Adib Jatene: 4 de junho de 1929 14 de novembro de 2014

Adib Jatene: 4 de junho de 1929 14 de novembro de 2014

Autores:

Domingo M. Braile,
Enio Buffolo

ARTIGO ORIGINAL

Brazilian Journal of Cardiovascular Surgery

versão impressa ISSN 0102-7638

Rev Bras Cir Cardiovasc vol.29 no.4 São José do Rio Preto out./dez. 2014

http://dx.doi.org/10.5935/1678-9741.20140124

O professor Adib Domingos Jatene, primeiro editor da Revista Brasileira de Cirurgia Cardiovascular/Brazilian Journal of Cardiovascular Surgery (RBCCV/BJCVS), marco indelével de pioneirismo, honradez, sabedoria e técnica cirúrgica apurada, deixou esta vida no dia 14 deste mês de novembro.

Entristeceu toda a nação brasileira, empobrecida, sem sua marcante e ilustre presença, sempre dedicada a curar os doentes do coração e as mazelas do nosso Brasil.

Certamente, como Sócrates, o Professor Jatene não morreu!

Continuará vivo em sua missão de grande médico, mestre dedicado, inventor, líder de classe, competente administrador nos mais altos cargos acadêmicos e de governo, além de cidadão exemplar...

O legado deixado aos milhares de discípulos que formou, e aos amigos que tiveram o privilégio de com ele conviver ao longo dos 85 anos de sua profícua existência será eterno, pois suas lições continuarão a ser propagadas no decorrer dos tempos em um encadeamento de ideias e condutas digna dos grandes formadores de opinião de âmbito nacional e internacional.

Deve servir-nos de exemplo a trajetória deste profissional cujo lema foi ser útil ao próximo, sem que isto lhe custasse qualquer esforço, pois era de sua natureza o desejo de servir à nação, no melhor de sua grande capacidade realizadora.

Nascido nos confins da Amazônia, no Estado do Acre, em Xapuri, ainda hoje uma fronteira da civilização no seio da intocada floresta.

Fundada em 1902 por brasileiros, foi o foco da revolução da qual resultou a incorporação deste território boliviano ao Brasil.

Adib era filho de imigrantes libaneses que, em busca do Eldorado, enfrentaram o desconhecido no início do Século XX, indo viver em plena selva.

Seu pai, Domingos Jatene, era comerciante de borracha, o ouro branco (Látex) extraído das seringueiras nativas.

O Professor Adib Jatene operou pessoalmente mais de 20 mil pacientes. 

Em uma de suas incursões pela espessa mata, voltou com febre alta e icterícia.

Em poucos dias morreu! Adib tinha apenas dois anos.

Lá viveu até os 10 anos, quando sua mãe, com os demais filhos, mudou-se para o Estado de Minas Gerais, na cidade de Uberlândia, onde a civilização já estava presente.

Esta vivência teve grande influência no caráter do jovem, marcando seu desejo de ajudar os mais necessitados.

Em 1947, com o desejo de estudar engenharia ou medicina, muda-se para São Paulo a Capital do Estado.

Em 1948, entra na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, que traçou sua carreira e seu destino. Era seu desejo especializar-se em Saúde Pública e voltar para a sua cidade natal no Acre.

Em 1951, no quarto ano médico, começa a trabalhar no grupo do Professor Euryclides de Jesus Zerbini, um dos pioneiros da Cirurgia Cardíaca mundial. Atua como instrumentador na primeira operação para correção de Estenose Mitral digital fechada sem visão direta da lesão, apenas usando o tato, realizada pelo Professor Zerbini no Hospital das Clínicas da FMUSP.

Encanta-se pela Cirurgia Cardíaca, abandona a ideia de especializar-se em Saúde Pública e voltar para o Acre!

Forma-se médico em 1953, aos 23 anos. Faz especialização sob orientação de Zerbini em 1954.

Casa-se com a nutricionista Aurice Biscegli Jatene.

Muda-se para Uberaba em 1955, como Professor de Anatomia Topográfica e Cirurgião Cardiotorácico.

Dr. Adib Jatene e esposa Aurice, companheira de todas as horas por mais de meio século. 

Dotado de grande habilidade, frequenta uma oficina mecânica, impressionando os seus "mestres" pela facilidade com que, usando as ferramentas adequadas, fabricava produtos para a cirurgia.

Foi assim que desenvolveu uma máquina de circulação extracorpórea e um oxigenador de discos, com os quais fazia cirurgias cardíacas experimentais em cães. Estava adiante de seu tempo!

Em 1957, o Professor Zerbini, intuindo o potencial de Jatene, convida-o para voltar ao Hospital das Clínicas da FMUSP, agora como seu assistente.

O ambiente era efervescente na 1ª Clínica Cirúrgica, cujo Catedrático era o emblemático Professor Alípio Corrêa Netto, humilde em sua grandeza, imune à inveja, foi criador de um grande número de especialidades, que iniciavam sua diferenciação naqueles anos. Era admirado por seus assistentes, entre eles o Professor E.J. Zerbini e o Professor Adib Jatene, seus substitutos na evolução de suas brilhantes carreiras.

Com o apoio integral deste eminente Professor, Zerbini, com grande espirito cívico e ideias próprias a respeito de invenções e inovações, estimulava seus assistentes a criar equipamentos para a Cirurgia Cardíaca, aqui no Brasil.

Com esta visão, criou-se no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo uma Oficina para iniciar esta caminhada rumo ao futuro.

Recebeu o nome pomposo de: "Oficina do Coração Artificial".

Mostrando seu pendor pela construção de equipamentos, o Professor Adib demonstrou toda sua capacidade desenvolvendo aperfeiçoadas Máquinas de CEC, oxigenadores, trocadores de calor, termômetros etc. suprindo as necessidades não só do Brasil, como também de nações da América do Sul. Alguns modelos foram enviados para a Europa, com grande aceitação.

O Professor Adib Jatene foi fundamental na evolução do grupo de Cirurgia Cardíaca do Hospital das Clínicas entre 1957 e 1961, quando transferiu-se para o incipiente "Instituto de Cardiologia do Estado de São Paulo", uma instituição governamental dirigida por um cardiologista avançado para o tempo: Professor Dante Pazzanese, pioneiro em variados campos da especialidade.

Com muita justiça, hoje o Instituto leva seu nome.

Na nova casa, Jatene desenvolveu toda sua criatividade e competência como exímio cirurgião, formador de discípulos brilhantes e criador de muitos insumos importantes para o desenvolvimento da Cirurgia Cardíaca, que avançava a largos passos para sua consolidação.

Nesta época de grandes desafios, Jatene criou já em 1962 outra oficina para produzir equipamentos: Oficina Experimental, precursora da Fundação Adib Jatene (1984).

Apenas como exemplo, citamos algumas das conquistas desta instituição: Válvulas Cardíacas artificiais, tipo Starr Edwards, apenas dois anos após a original ser desenvolvida. Foi usada por muitos anos, com desempenho até melhor que as importadas. Desfibriladores; Marca-Passos, que nos permitiram avançar neste campo sem qualquer atraso em relação aos países desenvolvidos. Máquinas de CEC, com incorporações tecnológicas importantes em relação às primitivas; Oxigenadores de Bolhas, concêntricos, compactos em aço inoxidável.

Com o advento das membranas ocas, desenvolveu o primeiro oxigenador brasileiro de membrana, comercializado em todo o mundo por uma empresa nacional.

Outros equipamentos foram somando-se a estes, alguns mais simples, como aspiradores de vários tipos e modelos, assim como instrumentos cirúrgicos não existentes no país.

Desenvolveu uma válvula de disco basculante da qual resultou uma patente internacional.

Desde os primórdios, o Professor Jatene investiu na pesquisa de corações mecânicos artificiais, implantáveis, ideia que nunca abandonou, até os últimos dias de sua vida, em que trabalhava (sempre acompanhado dos melhores técnicos e engenheiros) no aperfeiçoamento de mais um modelo incorporando avanços técnicos apreciáveis.

Os últimos modelos foram implantados em bezerros, mostrando performance adequada.

Pode parecer que seja exagero salientar estas qualidades de um cirurgião do quilate do Professor Jatene, mas isto fez toda a diferença para o desenvolvimento da Cirurgia Cardíaca do Brasil, hoje com 200 centros e 100 mil operações por ano, cobrindo de norte a sul e de leste a oeste todo o território nacional.

Não foi o que ocorreu na maior parte dos países em desenvolvimento, que preferiram importar os equipamentos.

Isto fez toda a diferença, representando o embrião da indústria brasileira na área cardiovascular, que além de suprir o mercado nacional, exporta para muitos países, criando empregos de qualidade.

A ligação do Professor Adib com a Universidade nunca deixou de existir.

No ano de 1983, com a aposentadoria do seu mestre, o Professor Zerbini, Jatene vence memorável concurso e torna-se Professor Titular de Cirurgia Cardiotorácica da venerável instituição de ensino, agora dotada em uma moderna unidade, o INCOR, com mais de 600 leitos e equipamentos de última geração, exclusivamente dedicada ao ensino, pesquisa e tratamento, clínico e cirúrgico de cardiopatas.

Jatene, como sempre, destacou-se neste novo desafio, implementando sua maneira de trabalhar por resultados.

Foi Diretor da Faculdade de Medicina no período de 1990 a 1994, cargo de alta relevância para um professor com tantos méritos.

Aposentou-se do INCOR e da USP em 1999, como Professor Emérito, após ter-se dedicado à sua alma mater durante 16 anos!

A aposentadoria pouco significou com relação à atividade cirúrgica de Jatene.

Além de todos os afazeres em organizações governamentais públicas, o Professor Adib a convite da Associação do Sanatório Sírio, em 1986 assume o cargo de seu Diretor.

Hoje, o HCor é um grande complexo hospitalar, com especial foco na Cirurgia Cardíaca. Jatene continuou atuando como Cirurgião neste Hospital, sem fins lucrativos, que permitiu-lhe manter-se em plena atividade até 2014, juntamente com seus filhos Cirurgiões Cardíacos como ele: Fábio Jatene, Professor Titular do Universidade de São Paulo (INCOR), Marcelo Jatene, Professor Associado, responsável pela Cirurgia Cardíaca Infantil, também na Universidade de São Paulo (INCOR) e sua filha Ieda Jatene, Cardiologista Pediátrica. Em sua profícua existência, o Professor Jatene operou pessoalmente mais de 20 mil pacientes e, sob sua liderança, as equipes que comandou operaram mais de 100 mil cardiopatas.

É autor e coautor de cerca de 800 trabalhos científicos, publicados na literatura nacional e internacional.

Na seara cirúrgica, Jatene teve contribuições impactantes:

Em 1962, implantou a primeira válvula aórtica fabricada no Brasil.

Dr. Adib Jatene e seus filhos, cirurgiões cardíacos como ele, Fábio, Ieda e Marcelo. 

Em 1970, fez a primeira Revascularização do Miocárdio, tendo tido uma contribuição conspícua neste campo.

Em 8 de maio de 1975, Jatene surpreendeu o mundo científico por ter operado o primeiro paciente com uma nova técnica por ele descrita: Correção Anatômica da Transposição das Grandes Artérias". Tornou-se conhecida como "Operação de Jatene".

Esta pioneira técnica foi responsável pelo advento de uma nova subespecialidade: A Cirurgia Cardíaca de Neonatos, com todo cabedal da sua complexidade durante o ato cirúrgico e do pós-operatório, propiciando maior desenvolvimento das Unidades Cirúrgicas de Cuidados Intensivos especializadas em neonatos.

A subespecialidade cristalizou novos especialistas: Cirurgiões Cardíacos e Neonatologistas Infantis, com formação específica na área.

Hoje, milhares de pacientes beneficiam-se desta operação e destas conquistas, que devolvem a anatomia cardíaca a neonatos gravemente enfermos.

Em 1984, recebeu o prestigioso Título de "Honorary Mem ber of American Association for Thoracic Surgery".

Em 1985 foi "Honorary Guest" da American Association for Thoracic Surgery.

Nessa ocasião, apresentou o trabalho sobre reconstrução do Ventrículo Esquerdo em pacientes com Aneurisma Ventricular.

Esta técnica foi inovadora neste campo e no conceito de reconstrução ventricular para o tratamento dos aneurismas e da Insuficiência Cardíaca.

ATIVIDADE ASSOCIATIVA

1981 - Presidente do Departamento de Cirurgia Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia;

1984 - Sócio-fundador e primeiro Presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular;

1985 - Presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia;

1986 - Presidente da "International Society for Cardio vascular Surgery";

1986 - Primeiro Editor da Revista Brasileira de Cirurgia Cardiovascular/Brazilian Journal of Cardiovascular Surgery.

PRÊMIOS E COMENDAS

1989 - Membro Titular da Academia Nacional de Medicina;

1998 - "Honorary Fellow" da American Surgical Association;

2002 "Honorary Felloswship" da European Association for Cardio- Thoracic Surgery;

2003 - "Golden Hippocrates International Prize for Excel lency in Medicine", pelo Horev Medical Center (Haifa-Israel)

2003 - Prêmio "Talal El Zein" pela Mediterranean Association of Cardiology and Cardiac Surgery;

2006 - Prêmio "Fundação Conrado Wessel de Medicina 2005";

2007 - "Seven Wise Men of the World in Cardiovascular Surgery";

2008 Prêmio Medalha do Conhecimento, Categoria Gestores/Pesquisadores pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria Comércio Exterior;

2011 - "Bakulev Award for Cardiovascular Surgery" (Moscou);

2012 - "Comenda Sérgio Arouca" pelo desempenho ético e compromisso social com a Medicina.

Membro de 32 Sociedades científicas de várias regiões do mundo. Recebeu 178 Títulos e Honrarias de vários países, dos quais citamos apenas os principais.

LIVROS PUBLICADOS

- Cardiomioplastia Dinâmica no Brasil. São Paulo Ed. Atheneu, 1999;

- Medicina, Saúde e Sociedade. Ed. Atheneu, 2005;

- Cartas a um Jovem Médico. Elsevier/Ed. Campus, 2007;

- 40 Anos de Medicina O que mudou? Ed. Saberes,2011.

VIDA PÚBLICA

Acreditando no alcance da Saúde Pública, mesmo apolítico, assumiu Cargos de Governo.

1979-1982 - Secretário Estadual da Saúde do Estado de São Paulo, no Governo de Paulo Maluf.

Projetou 490 Centros de Saúde e 40 Hospitais para a Grande São Paulo.

1992 - Ministro da Saúde na gestão Presidente Fernando Collor de Mello.

1996 a 1998 - Ministro da Saúde na gestão Presidente Fernando Henrique Cardoso.

ATIVIDADES PESSOAIS

Quando jovem, Adib foi um bom esportista. Durante a faculdade era muito requisitado para as disputas da famosa Mac-Med, uma competição, agora centenária, entre o Mackenzie e a Medicina da USP. Destacava-se em vários esportes, especialmente no remo, em competições no Rio Tietê. Continuou a exercitar-se durante toda a vida.

Tinha também sensibilidade artística, sendo apreciador principalmente dos artistas da Semana da Arte Moderna, como: Di Cavalcanti, Alfredo Volpi e Tarsila do Amaral, entre muitos outros que adornavam sua bem selecionada coleção.

Dr. Adib Jatene e Aurice durante homenagem. 

Dr. Fábio Jatene e Aurice Biscegli Jatene: família unida. 

Pela sua origem amazônica, trazia grande amor pela terra, gostava imensamente das fazendas que possuía, dedicando-se a culturas das mais variadas. Tinha maior predileção pela pecuária, sendo um criador de primeira grandeza, bastante premiado pelos seus rebanhos de gado Nelore, do qual era também um interessado conhecedor da progenie e das características fenotípicas.

ADIB JATENE PENSADOR FRASISTA

  • "Eu sou contra essa história de dizer: - Eu não faço por que não me dão condições. Se você é capaz de fazer você cria as condições."

  • "Eu nunca discuto problema, tem gente que se perde na discussão do problema. Eu só discuto solução."

  • "O segredo é descobrir o jeito. E pesquisa é descobrir o jeito."

  • "O que mata não é o trabalho, e sim a raiva!"

  • "Inveja, vaidade excessiva e nervosismo fazem mal ao coração"

  • "Nunca me queixo. O presente é fantástico"

  • "O papel do médico é amenizar o sofrimento e a aflição das pessoas. Nessa profissão, os valores universais, como fé, amor e solidariedade, devem estar acima dos interesses particulares."

  • "O maior problema do pobre é só conhecer pobres. Não tem ninguém por Eles!"

Deixa uma família exemplar:

Sua esposa Aurice (nutricionista), quatro filhos: Fábio, Marcelo, Ieda (médicos) e Iara (arquiteta), genros e noras, dez netos e quatro bisnetos.

Os filhos Ieda, Marcelo e Fábio (médicos) e Iara (arquiteta). 

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