Análise comparativa das informações de exame clínico miofuncional orofacial em adultos jovens com e sem queixas

Análise comparativa das informações de exame clínico miofuncional orofacial em adultos jovens com e sem queixas

Autores:

Paulo Fernando Aragon de Macedo,
Esther Mandelbaum Gonçalves Bianchini

ARTIGO ORIGINAL

CoDAS

versão On-line ISSN 2317-1782

CoDAS vol.26 no.6 São Paulo nov./dez. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/2317-1782/20142014015

INTRODUÇÃO

O sistema estomatognático apresenta grande capacidade adaptativa de seus componentes para manter a funcionalidade e integridade das estruturas que o compõem. A precisão, coordenação, amplitude e eficiência dos movimentos desenvolvidos pela musculatura e estruturas orofaciais definem muitas das características da respiração, mastigação, deglutição e dependem fundamentalmente de sua anatomia e organização( 1 - 4 ).

A avaliação clínica em Motricidade Orofacial representa etapa fundamental no processo de diagnóstico fonoaudiológico nessa área, uma vez que possibilita a compreensão das condições anatômicas e funcionais do sistema estomatognático. Busca, assim, direcionar a terapêutica, definir a necessidade de encaminhamentos interdisciplinares e apontar prognóstico( 5 - 9 ). Nesse sentido, inúmeras condições, intrínsecas e/ou extrínsecas, podem interferir nas respostas que são observadas em avaliações miofuncionais. A faixa etária configura-se como um dos aspectos a ser considerados com relação aos critérios do que se considera aceitável ou alterado quanto às funções estomatognáticas( 9 - 11 ). Estudos com adultos jovens apontam variações na mastigação e na deglutição a partir de várias questões que englobam desde características estruturais, tais como curva de oclusão, alterações como as disfunções temporomandibulares e até as texturas dos alimentos( 4 , 5 , 12 ).

Os últimos anos foram especialmente contemplados com uma série de publicações contendo protocolos de avaliação da Motricidade Orofacial, mostrando preocupação quanto à padronização desses instrumentos na detecção dos distúrbios miofuncionais orofaciais( 6 , 8 , 13 - 18 ). Entretanto, o foco principal e pontos de interpretação desses são variados, muitos deles aplicáveis a qualquer faixa etária. Estudos envolvendo principalmente adultos focam certas especificidades dessa população e propõem protocolos peculiares a determinados problemas( 16 - 19 ). Condições e distúrbios específicos da população adulta são apontados em estudos focando especificamente adultos jovens, como, por exemplo, problemas respiratórios( 20 ), problemas do sono( 21 ) e disfunções temporomandibulares( 21 - 23 ). Distúrbios da respiração, mastigação, deglutição e fala aparecem associados a variações da oclusão e da tipologia facial( 1 , 2 , 5 ), desequilíbrios da musculatura( 14 , 15 , 18 ) e disfunção temporomandibular( 16 , 17 , 21 - 23 ). Protocolos com escores foram validados fornecendo parâmetros de avaliação e determinando diagnóstico miofuncional orofacial( 6 , 15 , 17 , 18 ).

Adultos jovens constituem uma população que procura ou é encaminhada a clínica fonoaudiológica muitas vezes com queixas específicas, sejam essas associadas à interferência negativa na evolução da ortodontia, à presença de dores orofaciais e limitações dos movimentos mandibulares, dificuldades mastigatórias, respiratórias e/ou de sono. Entretanto, verifica-se que muitas adaptações ocorrem e permitem a funcionalidade do sistema estomatognático, mesmo com modificações presentes ou incipientes( 1 , 4 , 5 , 7 , 12 ), sem que esses fatores ou características denotem queixa, desconforto ou motivo do encaminhamento.

A partir da hipótese de que existam características estruturais e/ou miofuncionais semelhantes também presentes em adultos jovens sem queixas, e que podem não trazer significativa repercussão miofuncional, o objetivo deste estudo foi verificar as características miofuncionais orofaciais em adultos jovens e analisar comparativamente os dados obtidos em avaliação descritiva de indivíduos com e sem queixas miofuncionais. Buscou-se, assim, apontar os principais problemas miofuncionais nessa população, diferenciando-os de características típicas dessa faixa etária, com vistas a elencar os itens de avaliação miofuncional que possam merecer maior atenção a essa população.

MÉTODOS

Estudo aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) do Programa de Pós-graduação, Mestrado Profissional em Fonoaudiologia da Universidade Veiga de Almeida, sob o número CAAE: 01684312.2.0000.5291.

Após processos éticos pertinentes, participaram 85 indivíduos adultos, de ambos os gêneros. Todos os procedimentos foram realizados no Serviço de Fonoaudiologia do Hospital Universitário Antonio Pedro (HUAP) da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Foram avaliados 50 indivíduos encaminhados por setores específicos do referido hospital por apresentarem queixas referentes à funcionalidade orofacial quanto à respiração, mastigação e deglutição, constituindo o grupo de estudo (G1). Também foram avaliados 35 indivíduos sem queixas referentes a essas funções, que voluntariamente concordaram em participar da pesquisa, constituindo o grupo controle (G2), pareados quanto à idade (média de idade - G1: 28,1±6,5 e G2: 26,4±5,4; p=0,07) e quanto ao gênero (G1: feminino - 56%, masculino: 44% e G2: feminino - 68,6%, masculino - 31,4%; p=0,24), buscando-se homogeneidade entre os grupos.

Foi critério de inclusão para ambos os grupos a faixa etária compreendida entre 19 e 39 anos. Essa faixa foi definida com o objetivo de restringir possíveis variações advindas da extensa amplitude da faixa etária considerada adulta - 19 a 60 anos, caracterizando estudo com adultos jovens.

Foram critérios de exclusão para ambos os grupos: apresentar qualquer tipo de comprometimento neurológico e/ou déficit cognitivo; ser portador de alterações ou deformidades estruturais congênitas ou adquiridas nas estruturas orofaciais; ser portador de deficiência auditiva moderada ou severa; indivíduos com ausências dentárias caracterizadas por presença de espaços edêntulos nas arcadas; indivíduos que tivessem realizado reabilitação fonoaudiológica miofuncional orofacial prévia, assim como indivíduos com alterações de fala de qualquer natureza.

Visando investigar os critérios de inclusão e exclusão dos sujeitos, assim como a confirmação dos respectivos grupos aos quais seriam incluídos, foi realizada uma triagem constando de entrevista com todos os participantes do estudo por meio de aplicação de questionário semiestruturado( 23 ), contendo itens referentes a: identificação, idade, gênero, existência ou não de queixa miofuncional, história pregressa e antecedentes, descrição do problema, hábitos nocivos, dificuldades funcionais, problemas respiratórios e problemas de sono. Concomitantemente à aplicação do questionário, foi realizada triagem miofuncional orofacial para verificação dos demais critérios de exclusão não contemplados em questionário.

O exame clínico miofuncional orofacial foi realizado no próprio ambulatório do hospital pelo fonoaudiólogo autor do presente estudo e mais duas fonoaudiólogas com especialização em Motricidade Orofacial, com treinamento prévio na aplicação da avaliação e familiaridade com o material utilizado (média de treinamento: 120±18,7 dias). A avaliação foi cega apenas para as duas fonoaudiólogas participantes das análises. Todos os participantes foram examinados individualmente, pelos três fonoaudiólogos no mesmo momento, porém com apontamentos independentes e sem troca de informações durante as análises. Todos os participantes foram filmados e fotografados durante o exame para possibilitar revisão posterior, caso houvesse discordância das análises dos resultados. A compatibilização de respostas foi realizada conjuntamente pelos três avaliadores, com necessidade de revisão dos vídeos em 8% dos casos, levando a consenso de resposta.

O referido exame constou de aplicação de avaliação miofuncional orofacial descritiva estruturada, constando de itens de avaliação das estruturas craniofaciais de tecidos duros e moles, verificação da cinesiologia e amplitude dos movimentos mandibulares, verificação funcional e descrição quanto à respiração, mastigação e deglutição. A avaliação descritiva foi composta pelas variáveis de interesse e categorias de resultados que permitiam marcação específica das respostas, realizada conforme instruções e explicações do Manual Explicativo de Avaliação Miofuncional Orofacial( 24 ) aplicado em treinamento prévio por quatro meses.

Os dados de cada paciente foram devidamente anotados, documentados e arquivados em planilha digital( 24 ), constando das seguintes descrições:

  • Verificação das estruturas craniofaciais de tecido duro e mole utilizando-se medidas antropométricas por meio de paquímetro digital (em mm), descrição da oclusão e relação dentária, assim como caracterização muscular subjetiva por meio da inspeção visual, palpação, solicitação de contração contra resistência do dedo do examinador e verificação de movimentos dirigidos, caracterizados como satisfatório ou alterado;

  • Verificação da cinesiologia dos movimentos mandibulares: abertura, lateralidade, protrusão, com análise do movimento observado quanto à presença ou ausência de desvios no percurso e determinação da amplitude desses movimentos por meio de medição com paquímetro digital;

  • Verificação funcional e descrição quanto à respiração, mastigação, deglutição e suas correlações estruturais. A avaliação da mastigação e deglutição de sólido foi realizada com pão francês, com análise padrão das variáveis: trituração, padrão mastigatório, fechamento labial, contração muscular não esperada, presença de ruído na articulação temporomandibular (ATM) e número de ciclos mastigatórios. A deglutição foi avaliada com relação a líquido (água) em copo descartável. As variáveis analisadas foram: postura de lábio e de língua, contenção do alimento e do líquido, contração do músculo orbicular da boca e/ou do músculo mentual, movimento auxiliar de cabeça, ruído, presença ou ausência de coordenação e resíduo após deglutir, conforme apontado nas tabelas de resultados.

No presente estudo, optou-se por fazer uso de descrição ao invés de escores, buscando-se apontar a caracterização dos dados entre os grupos analisados.

Para os devidos registros, foram utilizados: paquímetro digital, câmera filmadora digital Sony DCR-SX20 e máquina fotográfica digital Sony Alfa 1000. Os participantes foram fotografados e filmados para possibilitar revisão dos dados e arquivo do material.

Análise estatística

A análise descritiva apresentou, na forma de tabelas, os dados observados expressos pela frequência (n) e percentual (%), para dados categóricos, e média, desvio padrão (DP) e mediana, para dados numéricos. A análise inferencial foi composta pelo teste do χ2 ou exato de Fisher, na comparação de dados categóricos, e pelo teste t de Student para amostras independentes, ou de Mann-Whitney (não paramétrico) na comparação de dados numéricos entre os grupos, este último para dados sem distribuição normal. Foi utilizado método não paramétrico, pois algumas variáveis não apresentaram distribuição Gaussiana segundo o teste de normalidade de Kolmogorov-Smirnov.

Considerando que foram necessárias várias comparações entre os grupos, devido ao grande número de variáveis analisadas na aplicação do protocolo de avaliação (31 testes no total), tornou-se necessário aumentar o nível de confiabilidade. Uma vez que a Correção de Bonferroni poderia ser rígida demais e dados significantes poderiam ser perdidos de fato, optou-se por adotar o nível de confiabilidade de 0,01, ou seja, 99%.

A análise estatística foi processada pelo software estatístico SAS(r) System, versão 6.11.

RESULTADOS

Quanto às variáveis idade e gênero, conforme estudo estatístico, os grupos não diferiram entre si (p=0,24), permitindo comparação dos resultados dos exames aplicados.

A caracterização da amostra quanto aos aspectos dento-oclusais e uso de aparelho ortodôntico para os dois grupos pesquisados encontram-se na Tabela 1.

Tabela 1. Caracterização da amostra quanto à classificação da oclusão e uso de aparelho ortodôntico para os dois grupos estudados 

Variável G1 G2 Valor de p*
n (%) n (%)
Classificação de Angle
Normal 10 (20,0) 30 (85,7) <0,0001
Alterado 40 (80,0) 5 (14,3)
Relação horizontal
Normal 27 (54,0) 33 (94,3) <0,0001
Mordida de topo 9 (18,0) 1 (2,9)
Mordida cruzada anterior 14 (28,0) 1 (2,9)
Relação vertical
Normal 25 (50,0) 32 (91,4) <0,0001
Mordida de topo 6 (12,0) 3 (8,6)
Mordida aberta cruz 10 (20,0) 0 (0,0)
Mordida aberta posterior 9 (18,0) 0 (0,0)
Uso de aparelho
Sim 9 (18,0) 3 (8,6) 0,18
Não 41 (82,0) 32 (91,4)

*Teste do ?2 ou exato de Fisher

Legenda: G1 = grupo de estudo; G2 = grupo controle

Quanto à classificação oclusal, constatou-se predomínio de oclusão considerada normal - Classe I de Angle - para o G2. Dentre as alterações oclusais observadas, constatou-se: para G2, presença de Classe II, divisão primeira, em 14,5% dos participantes. Para G1, presença de Classe II, divisão primeira em 70% dos participantes; de Classe II, divisão segunda, em 4%, e de Classe III em 6% dos participantes.

Em ambos os grupos, existiam participantes com e sem aparelho ortodôntico, prevalecendo sem uso de aparelho, constituindo amostra semelhante.

Os resultados quanto às características de execução dos movimentos mandibulares (abertura e fechamento), para os dois grupos, encontram-se na Tabela 2. Constata-se presença de desvios e de ruído tanto durante a abertura quanto no fechamento, principalmente para o G1, com diferenças.

Tabela 2. Características dos movimentos mandibulares para os dois grupos estudados 

Variável G1 G2 Valor de p*
n (%) n (%)
Abertura (modificada)**
Normal 14 (29,2) 23 (67,7) 0,001
Desvio para a direita 12 (25,0) 4 (11,8)
Desvio para a esquerda 11 (22,9) 7 (20,6)
Ruídos 11 (22,9) 0 (0,0)
Fechamento
Normal 21 (42,0) 30 (85,7) <0,0001
Desvio para a direita 11 (22,0) 5 (14,3)
Desvio para a esquerda 7 (14,0) 0 (0,0)
Ruídos 11 (22,0) 0 (0,0)

*Teste do ?2 ou exato de Fisher;

**para fins analíticos, foram excluídos três casos (dois com limitações e um com dor)

Legenda: G1 = grupo de estudo; G2 = grupo controle

Os resultados da análise dos movimentos mandibulares quanto à sua amplitude encontram-se na Tabela 3. Constatam-se amplitudes menores, tanto nos movimentos de lateralidade quanto protrusivos, para G1, com diferenças.

Tabela 3. Amplitude dos movimentos mandibulares para os dois grupos estudados 

Variável G1
Média±DP (mediana)
G2
Média±DP (mediana)
Valor
de p*
Abertura máxima (mm) 54,6±10,1 (55,7) 50,5±7,8 (48) 0,046**
Lateral direita (mm) 5,8±2,6 (5,1) 8,2±2,0 (7,7) 0,0001**
Lateral esquerda (mm) 6,0±2,3 (5,8) 8,3±2,0 (8,0) 0,0001**
Protrusão (mm) 5,9±1,4 (6,0) 8,0±1,0 (7,9) 0,0001**

*Teste do ?2 ou exato de Fisher;

**os dados da abertura máxima e da protusão foram comparados pelo teste t de Student para amostras independentes e os dados da lateral direita e esquerda pelo teste de Mann-Whitney

Legenda: DP = desvio padrão; G1 = grupo de estudo; G2 = grupo controle

Quanto às funções orofaciais, os dados referentes à respiração foram verificados com relação à característica respiratória predominante: nasal, oronasal ou oral. Obteve-se para G1: nasal 42%, oronasal 52% e oral 6%. Para G2, foi constatado: nasal 74,3% e oronasal 25,7%. A análise estatística, por meio do teste do χ2 ou exato de Fisher, apontou diferença (p=0,006).

A verificação de simetria ou assimetria entre as narinas não aparece com diferença entre os grupos (p=0,30), sendo que, em G1, obteve-se 70% dos participantes com narinas simétricas e, em G2, 80%.

Os resultados e análises dos dados referentes às características da mastigação, para os dois grupos estudados, encontram-se na Tabela 4.

Tabela 4. Resultados quanto às características da função mastigatória para os grupos estudados 

Variável G1 G2 Valor de p*
n (%) n (%)
Trituração
Posteriores 35 (71,4) 30 (85,7) 0,12
Anteriores 14 (28,6) 5 (14,3)
Padrão mastigatório
Bilateral 11 (22,0) 24 (68,6) <0,0001
Unilateral 39 (78,0) 11 (31,4)
Fechamento labial
Sim 43 (86,0) 35 (100,0) 0,020
Não 7 (14,0) 0 (0,0)
Contração muscular não esperada
Sim 46 (92,0) 10 (28,6) <0,0001
Não 4 (8,0) 25 (71,4)
Ruído na ATM
Sim 22 (44,0) 2 (5,7) <0,0001
Não 28 (56,0) 33 (94,3)
Número de ciclos
Média±DP (mediana) 21,8±6,8 (21,2) 22,5±6,0 (22) 0,56**

*Teste do ?2 ou exato de Fisher;

**os dados de número de ciclos foram comparados pelo teste de Mann-Whitney

Legenda: DP = desvio padrão; ATM = articulação temporomandibular; G1 = grupo de estudo; G2 = grupo controle

Observou-se que a maioria dos participantes dos dois grupos realiza a trituração dos alimentos nos dentes posteriores. A utilização excessiva da língua pressionando o alimento anteriormente ocorreu apenas em um participante de G1 (2%).

Constatou-se predomínio de característica mastigatória unilateral para G1 e bilateral para G2, com diferenças entre os dois grupos. Ao analisarmos detalhadamente o padrão mastigatório, observou-se para G1 padrão bilateral alternado em 16% da amostra e bilateral simultâneo em 6%. Para G2, observou-se apenas o padrão bilateral alternado (68%). A mastigação unilateral apresentou-se como preferencial para 70% da amostra de G1 e unilateral crônica para 8%. Em G2, observou-se padrão unilateral apenas preferencial, em 31,4% dos participantes.

Buscando-se verificar possível existência de associação de variáveis, foram realizados cruzamentos de dados entre o tipo de trituração do alimento durante a mastigação, se anterior ou posterior, e o tipo de oclusão. Não foram encontrados resultados estatisticamente significantes referentes à associação entre tipo de trituração e: classificação de Angle (p=0,98); relação oclusal horizontal considerando-se sobressaliência positiva, ausência de sobressaliência ou cruzada anterior (p=0,91); e trespasse vertical considerando-se sobremordida normal, ausência de sobremordida, mordida aberta ou sobremordida excessiva (p=0,81).

Os resultados e análises dos dados referentes às características da deglutição, para os dois grupos estudados, encontram-se na Tabela 5.

Tabela 5. Resultados quanto às características da função de deglutição para os grupos estudados 

Variável G1 G2 Valor de p*
n (%) n (%)
Postura de lábio
Sim 46 (92,0) 34 (97,1) 0,31
Não 4 (8,0) 1 (2,9)
Postura de língua
Sim 45 (90,0) 35 (100,0) 0,065
Não 5 (10,0) 0 (0,0)
Contenção de alimento
Sim 39 (78,0) 24 (68,6) 0,33
Não 11 (22,0) 11 (31,4)
Contenção de líquido
Sim 41 (82,0) 25 (71,4) 0,25
Não 9 (18,0) 10 (28,6)
Contração do orbicular
Sim 41 (82,0) 16 (45,7) <0,0001
Não 9 (18,0) 19 (54,3)
Contração do mentual
Sim 38 (76,0) 20 (57,1) 0,066
Não 12 (24,0) 15 (42,9)
Movimento de cabeça
Sim 16 (32,0) 3 (8,6) 0,011
Não 34 (68,0) 32 (91,4)
Ruído
Sim 18 (36,0) 1 (2,9) <0,0001
Não 32 (64,0) 34 (97,1)
Coordenação
Sim 46 (92,0) 35 (100,0) 0,11
Não 4 (8,0) 0 (0,0)
Resíduo após deglutir
Sim 23 (46,0) 6 (17,1) 0,006
Não 27 (54,0) 29 (82,9)

*Teste do ?2 ou exato de Fisher

Legenda: G1 = grupo de estudo; G2 = grupo controle

DISCUSSÃO

O presente estudo teve sua amostra constituída por adultos jovens, sendo que aqueles que compuseram o G1 foram encaminhados por problemas miofuncionais orofaciais. Assim sendo, constituíram esse grupo pacientes consecutivos que contemplaram o critério de inclusão da faixa etária estabelecida, 19 a 39 anos, de acordo com o interesse do estudo

Variações de algumas características das funções estomatognáticas também foram apontadas com relação ao gênero( 9 , 10 ). Assim sendo, buscou-se também parear os dois grupos quanto a essa variável, visando evitar possíveis vieses nas análises.

Quanto aos resultados encontrados referentes às variáveis das características analisadas dos movimentos mandibulares, foram constadas diferenças entre os grupos estudados. O G1 apresentou menor porcentagem de sujeitos com movimentos de abertura e de fechamento normais e maior porcentagem de sujeitos com esses movimentos acompanhados de desvios e/ou de ruídos durante o percurso mandibular. A literatura aponta que a organização dos movimentos mandibulares relaciona-se com a integridade da ATM e ação dos músculos esqueléticos( 3 , 8 ), sendo que alguns dos sinais de disfunções temporomandibulares referem-se a alterações desses movimentos( 15 - 18 ).

De maneira correlata, as variáveis de movimento mandibular quanto à amplitude de lateralidade e protrusão mandibulares máximas apresentaram valores significativamente menores no G1 em relação aos do G2, sendo essas características também indicativas de sinais de disfunções temporomandibulares, concordando com estudos anteriores( 14 , 17 , 22 , 23 ). Nesse sentido, a menor amplitude e alterações dos movimentos mandibulares encontradas em G1, quando comparadas aos resultados de G2, pode demonstrar presença de disfunções temporomandibulares no primeiro grupo. Esses achados concordam com estudos anteriores que apontam presença de redução da amplitude e de desvios em lateralidade do percurso mandibular para indivíduos com restrição ou limitação dos movimentos mandibulares, sendo estes bastante frequentes em indivíduos com disfunções temporomandibulares( 16 - 18 , 21 - 23 ). Nesse sentido, parece importante observar e analisar os valores de amplitude dos movimentos mandibulares obtidos para os dois grupos estudados no presente estudo. A média dos valores do movimento de abertura obtidos, tanto para G1 quanto para G2, situou-se dentro dos limites de referência apontados na literatura( 6 , 8 , 15 ), entre 40 e 55 mm. Porém, para os movimentos de lateralidade e de protrusão máximas, a média dos valores obtidos para o G1, além de significativamente menor do que aquela obtida por G2, situara-se abaixo dos valores de referência( 6 , 8 , 15 ), próximos do intervalo entre 7 e 11 mm.

Referentemente à caracterização oclusal, os dados do presente estudo apontaram, conforme esperado, que no grupo sem queixas (G2), prevaleceu padrão de oclusão de Classe I de Angle. Paralelamente, no grupo de estudo, prevaleceram os padrões de más oclusões de Classe II, além de alterações nas relações oclusais verticais e horizontais. Estudo( 7 ) aponta a existência de relação entre as medidas dos movimentos mandibulares com as más oclusões, apontando que essas podem levar a mudanças na posição dos côndilos, alterando a biodinâmica e influenciando a realização dos movimentos de lateralidade e protrusão( 7 ).

O uso de aparelho ortodôntico parece não interferir nos resultados funcionais, uma vez que não foi encontrada diferença entre os dois grupos quanto a essa variável. Entretanto, esse dado não corrobora estudo anterior( 25 ), no qual é relatado desconforto oral e outras dificuldades referentes às funções orais, tais como dificuldade na mastigação e deglutição. A variedade dos tipos de aparelho pode justificar essa discordância de achados, visto que, no presente estudo, só foram constatados, nos dois grupos, aparelhos fixos vestibulares.

Com relação à análise das funções orofaciais, pode-se constatar diferenças entre os grupos quanto à função respiratória no presente estudo, sendo os tipos respiratórios oronasal e oral significativamente mais frequentes no G1, enquanto que o tipo nasal foi o mais frequente para o G2. Esses achados suscitam concordância com estudos que mostram associações entre modificações do padrão respiratório com outras alterações miofuncionais( 2 , 5 , 10 , 15 , 18 ). Entretanto, a análise da respiração baseada em dados de observação em situação postural habitual e em atividades usuais constitui-se em situação de difícil possibilidade conclusiva. Embora a proposta do presente estudo tenha sido a análise do exame clínico miofuncional orofacial na população escolhida, a verificação da respiração pode ser considerada limitação do estudo, uma vez que a determinação do padrão respiratório suscita necessidade de verificação complementar específica.

Ao analisar a função mastigatória, o presente estudo apontou que o G1 apresentou padrão mastigatório unilateral preferencial, contração muscular não esperada e ruídos na articulação temporomandibular, com diferenças em relação ao G2. Esses resultados corroboram as propostas de estudos anteriores referentes aos padrões mastigatórios( 1 , 3 , 8 , 14 - 18 ).

A mastigação parece ser influenciada pela morfologia dentária e situação temporomandibular. De maneira geral, desarmonias dento-oclusais parecem interferir diretamente nessa função, podendo conduzir a padrões de mastigação unilateral. As causas citadas referem-se à assimetria da musculatura mastigatória, disfunções temporomandibulares, problema muscular unilateral e fatores oclusais, como contatos dentários prematuros que provocariam desvios na trajetória do fechamento mandibular, sendo que a preferência por determinado lado de mastigação parece ter relação direta com a melhor qualidade de relacionamento oclusal( 4 , 8 , 26 - 28 ).

Quanto à análise da função de deglutição, observou-se que o G1 apresentou modificações tais como contração do músculo orbicular da boca, ruído excessivo e resíduos após deglutir com frequência estatisticamente maior que o G2. Esses dados vão de encontro aos achados em estudos anteriores( 1 , 2 , 6 , 8 , 9 , 15 , 18 ), que descrevem essas modificações relacionadas às alterações funcionais da deglutição. Vale ressaltar a importância de se verificar o volume do bolo a ser deglutido nas análises das características da deglutição, uma vez que esse produz variação a ser considerada( 9 , 11 , 12 ).

O presente trabalho cumpriu o objetivo ao delinear as principais alterações miofuncionais na população estudada, apontando esses como os itens de maior atenção e detalhamento no processo de avaliação miofuncional, corroborando estudos anteriores elencados. Além disso, considerando-se as variáveis que não apresentaram diferenças estatísticas entre os grupos, ressalta-se a necessidade de maior número de pesquisas comparando grupos de adultos com e sem queixas miofuncionais, buscando-se averiguar os itens comuns aos dois grupos e, consequentemente, de menor expressividade clínica. Esse tipo de verificação poderá apontar os itens de avaliação nos quais existem semelhanças de resultados, podendo ser apontados como variações normais entre indivíduos adultos.

Ressalta-se ainda a dificuldade inerente à aplicação de protocolos de avaliação miofuncional orofacial, uma vez que mesmo aqueles com escores e validados trazem sempre alguns dados de análise subjetiva, tais como aqueles referentes à tonicidade, aparência, força e percepção de interferências musculares e/ou funcionais que dependem da impressão e expertise dos examinadores. No presente estudo, esse dado pode ser considerado limitação do estudo, especialmente por tratar-se de avaliação descritiva que, embora parcialmente estruturada e de aplicação previamente treinada, pode suscitar variações quanto às impressões entre avaliadores.

CONCLUSÃO

As principais alterações miofuncionais orofaciais em adultos jovens com queixas referem-se a limitações e alterações dos movimentos mandibulares; padrão mastigatório unilateral com contração muscular não esperada e ruído na ATM; deglutição com contração excessiva do orbicular, ruído evidente ao deglutir e sobra de resíduos, indicando serem esses os itens de maior importância na análise da avaliação.

Considerando-se a população estudada, foram verificados vários itens de avaliação e caracterização de distúrbios que não diferem entre os grupos, devendo esses ser cuidadosamente analisados.

REFERÊNCIAS

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