Adaptação transcultural para o Português Brasileiro do Teste de Rastreamento Western Aphasia Battery - Revised: um estudo preliminar

Adaptação transcultural para o Português Brasileiro do Teste de Rastreamento Western Aphasia Battery - Revised: um estudo preliminar

Autores:

Márli de Borborema Neves,
John Van Borsel,
Mônica Medeiros de Britto Pereira,
Emylucy Martins Paiva Paradela

ARTIGO ORIGINAL

CoDAS

versão On-line ISSN 2317-1782

CoDAS vol.26 no.1 São Paulo jan./fev. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/s2317-17822014000100006

INTRODUÇÃO

A linguagem humana é o resultado de um conjunto de atividades cerebrais responsáveis pela recepção, integração e elaboração de mensagens linguísticas, desde o plano fonético e fonológico até o pragmático e o discursivo(1).

As pesquisas no campo da neurocognição têm demonstrado a importância de diferentes áreas corticais no processamento da linguagem, além das áreas de Wernicke e Broca. O hemisfério cerebral esquerdo, dominante para linguagem, e o hemisfério direito, atuando nos aspectos paralinguísticos, complementando o papel linguístico do hemisfério esquerdo, propiciam a verdadeira comunicação(2-4).

A variedade de síndromes presentes na literatura fez da afasia uma das desordens neurológicas mais classificadas - resultantes de traumatismo cranioencefálico, doenças cerebrovasculares, neoplásicas, inflamatórias e degenerativas(5-7).

A afasia é o distúrbio neurológico de linguagem, em consequência de algum tipo de anomalia no sistema nervoso central, e pode apresentar comprometimento em várias áreas, com distintos níveis de gravidade, caracterizando-se por alteração no conteúdo, na forma e/ou no uso da linguagem(8,9).

Kertesz e Poole, em 1974, organizaram critérios que distinguem as afasias, de acordo com similaridades e diferenças nos processos linguísticos, de pacientes com lesão neurológica - focal, difusa e/ou progressiva, classificando-as em: Global, Broca, Isolada, Transcortical Motora, Wernicke, Transcortical Sensorial, Condutiva e Anomia(8,9).

Um perfil adequado, quanto aos aspectos de comunicação de um paciente, permite à equipe médica e de reabilitação a associação de informações e circunstâncias, estabelecendo diagnóstico diferencial, predizendo condutas, terapêutica e prognóstico(10).

Pesquisas referentes à linguagem normal do adulto e do idoso e à análise de sua estrutura e processos devem ampliar possibilidades no estudo dos distúrbios de linguagem adquiridos(11). Apesar de existirem baterias internacionais de avaliação da comunicação já adaptadas para o contexto brasileiro, ainda há espaço para instrumentos de avaliação dos componentes comunicativos dos indivíduos.

Na revisão de instrumentos de rastreamento dos distúrbios de linguagem, nenhum foi encontrado para o contexto brasileiro. Devido à ausência de suporte teórico em relação aos distúrbios neurológicos de linguagem, a Fonoaudiologia assume papel de pesquisador e introduz a adaptação transcultural, para o Português Brasileiro, do Teste de Rastreamento Western Aphasia Battery - Revised (WAB-R) possibilitando a atenuação do tempo e das despesas na criação de novos instrumentos. As equivalências conceitual e de itens, semântica e operacional foram rigorosamente seguidas, de acordo com a perspectiva universalista de Herdman(12-14).

A WAB-R é uma avaliação de linguagem, de origem canadense, de autoria do Dr. Andrew Kertesz (2007), que se fundamenta nos princípios da Neurolinguística e no modelo neuroanatômico da linguagem. É aplicável em adultos dos 18 aos 89 anos, reconhecida internacionalmente e recomendada pelo Departamento Científico de Neurologia Cognitiva e do Envelhecimento da Academia Brasileira de Neurologia, ainda sem padronização, nem validação no Brasil(15-17).

A bateria completa pode ser aplicada em torno de 45 minutos, mas o teste de rastreamento - razão deste estudo - pode ser aplicado em curto período de tempo, aproximadamente, 15 minutos, facilitando uma estimativa da funcionalidade da comunicação do sujeito. As tarefas são referentes à Fala Espontânea (Conteúdo e Fluência), Compreensão Auditivo Verbal, Comandos Sequenciais, Repetição, Nomeação, Leitura, Escrita e Apraxia.

O quociente de Afasia (QA) e o Quociente de Linguagem (QL) informam sobre a gravidade do transtorno de linguagem, predizendo e estabelecendo as relações entre a localização da lesão e as manifestações clínicas da linguagem, permitindo avaliar a competência linguística, inclusive, de indivíduos com demência(9,18,19). O ponto de corte para normalidade da versão original do WAB é 93,8, o que correlaciona boas habilidades de comunicação funcional, destacando eficácia comunicativa.

A imprecisa abordagem do diagnóstico conduz à terapêutica inadequada(9). A importância do rastreamento do perfil do distúrbio linguístico está, principalmente, na previsibilidade de diagnóstico diferencial, na possibilidade de replicabilidade do teste, por meio de uma linha de base para futuras comparações (do mesmo caso), e na urgência de conduta médica associada(9).

O presente trabalho dedica-se ao estudo da adaptação transcultural do Teste de Rastreamento WAB-R, para o Português Brasileiro, cumprindo as equivalências conceitual e de itens, semântica e operacional.

MÉTODOS

Estudo aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa, da Plataforma Brasil, sob o número 54747-2012, sem qualquer conflito de interesse, com necessidade de Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, o qual foi assinado pelos participantes da pesquisa.

Trata-se de um estudo preliminar para adaptação transcultural do Teste de Rastreamento WAB-R ao contexto brasileiro.

Para esta proposta preliminar, foram percorridas as seguintes etapas, replicadas por Reichenheim e Moraes(14):

  • 1. Equivalência conceitual e de itens - abrangeu discussão com grupo de profissionais da área da saúde (três fonoaudiólogos, um médico e um psicólogo), que revisaram o Teste de Rastreamento WAB-R, explorando se as diferentes dimensões abordadas pelo instrumento original eram relevantes e pertinentes na cultura brasileira. Também foi envolvido na análise do instrumento um grupo de cinco voluntários, representando, cada um deles, a faixa etária dos 18 aos 29 anos; dos 30 aos 44 anos; dos 45 aos 59 anos; dos 60 aos 74 anos e dos 75 aos 89 anos.

A etapa Equivalência Conceitual e de Itens desdobrou-se em dois momentos, para identificação de percepções e de ideias de especialistas e representantes da população do estudo. Nas duas situações, a discussão não tendenciosa foi conduzida por moderador, que manteve neutralidade em relação aos pontos de vista apresentados (um assistente social).

Ao final dos dois encontros, o moderador exprimiu as conclusões e as recomendações, de acordo com o caráter subjetivo da discussão. O Teste de Rastreamento WAB-R foi avaliado como possibilidade de triagem de linguagem, junto à população brasileira adulta e idosa, sendo proposto o prosseguimento da pesquisa.

  • 2. Equivalência semântica - envolveu três etapas:

    • Produção de traduções iniciais - foram realizadas duas traduções do original em Inglês para o Português Brasileiro, executadas independentemente por profissionais da Fonoaudiologia - um que conhecia a temática abordada e outro que não conhecia, ambos brasileiros, com domínio do idioma nativo e conhecimento do Inglês.

    • Retraduções - as versões preliminares foram comparadas, poucas discrepâncias resolvidas e realizada a retradução para o Inglês, por duas professoras de Inglês, simultaneamente. Aspectos relevantes e complementares foram levados em consideração pela dupla de professoras, que buscaram a equivalência semântica entre o original e as traduções, assim como do significado literal e do sentido. Poucos ajustes foram feitos entre as versões e a retradução proposta.

No subteste Compreensão Auditivo Verbal - Respostas Sim/Não, os nomes usados foram Luís e João, seguindo uma versão informal antiga da WAB(15), pois, no original em Inglês, Smith e Brown são sobrenomes e deveriam ser modificados para o contexto brasileiro.

No subteste Comandos Sequenciais, foi usado o verbo "apontar" no infinitivo, pois a palavra "aponte", que deveria ser a palavra utilizada, ficaria na tradução literal e auditivamente poderia causar confusão com "a ponte" (que conduz pessoas, carros etc.)

No subteste Repetição, ao invés de tradução literal, as professoras de Inglês sugeriram um pangrama do Português Brasileiro, que vem a ser uma frase com sentido, com as letras do alfabeto (na tradução literal, a frase em Inglês deixaria de ser pangrama). Cuidou-se para assemelhar o número de elementos na frase e o contexto que fala de animais. Então, a proposição final ficou: Um pequeno jabuti xereta viu dez cegonhas felizes (oito elementos na frase), e essa frase entrou no lugar de "The quick brown fox jumps over the lazy dog" (nove elementos).

No subteste Nomeação de Objetos, foi trocado o item "bed "para "mesa", uma vez que o autor oferece a flexibilidade de substituições de objetos(9).

  • Revisão de especialistas e versão síntese - esta fase consistiu na revisão e na montagem da versão síntese (por meio da retradução das duas professoras de Inglês em comparação ao instrumento original). Os mesmos três fonoaudiólogos, que participaram da avaliação da equivalência conceitual e de itens, analisaram o conteúdo, priorizando o contexto cultural brasileiro.

Todo o material para o rastreamento dos distúrbios de linguagem foi acondicionado numa caixa. Não ocorreram dificuldades para a seleção dos objetos de uso no cotidiano.

O formulário da versão síntese foi impresso e as possibilidades de respostas constavam entre parênteses, exatamente, como na versão original.

De acordo com a versão original, seguiu-se a orientação de escolha em revistas, das gravuras e do parágrafo, com alguma complexidade, para aplicação dos subtestes Fala Espontânea/Conteúdo, Leitura e Escrita.

  • 3. Equivalência operacional - ocorreu quando o trio de pesquisa avaliou o cabimento e a apropriação do modo de conduzir o conteúdo do teste, tanto nas questões, como nas instruções quanto ao local de administração, no modo de aplicação e categorização.

Este mesmo grupo de pesquisa realizou ensaio meticuloso junto ao manual original, examinando as propriedades técnicas e psicométricas, principalmente ao se calcular o QA e o QL. Estes profissionais também estudaram as possibilidades de distúrbios de linguagem (parafasias, hesitação, circunlóquio etc.) evidenciados no formulário do Teste de Rastreamento WAB-R.

O treinamento para aplicação, pontuação e interpretação dos resultados da versão síntese contou com local, como indicado no manual - tranquilo, sem distratores, iluminado e com mesa. Todo o material estava selecionado na caixa e o formulário da versão síntese do Teste de Rastreamento WAB-R, impresso e devidamente argumentado.

  • 4. Pré-teste - o estudo contou com a participação de 30 indivíduos, divididos em cinco conjuntos compostos por três homens e três mulheres. Cada grupo etário foi assim distribuído: dos 18 aos 29 anos; dos 30 aos 44 anos; dos 45 aos 59 anos; dos 60 aos 74 anos e dos 75 aos 89 anos.

A amostra de conveniência, de idosos voluntários de uma Casa de Convivência, no Rio de Janeiro, e de adultos familiares, permitiu a organização do pré-teste da versão síntese do Teste de Rastreamento WAB-R.

Foram critérios de inclusão no estudo: voluntários falantes do Português Brasileiro, como primeira língua; com habilidades de leitura e escrita (não se levou em consideração os anos de escolaridade); e sem comprometimento cognitivo.

Foram critérios de exclusão do estudo: portadores de deficiências - visual e/ou auditiva -, que não foram compensadas com o uso de próteses, com impossibilidade de escrever por algum comprometimento motor; e os voluntários com comprometimento cognitivo.

Como primeiro instante, os participantes do estudo foram contactados pessoalmente, com o objetivo de esclarecer informações acerca da proposta deste trabalho. Foi combinado dia e local para leitura e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, conforme preconiza a Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde, autorizando a participação no estudo.

No segundo instante, para aplicação do pré-teste, foi realizada uma entrevista identificando condições de saúde e perfil socioeducacional. O sujeito esclarecia sua condição de saúde, informando sobre a rotina do controle médico para evitar qualquer efeito da doença ou de medicação sobre a cognição.

Ainda, neste segundo momento, realizou-se a aplicação do teste de rastreio da cognição - Mini-Exame do Estado Mental (MEEM)(20,21), viabilizando encontrar sujeito sem comprometimento cognitivo para inclusão na pesquisa. Em um terceiro instante, houve a aplicação do pré-teste propriamente dita. Posteriormente, foi realizada reunião com os participantes, a fim de esclarecer e discutir a aceitabilidade da versão síntese e observações decorrentes da aplicação do instrumento, como o entendimento das questões. Os voluntários não apresentaram dúvidas, nem apresentaram sugestões, demonstrando compreensibilidade e facilidade ao responder a versão síntese aplicada.

  • 5. Procedimentos estatísticos - para armazenamento e análise dos dados, foi utilizado o pacote estatístico SPSS, versão 17.0, que permitiu evidenciar os dados e resultados, assim como média e intervalo dos subtestes.

Os indivíduos foram informados sobre sua pontuação no teste de rastreamento de linguagem, e os dois que apresentaram dificuldade em responder o pré-teste foram orientados para avaliação médica. A amostra foi de conveniência, justificando o estudo, uma vez que não foi encontrado um grupo totalmente homogêneo.

RESULTADOS

As etapas de equivalência conceitual e de itens, semântica e operacional foram atentamente cumpridas para alcançar uma versão síntese do Teste de Rastreamento WAB-R, para o Português Brasileiro, de acordo com a amostra de conveniência usada.

A aplicação do pré-teste permitiu observar o comportamento e a linguagem em interações, coletar impressões sobre a linguagem funcional das pessoas e quantificar a habilidade comunicativa.

O grupo de 18 aos 29 anos apresentou ótimo desempenho em todas as seções (Tabela 1).

Tabela 1 Dados e resultados do grupo 18 aos 29 anos 

Grupo Gênero Idade (anos) Escolaridade (anos) Condições de saúde MEEM QA QL Apraxia
18 aos 29 anos Mulher 22 12 Sem doença 30 98,3 98,8 10
Mulher 22 13 Sem doença 30 100 100 10
Mulher 26 16 Sem doença 30 100 97,5 10
Homem 19 13 Sem doença 30 99,1 98,1 10
Homem 22 12 Ansiedade (Acompanhamento médico periódico) 28 100 100 10
Homem 22 13 Sem doença 30 100 97,5 10
Média 22,16 13,16 29,66 99,56 98,65 10

Legenda: MEEM = Mini-Exame do Estado Mental; QA = Quociente de Afasia; QL = Quociente de Linguagem

Todos os componentes do grupo possuíam, pelo menos, 12 anos de escolaridade e ótimas condições de saúde. Mesmo um participante tendo se queixado de ansiedade e receber acompanhamento médico periódico, teve muito boa pontuação, perdeu dois pontos no MEEM, possivelmente pela tensão ao estar em teste. As médias deste grupo foram: idade - 22,16; anos de escolaridade - 13,16; MEEM - 29,66; QA - 99,56; QL - 98,65 e Apraxia - 10.

O grupo de 30 aos 44 anos (Tabela 2) apresentou heterogeneidade em relação aos anos de estudo, variando de três a 15 anos de estudo. As médias deste grupo foram: idade - 37,83 anos; anos de escolaridade - 9,8; MEEM - 28,16; QA - 96,51; QL - 94,28 e Apraxia - 10.

Tabela 2 Dados e resultados do grupo 30 aos 44 anos 

Grupo Gênero Idade (anos) Escolaridade (anos) Condições de saúde MEEM QA QL Apraxia
30 aos 44 anos Mulher 33 10 Obesidade, HAS (Acompanhamento médico) 28 98,3 92,5 10
Mulher 41 3 Sem doença 25 90 88,8 10
Mulher 42 10 Disfunção tireoide (Acompanhamento médico) 28 98,3 98,8 10
Homem 34 8 Ansiedade (Acompanhamento médico) 28 93,3 90 10
Homem 36 15 HAS (Acompanhamento médico) 30 99,2 98,1 10
Homem 41 13 Sem doença 30 100 97,5 10
Média 37,83 9,8 28,16 96,51 94,28 10

Legenda: MEEM = Mini-Exame do Estado Mental; QA = Quociente de Afasia; QL = Quociente de Linguagem; HAS = Hipertensão Arterial Sistêmica

O grupo de 45 aos 59 anos apresentou homogeneidade nos resultados. As médias foram: idade - 54,83 anos; anos de escolaridade - 11,16; MEEM - 29,5; QA - 99,71; QL - 98,55 e Apraxia - 10 (Tabela 3).

Tabela 3 Dados e resultados do grupo 45 aos 59 anos 

Grupo Gênero Idade (anos) Escolaridade (anos) Condições de saúde MEEM QA QL Apraxia
45 aos 59 anos Mulher 50 16 Sem doença 30 100 100 10
Mulher 51 13 Reposição hormonal (Acompanhamento médico) 30 100 97,5 10
Mulher 58 13 Obesidade, HAS, Reposição hormonal, Artrose (Acompanhamento médico) 30 100 97,5 10
Homem 54 16 Sem doença 30 100 100 10
Homem 57 16 HAS, Diabetes (Acompanhamento médico) 28 100 97,5 10
Homem 59 13 Sem doença 29 98,3 98,8 10
Média 54,83 11,16 29,5 99,71 98,55 10

Legenda: MEEM = Mini-Exame do Estado Mental; QA = Quociente de Afasia; QL = Quociente de Linguagem; HAS = Hipertensão Arterial Sistêmica

O grupo de 60 aos 74 anos (Tabela 4) apresentou alguma precariedade quanto às condições de saúde. Os sujeitos eram funcionalmente ativos e independentes, mas com tratamentos médicos associados. O grupo, composto por pessoas idosas, demonstrou uma diversidade de escolaridade, a qual não inviabilizou boas pontuações no pré-teste, pois as habilidades de leitura e escrita, que eram condições para inclusão no estudo, estavam presentes. (Um idoso foi excluído da pesquisa, pois apresentou 19 pontos no MEEM, apesar da escolaridade compatível com os quatro anos do Ensino Fundamental, o que pode sugerir rebaixamento cognitivo.) O mesmo foi orientado a buscar avaliação geriátrica). As médias deste grupo foram: idade - 69 anos; anos de escolaridade - 8,2; MEEM - 27,2; QA - 97,3; QL - 96,12 e Apraxia - 10.

Tabela 4 Dados e resultados do grupo 60 aos 74 anos 

Grupo Gênero Idade (anos) Escolaridade (anos) Condições de saúde MEEM QA QL Apraxia
60 aos 74 anos Mulher 67 4 Sem doença 27 100 97,5 10
Mulher 70 4 HAS, Artrose (Acompanhamento médico) 26 91,7 91,2 10
Mulher 74 16 Problema circulatório (Acompanhamento médico) 27 100 100 10
Homem 65 4 Ansiedade (Acompanhamento médico) 27 95,8 91,9 10
Homem 69 13 HAS, cardiopatia, catarata (Acompanhamento médico) 29 100 100 10
Média 69 8,2 27,2 97,3 96,12 10

Legenda: MEEM = Mini-Exame do Estado Mental; QA = Quociente de Afasia; QL = Quociente de Linguagem; HAS = Hipertensão Arterial Sistêmica

O grupo de 75 aos 89 anos (Tabela 5) apresentou alguma precariedade quanto às condições de saúde. Apesar de funcionalmente ativos e independentes, os idosos deste grupo mantinham a rotina de tratamentos médicos associados. As médias deste grupo foram: idade - 79,8 anos; de escolaridade - 7,2; MEEM - 27,2; QA - 97; QL - 97 e Apraxia - 10. (Uma idosa foi excluída da pesquisa, pois apresentou 22 pontos no MEEM, com escolaridade compatível com o segundo grau completo, equivalente aos 12 anos de escolaridade. Foi orientada a buscar avaliação geriátrica, pela possibilidade de apresentar perda cognitiva.)

Tabela 5 Dados e resultados do grupo 75 aos 89 anos 

Grupo Gênero Idade (anos) Escolaridade (anos) Condições de saúde MEEM QA QL Apraxia
75 aos 89 anos Mulher 75 4 Artrose, Otoesclerose (Acompanhamento médico) 28 100 98,8 10
Mulher 76 4 HAS (Acompanhamento médico) 28 100 100 10
Homem 77 12 HAS (Acompanhamento médico) 28 95 96,3 10
Homem 83 12 Cardiopatia (Acompanhamento médico) 24 93,3 95 10
Homem 88 4 HAS, Diabetes (Acompanhamento médico) 28 96,7 95 10
Média 79,8 7,2 27,2 97 97 10

Legenda: MEEM = Mini-Exame do Estado Mental; QA = Quociente de Afasia; QL = Quociente de Linguagem; HAS = Hipertensão Arterial Sistêmica

Pontuações foram obtidas em cada seção, alcançando o QA e o QL da população estudada. Pode-se observar que, embora exista heterogeneidade na amostragem, existem também relevâncias a serem levadas em consideração com o envelhecimento. Idosos apresentam de forma sistemática mais alterações nas condições de saúde, necessitam de cuidados médicos periódicos para manterem a funcionalidade e perdem pontos nas habilidades de leitura e escrita, independentemente de nível educacional.

A média e o intervalo nos subtestes do QA indicaram melhores resultados para os grupos de 18 aos 29 anos e de 45 aos 59 anos. O grupo de 30 aos 44 anos apresentou falhas, possivelmente pela baixa escolaridade. No entanto, esses participantes foram incluídos no estudo, por demonstrarem habilidades de leitura e escrita preservadas.

Em Comandos Sequenciais, a média 9,2 (intervalo 8-10) foi para o grupo de 60 aos 74 anos, com o desempenho mais baixo. O subteste Repetição foi o que apresentou mais erros em todos os grupos. O grupo de 30 aos 44 anos teve a média mais baixa - 9,25 (intervalo 8-10). A média e o intervalo nos subtestes do QL indicaram melhor desempenho para o grupo de 18 aos 29 anos, no qual todos os participantes apresentaram 12 ou mais anos de escolaridade.

O grupo de 30 aos 44 anos foi apontado como o de escolaridade heterogênea. Em Leitura, a média foi 9,08 (intervalo 8-10) e, em Escrita, a média mais baixa foi 8,6 (intervalo 7-10).

Os demais grupos de 45 aos 59 anos, de 60 aos 74 anos e de 75 aos 89 anos apresentaram compatibilidade nas pontuações. Em Leitura, a média foi 9,7 (intervalo 8-10), 9,2 (intervalo 8-10) e 10, respectivamente. E, em Escrita, a média foi 9,3 (intervalo 8-10), 9,2 (intervalo 8-10) e 9,4 (intervalo 8-10), respectivamente. Em Apraxia, todos os sujeitos incluídos no estudo não apresentaram prejuízo, alcançando média 10.

DISCUSSÃO

A tradução e a adaptação transcultural do Teste de Rastreamento WAB-R advêm de etapas minuciosamente seguidas, em consonância com a perspectiva universalista de Herdman(12-14). Poucos itens originais tiveram que ser adaptados - todo o teste recebeu tratamento linguístico, tanto sob o ponto de vista contextual, como em relação ao processo de tradução literal.

Existem desvantagens e dificuldades ao se adaptar um instrumento elaborado em determinado contexto cultural, como o Canadá, devido aos dados normativos dos sujeitos confirmarem o bom nível socioeconômico e educacional, além das oportunidades advindas dos países desenvolvidos(14). No entanto, os resultados da aplicação do pré-teste, com a versão síntese brasileira do Teste de Rastreamento WAB-R, sugeriram assimilação da referida versão, apontando para o desempenho favorável, inclusive dos indivíduos com poucos anos de escolaridade.

Em relação à fragilidade do teste, destaca-se a possibilidade de pontuação diferente, em situação de interavaliadores, nas provas subjetivas como Fluência, Leitura e Escrita. Por exemplo, ao descrever uma gravura, tanto oralmente, como por escrito, como também ao quantificar a leitura do sujeito, a pontuação pode variar de especialista para especialista. Em respostas esperadas como apontar objetos e repetição de estruturas, a pontuação é objetiva, não oferecendo margem de erro ao avaliador.

Na seção Fala Espontânea, subteste Conteúdo, foram pontuadas respostas às perguntas de conversação, dando conotação ao valor comunicativo, indicando o estado de comunicação funcional sem dificuldades(22).

A tarefa descrição de imagem contribuiu substancialmente para avaliação do Conteúdo de Informação e para avaliação da Fluência, que são subtestes da seção Fala Espontânea. Todos os participantes apresentaram fluência normal, sem hesitações, nem dificuldade para encontrar palavras, apesar de certa tensão por estarem em momento de teste(23).

Na seção Compreensão Auditivo Verbal, as Respostas (Sim/Não) foram solicitadas. As primeiras perguntas relevantes, e imediatamente respondidas, indicavam orientação pessoal. As questões seguintes foram referentes ao ambiente e assuntos gerais, aumentando a complexidade linguística, exigindo compreensão da sintaxe. Neste item, foi importante considerar a possibilidade de uma pessoa dar apenas uma resposta, pontuando de forma aleatória 50% (cinquenta por cento) da seção. Um examinador experiente deve detectar essa possibilidade prontamente, sem se ater exclusivamente à pontuação(9).

Como outro item da Compreensão Auditivo Verbal, os Comandos Sequenciais estavam relacionados com algumas operações cognitivas - percepção fonológica, processamento auditivo, memória de curto prazo, acesso lexical, memória semântica etc. As tarefas deste subteste são consideradas as mais difíceis para avaliação da compreensão no WAB-R, porque determinam a gravidade do prejuízo de compreensão(9).

Na seção Repetição, pode-se avaliar processamento fonológico, memória auditiva de curto prazo, memória de trabalho e também compreensão. A repetição não pode ser subestimada só porque não é uma função de linguagem natural. Os itens incluíram repetição de palavras de comprimento crescente e sentenças que aumentaram a duração crescente e a complexidade gramatical(23,24). Neste subteste, todos os grupos apresentaram erros.

A frase "Sem mas, nem porquês", com palavras sem nenhum conteúdo, não apresentou qualquer dificuldade para os participantes do estudo. No entanto, na frase pangrama, jovens pediram para repeti-la, e idosos precisaram de um tempo de latência para cumprirem a solicitação; contudo, conseguiram executar a tarefa, que recruta alça fonológica e o sistema executivo central da memória de trabalho(22-25). Na seção Nomeação de Objetos, a importância no acesso lexical, em situação estímulo resposta, ocorreu sem qualquer mediação, e todos os participantes apresentaram ótima competência.

Nas seções Leitura e Escrita, aconteceram dificuldades inerentes à intelectualidade e nível educacional, inclusive nos mais jovens. Algumas leituras do parágrafo em voz alta foram realizadas sem agilidade oral, com falhas na entonação e pontuação, apesar da interpretação ter acontecido(4).

As tarefas de Escrita, solicitada sob ditado e espontânea (ao descrever uma imagem), foram suficientes para identificação de erros ortográficos naqueles participantes com baixa escolaridade, apesar do esforço na organização das ideias, na coerência e na coesão textual.

A seção Apraxia, considerada opcional, também foi aplicada. A práxis está intimamente ligada à linguagem, consequentemente, apraxia acompanha distúrbio de linguagem(9). Esta seção resultou de uma única pontuação. Todos os participantes que foram incluídos no estudo conseguiram pontuar satisfatoriamente.

Apesar de encorajadores, os resultados obtidos merecem ser revistos após avaliações psicométricas futuras, que alicercem a equivalência de mensuração e funcional. Deve-se levar em consideração também que os resultados aqui apresentados estão baseados em um número pequeno de participantes. Estudos adicionais com mais participantes nos grupos, distribuídos em cada faixa etária, e com anos de escolaridade similares, são esperados. Tratar da qualidade da informação em estudos epidemiológicos inclui a cautela no processo de adaptação transcultural nas agendas de pesquisas(14).

CONCLUSÃO

Ao se adaptar uma escala e submetê-la às traduções e retraduções, é importante manter a especificidade e as características do instrumento original. A versão síntese do Teste de Rastreamento WAB-R para o Português Brasileiro acompanhou o roteiro de adaptação de Herdman: equivalência conceitual e de itens, equivalência semântica e operacional. A adaptação transcultural desse teste mostrou aplicabilidade do instrumento, sendo trabalho pioneiro no Brasil.

Evidencia-se que a propriedade de medida da versão original pode não estar de acordo com as propriedades psicométricas da cultura brasileira, ainda desconhecidas. Sendo assim, propõe-se a continuidade deste estudo, por meio da análise da confiabilidade e sua validação no cenário brasileiro, selecionando amostragem com número maior de participantes.

REFERÊNCIAS

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