Adib Domingos Jatene, 1929-2014

Adib Domingos Jatene, 1929-2014

Autores:

Anis Rassi

ARTIGO ORIGINAL

Arquivos Brasileiros de Cardiologia

versão impressa ISSN 0066-782X

Arq. Bras. Cardiol. vol.104 no.3 São Paulo mar. 2015

https://doi.org/10.5935/abc.20150022

Adib Domingos Jatene 1929-2014 

Ou simplesmente Adib para mim, nasceu em Xapuri (AC) e, ao nascer, uma voz (a de Deus!) fez-se ouvir nos seguintes termos: “Maktub: este recém‑nascido se distinguirá dentre muitos e, como poucos, saberá conduzir-se e conduzir aqueles que o procurarem. Trabalho a que se imporá será o dobro do comum e seu dinamismo, sua idoneidade e sua inteligência levá-lo-ão ao pináculo da glória.”

Adib era filho de libaneses; o pai, comerciante, que vendia aos seringueiros, faleceu vítima de febre amarela quando Adib tinha 2 anos.

Três fatos coincidiram em nossas vidas. Também sou filho de libaneses (pai comerciante), nascemos no mesmo ano (1929) e nos graduamos em Medicina em 1953, ele na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e eu na então Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil.

Com o óbito do pai, Adib transferiu-se para Uberlândia (MG), onde a mãe instalou uma casa comercial.

Durante a mocidade, terminado o curso então chamado ginasial, trocou a pretensão de cursar Engenharia pela Medicina para gáudio de nossa profissão, pelo que veio a ser.

Nosso primeiro encontro ocorreu em Uberaba (MG), em 1956, por ocasião de um congresso médico e, a partir de então, estabelecemos amizade cada vez mais sólida, alicerçada por idas ao Instituto de Cardiologia do Estado de São Paulo (ICESP), hoje Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia (IDPC), e encontros em reuniões científicas durante quase 60 anos em várias partes da América Latina, ele falando sobre cirurgia cardíaca e eu sobre doença de Chagas.

Acompanhei de perto a trajetória científica desse grande amigo.

Desde cedo, Adib demonstrou pendor e paixão pela cirurgia, pois, a partir do quarto ano do curso médico, passou a frequentar salas de operações (cirurgia geral, torácica e cardíaca) como participante ativo.

Sentindo-se capacitado para o exercício profissional, transferiu-se para Uberaba, onde executou cirurgias torácicas, como pioneiro na região. Em 1955 tornou-se professor de Anatomia Topográfica da Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro e lá teve oportunidade de demonstrar uma de suas aptidões. Desejava desenvolver a cirurgia cardíaca experimental, mas faltava-lhe a máquina de coração-pulmão artificial que, fazia pouco tempo, havia sido inventada. Pôs-se em campo para fabricá-la com suas mãos, servindo-se dos préstimos de profissionais de uma oficina mecânica e de uma retífica. É fácil imaginar o quanto de dificuldades teve aquele jovem de 25 anos no desenvolvimento do projeto, porque, à época, Uberaba, como outras cidades do interior, não dispunha de todo o material apropriado para aquele fim.

Cônscio da máxima de que “Não há problema sem solução, solução sem defeito e defeito que não possa ser corrigido”, por não dispor de compressor de ar ou torpedo de oxigênio na faculdade para acionar o respirador, adaptou um pneu de caminhão para tal finalidade. Acabou por construir, após homérico trabalho de idas e vindas em modificações, um protótipo e o apresentou a público médico durante congresso em Araguari (MG).

Apareceu-lhe, em seguida (1958), a oportunidade de retornar a São Paulo, a convite do Professor Zerbini, contratado pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP e, poucos meses após, também pelo então ICESP, acompanhando o Professor Zerbini nas intervenções cirúrgicas realizadas em ambas as instituições, assim como nas de sua clínica particular.

Uberaba foi o início de uma jornada que Adib cumpriu e que durou seis décadas, diuturnamente trabalhadas. Agora em São Paulo, teria todas as condições para executar as tarefas a que se propusesse porque tanto no ICESP como no Hospital das Clínicas dispunha de oficinas cada vez maiores, melhor aparelhadas e com maior número de profissionais. Conheci a original do então ICESP, chamada simplesmente de “oficina”: era uma pequena sala de cerca de 5 x 4 m² e que tinha apenas um funcionário. Com o passar dos anos, cresceu em espaço físico, número de profissionais, instrumentos e tudo que fosse necessário para a fabricação de aparelhos e instrumentos cirúrgicos (cópias e originais), fabricação de próteses valvares, oxigenador de bolhas e de membranas e outros, tudo sob orientação de Adib. A “oficina” passou a chamar-se Oficina de Bioengenharia, o futuro Centro Técnico de Pesquisas e Experimentos. Ali, foi fabricada a primeira máquina de circulação extracorpórea e seus acessórios para uso em humanos. Nessa oficina, Adib fabricou também o primeiro marca-passo cardíaco artificial, que, fazia pouco tempo, havia sido introduzido no arsenal terapêutico das bradiarritmias, semelhante aos fabricados no exterior, ao qual deu o nome de “modelo ICESP”. O gerador, em relação aos de hoje, era volumoso, media cerca de 8 cm de diâmetro, pesava aproximadamente 150 g e a bateria era de mercúrio, com meia-vida de 8 meses. Um dos primeiros implantados foi em paciente meu em outubro de 1966, com crises iterativas de Stokes-Adams por paradas ventriculares em caso de bloqueio atrioventricular completo de etiologia chagásica.

Homem extraordinário esse Adib, honra e glória para um país. Era um conselheiro e formador de opiniões. Onde quer que estivesse, em público, não ficava só, pois em poucos minutos grande número de colegas e amigos o cercavam para dele ouvir uma opinião ou parecer sobre determinado assunto não só médico, porque sua cultura geral era grande.

Formou grande número de cirurgiões cardíacos que se acham radicados em várias regiões do Brasil e de outros países da América Latina.

Seu nome tornou-se epônimo de sua cirurgia para correção da transposição dos grandes vasos da base, universalmente aceita (cirurgia de Jatene).

Em uma miniautobiografia, disponibilizada na internet, Adib informou que não sabia como foi convidado para ocupar a Secretária de Estado da Saúde de São Paulo no Governo de Paulo Maluf, pois nem o conhecia pessoalmente. Eu sei e o soube por meio do saudoso e grande amigo meu e de meus irmãos, Calim Eid, que foi tesoureiro da campanha de Maluf. Adib, como membro e presidente de uma das comissões – a de saúde – formadas para elaborar um programa de ação do governador recém-eleito, produziu um documento de excepcional qualidade.

Nessa condição de Secretário de Estado e, posteriormente, na de Ministro da Saúde, tinha que conciliar a função administrativa com a atividade profissional. Como Secretário, operava no horário do almoço e, como Ministro, aos sábados e domingos, sempre em São Paulo. Mais uma demonstração de amor e dedicação à profissão!

Como Ministro, trabalhou arduamente pela recriação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) sem consegui-la, em virtude de manobras políticas. Adib havia sido o principal articulador da CPMF primitiva, que deixou de ser exclusiva do Fundo Nacional de Saúde para ser dividida, por lei, quase que pela metade, com a Previdência Social e um programa de erradicação da pobreza. Em uma entrevista, indagado se sua saída do governo de Fernando Henrique Cardoso teve relação com a CPMF, respondeu que sim, uma relação direta. Historiou o fato da seguinte maneira:

… “Pedi o compromisso dele [FHC] de que o orçamento da Saúde não seria reduzido. A CPMF entraria como adicional. E ele: ‘Isso eu posso te garantir’. Depois da aprovação, a Fazenda reduziu o meu orçamento. Voltei ao presidente. Disse: no Congresso, me diziam que isso ia acontecer. Eu respondia que não, porque tinha sua palavra. Se o senhor não consegue manter sua palavra, entendo a sua dificuldade. Mas me faça um favor. Ponha outro no meu lugar. Foi assim que eu saí, em novembro de 1996” [sic].

Total desapego ao cargo! Adib estava nele para servir ao Brasil, e não a si.

Ao tempo em que Goiás não dispunha de cirurgia cardíaca, Adib operou, a meu pedido, cerca de uma centena de cardiopatas, todos pela Previdência Social. Tornou-se nosso credor.

Dentre as iniciativas tomadas por Adib, como diretor do IDPC, participei de duas que o identificam como administrador de ação rápida. A primeira teve início em Fortaleza, durante o Congresso da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), em 1973. Disse-me que tencionava tratar cem chagásicos crônicos com benzonidazol e acompanhá-los ao longo dos anos para observar se o referido tripanossomicida interromperia a evolução da doença. “Excelente ideia”, disse-lhe, porque esse é um dos objetivos do tratamento específico, e acrescentei que a significância do IDPC exigia um trabalho de maior alcance. Ali mesmo esboçamos o que viria a ser um ambulatório de atenção ao chagásico. A pedido dele, indiquei o Elias Boainain para dirigi-lo e me comprometi, também por sua solicitação, a receber o colega em Goiânia e dar-lhe as diretrizes do tratamento etiológico, o que foi feito. Cerca de 1 ano após, estava concluída a construção de um sobrado no pátio do IDPC completamente equipado e em funcionamento. A operosidade do serviço foi tamanha que, em pouco tempo, Elias acumulou 68 casos tratados com nifurtimox (36) ou benzonidazol (32) e que foram motivo de tese de livre-docência em 1977.

A outra iniciativa diz respeito à pós-graduação stricto sensu. Por volta de 1974-1975, sugeri ao Adib a instituição de mestrado e doutorado porque o IDPC já tinha a pós‑graduação lato sensu (especialização), muito procurada por recém‑formados do Brasil e de outros países latino-americanos. Trocamos ideias sobre o assunto e ficou combinado que uma das qualificações dos eventuais e futuros PHD seria feita pela obtenção do título de livre-docente da Universidade Federal de Goiás, onde eu era chefe do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina. Inscreveram-se no concurso Elias Boainain, Hélio Magalhães, Michel Batlouni e Renato Duprat, todos aprovados por banca de examinadores de notoriedade nacional. Lamentei apenas que Walter Nogueira, já com a tese impressa, não pudesse concorrer, pois faltava-lhe um ou poucos meses mais para completar os 10 anos de graduação, condição para inscrição no concurso.

O curriculum vitae de Adib é de invejável extensão e qualidade: Ministro de Estado de Saúde por duas vezes (governo Fernando Collor de Mello e de Fernando Henrique Cardoso), Secretário de Estado da Saúde (governo Maluf), Diretor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Diretor do IDPC, do Instituto do Coração (Incor) e do Hospital do Coração (HCor) − três dos mais expressivos serviços de cardiologia do Brasil, autor ou coautor de cerca de 700 trabalhos científicos publicados em revistas, livros e anais de congressos médicos nacionais e estrangeiros, recebeu cerca de duas centenas de títulos, láureas e prêmios de vários países, e tornou-se membro de cerca de 30 sociedades cientificas distribuídas pelo mundo.

Adib deixou a atividade médica aos 80 anos, passando a viver em São Paulo e na cidade de Itajobi (SP), em sua propriedade rural e onde reunia a família.

Deixou viúva Aurice (com quem esteve casado durante mais de 60 anos), quatro filhos (três dos quais médicos: Fábio, cirurgião cardíaco, Ieda, cardiologista, Marcelo, cirurgião cardiopediatra, e Iara, arquiteta), bem como 10 netos, todos honrando e dignificando o nome dos pais.

Como se pode ver, a profecia se cumpriu em toda sua plenitude.

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