Análise da consistência interna da versão em português da Avaliação Cognitiva Dinâmica de Terapia Ocupacional para Crianças (DOTCA-Ch) em estudantes de 06 a 12 anos

Análise da consistência interna da versão em português da Avaliação Cognitiva Dinâmica de Terapia Ocupacional para Crianças (DOTCA-Ch) em estudantes de 06 a 12 anos

Autores:

Gabriela Souza dos Santos Demarchi,
Mariana Dias Andrade,
Marcia Maria Pires Camargo Novelli,
Noomi Katz,
Lúcia da Rocha Uchôa-Figueiredo

ARTIGO ORIGINAL

Cadernos Brasileiros de Terapia Ocupacional

versão On-line ISSN 2526-8910

Cad. Bras. Ter. Ocup. vol.27 no.3 São Carlos jul./set. 2019 Epub 05-Set-2019

http://dx.doi.org/10.4322/2526-8910.ctoao1618

1 Introdução

No Brasil, as crianças e adolescentes que cresceram a partir de 1990, fazem parte da primeira geração nascida após a chamada “revolução de prioridades”. A Assembleia Geral da ONU em 1989 adotou a Convenção sobre os Direitos da Criança, que foi ratificada no ano seguinte em nosso País, sendo que, a Constituição Federal (BRASIL, 1988) antecipou esse movimento internacional e garantiu, em seu artigo 227, a infância e a adolescência como prioridade absoluta. Conseguinte, em 1990, o País inovou mais uma vez com a tradução desses princípios em uma legislação mais completa e detalhada, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) (UNITED..., 2015).

As crianças e adolescentes brasileiros são cerca de 59,7 milhões, o equivalente à população da Itália, segundo dados do IBGE (INSTITUTO..., 2010) de 1991 a 2010, a parcela de brasileiros de até 19 anos reduziu de 45% para 33%. Nas duas últimas décadas, a proporção de crianças e adolescentes em relação à população brasileira vem diminuindo em razão da tendência de envelhecimento do País. Sendo que, 1990 a 2013, o percentual de crianças fora da escola, com idade escolar obrigatória, caiu 64%; passando de 19,6% para 7%. Assim, garantindo o acesso a 93% de suas crianças e adolescentes no ensino fundamental (INSTITUTO..., 2013).

Entretanto, os problemas relacionados à educação escolar, fracasso do ensino e dificuldades de aprendizagem são recorrentes no Brasil e alvo de várias discussões. Muitos autores têm apontado para a elevada ocorrência de dificuldades de aprendizagem em estudantes do ensino fundamental em nosso país (DEL PRETTE; DEL PRETTE, 2003). Crianças com dificuldades escolares geralmente manifestam problemas que afetam seu estado emocional e comportamental, podendo interferir no seu convívio familiar e nas relações interpessoais (MEDEIROS; LOUREIRO, 2004).

Segundo Erickson (1976), o desenvolvimento socioemocional se processa por etapas, cada qual com suas tarefas e desafios próprios. A resolução satisfatória ou o fracasso em uma dada etapa influencia as etapas posteriores do desenvolvimento. Uma etapa importante para o desempenho acadêmico de crianças ocorre dos 06 aos 12 anos de idade, que corresponde ao início da escolarização. Nesta fase, a criança tem necessidade de aprender com os adultos e de se mostrar competente e com capacidade produtiva, buscando reconhecimento social.

O aspecto maturacional é ressaltado por Inhelder e Piaget (1976), de acordo com os autores a maturação fornece à criança, gradativamente, a partir do desenvolvimento de suas estruturas biológicas e orgânicas hereditárias, a possibilidade de responder ao meio em que se encontra inserida, de assimilar e estruturar novas informações.

O desempenho escolar constitui uma condição de proteção ou de vulnerabilidade para o desenvolvimento posterior (MARTURANO; LOUREIRO, 2003). Estando de um lado o bom desempenho acadêmico e do outro as dificuldades de aprendizagem que refletem um conjunto complexo de variáveis cognitivas e afetivas que pautam a percepção da criança quanto ao seu desempenho e reconhecimento (LOUREIRO; MEDEIROS, 2004). Segundo Marturano e Ferreira (2004), a associação entre baixo desempenho escolar e problemas sociais e emocionais é preocupante, pois ambos representam questões centrais na infância.

Loureiro e Medeiros (2004) afirmam que a experiência de insucesso acadêmico nos primeiros anos de escolarização pode ocasionar um senso de não cumprimento de suas tarefas psicossocial, interferindo na formação de sentimentos de baixa autoestima e baixa autoeficácia, acarretando a diminuição da capacidade de adaptação e consequente aumento da vulnerabilidade frente às novas demandas. Sendo que, a criança que vivencia o fracasso escolar pode enfrentar um círculo vicioso de fracasso, identificando-se como fracassada e como única responsável pelas dificuldades escolares. Essa percepção de si reflete negativamente no seu modo de enfrentar as diferentes situações na família e na escola (JACOB; LOUREIRO, 2004).

Todo estudante tem o direito de desenvolver ao máximo o seu potencial cognitivo e os governos têm a responsabilidade de lhe garantir oportunidades e meios adequados para o fazer (FONSECA, 2015), sendo que a escola é uma instituição que oferece principalmente oportunidades para a aquisição de competências cognitivas (SOARES, 2007).

Os déficits cognitivos causam impacto sobre cada aspecto da vida e podem criar dificuldades em todas as áreas de ocupação. Em razão do papel central da cognição no funcionamento humano, os terapeutas ocupacionais devem ter uma compreensão de cognição, e de como as habilidades cognitivas contribuem para o desempenho ocupacional (GRIEVE; GNANASEKARAN, 2010).

A terapia ocupacional (TO) enfatiza o desempenho e não a capacidade, ou seja, a habilidade de uma pessoa para “fazer” ou sua função nos ambientes e contextos normais. É uma das principais profissões com o conhecimento e habilidades para tratar as consequências das lesões cerebrais, quando o terapeuta ocupacional utiliza de intervenções cognitivas ou permite que a pessoa aprenda novas estratégias, ele está usando princípios de reabilitação cognitiva (KATZ, 2014).

Desta forma, trabalha também com crianças com déficits cognitivos, a fim de facilitar a sua participação em todas as áreas de desempenho ocupacional, tais como autocuidado, educação, lazer, participação social e o brincar. Os profissionais capacitados em diferentes áreas com amplo olhar para questões educacionais, sociais e de saúde, que visam o desenvolvimento integral da criança, promovendo qualidade de vida e prevenindo agravos futuros.

Por ora, no Brasil, não foram desenvolvidos e nem validados instrumentos padronizados na área de terapia ocupacional voltados para crianças, indicados para avaliação dos componentes cognitivos.

O processo de avaliação deve ser robusto. Isso depende da aplicação de um bom raciocínio clínico em um procedimento de avaliação claro. Muitos fatores devem ser levados em consideração quando se decide sobre instrumentos de avaliação; estes se relacionam ao cliente, ao ambiente de serviço, à disponibilidade e utilidade dos instrumentos de avaliação e as suas propriedades. Confiabilidade, validade dos achados e usos pretendidos dos resultados devem ser incluídos (GRIEVE; GNANASEKARAN, 2010).

De acordo com Hayes (1995, p. 54),

[...] a validade refere-se ao grau com que a escala utilizada no questionário (e consequentemente este próprio) realmente mede o objeto para o qual ela foi criada para medir, e a confiabilidade é definida como o grau com que as medições estão isentas de erros aleatórios.

A confiabilidade é a reprodutibilidade de uma medida, e o critério proposto para essa avaliação foi a análise da consistência interna (alpha de Cronbach). Segundo Trochim (2003), a consistência interna refere-se ao grau com que os itens do questionário estão correlacionados entre si e com o resultado geral da pesquisa, o que representa uma mensuração da confiabilidade do mesmo. Sendo esse um dos procedimentos estatísticos mais utilizados para mensuração da consistência interna – o coeficiente alpha de Cronbach.

A proposta deste artigo é analisar a consistência interna da versão em português da bateria DOTCA-Ch aplicada à população de estudantes de 06 a 12 anos da rede municipal de ensino de Santos, São Paulo, Brasil.

2 Método

A pesquisa, bem como o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e o Termo e Assentimento Informado (TAI) foram aprovados pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UNIFESP, sob o parecer nº. 1.253.132/2015.

O estudo foi realizado em parceria com a Secretaria de Educação (SEDUC), da Prefeitura Municipal de Santos, São Paulo, em uma escola da rede municipal de ensino, as aplicações da bateria DOTCA-Ch foram realizadas no período de agosto de 2015 a novembro de 2016.

Trata-se de um estudo de análise da confiabilidade da bateria DOTCA-Ch, com amostra por conveniência de 90 estudantes na faixa etária de 06 a 12 anos, de ambos os gêneros, distribuídos entre os 1º e 7º anos. Todos os estudantes participantes foram orientados quanto ao objetivo do estudo e concordaram em participar com a autorização dos responsáveis.

A amostra por conveniência foi utilizada visto que estamos no início de uma investigação, verificando a propriedade psicométrica a partir consistência interna do instrumento, e apresentando os resultados para o planejamento da continuidade do estudo. No estudo original da Noomi Katz foram avaliadas 381 crianças saudáveis em várias escolas de Israel (KATZ et al., 2004).

2.1 Participantes

A amostra foi constituída por estudantes voluntários de uma escola da rede municipal, localizada no bairro Ponta da Praia, sendo realizada uma pré-seleção dos estudantes pela orientadora educacional da escola. O convite para participar do estudo aconteceu durante o período escolar, sendo que a amostra inicial previa a participação de 100 estudantes e 10 no momento do assentimento se recusaram a participar, totalizando uma amostra final de 90 estudantes.

Se tratando de uma pesquisa ativa, não temos o controle sobre todas as possíveis interferências, pois necessitamos da colaboração e do interesse da criança em participar da pesquisa para assim assinar o TAI e iniciar a avaliação, a criança é informada que sua participação não é obrigatória e que ela pode desistir caso não queira participar, entre as 100 crianças selecionadas pela coordenação escolar com base nos critérios de inclusão e exclusão, 10 dessas não aceitaram participar da pesquisa, sendo que três crianças se recusaram a receber as informações sobre a pesquisa, cinco crianças não aceitaram participar após a explicação sobre a pesquisa, e duas crianças desistiram de participar após iniciar a avaliação, ambas justificaram que não sabiam realizar as tarefas solicitadas durante a avaliação.

Os critérios de elegibilidade dos participantes foram: ter entre 06 a 12 anos, estar matriculado e frequentando a escola, os pais ou responsáveis assinarem o TCLE e os estudantes o TAI. Os critérios de exclusão dos participantes foram: distorção idade-série, sendo incompatível sua idade ao ano escolar em que se encontrava (estar atrasado no ano escolar).

2.2 Instrumento

2.2.1 Avaliação Cognitiva de Terapia Ocupacional para crianças (DOTCA-Ch)

Construída em 2004, pela equipe clínica do Hospital de Reabilitação de Loewenstein, em Israel, a Avaliação Cognitiva de Terapia Ocupacional para crianças (DOTCA-Ch) foi criada com a proposta de avaliar o desempenho cognitivo de crianças com idade de 06 a 12 anos, permitindo a identificação das potencialidades e das limitações nas áreas cognitivas primárias; relacionadas à função, assim como em termos de seu desempenho na memória de curta duração (KATZ et al., 2004).

É um instrumento de avaliação dinâmica (KATZ et al., 2004), específico para terapeutas ocupacionais, composto por 22 subtestes em cinco áreas cognitivas: Orientação, Percepção Espacial, Práxis, Construção Visuomotora e Operações de Pensamento. Para cada subteste, existe uma opção estruturada de quatro ou cinco níveis de mediação. Conforme apresentados na Tabela 1.

Tabela 1 Níveis de Mediação da Bateria DOTCA-Ch. 

Intervenção Geral Feedback
Geral
Feedback
Específico
Categoria Estruturada Quantidade Reduzida
1 2 3 4 5
O avaliador chama a atenção da criança “Pense”, “Preste atenção” para as informações da tarefa a ser desenvolvida. O avaliador informa à criança que algo não está totalmente correto e faz perguntas relativas à tarefa, a fim de que ela perceba qual e onde está o erro. O avaliador esclarece qual e onde está o erro da criança e pede que ela tente novamente realizar a tarefa. O avaliador demonstra para a criança o que deve ser feito para que a tarefa seja desenvolvida da melhor maneira. Em alguns subtestes, o avaliador inicia a tarefa e a criança continua a desenvolvê-la. A tarefa é simplificada, de modo que mantém o objetivo inicial, porém com menos detalhes/ ações a serem desenvolvidas. O avaliador desenvolve a tarefa, a criança observa e depois a realiza novamente.

Valores mais altos indicam a necessidade de maior auxílio para a execução da tarefa. Cada nível indica o tipo de mediação necessária para a criança, servindo como estímulos para a aprendizagem, permitindo um melhor desempenho cognitivo e guiando o início da intervenção.

A avaliação dinâmica permite a identificação do potencial de aprendizado das crianças e, através da análise do processo de mediação das tarefas, de suas estratégias de pensamento (KATZ et al., 2004). Além disso, a memória imediata e tardia são medidas em 05 subtestes de Construção Visuomotora e o tempo de reação é medido nos subtestes de Construção Visuomotora e Operações de Pensamento.

A Tabela 2 apresenta as áreas cognitivas avaliadas pela bateria, os subtestes e a quantidade de itens por subtestes, e a uma breve descrição dos componentes verificados.

Tabela 2 Agrupamentos de Itens de Teste da Bateria DOTCA-Ch. 

Agrupamentos de Itens de Teste da Bateria DOTCA-Ch
Áreas Cognitivas Subtestes Itens Descrição
Orientação 1. Orientação Espacial 4 Refere-se a consciência que a criança tem em relação a orientação espacial e temporal, neste domínio são realizadas quatro perguntas relacionadas a cada uma destas orientações.
2. Orientação Temporal 4
Percepção
Espacial
3. Orientações em Relação ao Próprio Corpo 4 Refere-se a capacidade de localizar visualmente objetos no espaço, composta, em parte, pela consciência de sua posição no espaço, como a determinação da relação espacial de figuras e objetos consigo e/ou com outras formas e objetos, capacidade de entender o conceito de lateralidade e direcionalidade e/ou o entendimento da posição externa de um objeto no espaço em relação a ele (a). São realizados comandos, solicitando ações e/ou identificação de objetos.
4. Relações Espaciais entre a Cç. e Objetos em um Espaço Próximo 4
5. Relações Espaciais em uma Figura 4
Práxis 6. Imitação Motora 12 Refere-se ao desenvolvimento e aprendizado de movimentos e o controle do movimento. É um meio primário pelo qual a criança atinge o domínio de si e desenvolve competências com objetos e ferramentas no ambiente. Essas tarefas envolvem tanto movimento com o uso do objeto pela imitação, ao ver ou usar o objeto real, ou pelo comando verbal sem ver ou usar o objeto. Além disso, os itens dos testes incluem movimentos intencionais e movimentos não intencionais.
7. Utilização de Objetos 5
8. Ações Simbólicas 5
Construção Visuomotora 9. Cópia de Figuras Geométricas* 1 Refere-se a capacidade de integrar o estímulo visual e construir ou desenhar uma reprodução, envolve a capacidade de perceber as relações espaciais entre as partes componentes, de desempenhar todas as operações de pensamento relevantes, e de responder com movimentos manuais necessários para montar ou sintetizar essas partes em um objeto. Outra estratégia usada para alcançar a sensibilidade dos resultados de avaliação é por meio da medida do tempo de resposta da tarefa, nessa área cognitiva é avaliado também a memória imediata e tardia frente as atividades realizadas.


10. Reprodução de um Modelo Bidimensional* 1
11. Construção no Quadro de Furos* 1
12. Modelo de Blocos Coloridos* 1
13. Modelo de Blocos Simples* 1
14. Reprodução de um Quebra-Cabeça 1
15. Desenho do Relógio 1
Operações de Pensamento 16. Categorização 1 Refere-se ao desempenho da criança nas operações de pensamento que exigem uma capacidade básica de conceitualização, e inclui a capacidade de identificar características discretas de objetos, de organizá-los entre hierarquias, e de classificá-los em categorias básicas.
17. Classificação Não Estruturada 1
18. Classificação Estruturada 1
19. Sequência de Figuras A 1
20. Sequência de Figuras B 1
21. Sequência de Figuras Geométricas A 1
22. Sequência de Figuras Geométricas B 1

*Os subtestes de 9 a 13 incluem teste de memória imediata e tardia de construção de tarefas.

A bateria DOTCA-Ch é uma avaliação de rastreio cognitivo e status inicial, tendo como finalidade constatar habilidades cognitivas básicas fundamentais para o desempenho ocupacional, no final desse processo, o terapeuta ocupacional deve ter um conhecimento detalhado dos componentes cognitivos fortes e fracos do cliente no desempenho ocupacional (KATZ, 2014).

É administrada em três fases: a primeira quando a criança é avaliada pelo seu estado cognitivo, que compreende a avaliação inicial que é a fase estática da bateria; na segunda fase, o examinador fornece às crianças pistas hierarquicamente estruturadas, quando necessário, desenvolvidas para promover seu potencial de aprendizagem máximo, sendo esta a fase dinâmica da bateria (mediações).

Para verificar o potencial de aprendizagem da criança e sua receptividade a instruções, a terceira fase da bateria DOTCA-Ch requer que o examinador administre apenas os itens do teste que a criança necessitou de mediação imediatamente após a realização da mesma, e analise se o desempenho da criança melhorou desde a fase inicial, a partir da fase do reteste (pós mediação). Conforme ilustrado na Tabela 3.

Tabela 3 Ilustração do Processo de Avaliação Proposto pela Bateria DOTCA-Ch. 

Fase I Fase II Fase III
Teste Mediação Pós Mediação
(Fase Estática) (Fase Dinâmica) (Reteste)

Fonte: Novelli et al. (2015).

2.2.2 Potencial de aprendizagem

A aplicação completa da bateria dura, aproximadamente, de uma a duas horas, de acordo com a necessidade de mediação (UCHÔA-FIGUEIREDO et al., 2016). Segundo orientações da pesquisadora original do instrumento, a bateria pode ser administrada em até duas sessões, sendo que existe uma proposição de que o teste seja interrompido na primeira sessão ao final do domínio Práxis, e retomado no domínio Construção Visuomotora.

Assim, a partir de uma avaliação dinâmica da bateria DOTCA-Ch, propõe a avaliação das limitações da criança, sem perder o foco em suas habilidades (KATZ et al., 2004); é possível promover intervenções e ações que considerem a integralidade da criança, seu modo singular de pensar e fazer, suas potencialidades e seu próprio tempo para execução das atividades/tarefas propostas.

A avaliação fornece um insight dessas informações e pode identificar capacidades e limitações, facilitadores e barreiras que o terapeuta ocupacional pode usar para estruturar um plano de intervenção centrado no cliente (UCHÔA-FIGUEIREDO et al., 2016). O terapeuta ocupacional cria um ambiente de aprendizagem para facilitar o aprendizado ideal. Nessa abordagem, a cognição atua como mediadora entre a capacidade da pessoa e seu desempenho (KATZ, 2014).

Nessa perspectiva, a bateria DOTCA-Ch é um instrumento promissor e específico para a área da terapia ocupacional, que avalia tanto as limitações quanto as habilidades da criança no âmbito de desempenho cognitivo.

A bateria DOTCA-Ch foi traduzida e adaptada transculturalmente para o português do Brasil pelo grupo de pesquisa do curso de terapia ocupacional da UNIFESP campus Baixada Santista e desde então está disponível a versão em português para ser utilizada pelos profissionais da área de terapia ocupacional (UCHOA-FIGUEIREDO et al., 2017).

As pesquisas com a bateria DOTCA-Ch continuam sendo realizadas e para tal, os alunos ingressantes ao grupo de pesquisa participam de um treinamento técnico teórico-prático de 36 horas quanto à utilização do instrumento, dessa forma estando os alunos do curso de terapia ocupacional aptos a colaborarem com a coleta de dados da pesquisa, sempre supervisionados pelo aluno bolsista de referência.

No Brasil uso da bateria DOTCA-Ch pressupõe de um treinamento com o instrumento e, para isso, são realizados cursos de capacitação com os profissionais de TO interessados em utilizar esse instrumento em sua prática profissional.

2.3 Coleta de dados

A aplicação foi realizada individualmente em uma sala sem interferências externas localizada na própria escola, a avaliação da bateria completa durou aproximadamente de uma a duas horas de acordo com a necessidade de mediação. Os resultados eram registrados nas folhas de pontuação padronizada. Posteriormente essa pontuação foi passada para a planilha do banco de dados do programa Excel, e ao final de toda coleta analisado pelo programa estatístico Statistic Package for Social Sciences (SPSS) versão 17.0.

2.4 Análise estatística

Na análise da consistência interna foi utilizada a amostra total de 90 estudantes. Os participantes foram caracterizados por medidas de tendência central (média), de dispersão (desvio-padrão) e porcentagem.

Essa análise foi realizada pelo cálculo do alpha de Cronbach, um índice de confiabilidade associado à força das intercorrelações entre os itens de um determinado teste. Segundo Freitas e Rodrigues (2005) a interpretação é realizada a partir do cálculo do coeficiente alpha de Cronbach, e interpretada segundo os seguintes valores: muito baixa (α ≤ 0,30), baixa (0,30 < α ≤ 0,60), moderada (0,60 < α ≤ 0,75), alta (0,75 < α ≤ 0,90) e muito alta (α > 0,90), sendo considerados satisfatórios os questionários que apresentem valor de α > 0,60.

3 Resultados e Discussão

Informações descritivas sobre o perfil demográfico dos 90 estudantes participantes deste estudo encontram-se na Tabela 4, em que percebe-se que houve predomínio, nessa amostra, do gênero masculino com 56% (n = 50). Com relação à faixa etária, a média de idade foi de 9,15 (±2,01) e a distribuição dos estudantes avaliados se deu o mais igualitariamente possível, entre as idades apresentadas abaixo.

Tabela 4 Perfil demográfico dos estudantes participantes. 

Variáveis N %
Gênero Feminino 40 44
Masculino 50 56
Faixa etária 06 anos 11 12
07 anos 11 12
08 anos 15 17
09 anos 13 15
10 anos 12 13
11 anos 12 13
12 anos 16 18
Média 9,15
DP* (± 2,01)
Ano escolar 1º ano 13 14
2º ano 15 17
3º ano 15 17
4º ano 08 9
5º ano 12 13
6º ano 15 17
7º ano 12 13
Média 3,93
DP* (± 2,04)
Moradia Santos 86 96
Guarujá 03 3
Cubatão 01 1
Bairro Ponta da Praia 54 60
Aparecida 15 17
Estuário 11 12
Outros 6 7
Santa Cruz dos Navegantes (Guarujá) 3 3
Vila dos pescadores (Cubatão) 1 1

*DP = Desvio padrão.

Todos os estudantes avaliados estavam entre o 1º ao 7º ano da rede municipal de ensino. A média de escolaridade foi de 3,93 (±2,04) e o menor número de estudantes estavam no 4º ano escolar, pois, na escola havia muitos estudantes com oito (08) anos no segundo ano escolar, essa distribuição se deu segundo a normatização do ingresso escolar Lei nº 11.274/2006 (BRASIL, 2006), que torna o ensino fundamental obrigatório, com duração de nove (09) anos, iniciando-se aos seis (06) anos de idade. Dando seguimento, a Resolução nº 7/2010 (BRASIL, 2010), entre seus incisos, torna obrigatória a matrícula no ensino fundamental de crianças com seis (06) anos completos ou a completar até o dia 31 de março do ano em que ocorrer a matrícula, sendo que, as crianças que completarem seis (06) anos após essa data deverão ser matriculadas na educação infantil (pré-escola).

Os estudantes avaliados em sua grande maioria eram residentes de Santos, totalizando 96% (n = 86) estudantes, e apenas quatro (04) residiam em cidades vizinhas. Esta escola está situada numa região muito próxima do canal portuário, que divide as duas cidades Santos - Guarujá, assim recebe estudantes residentes do bairro Santa Cruz dos Navegantes, pela proximidade, já que o melhor acesso é através das embarcações. Portanto, existe, então, uma parceria estabelecida entre as prefeituras para que esses estudantes estudem em Santos, e para o aluno residente de Cubatão a facilidade para os responsáveis que trabalham em Santos.

Mais da metade dos estudantes eram residentes do bairro onde a escola se localiza (Ponta da Praia), outras, porém, residem em dois bairros vizinhos: Aparecida e Estuário.

A propriedade de medida da versão em português da bateria DOTCA-Ch analisada foi a consistência interna, apresentados na Tabela 5.

Tabela 5 Valores de alpha de Cronbach para os domínios da bateria. 

Domínios Valores de alpha de Cronbach
Orientação (8 itens) 0,74
Percepção Espacial (12 itens) 0,67
Práxis (23 itens) 0,79
Construção Visuomotora (7 itens) 0,80
Memória Imediata (5 itens) 0,74
Memória Tardia (5 itens) 0,69
Operações de Pensamento (8 itens) 0,62
Coeficiente Alpha 0,92

Baseado nesta interpretação de Freitas e Rodrigues (2005) a bateria DOTCA-Ch apresentou uma confiabilidade considerado muito alto (α = 0,92). Na análise dos valores de alpha por domínios, pode-se identificar que nas áreas Práxis e Construção Visuomotora apresentaram valores altos (0,75 < α ≤ 0,90). Já as áreas de Orientação, Percepção Espacial, Memória Imediata, Memória Tardia e Operações de Pensamento apresentaram coeficientes considerados moderados (0,60 < α ≤ 0,75).

A Tabela 6 apresenta a comparação entre os valores de consistência interna do estudo original (KATZ et al., 2004) e os resultados deste estudo.

Tabela 6 Comparação entre os valores de alpha de Cronbach entre o estudo original e os resultados do presente estudo. 

Domínios Valores de alpha de Cronbach
Estudo Original Presente Estudo
Orientação (8 itens) 0,61 0,74
Percepção Espacial (12 itens) 0,74 0,67
Práxis (23 itens) 0,70 0,79
Construção Visuomotora (7itens) 0,61 0,80
Memória Imediata (5 itens) 0,64 0,74
Memória Tardia (5 itens) -- 0,69
Operações de Pensamento (8 itens) 0,77 0,62
Coeficiente Alpha --- 0,92

Os resultados demonstram que nos domínios Percepção Espacial e Operação de Pensamento apresentam-se coeficientes menores no presente estudo comparado ao estudo original, sendo que no domínio Operação de Pensamento o valor foi de α = 0,62 e a Percepção Espacial com α = 0,67 apontado como um coeficiente moderado.

Os demais domínios Orientação, Práxis, Construção Visuomotora e Memória Imediata mostram coeficientes maiores no presente estudo. Ressalta-se que na comparação entre os dois estudos a área cognitiva de Construção Visuomotora apresentou um coeficiente mais altos do que foi apresentado no estudo original, o mesmo se repete no domínio Práxis e Orientação. O domínio memória tardia não foi analisado no estudo original e no presente estudo a pontuação foi de α = 0,69 considerado moderado.

Os resultados apontam para uma alta confiabilidade interna do instrumento, pode ser utilizado com essa população, segundo Freitas e Rodrigues, visto que o valor apresentado pela pontuação total aponta para uma confiabilidade muito alta da bateria α = 0,92. Desse modo, pode-se inferir que a realidade das crianças brasileiras, seus contextos de vidas, suas diferenças culturais, ambientais e religiosas, necessitam ser levadas em consideração, sendo esses, possíveis estudos a serem realizados com crianças em diferentes regiões, abordando distintas realidades e circunstâncias. Posteriores estudos realizados poderiam ser com crianças que apresentam transtorno no desenvolvimento global, desse modo, teriam como embasamento o estudo com as crianças saudáveis (grupo controle) como parâmetros de referência, visto que ainda não temos escores para nossa população.

As limitações são pertinentes a toda e qualquer pesquisa, nós encontramos dificuldades referentes ao espaço físico da instituição que não houvesse interferência externa, e fosse compatível para a realização semanal da avaliação na escola. Sendo um estudo longo, em decorrência do número de participantes, da duração da aplicação da bateria por criança variando de 1h30 a 2 horas, e da dificuldade do calendário escolares com pontos facultativos, feriados e férias semestrais, muitas vezes não sendo compatível com o calendário da pesquisa.

Outra limitação importante é a impossibilidade em realizar a validade de critério, que seria outra propriedade que poderia ser estudada, no entanto, não temos disponível no Brasil nenhum instrumento considerado “padrão-ouro”, que consiste em uma medida amplamente aceita, com as mesmas características do instrumento apresentado.

4 Conclusão

A versão em português da bateria DOTCA-Ch apresentou ótima consistência interna para ser utilizado com estudantes de 6 a 12 anos, em fase escolar com desenvolvimento normal. Desta forma estando disponível aos profissionais da área de terapia ocupacional um instrumento dinâmico de avaliação cognitiva confiável para ser utilizado em avaliações e intervenções que considerem a integralidade da criança, seu modo singular de pensar e fazer.

A bateria DOTCA-Ch contribui para que os terapeutas ocupacionais tenham melhores condições de trabalho utilizando-se de um recurso confiável para avaliação, podendo inclusive, ser utilizado para traçar um plano terapêutico de acordo com o desempenho da criança e nível de mediação que mostram seu potencial de aprendizagem, compreendendo as estratégias utilizadas pelas crianças, e permitindo ao profissional o desenvolvimento de intervenções apropriadas.

No entanto, é importante se atentar que não existe um instrumento de avaliação, nem protocolo de avaliação perfeitos, mas cabe ao terapeuta ocupacional ter um olhar sensível para elaborar um raciocínio clínico mais adequado visando as potencialidades e limitações da criança de acordo com o que o instrumento revela.

REFERÊNCIAS

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