Alternativas para identificar interações medicamentosas entre as reações adversas a medicamentos em unidades hospitalares

Alternativas para identificar interações medicamentosas entre as reações adversas a medicamentos em unidades hospitalares

Autores:

Diego Zapelini Nascimento,
Gabriela Moreno Marques,
Fabiana Schuelter-Trevisol

ARTIGO ORIGINAL

Ciência & Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1413-8123versão On-line ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.24 no.4 Rio de Janeiro abr. 2019 Epub 02-Maio-2019

http://dx.doi.org/10.1590/1413-81232018244.34002018

Aos editores:

O estudo de Nagai et al.1 representa uma excelente alternativa para identificar as reações adversas a medicamentos (RAM). Esta é uma discussão relevante, considerando as políticas de uso racional de medicamentos promovidas por várias agências reguladoras ao redor do mundo, como a Food and Drug Administration. Nesse sentido, consideramos importante salientar que entre as RAM, as interações medicamentosas (IM) são as mais frequentes, sendo que mais de 30% das RAM são causadas por IM, resultando em morbidade significativa a cada ano2. Além dos rastreadores apresentados por Nagai et al.1, os profissionais da área da saúde precisam reconhecer o perfil clínico dos pacientes, as IM potenciais existentes, bem como manejar, de forma adequada, as possíveis RAM que podem ser desencadeadas pelo uso de diversos medicamentos3.

A discussão das RAM relacionadas ao uso de psicofármacos em unidades hospitalares é persistente. Shirama & Miasso4 constataram alta prevalência de uso de psicofármacos por pacientes que não estavam em um setor hospitalar de psiquiatria4. O uso de psicofármacos por idosos é frequente não somente no Brasil, mas em outros países, como a Austrália. O elevado número de prescrições inadequadas de psicofármacos entre idosos australianos, as RAM identificadas e as altas taxas de uso em domicílios é uma preocupação do governo Australiano, que desenvolveu o projeto denominado Reducing Use of Sedatives, o qual promove o uso apropriado de antipsicóticos e benzodiazepínicos entre idosos com objetivo na redução de RAM5. No Brasil, por falta de projetos suficientes com este objetivo, uma alternativa para todas as unidades hospitalares é a utilização de bases de dados como Micromedex ou Medscape que permitem identificar e classificar as IM de acordo com o risco clínico (contraindicada, maior, moderada e menor) e mecanismo de ação (farmacocinética e farmacodinâmica). É evidente que para a execução desta função é necessária a presença de um farmacêutico clínico.

O uso concomitante de medicamentos pode acarretar em RAM, pois vários medicamentos atuam sobre o metabolismo de outros, aumentando a chance de toxicidade6. Outra alterativa para identificar as IM, é o treinamento no uso seguro e eficaz de medicamentos, que é uma prática insuficiente e merece revisão nos níveis de ensino de graduação, pós-graduação e desenvolvimento profissional contínuo7.

Neste sentido, todas as agências reguladoras ao redor do mundo terão grandes desafios em desenvolver práticas que identifiquem as RAM, pois impactarão na saúde pública de muitos países.

REFERÊNCIAS

1. Nagai KL, Takahashi PSK, Pinto LM de O, Romano-Lieber NS. Uso de rastreadores para busca de reações adversas a medicamentos como motivo de admissão de idosos em pronto-socorro. Cien Saude Colet 2018; 23(11):3997-4006.
2. Iyer S V., Harpaz R, LePendu P, Bauer-Mehren A, Shah NH. Mining clinical text for signals of adverse drug-drug interactions. J Am Med Informatics Assoc 2014; 21(2):353-362.
3. Balen E, Giordani F, Cano MFF, Zonzini FHT, Klein KA, Vieira MH, Mantovani PC. Interações medicamentosas potenciais entre medicamentos psicotrópicos dispensados. J Bras Psiquiatr 2017; 66(3):172-177.
4. Shirama FH, Miasso AI. Consumo de psicofármacos por pacientes de clínicas médica e cirúrgica de um hospital geral. Rev Lat Am Enfermagem 2013; 21(4):948-955.
5. Westbury J, Gee P, Ling T, Kitsos A, Peterson G. More action needed: Psychotropic prescribing in Australian residential aged care. Aust N Z J Psychiatry 2018; 1(1):1-11.
6. Alvim MM, Da Silva LA, Leite ICG, Silvério MS. Eventos adversos por interações medicamentosas potenciais em unidade de terapia intensiva de um hospital de ensino. Rev Bras Ter Intensiva 2015; 27(4):353-359.
7. Gardner DM. Competent psychopharmacology. Can J Psychiatry 2014; 59(8):406-411.