Alcoolismo e estética da existência: Jack London e a lógica branca de John Barleycorn

Alcoolismo e estética da existência: Jack London e a lógica branca de John Barleycorn

Autores:

Marco Antonio Arantes

ARTIGO ORIGINAL

História, Ciências, Saúde-Manguinhos

versão impressa ISSN 0104-5970versão On-line ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.22 no.4 Rio de Janeiro out./dez. 2015 Epub 19-Dez-2014

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702014005000027

ABSTRACT

Employing this theme as a guideline, this article examines how his prose amounts to self-practice in the construction of subjectivity and the organization of existence. It investigates how this work is related to the theme of self-care, analyzed by Michel Foucault in volumes 2 and 3 of the History of sexuality, as regards the aesthetics of existence and the art of living which existed in the Greco-Roman and Hellenistic worlds.

Key words: Jack London (1876-1916); Michel Foucault (1926-1984); alcoholism; aesthetics of existence; subjectivization

E eis John Barleycorn com a maldição atirada sobre o homem de imaginação, que está cheio de vida e desejo de viver. John Barleycorn envia sua Lógica Branca, o mensageiro prateado da verdade além da verdade, a antítese da vida, cruel e oco como o espaço interestelar, fraco e congelado como o zero absoluto, deslumbrante com a geada da lógica incontestável e do fato inesquecível. John Barleycorn não deixará o sonhador sonhar, o vivedor viver

(London, 1993, p.215).

Lei Seca, ou Volstead Act, a proibição nacional de 1919

Memórias alcoólicas ou Memórias etílicas (John Barleycorn - alcoholic memoirs, no original), de Jack (John Griffith) London, escritor norte-americano nascido em 1876, no bairro operário de San Francisco, Califórnia, destaca-se no conjunto de seletas obras literárias norte-americanas que abordam os efeitos do álcool, além de ser notadamente o retrato mais fiel da trajetória aventureira de London até a sua consagração como um dos ficcionistas de aventuras mais populares e bem-sucedidos dos EUA.

O substrato social motivador que levou London a escrevê-la tem como ponto de partida a aprovação da Lei Seca nos EUA e a conquista do voto pelas mulheres norte-americanas, inicialmente sob a forma de uma extensão do voto feminino a todo o território americano em 1919, excetuando-se o Novo México, mas ratificado por uma emenda constitucional em 1920. Na história do proibicionismo (também conhecido como Volstead Act), os primórdios da ementa são encontrados na luta pelo sufrágio feminino nos EUA, que antecede muito a essa data, e também na Guerra de Independência, em 1776, quando o estado da Filadélfia colocou a opção de cada estado norte-americano permitir o voto feminino com o argumento de as mulheres estarem lutando lado a lado com os homens pela independência dos EUA. Quase meio século depois, em 1840, as mulheres se posicionariam a favor da abolição da escravatura, ocorrida em 1866, o que reforçaria a defesa do voto estendido às mulheres. Gradualmente, em outro momento, na Guerra de Secessão (1860-1865), período em que o negro conquista o direito ao voto, inicia-se a contagem regressiva para, quatro anos depois, ser fundada a Associação Nacional para o Sufrágio para as Mulheres, fato que posteriormente propiciou o voto feminino no estado norte-americano de Wyoming.

A mulher, ao deixar o espaço restrito do lar e passar a enfrentar o mundo do trabalho e suas implicações, vai mudar todo o seu cotidiano, provocando mudanças não só na visão de mundo delas próprias, como na sociedade como um todo. Abalos importantes também vão ocorrer na ideologia patriarcal quando, pouco a pouco, parcelas maiores da sociedade passam a reconhecer a discriminação social da mulher e a aceitar a presença feminina no 'mundo produtivo' (Russo, 1999, p.47-48).

O National Prohibition Act de 1919, mais conhecido como Volstead Act, passou por vários períodos de intermitência até ser promulgado. O proibicionismo teve como maior inspirador o médico Benjamin Rush, antiescravista conhecido como o Hipócrates da Pensilvânia. Rush estudou medicina na Filadélfia e foi professor de química do Philadelphia Medical College.

Foi o primeiro cirurgião das forças armadas dos EUA e cofundador do Dickinson College. Em Ardent Spirits: the rise and fall of prohibition, John Klober (1993) observa que Rush abusava de sangrias e purgações, e pode ter mais matado do que curado pacientes; entretanto, tinha uma visão mais humana sobre os transtornos mentais, posicionando-se contra tratamentos desumanos e camisas de forças. Para Klober (1993), Rush se antecipou à medicina psicossomática quando suspeitou que estados emocionais podiam produzir desordens físicas. Rush foi influenciado por Anthony Benezet, beato e professor quaker, autor do primeiro panfleto de temperança americana, publicado em 1774.1 É quando coloca seu conhecimento médico no combate ao man bane (perdição do homem), desafiando a convicção de seus compatriotas, numa época em que inaugurações de prédios públicos e igrejas eram feitas com garrafas de uísque; tavernas eram obrigadas por lei a manter barris cheios de bebidas alcoólicas; e negócios, investimentos, crismas, nascimentos, casamentos e formaturas eram selados com boas doses de álcool.

Segundo Klober (1993), nessa mesma época, a Universidade de Harvard tinha sua própria cervejaria e só a desativou devido aos excessos dos estudantes nas formaturas. Klober lembra ainda que os juízes da Suprema Corte encomendavam bebidas alcoólicas e consultavam os processos jurídicos bebericando. Trabalhadores americanos recebiam parte de seus pagamentos em rum, e pelo menos um dia do ano era reservado pelos patrões para a ebriedade total. Na medicina, o álcool era prescrito para praticamente todas as doenças, e os dentistas utilizavam o álcool para amenizar dores de dente crônicas nas crianças. Resfriados eram curados com álcool, e remédios como tônicos e elixires continham álcool e água com corante. Nesse período, ser abstêmio não era recomendado pelas companhias de seguro, pois encarecia em 10% o valor da apólice. Mas nada superava o clero com suas próprias tavernas nas igrejas, construídas para armazenar bebidas alcoólicas e ser providenciais nas bebericagens nos serviços religiosos e visitas de ministros nas paróquias.

Mas foi em 1875 que o movimento proibicionista começou a ganhar força, quando Benjamin Rush publicou o primeiro documento influente da história da temperança.2 Foram doadas cópias para a Igreja Presbiteriana da Filadélfia, que logo a seguir formou uma comissão de ação contra o álcool que se espalhou para outros estados. Foi uma época de disseminação de oradores e missionários que pregavam os males das bebidas alcoólicas.3 A retórica do documento elevava o movimento para outro patamar e colocava a figura de Rush como o verdadeiro fundador da temperança. Entre todas as bebidas alcoólicas, a única que ele não condenava era o vinho, além de prescrever pequenas doses de álcool em colheres para prevenir desmaios e pequenos goles para evitar calafrios por exposição à umidade (Klober, 1993).

Essas foram suas únicas concessões ao álcool, pois apontava a iminência do alcoolismo e descrevia várias maneiras de alcançar a temperança, fosse por meio da religião,4 da psicologia ou da medicina.

Desde então, o movimento passou por períodos de intermitências e começou a se organizar, com forte resistência da população e dos produtores de bebidas.5 Mas os obstáculos não eram poucos. A guerra civil estimulava o consumo de álcool entre os soldados devido às agonias do conflito e às diferenças políticas, sociais, econômicas e culturais entre os estados do sul e norte dos EUA, diminuindo a participação nas sociedades de temperança.

O movimento seguiu adiante levado por setores religiosos, sobretudo metodistas, como a Women's Crusades, grupo formado em 1873 por mulheres que oravam e depois militavam em saloons para pedir o seu fechamento e alertar sobre o poder destrutivo do álcool nas famílias. A Women's Crusades foi o impulso inicial para a realização de uma convenção nacional em Cleveland que resultou na fundação da Woman's Christian Temperance Union (WCTU),6 que tinha como símbolo uma fita branca representando a pureza. A WCTU era uma organização de caráter nacional que imputava a temperança e a incompatibilidade do ato de beber álcool com os valores cristãos. Muitas das mulheres que participaram da WCTU foram espancadas e expulsas de muitas tavernas.

"A cruzada contra o álcool foi um protesto feito pelas mulheres, em parte por não terem direitos civis. Não podiam votar. Na maioria dos estados, não podiam controlar as suas propriedades ou obter a custódia dos filhos em casos de divórcio. Não havia uma proteção legal para mulheres e crianças, e os processos contra estupro eram raros" (Early..., 2011).7

Mais atuante, a Anti-Saloon League, fundada em 24 de maio de 1893 em Oberlin, Ohio, perdurou até 1933 e esteve à frente de uma cruzada moral e política que culminou com a aprovação da Lei Seca, que seria a 18ª Emenda da Constituição dos EUA. Mais organizada politicamente, procurava apoio de políticos locais que pudessem auferir um sentimento público contra o álcool na sociedade norte-americana. Sua versão nacional seria oficialmente fundada em Washington em 18 de dezembro de 1895, com o nome de Anti-Saloon League of America.8

Alcoolismo e estética da existência

Díspares em um primeiro momento, os dois acontecimentos históricos encontram sentido na ficção de London no argumento pessoal de que "as mulheres são as verdadeiras conservadoras da raça", as que "zelarão em favor dos meninos ainda por nascer"; e as que pagam com o cansaço de um corpo de suor e lágrimas as consequências das bebedeiras masculinas nos saloons. Essa era a perspectiva de London, que inicialmente se posicionou contra o sufrágio feminino e, num momento posterior, defendeu o voto feminino e a proibição da comercialização de bebidas alcoólicas, para que não lançassem "suas garras contra a juventude". Por mais paradoxal que pareça, alguns anos antes, algumas associações feministas que contratavam conferências do escritor produziram abaixo-assinados para impedir novas conferências suas sobre socialismo, em razão do "escândalo" de ter abandonado repentinamente a primeira esposa, Bessie Maddern, e suas duas filhas, para viver num quarto alugado. Em 1905, se casaria na biblioteca de sua casa com Charmian Kittredge, com quem já se correspondia por cartas ainda durante o primeiro casamento e se encontrava secretamente uma ou duas vezes por semana, motivo pelo qual era atacado pela imprensa e por associações feministas como a de Averill, que aprovou em uma assembleia geral a condenação do futebol juntamente com as obras de Jack London nas escolas norte-americanas.

Portanto, sua adesão à Lei Seca é confusa e contraditória. Se, por um lado, Memórias alcoólicas instigou educadores, jornalistas, políticos, conferencistas, organizações proibicionistas, uniões de temperança e ministros protestantes a lutar contra os vendedores de bebidas alcoólicas, por outro lado, acentuou-se diante de seus leitores uma imagem negativa de beberrão incorrigível. Nem mesmo um filme baseado no livro e as somas enormes oferecidas pelos fabricantes de bebidas para tirar o livro de circulação impediram a imagem negativa da personalidade de London (Stone, s.d., p.254). Fato é que continuou a beber cada vez mais uísque em troca de excitação, boa camaradagem e esquecimento de sua condição de filho bastardo com uma infância miserável e faminta.9 Sua morte em 1916, em decorrência de uma dose letal de morfina e atropina, não está diretamente ligada ao alcoolismo, mas pode estar relacionada com a morte e o direito ao suicídio que defendia desde a infância em seus diários, em grande parte em razão da miséria, da fome e do futuro incerto. A natureza cíclica do suicídio presente em seus escritos antecede as primeiras doses de álcool, mas podem tê-lo conduzido ao alcoolismo, pois, como afirma George Vaillant (1999, p.76), o alcoolismo e os transtornos depressivos caminham juntos e "induzem à precariedade do zelo pessoal".

No entanto, os parágrafos de Memórias alcoólicas são os cacos e os escombros de uma alma conturbada, restos de um ainda sóbrio London, que afirmava nunca ter sido alcoólatra e ter odiado o gosto amargo do álcool por toda a sua vida. London, em vários momentos, não se considera um alcoólatra e maldiz o gosto do álcool, convicto de ser uma das piores coisas para o seu paladar. Para si, a literatura sempre foi o contraponto do alcoolismo, como se estivesse confrontando as mil palavras escritas por dia com os goles desbragados de cerveja e uísque consumidos nas tavernas de San Francisco. Comer doces e viver uma vida de aventuras no mar lhe parecia mais atraente. Nada parece ficar de fora ao falar da sua relação ambígua, dúbia e contraditória com John Barleycorn, que pode ser interpretado como uma metáfora do grão de cevada, matéria-prima indispensável na fabricação da cerveja. John Barleycorn, figura onipresente na obra, também pode ser visto como uma instituição, um indivíduo que o espreitava e, frequentemente, o arrastava para a bebida.

Ele é o rei dos mentirosos. Diz verdades na tampa da cara. É o augusto companheiro com quem se anda na companhia dos deuses. Também é cupincha do Sem Nariz. Seus caminhos levam à verdade nua e à morte. Ele transmite uma visão clara e engendra sonhos lodosos. É o inimigo da vida e o professor de uma sabedoria além da visão da vida. É um matador desalmado, assassina a juventude (London, 1993, p.12).

Suas memórias alcoólicas nos remetem à História da sexualidade, de Michel Foucault, especificamente aos volumes 2, O uso dos prazeres, e 3, O cuidado de si, ambos publicados originalmente em 1984 , oito anos após o primeiro volume (Foucault, 1988a, 1988b, 1985). As duas obras marcam uma mudança significativa nas reflexões de Foucault sobre estéticas das existências, que salta da moral contemporânea para analisar as artes de viver sob o signo do cuidado de si no universo sociopolítico e cultural greco-romano e helenístico. Foucault define esse período como um momento-chave da relação do homem com a verdade consigo mesmo e com os outros, e em que estão mais presentes relações francas, críticas e abertas pautadas em uma política da verdade distinta das relações construídas no cristianismo.

Para Foucault, o cristianismo10 marca o aparecimento da figura do sujeito hermenêutico embebido pela espiritualidade cristã e cerceado de perto pela figura do mestre da penitência ou confessor que o conduzirá à salvação e à verdade. Esse sujeito hermenêutico age de forma diferente em relação a quase todas as coisas no mundo, pois pensa de forma diferente sobre a individualidade e sua relação com a sociedade, sobre os deuses, sobre a vida e sobre a morte.

Segundo Foucault, trata-se de um "fenômeno frequentemente evocado: o crescimento, no mundo helenístico e romano, de um 'individualismo' que conferiria cada vez mais espaço aos aspectos 'privados' da existência, aos valores da conduta pessoal e ao interesse que se tem por si próprio" (Foucault, 1985, p.47; destaques no original).

O que Foucault analisa não é a identidade nem a formação do sujeito, mas as práticas de construções diferenciadas subjetivadas, além de se ater à criação e às ações individuais que evitam ser universalizadas de cima para baixo. Trata-se de uma relação de si para consigo, o que implica um governo de si e uma atitude particular de cada existência desamarrada de normatizações e rupturas legais. Para Foucault, o conceito de arte de viver ou estética da existência está relacionado a atitudes individualistas, e embora mencione três outras realidades de individualismo ligadas entre si, pondera que são inconstantes e muitas vezes desnecessárias.11 O individualismo a que Foucault se refere é um redimensionamento crítico e político do indivíduo perante as técnicas modernas de subordinação. Isso significa que o sujeito tem o direito de fazer suas escolhas sem renunciar a si mesmo, negando uma postura inerte e passiva nas instâncias centrais de dominação. Segundo Schmid (1994, p.2), o "conceito de ética em Foucault é, portanto, profundamente marcado pela análise do poder enquanto fenômeno social. A ética, entendida como conduta original do indivíduo, deve impedir que as relações de poder se congelem. Ela deve tornar impossível que relações de poder nascidas do acaso se transformem em estruturas permanentes".

Paralelamente a essa discussão, Memórias alcoólicas é um esforço monumental de entendimento de si próprio, um trabalho que reflete as artes de viver, um encadeamento de devires da sua existência, coisas vívidas do que viu, ouviu e viveu,12 uma transformação contínua que se equilibra entre o prazer individual e as formas de comportamento universais. Memórias alcoólicas é uma escrita do ser como se é, um retorno ao próprio interior. Não se trata de fazer revelações verdadeiras. O dizer verdadeiro para London não vem de fora nem é tão essencial. Se na obra está dita a verdade, não saberíamos precisar onde se faz presente. Ele não vasculha a sua alma em busca de verdades, nem é esse o seu propósito, mas apenas se deixa levar pela escrita, sem se deixar afetar por verdades que vêm de fora e que lhe pedem a confissão. London não provoca uma parrhesia de si mesmo, mas uma subjetivação de discurso como invenção singular.13

London nos remete ao papel da escrita, e o álcool surge como uma espécie de núcleo temático que canaliza a construção de subjetividades e mergulha o autor no íntimo e construtivo processo de subjetivação. Tudo parece estar dentro de si, voltado para o exercício da liberdade que lhe permite o encontro com a sua verdade, na medida de suas necessidades e na maneira pela qual, contraditória ou paradoxalmente, constrói suas artes de existência, numa vida bela e digna de ser vivida. Memórias alcoólicas se apresenta como um livro da vida, reflexões de elevado sentido humano, moral, político e ético.

... a techne tou biou sob as suas diferentes formas - nela se encontra dominada pelo princípio segundo o qual é preciso 'ter cuidados consigo'; é esse princípio do cuidado de si que fundamenta a sua necessidade, comanda o seu desenvolvimento e organiza a sua prática. Mas é necessário precisar; a ideia segundo a qual deve-se aplicar-se a si próprio, ocupar-se consigo mesmo (heautou epimeleisthai) é, de fato, um tema bem antigo na cultura grega. Ele apareceu bem cedo como um imperativo amplamente difundido" (Foucault, 1985, p.49; destaques no original).

É nas relações que estabelece consigo mesmo que London interpela códigos morais que o cercam, entrando em conflitos pessoais e estabelecendo, de um lado, o embate crucial entre vício alcoólico e trabalho pesado, e, de outro, o desejo de viver uma vida temperante corporificada na busca da felicidade, na vívida vida de aventuras como um vagabundo pirata de mariscos e ostras a bordo do veleiro Razzle Dazzle.14

London não extrai de suas memórias um saber, um poder advindo do desejo, nem acentua uma repressão ao prazer. Não articula desejo e poder, não estabelece regras, não censura o álcool no sentido normativo, não reprime o seu consumo e não arrisca uma teoria sobre os motivos que o conduziram ao alcoolismo. A imagem que tem do alcoolismo e de qualquer normatização do álcool é pessoal e paradoxal. A maneira como ele integra restrição e proibição ao álcool em relação a si é diferente, pois não se encontra em seu discurso qualquer normatização ou regra de conduta, qualquer ancoragem na medicina, seja medicina orgânica ou funcional, ou alguma patologização ou somatização do alcoólatra, mas uma "preocupação de si" ante a onipresença de John Barleycorn em sua vida e o papel da escrita na constituição de sua personalidade. "Em cada recanto do mundo em que vivi, John Barleycorn espreitava. Não havia como escapar-lhe. Todos os caminhos a ele conduziam. E foram necessários vinte anos de contato, de trocas de cumprimentos e de ironias dissimuladas, para desenvolver em mim uma afeição servil pelo tratante" (London, 1993, p.21).

Se em algum momento é proibicionista e repreende moralmente o álcool como um destruidor de famílias e um mau exemplo para os jovens, dilui as mesmas convicções conforme se delineia uma relação ambígua e confusa sobre o álcool, como se ensinasse os jovens na sua condição de bebedor experimentado e amadurecido a como não beber bebendo, ou, paradoxalmente, a beber racional e inteligentemente sem se embriagar. São emblemáticas, nesse ponto, as considerações na fase final de sua vida e a perda total de medo de John Barleycorn, quando recorda porres memoráveis com uísque, cerveja e vinho. "Não, respondo, enquanto os vermes me enlouquecem. Eu conheço você pelo que é, e não o temo. Sob sua máscara de hedonismo você é Sem Nariz, e seus caminhos só conduzem à Noite. O hedonismo não tem significação. Também é uma mentira, no melhor dos casos é o compromisso presunçoso do covarde..." (London, 1993, p.230).

London não considera o alcoolismo um domínio a normatizar e reprimir, nem sequer consegue torná-lo para si como parte das relações de poder e das técnicas de saber comuns nos procedimentos discursivos médicos e científicos. Não faz o alcoolismo aparecer para que ele exista, apenas busca a si mesmo na escrita de suas memórias e, nesse ponto, aproxima-se de uma vida como uma obra de arte, com um forte acento na literatura marcada por uma autonomia. London se distancia das relações de poder presentes nos discursos científicos, comuns nos relatórios médicos sobre loucura e sexualidade15 e similares aos saberes da medicina sobre alcoolismo que atravessam o que Foucault denomina economia dos prazeres múltiplos.16 É em relação a essa transmissão de valores e à maneira como os jovens se formam na sociedade e como os discursos médicos e científicos atravessam os nossos corpos, que Foucault (1979, p.278) se posiciona: "Em relação à loucura, meu problema era saber como se pôde fazer a questão da loucura funcionar no sentido dos discursos de verdade, isto é, dos discursos tendo estatuto e função de discursos verdadeiros. No Ocidente, trata-se do discurso científico. Foi sob este ângulo que quis abordar a sexualidade".

London não acentua uma ética fundada na obediência, na culpa, no cerceamento dos comportamentos, nas normas e nas regras, mas na verdade que está dentro de si, em uma escrita que revela seus impulsos e paixões.

Do álcool e do alcoolismo, London extrai a sua verdade, a sua subjetividade, as suas amizades, a singularidade do seu relato, a sua aversão fisiológica por John Barleycorn e sua incompatibilidade com o trabalho literário, as contraposições entre uma vida de aventuras no mar e uma vida destinada à labuta e à exploração do trabalho feito contra a vontade, a pobreza e a fome na infância, suas desventuras no campo do amor, a sociabilidade proporcionada pelo álcool e suas amizades com marinheiros no estuário de Oakland, a aversão física pelo álcool, a atração por doces, a estranha forma de lidar com o dinheiro, as dificuldades encontradas na sua formação intelectual, o pouco tempo para leituras, suas aventuras no mar com os amigos contrabandistas, suas recaídas alcoólicas, a masculinidade identificada com o ato de beber e pagar bebidas para os amigos, os períodos de abstinência, o lento suicídio, a Lei Seca e o Sufrágio Feminino, os perfis de bêbados, a saúde e a onipresença de John Barleycorn.

Para London, John Barleycorn é ponto nuclear da imaginação e da abstração. É o ser que estabelece um processo contínuo de criação literária e o enreda nos laços de amizade que foram selados e regados com uísque e cerveja. London ritualiza as amizades seladas pelo álcool com um sentimento de honra. Culpa John Barleycorn por essa rede de sociabilidades entremeadas pelo álcool, quase sempre amizades difíceis com homens que se recusavam a ser escravos do sistema; a obsessiva necessidade de provar a virilidade pelo álcool, as amizades marcadas pela desconfiança, pelo medo, como o que nutria por French Frank, o pirata de ostras que lhe vendeu a chalupa Razzle Dazzle. French Frank era um dos muitos piratas que, na baía de San Francisco, faziam pescas clandestinas de camarões e pilhavam viveiros de salmão ao lado de gregos e chineses. Para cada amigo de bebedeiras e aventuras, London aufere um sentimento de masculinidade e sociabilidade que entrelaça álcool e cultura masculina americana na virada do século XIX, transformando o seu modo de viver naquela sociedade americana que se dividiria naquele momento entre puritanos abstêmios e liberais favoráveis à comercialização de bebidas alcoólicas.

O diabo é que o encanto exercido por John Barleycorn continuava para mim um mistério. Por ser eu organicamente não alcoólico, o álcool não me atraía; as reações químicas por ele provocadas não eram satisfatórias porque eu não tinha necessidade de tal satisfação química. Bebia porque os homens do meu círculo bebiam e porque a minha natureza não me permitia ser menos homem que os outros, quando entregues ao seu passatempo favorito (London, 1993, p.117).

O que entusiasma particularmente London, e ao mesmo tempo o assusta, é a capacidade de John Barleycorn de "romper a carapaça da alma" e projetá-lo numa outra dimensão da realidade, com o intuito de lhe revelar as verdadeiras verdades e não as falsas e normais verdades da sociedade. É como se o álcool fosse capaz de revelar o verdadeiro sentido político e social das relações humanas, desmascarando-as o sentido de alienação e exploração do sistema capitalista. John Barleycorn é parte de uma realidade maior do universo histórico e social do escritor americano, uma voz contrária às suas convicções sociais e políticas socialistas há muito enraizadas, mas ao mesmo tempo um adversário que clareia melhor as mazelas da sociedade. John Barleycorn também é um personagem literário, a pedra de toque para as suas reflexões, um personagem que marca sua presença na estrutura interna e estilística de Memórias alcoólicas. "O álcool revela a verdade, mas sua verdade não é normal. O que é normal é saudável. O que é saudável tende à vida. A verdade normal é uma categoria diferente, é uma categoria inferior de verdade" (London, 1993, p.213-214).

Uma similitude a essa visão socialista se expressa no entusiasmo com que se referia ao povo como um incentivo para sair do alcoolismo e das rédeas de John Barleycorn. E não causa surpresa esse parentesco entre alcoolismo, povo e socialismo, visto que anuncia alguns caminhos na trajetória literária do escritor, que seria o primeiro escritor socialista de ficção nos EUA e pai da literatura proletária na América do Norte.17

"Foi o POVO, e de forma alguma John Barleycorn, que me arrancou da longa enfermidade. E quando eu convalescia, veio o amor de uma mulher completar a cura e adormecer o meu pessimismo por muitos dias compridos, até John Barleycorn acordá-lo outra vez" (London, 1993, p.181, destaque no original).

Ao que parece, o álcool expressa, uma contradefesa, um sentimento de discórdia, enfrentamento e resistência ante uma condição de vida historicamente determinada. Para Deleuze (2007, p.332), a fissura pelo álcool manifesta-se na derrocada final, que está também presente na novela A derrocada (Crack up), de Scott Fitzgerald, e em Besta humana, de Zola: "ora exprime a maneira pela qual o corpo se conserva em um meio favorável dado; neste sentido, ele próprio é vigor e saúde. Ora ele exprime o gênero de vida que um corpo inventa para fazer girar em seu proveito os dados do meio, com o risco de destruir os outros corpos, neste sentido, ele é potência ambígua".

Mas London evita falar na inevitável derrocada; não busca a evasão nem remói a própria vida para explicar sua decadência. Ao contrário, o álcool parece direcioná-lo para uma racionalidade estética, para novas percepções e novas aberturas de experiências, para uma sensibilidade estética e política do mundo ao seu redor. Perder-se a si mesmo e potencializar sua criatividade. London não se pergunta se vale a pena continuar a viver e não se compara a um prato quebrado, como Fitzgerald. No entanto, em ambos o álcool parece adquirir uma grandeza dionísiaca, abrindo-lhes as portas para novas subjetividades e novas maneiras de sentir o mundo.

Em Memórias alcoólicas, o ingresso heroico e definitivo no universo dos homens adultos acontece a duras penas após longos tragos, porres e vômitos. Nessa fase, London recorda dois momentos cruciais que marcaram os primeiros contatos com o álcool. O primeiro, aos 5 anos de idade, quando se embriaga ao levar uma cuba de cerveja ao seu pai no campo, e o segundo, aos 7 anos, bebendo vinho em uma fazenda no condado de San Mateo, uma estância italiana em que só viviam homens solteiros.

No primeiro porre na infância, London recorda que, ao longo do trajeto de um quilômetro, sentiu-se cansado devido ao peso da cuba e, ao descansar, provou alguns goles de cerveja. Na segunda bebedeira, o medo de levar uma facada o levou a embriagar-se publicamente, o que lhe custou vários dias doente. Nesse episódio, o peso da masculinidade e a embriaguez heroica aos 7 anos de idade nos remetem a uma estranha relação do escritor com o álcool. London se desvencilha da preocupação de teorizar ou fazer um futuro prognóstico para o alcoolismo quando relata o início precoce do álcool nos primórdios de sua infância. Nada é dito sobre a história familiar do uso do álcool. Nada remete a um tipo de alcoolismo familiar como premissa de hereditariedade alcoólica. O autor nega-se a aceitar a influência do ambiente de infância como causa do alcoolismo e passa ao largo de uma pré-vulnerabilidade psicológica para o alcoolismo.

Quando recobrei os sentidos, estava escuro. Eu fora carregado, inconsciente, durante seis quilômetros e posto na cama. Estava doente e, apesar da terrível tensão no coração e nos tecidos, recaía continuamente na loucura do delírio. Todo o estoque do que era terrível e horrível no meu espírito infantil transbordou então. Visões, as mais pavorosas, se tornaram realidades (London, 1993, p.29).

O discurso de London sobre o alcoolismo trilha um caminho oposto ao que foi notado por Foucault nos estudos sobre a produção exuberante de discursos sobre sexo, loucura e racismo no campo de poder, ou seja, as instâncias das regras que dizem respeito ao sexo, ao poder e ao racismo. Segundo Foucault, essa produção firma-se no final do século XIX e início do XX e é historicamente referida à psiquiatria, que resultará no nascimento do pensamento eugênico.18 Entre as figuras que estavam sendo definidas desde o século XVIII consta a noção jurídico-biológica do "monstro humano", a figura do indivíduo anormal, isto é, aquele que deve ser corrigido, e, por fim, a do masturbador, a figura humana destinada a ser corrigida por técnicas pedagógicas que surge de forma quase universal no seio da família. Quer sejam loucos, alcoólatras e pervertidos masturbadores, tornaram-se alvos de um discurso médico que resultou numa "tecnologia da correção e uma normatização da economia dos instintos".

London transcende as visões médicas que classificam o alcoolismo como doença, e as respostas que conduzem ao vício da cerveja, do vinho ou do uísque não seriam encontradas em compêndios médicos, mas na estrutura mental de cada indivíduo. O vício, palavra que evita mencionar, é ensejado e estimulado na vivência social, e muito se deve à sua onipresença em quase todas as instâncias de nossas vidas. É nesse ponto que parece rir de si mesmo, quando afirma não ser um viciado ao trocar o café da manhã pelo vinho.

London não faz perguntas tipicamente médicas e não analisa o alcoolismo dentro de um modelo médico. Não elabora algum tipo de diagnóstico, permanecendo em um campo literário e filosófico. É de outra ordem a moral que discute, pois não designa psiquiatras como as pessoas mais indicadas para examinar alcoólatras e sequer cria laços obscuros do alcoolismo com a loucura ou a criminalidade. Não se ocupa com o controle da moral nem discute regras de condutas sociais. Não envereda por comportamentos patológicos de alcoólatras, não premia a abstinência nem castiga a desobediência, enfim, não as define em forma de tratamento. Evita em seu texto fazer referências à hereditariedade do alcoolismo e não arrisca opinar se o alcoolismo é causa ou consequência de doença mental ou mesmo se o alcoolismo é um delito ou uma doença.19 Pouco lhe interessa investigar caracterizações médicas de estados ébrios como habituais ou ocasionais. Estava convencido da inexistência de autênticos dipsomaníacos, mostrando que o alcoolismo existia por força mental, ou por não ter o controle mental. Sugere, como Celso em seu Traité de médicine, analisado por Foucault, que o indivíduo é o melhor médico de si. Como se voltasse à época dos Flavianos e dos Antoninos, o gosto da medicina toma a forma, para London, de uma prática de saúde, uma techne do próprio corpo que dita os rumos sobre o que fazer com a própria saúde. "Uma existência racional não pode desenrolar-se sem uma 'prática de saúde' - hugieine pragmateia ou techne - que constitui, de certa forma, a armadura permanente da vida cotidiana, permitindo a cada instante saber o que é como fazer" (Foucault, 1985, p.107; destaques no original).

Sobre a abstinência ao álcool, tantas vezes abordadas no texto, London a encara como uma oportunidade para maldizer o gosto do álcool, a impossibilidade da dependência química e o amor aos livros e à literatura.20

Prossegui com a minha abstinência, sobretudo porque me faltava vontade de beber. E a seguir continuei abstêmio porque os meus interesses passavam então a contemplar livros e estudantes, e no seu meio não se admitia o álcool. Estivesse eu nas trilhas da aventura e teria bebido com toda a certeza. Pois este é o lado triste da vida aventurosa - uma das situações favoritas de John Barleycorn (London, 1993, p.157).

A perda de controle do alcoólatra para London dá-se na relação inconsciente que ele mantém com o álcool, na busca não tanto do sabor e do prazer da bebida em si, mas nos seus efeitos na mente.

Jamais superei esta aversão física pelo álcool. Mas ocasionalmente ela é removida. Até hoje eu a removo sempre que tomo um gole. O paladar nunca cessa de se rebelar, podese confiar nele para saber o que é bom para o organismo. Mas os homens não bebem conscientemente em busca do efeito que o álcool produz no organismo. Bebem pelo efeito cerebral, e se este se espalha pelo corpo, tanto pior para o corpo (London, 1993, p.32).

A relação de London com o alcoolismo fica mais evidente quando ele projeta o ato de beber como uma convenção social, como se o álcool fosse essencial para a socialização e o ingresso na sociedade dos homens. É quando o universo das tavernas e as longas conversas nos balcões e nas mesas regadas com cerveja e uísque tornam-se mais presentes em suas memórias. Impelido a beber até extasiar-se, London (1993, p.179) reforça a ideia de que a solidez nas amizades pode ser proporcionada pela mítica do bebedor social, que poderia evitar amizades frágeis e o rompimento de amigos. "Bebia por força da sociabilidade; quando sozinho, não tocava em álcool. Às vezes eu chegava a me embriagar, mas considerava esses pilequinhos um preço suave em troca das relações sociais".

No entanto, o alcoolismo toma uma forma mais voraz para London no final de sua vida, quando ele se torna um ato solitário no ambiente de sua casa. É a sua derrocada. Antes, porém, relata quando pela primeira vez teve um desejo sôfrego de beber álcool após uma estafa cerebral no Cais da Benícia. É quando London desafia a si mesmo e faz uma avaliação de seu estado físico e psicológico. Numa situação-limite, London (1993, p.199-200) expõe o seu "eu real" e o seu "eu fictício", e afirma de forma paradoxal que tem controle do vício e resistência ao álcool, ao mesmo tempo, compulsão pelo álcool, perda de controle e desejo cada vez maior de embriagar-se antes de iniciar o seu trabalho literário diário. "...tomei outra dose para vencer a depressão. Tomava outra dose sempre que John Barleycorn me lembrava o que havia acontecido. Contudo, eu bebia racionalmente, inteligentemente ... Deve-se notar, de passagem, que quando um homem começa a beber racionalmente e inteligentemente ele trai um grave sintoma: a estrada que já trilhou é longa".

Pouco é dito sobre o olhar dos outros sobre si, o que dá a entender que não havia um conflito simétrico, nenhum tipo de oposição e nenhuma passagem sobre a deterioração das relações com a família, com a esposa e com os amigos. O olhar do outro sobre sua constante embriaguez serve-lhe apenas para lhe auferir masculinidade. Não é um olhar de reprovação que toma a forma de um código de regras ou teorias morais. A sua deterioração não o leva a buscar uma complementação no outro, e nada escreve sobre isso. O relacionamento com o outro na perspectiva de uma estética da existência foucaultiana e, por sua vez, sua íntima relação com a temática do cuidado de si21 dão-se na complexidade das situações-chave da obra, especificamente nos porres, nos desvarios, na afirmação da masculinidade e nas aventuras alucinantes sob o efeito do álcool. Há uma recusa contínua em aceitar o próprio alcoolismo, mesmo quando tem a percepção de que está fora do controle. Como em Gilles Deleuze, o alcoólatra é aquele que está sempre parando de beber e para o qual a quantidade incomensurável é uma questão menor ante o significado do último copo. Nada é mais importante que o último copo, "pois o primeiro copo repete o último", e assim sucessivamente, até a falência do corpo. É como se o alcoolismo fosse apenas uma vontade mental, um ato de liberdade que não poderia ser confundido com dependência química ou vício.

"Eu sobrevivi não por virtudes pessoais, mas porque não tinha a química de um dipsomaníaco e porque possuía um organismo invulgarmente resistente às devastações de John Barleycorn. E, sobrevivendo, tenho observado muitas pessoas morrerem, sem maior sorte, na longa e triste caminhada" (London, 1993, p.232).

O álcool parece estar mais ligado ao exercício de sua liberdade, a uma forma de vida particular, a uma escolha pessoal e, sobretudo, a uma estética de existência cuja liberdade encontra sentido no próprio domínio pessoal. E talvez por isso, recuse tratamentos, consequências e causas que o levaram ao hábito diário de beber. London prefere o inesperado, a descontinuidade, e nada espera das causas. Beber, embriagar-se, vomitar, perder os sentidos, seja na solidão ou rodeado por amigos, é entrar dentro de si, é criar acontecimentos, mesmo que pague um preço alto. Ele tem a incrível incapacidade de cultivar a temperança. Por consequinte, se projeta contra qualquer vestígio de governabilidade ou produções de verdade sobre o alcoolismo. Nada parece estar doente no corpo ou na mente. Seu intento é problematizar, falar da vida, encher-se de vida, tocar a morte, divergir-se, contradizer-se em uma escrita que constrói uma subjetividade livre e avessa ao universal. London intensifica as relações sociais mediadas pelo álcool, que possibilitam trocas recíprocas. Como autor, ele enamora a morte e a exorciza na escrita em busca da imortalidade.

A obra que tinha o dever de trazer a imortalidade recebeu agora o direito de matar, de ser assassina do seu autor. Vejam Flaubert, Proust, Kafka. Mas há outra coisa: essa relação da escrita com a morte também se manifesta no desaparecimento das características individuais do sujeito que escreve; através de todas as chicanas que ele estabelece entre ele e o que ele escreve, o sujeito que escreve despista todos os signos de sua individualidade particular; a marca do escritor não é mais do que a singularidade de sua ausência; é preciso que ele faça o papel do morto no jogo da escrita. Tudo isso é conhecido; faz bastante tempo que a crítica e a filosofia constataram esse desaparecimento ou morte do autor (Foucault, 1969, p.7).

London não se projeta como uma presa fácil do álcool, e, por esse motivo, não faz nenhuma tentativa de enquadrá-lo em algum sistema moral, o que poderia ser considerado um comportamento também típico de um alcoólatra, posto que expressa o orgulho incoerente do alcoólatra de que nos fala Gregory Bateson (1977, p.1), para quem "não devemos esperar do alcoólatra uma imagem coerente de si mesmo ... porque a epistemologia tem alcance limitado e está marcada por erros e contradições internas".

London não se sente doente nem portador de alguma doença. Para ele, o fim do vício é parte constituinte de uma decisão pessoal. Sua propaganda em favor da temperança se dilui na obra e dá espaço para uma significação invertida do alcoolismo como um elemento essencial à socialização das pessoas. Como na estética da existência, London é o médico que cura suas próprias feridas a "serviço da alma" e para o aperfeiçoamento da alma. Nas palavras de Rago (2010) "O indivíduo é livre quando não é dominado por outras pessoas ... Ele é livre no sentido que ele é senhor de si. Ele pode conduzir a sua vida da melhor maneira possível".

E London nada escreve sobre ajuda e conselhos de amigos para que largue a bebida, limitando-se a relatar sua embriaguez antes de iniciar o seu trabalho literário, quando o desejo era mergulhar na literatura e não na bebida. Se algo lembra a complementaridade de Bateson é a deterioração do seu trabalho literário, culpando-se por colocá-lo em segundo plano; entretanto, sua culpa não está associada aos outros.

É no final da obra que se informa que as memórias foram elaboradas em estado de embriaguez: "Comecei a antecipar o remate de minhas mil palavras diárias mediante a ingestão de uma dose quando já escrevera quinhentas palavras. Não demorei muito a prefaciar o começo das mil palavras com uma bebida" (London, 1993, p.210). No entanto, a obra é constituida na sua totalidade em plena lucidez e tem o álcool como um fio condutor literário para discutir sua relação com o mundo, com a vida e com a morte. Memórias alcoólicas não se prende ao que está escondido e não pretende dizer o que nunca foi dito. O projeto de London não é confessional nem autobiográfico, mas, em termos foucaultianos, um rapport toi, uma experiência enquanto indivíduo e não como sujeito.22

Considerações finais

Ao que parece, o projeto de London não segue um roteiro autobiográfico, mas uma linguagem dimensionada na arte de viver e no conhecimento de si próprio. Em suas memórias, London se autoconstitui estética e ficticiamente sem se dissolver em um modelo autobiográfico, eliminando as fronteiras entre a literatura e a vida, entre a arte e a vida.

Para London a escrita adquire um papel fundamental e está intrinsicamente relacionada às "artes da existência". Com a escrita canaliza a necessidade de conhecer a si mesmo, revelando os limites tênues entre a sobriedade e a ebriedade, entre a temperança e o vício. E talvez a sua maior contribuição sobre o alcoolismo seja não querer prender-se a teorias eugênicas, raciais ou tipologias de comportamentos desviantes. Se dentro de uma visão mais ampla conseguimos visualizar os micropoderes que se formam na sociedade, o cerceamento da medicina e os saberes que se formam em torno do alcoolismo, que resultarão no seu engendramento como doença social e sua condenação pela sociedade, não conseguimos visualizar na escrita do romancista qualquer discurso retórico que se identifique com os setores mais radicais da sociedade norte-americana que condenavam o consumo do álcool com suas propostas profiláticas antialcoólicas.

London também não faz vinculação entre miséria social e consumo de álcool e reluta em aceitar o alcoolismo como um problema quimico ou doença social. Para London, o alcoolismo parece diluir-se conceitualmente de dentro para fora, e lhe atribui um grau de independência que se aproxima de uma techne tou biou, que sob as suas diferentes formas remete à organização de vida dessa pessoa. E nesse ponto o escritor não se define como um indivíduo isolado, não rompe com o mundo, mas cultiva uma atitude para a constituição de relações interindividuais e práticas sociais.

London volta-se para si mesmo, pensa sobre si mesmo e avalia, examina e controla as suas condutas, e como Epicteto, atua como um vigia noturno da alma em busca de seus anseios primordiais. Como em Mozart, busca os sentidos do "eu", pois "a vida faz sentido ou não para as pessoas, dependendo da medida em que elas conseguem realizar tais aspirações. Mas os anseios não estão definidos antes de todas as experiências" (Elias, 1995, p.13).

Memórias alcoólicas não é um diário intímo de London, mas as glórias dos seus excessos, uma latente escrita apaixonada e contraditória que vai de encontro à constituição de si mesmo. Há algo quase hipnótico no fluxo de sua linguagem, e que nos lembrará algumas passagens de On the road, de Jack Kerouac. Beber, para London, mesmo sob pressão dos amigos, é mudar um pouco o mundo ao redor, é socializar-se um pouco mais. London não se arrepende nem se desintoxica. A cada encontro com o álcool, vislumbra um novo mundo. Memórias alcoólicas é uma obra de ambivalências, um livro de aceitação e negação ao álcool.

Em Memórias alcoólicas dois planos coexistem. Há uma sobreposição de planos reais e fictícios. Desta obra que discorre de suas concessões à bebida adveio fama e infâmia como nenhuma outra obra que publicou. Trata-se de um romance autobiográfico que recorre sistematicamente à ficção. Mas não é uma obra integralmente ficcional e muito menos integralmente fiel ao padrão de vida do autor. London apenas lamenta o fato de não ter coragem e ousadia para dizer toda a verdade. Contudo, o romance prima pela naturalidade, simplicidade e honestidade quando relata sua relação com o alcoolismo. É quando se opera a ficção com toda a sua força. Um de seus mais conhecidos biógrafos, Irving Stone, é enfático quanto a esse assunto. Para Stone (s.d., p.254), London

Omitiu a circunstância de em certos períodos da vida ter sido atacado de desânimo, que quando se sentia deprimido a circunstância de ser filho ilegítimo o magoava, o que não acontecia quando estava bem disposto; nem contou que muitas vezes bebia na esperança de afogar aquela melancolia; tinha o maior cuidado em evitar que voltassem a aparecer essas indestrutíveis ervas amargas: acautelava-se sempre para evitar a recorrência de tais depressões que surgiam raramente, não mais de cinco ou seis vezes por ano. Mas quando o dominavam, Jack ganhava horror ao trabalho criador, ao rancho, aos amigos, à sua filosofia mecanicista, ao socialismo e punha-se a defender brilhantemente o direito da pessoa ao suicídio. Em tais ocasiões a carga que suportava parecia-lhe excessivamente pesada para os seus ombros e imaginava que não podia continuar a suportá-la. Bebia exageradamente, tornando-se insensível, zaragateiro, antipático. Mas os ataques passavam, muitas vezes no mesmo dia.

Esse recurso opera em toda a obra, oscilando ficções dentro de realidades, realidades dentro de ficções, de maneira que a temperança e a embriaguez tornam-se espelhos que se multiplicam em acontecimentos em forma de sátiras, amarguras, êxitos e fracassos. O aprofundamento nesses planos parece-nos uma metáfora de uma viagem na embriaguez do álcool.

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