é composto por 12 provas (Quadro 1) cuja finalidade é identificar a presença de risco para alterações de leitura e escrita/dislexia em crianças com idade entre quatro anos e seis meses e seis anos e cinco meses, antes que elas apresentem déficit na aprendizagem. O objetivo geral deste estudo foi traduzir e adaptar o Dyslexia Early Screening Test (DEST-2)(8) para, posteriormente, verificar sua aplicabilidade e eficácia em pré-escolares falantes nativos do Português Brasileiro (PB).

Quadro 1. Breve descrição das provas que compõe o Dyslexia Early Screening Test - Second Edition 

MÉTODO

Participaram 20 crianças de ambos os gêneros, com idade entre 4 anos e 6 meses e 6 anos e 5 meses, matriculadas em uma escola da região metropolitana de São Paulo. Os critérios para inclusão dos sujeitos foram desempenho dentro dos parâmetros de normalidade nas provas de fonologia( 9 ) e vocabulário ( 10 ) do ABFW Teste de Linguagem Infantil; bom desempenho escolar; ausência de queixas relacionadas a alterações da visão ou audição, distúrbios de aprendizagem, neurológicos, cognitivos ou comportamentais.

A pesquisa foi aprovada pela Comissão de Ética para Análise de Projetos de Pesquisa da Diretoria Clínica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (nº 014/12). Os responsáveis pelas crianças assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, e as crianças consentiram sua colaboração por meio do Termo de Assentimento. A utilização do teste foi autorizada pela editora Pearson UK (detentora dos direitos autorais) para fins de pesquisa.

As etapas para a realização da pesquisa foram: obtenção da autorização da editora; tradução direta do DEST-2( 8 ) para o PB; adaptação e aplicação das provas traduzidas (estudo-piloto).

Os participantes foram inicialmente avaliados por meio das provas de fonologia( 9 ) e vocabulário( 10 ) do ABFW Teste de Linguagem Infantil, e apenas os que apresentaram respostas dentro do padrão de normalidade realizaram as provas traduzidas do DEST-2( 8 ).

A aplicação dos testes levou cerca de 50 minutos e foi efetuada individualmente, em uma sala adequada dentro da escola. Os resultados obtidos foram analisados segundo os critérios adotados na versão original do teste.

RESULTADOS

O DEST-2( 8 ) foi inteiramente traduzido para o PB e tal versão foi aplicada em um estudo-piloto.

Não houve necessidade de retrotradução visto que as atividades propostas são lúdicas e/ou compostas apenas por letras, dígitos e figuras. As provas de discriminação fonológica e rima/primeira letra, que demandariam retrotradução, tiveram seu conteúdo adaptado ao PB. Essas provas, originalmente constituídas por monossílabos em Inglês, foram adaptadas para dissílabos em Português Brasileiro em razão da escassez de monossílabos na língua portuguesa, o que impossibilitou a retrotradução. Para garantir a equivalência da qualidade sonora, as provas realizadas por meio de áudio em CD foram gravadas em estúdio profissional. Nas provas de nomeação de letras e nomeação de dígitos, observou-se a necessidade de substituir o formato das letras utilizadas na versão original para a letra do tipo bastão dada sua preponderância no sistema de escrita brasileiro.

O formato original do teste quanto à análise e às instruções de aplicação foi preservado. A escala de pontuação original foi conservada de maneira que as medidas de validação do teste mantiveram-se inalteradas.

Quanto aos resultados obtidos no estudo-piloto, todos os participantes apresentaram desempenho dentro dos padrões de normalidade nas provas traduzidas do DEST-2( 8 ), corroborando os resultados encontrados nas provas de fonologia( 9 ) e vocabulário( 10 ) aplicadas inicialmente, nas quais também não foram encontradas alterações neste grupo de sujeitos.

DISCUSSÃO

Os benefícios da identificação precoce das alterações de desenvolvimento da linguagem são incontestáveis. Contudo, a disponibilidade de testes de avaliação de linguagem infantil padronizados no Brasil é restrita especialmente no que se refere à identificação de alterações relacionadas às habilidades consideradas pré-requisitos para a aquisição da leitura e da escrita( 11 ). Os instrumentos de triagem se configuram como uma boa estratégia para detectar alterações e auxiliar no monitoramento dos progressos alcançados, dada sua capacidade de retratar informações de forma objetiva.

Adaptar instrumentos internacionalmente validados pode ser uma maneira eficaz de detectar e, consequentemente, intervir precocemente em crianças que apresentam risco de manifestar alterações de leitura e escrita( 11 , 12 ). Os resultados obtidos sugerem que a versão traduzida do DEST-2 pode ser capaz de auxiliar na identificação dessas crianças antes que elas apresentem dificuldades no processo de escolarização.

CONCLUSÃO

O DEST-2 foi inteiramente traduzido para o PB, e a versão traduzida foi aplicada. O formato original do teste quanto aos critérios de pontuação, análise e instruções de aplicação foi preservado, e o desempenho das crianças nas provas traduzidas e nas provas nacionais utilizadas como critério de comparação foi compatível, sugerindo que as adaptações realizadas atenderam às equivalências necessárias para a utilização do instrumento em crianças brasileiras. Considerando a diversidade linguística e cultural do Brasil, é imprescindível que a versão traduzida do DEST-2 seja utilizada em maior escala; por isso, as provas traduzidas foram aplicadas em uma amostra randomizada de 100 crianças. Os dados obtidos estão em processo de análise e serão divulgados em breve a fim de complementar os estudos de equivalência. Novas pesquisas são importantes para viabilizar as medidas necessárias para a validação do teste no Brasil.

REFERÊNCIAS

1. Capovilla AGS, Trevisan BT, Capovilla FC, Rezende MCA. Natureza das dificuldades de leitura em crianças brasileiras com dislexia do desenvolvimento. Rev Eletrônica Acolhendo a Alfabetização nos Países de Língua Portuguesa Mocambras. 2007;1(1):6-18.
2. Capellini SA. Distúrbio de Aprendizagem versus Dislexia. In: Ferreira LP. Tratado de fonoaudiologia. 2ª edição. São Paulo: Rocca; 2010. p. 275-80
3. Catts HW, Pestcher Y, Schatschneide C, Bridges MS, Mendoza K. Floor effects associated with universal screening and their impact on the early identification of reading disabilities. J Learn Disabil. 2009;42(2):163-76.
4. Goulart BNG, Chiari BM. Distúrbios de fala e dificuldades de aprendizagem no Ensino Fundamental. Rev CEFAC. 2014;16(3):810-6.
5. Catts HW, Adolf SM, Hogan T, Weismer SE. Are specific language impairment and dyslexia distinct disorders? J Speech Lang Hear Res. 2005;48:1378-96.
6. Santos MTM. Vocabulário, consciência fonológica e nomeação rápida: contribuições para a ortografia e elaboração escrita [tese]. São Paulo: Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo; 2007.
7. Santos MTM, Navas ALGP. Distúrbios de leitura e escrita: teoria e prática. São Paulo: Manole; 2002.
8. Nicolson RI, Fawcett AJ. The Dyslexia Early Screening Test Second Edition (DEST-2). Londres: Pearson; 2004.
9. Wertzner H. Fonologia. In: Andrade CRFD, Befi-Lopes DM, Fernandes FDM(eds). ABFW - Testes de linguagem infantil nas áreas de Fonologia, Vocabulário, Fluência e Pragmática. Barueri: Pró-Fono; 2004.
10. Befi-Lopes DM. Vocabulário. In: Andrade CRFD, Befi-Lopes DM, Fernanda FDM (eds). ABFW - Testes de linguagem infantil nas áreas de Fonologia, Vocabulário, Fluência e Pragmática. Barueri: Pró-Fono; 2004.
11. Giusti E, Befi-Lopes DM. Tradução e adaptação transcultural de instrumentos estrangeiros para o Português Brasileiro (PB). Pró-Fono. 2008;20(3):207-10.
12. Fonseca RP, Casarin FS, Oliveira CR, Gindri G, Ishigaki ECSS, Ortiz KZ, et al. Adaptação de Instrumentos Neuropsicológicos Verbais: Um Fluxograma de Procedimentos para Além da Tradução. Int Psicologia. 2011;15(n.especial):59-69.