Compartilhar

Adiposidade Abdominal e Espessura Médio-Intimal das Carótidas: Uma Associação

Adiposidade Abdominal e Espessura Médio-Intimal das Carótidas: Uma Associação

Autores:

Mário Sérgio Soares de Azeredo Coutinho

ARTIGO ORIGINAL

Arquivos Brasileiros de Cardiologia

versão impressa ISSN 0066-782Xversão On-line ISSN 1678-4170

Arq. Bras. Cardiol. vol.112 no.3 São Paulo mar. 2019

https://doi.org/10.5935/abc.20190023

A aterosclerose é a principal causa de morbimortalidade em adultos no Brasil e no mundo. Fatores de risco clássicos mostraram sua relação causal a partir de estudos experimentais randomizados como é o caso do colesterol e da hipertensão arterial. Outros fatores de risco, entre eles a adiposidade abdominal, mostram associações positivas com desfechos relacionados à aterosclerose.

O estudo observacional ELSA-Brasil1 iniciou a coleta de dados em 2008 com variáveis clínicas, epidemiológicas e laboratoriais de 15.105 funcionários públicos com idade de 35 a 74 anos. Vários artigos sobre estes dados já foram publicados e trouxeram informações relevantes sobre a relação entre fatores de risco e desfechos variados. Na presente publicação, Michaela Eickemberg et al.,2 apresentam dados de um estudo transversal que explora diferentes medidas de adiposidade abdominal e sua associação com a medida da espessura médio-intimal das carótidas (EMI-C).

Estudos epidemiológicos procuram encontrar associações plausíveis entre fatores de risco e desfechos clínicos ou “substitutos” (aqui representado pela EMI-C). Associações podem, ou não, ser causais. Para que uma associação entre variáveis indique uma possível causalidade, é necessário que alguns critérios, propostos pelo estatístico britânico Austin Bradford Hill,3 sejam considerados. São eles:

  1. força da associação (magnitude do efeito);

  2. consistência (ou reprodutibilidade);

  3. especificidade (uma doença, uma variável);

  4. temporalidade (causa antes do efeito);

  5. gradiente biológico (maior exposição, mais doença);

  6. plausibilidade (mecanismo conhecido);

  7. coerência (entre laboratório e clínica);

  8. experimento (nem sempre possível);

  9. analogia (comparação com situações semelhantes).

Aplicando estes critérios ao estudo em questão temos: a) a magnitude do efeito adiposidade abdominal sobre a EMI-C é modesta (odds ratio em torno de 1,4); b) há outros estudos que comprovam esta associação; c) adiposidade abdominal não é a única causa da aterosclerose; d) é provável que a adiposidade anteceda o espessamento médio-intimal; e) não temos evidência definitiva de um gradiente biológico; f) há plausibilidade biológica para a associação explorada; g) a coerência entre dados laboratoriais e a clínica está presente; h) experimentos com animais mostram que dietas hiperlipêmicas afetam diretamente as artérias; i) em analogia com outros fatores de risco, a adiposidade abdominal pode significar mais adiposidade arterial.

De todos estes critérios, apenas um é “sine qua non” para causalidade: a temporalidade, ou seja, a causa antes do efeito. Sendo o presente estudo de desenho transversal a temporalidade está, por definição, excluída. Portanto, estamos discutindo uma associação não-causal. A conclusão principal do estudo é de que há uma associação estatisticamente significativa entre os diferentes índices de adiposidade abdominal e a EMI-C, sendo que, o mais singelo destes (a circunferência abdominal) mostrou a maior força de associação no modelo logístico, ajustado para variáveis de confusão selecionadas.

Com estes comentários queremos colocar em perspectiva a importância da análise crítica dos estudos observacionais. Esta crítica é necessária, porém temos que enfatizar que, sem os estudos observacionais a ciência médica não teria evoluído até aqui. O conhecimento das doenças que acometem o ser humano teve como alicerce dados provenientes de observações cuidadosas analisadas de forma a reduzir o efeito de viéses estatísticos e sistemáticos.

O estudo ELSA-Brasil e seus subestudos, como o de Eickemberg et al.,1 se encaixam neste perfil de qualidade, tão necessária à Ciência. Com criteriosa coleta de dados e um grupo de pesquisadores comprometidos com um padrão de qualidade excelente, o ELSA-Brasil tem trazido informações valiosas sobre fatores de risco de um grupo específico de brasileiros, dados estes que podem orientar futuras políticas de saúde.

A causalidade da adiposidade abdominal sobre eventos clínicos relacionados à aterosclerose, tem sido confirmada recentemente pela randomização mendeliana, -método observacional de estimação de efeitos causais utilizando variantes genéticas como variáveis instrumentais.4,5

REFERÊNCIAS

1 Aquino EML, Barreto SM, Bensenor IM, Carvalho MS, Chor D, Duncan BB, Lotufo PA, Mill JG, Molina MDC, Mota ELA, Passos VMA, Schmidt MI e Skklo M. Brazilian Longitudinal Study of Adult Health (ELSA-Brasil): Objectives and Design. Am J Epidemiol. 2012; 175 (4): 315-324.
2 Eickemberg M, Amorim LDAF, Almeida MCC, Aquino EML, Fonseca MJM, Santos IS, Chor D, Diniz MFS, Barreto SM e Matos SMA. Indicadores de Adiposidade Abdominal e Espessura Médio-Intimal de Carótidas: Resultados do Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto - ELSA-Brasil. Arq Bras Cardiol. 2019; 112(3):220-227.
3 Hill AB. The Enviroment and Disease: Association or Causation? Proc Roy Soc Med. 1965;58(5):295-300
4 Hägg S,Fall T, Pioner A, Magi R, Fischer K, Daisma HH, et al. Adiposity as a cause of cardiovascular disease: a Mendelian randomization study. Int J Epidemiol. 2015; 44 (2):578-86.
5 Dale CE, Fatemifar G, Palmer TM, White J, Pieto-Merno D, Zabaneh D, et al. Causal associations of adiposity and body fat distribution with coronary heart disease, stroke subtypes and type 2 diabetes: A Mendelian randomization analysis. Circulation. 2017;135(24):2373-88.