Análise da timidez na desvantagem vocal percebida em professores

Análise da timidez na desvantagem vocal percebida em professores

Autores:

Sandra Rosa Machado Luz Gimenez,
Glaucya Madazio,
Fabiana Zambon,
Mara Behlau

ARTIGO ORIGINAL

CoDAS

versão On-line ISSN 2317-1782

CoDAS vol.31 no.3 São Paulo 2019 Epub 27-Jun-2019

http://dx.doi.org/10.1590/2317-1782/20182018149

INTRODUÇÃO

Os professores representam cerca de 1,65% do total de trabalhadores no Brasil e, assim como em outros países, a profissão é considerada de alto risco para o desenvolvimento de alterações vocais(1). Fatores extrínsecos como longas jornadas de trabalho, ambientes ruidosos e número elevado de alunos por sala são descritos na literatura como aspectos que favorecem a sobrecarga vocal. Entretanto, a influência de fatores intrínsecos inerentes ao próprio sujeito como traços de personalidade, aspectos psicossociais e estratégias de enfrentamento em relação ao desempenho vocal, ainda é pouco conhecida nesta população(2,3).

Embora os primeiros estudos que relacionam distúrbios de voz e personalidade sejam antigos, recentemente o interesse nessa área aumentou com trabalhos de maior complexidade metodológica. Estudos envolvendo a personalidade vêm ganhando cada vez mais importância na área científica. Os traços de personalidade distinguem os indivíduos entre si; entretanto, esses traços são estáveis em cada pessoa e podem resumir, prever e explicar a forma de agir de cada um(4,5). Os indivíduos com disfonia funcional são descritos como introvertidos, ansiosos e podem apresentar tensão laríngea. Por outro lado, indivíduos com nódulos vocais apresentam traços de extroversão e impulsividade, e parecem ser mais comunicativos(6).

A timidez é um conceito distinto das dimensões da introversão(7). Timidez é uma preocupação ansiosa do self, em resposta à interação social real ou imaginária do sujeito, e está associada à sua elevada capacidade de autoavaliação sobre si mesmo. Já a introversão é definida como um traço de personalidade inato, que independe de estar exposto a uma situação de comunicação. O introvertido pode parecer tímido, pois sua interação social é baixa. No entanto, não sente preocupação com o que os outros pensam ou acham sobre ele mesmo(8). O sujeito tímido, por outro lado, apresenta sentimentos desconfortáveis, principalmente em ambientes sociais, com maior propensão à depressão, ansiedade e fobia social. Alguns estudos defendem que o amadurecimento do lobo pré-frontal ocorre mais tardiamente entre as crianças com timidez, levando-as a dificuldades emocionais, comportamentais, e de autorregulação(9,10). A timidez reflete uma dificuldade de comunicação, associada a um sentimento de baixa performance e um julgamento social negativo de fala. Com certa frequência, os tímidos têm dificuldades de serem ouvidos e entendidos, apresentam dificuldades em iniciar e estruturar uma conversa, falam menos, são pouco relaxados e menos competentes na comunicação(11).

Um estudo realizado com 755 estudantes de Pedagogia mostrou que sujeitos com inibição social e emoções negativas apresentaram índices elevados para o questionário VHI (Voice Handicap Index) quando comparados a sujeitos não tímidos. Achados semelhantes também foram encontrados na população geral e em indivíduos sem queixa de voz, e a presença da timidez aumentou a percepção da desvantagem vocal(12,13).

Alguns sinais de timidez, como baixa intensidade de voz, fala disfluente, monótona e o fato de o indivíduo ser pouco falante, são descritos no comportamento vocal de alguns professores(14,15). Contudo, professores extrovertidos utilizam-se mais da comunicação verbal e não verbal do que os professores introvertidos. Isso promove uma comunicação mais rica e uma interação mais produtiva com seus alunos. Os professores extrovertidos falam mais e com maior velocidade, em loudness forte e repetem mais vezes as instruções verbais. Além disso, procuram maior contato físico e visual, sorriem e gesticulam mais, o que resulta em um ambiente mais positivo ao aprendizado(16-18).

O trabalho desenvolvido pelos professores apresenta diferentes desafios, demandas e recompensas, dependendo de variáveis como tipo de escola, nível de ensino e faixa etária dos alunos(19-21). O professor da Educação Infantil, que atende crianças de dois a cinco anos de idade, e o de Ensino Fundamental I, que atende crianças de seis a dez anos de idade, apresentam demandas vocais diferentes em função de suas distintas atribuições. Na Educação Infantil, as atividades são variadas, como contar histórias, teatro de fantoches, músicas e conversas em roda, nas quais o falar é o meio de comunicação mais usado. O professor do Ensino Fundamental, por exemplo, necessita abrir espaços para diálogos e reflexões. O uso da argumentação por parte do professor e dos alunos é intenso, podendo levar a um abuso de voz e, consequentemente, a um desgaste vocal e emocional(22).

Os dados apresentados pela literatura retratam a presença de tensão muscular e dificuldades de comunicação vivenciadas pelo sujeito tímido. Levando-se em consideração que a fala é o meio de comunicação mais utilizado por este profissional, torna-se imprescindível investigar se há relação entre a timidez e a presença da desvantagem vocal do professor. Tais dados fornecerão evidências científicas que permitirão compreender melhor o perfil vocal dessa população, não apenas no que diz respeito ao uso profissional da voz, como também ao seu bem-estar físico, mental e social. Dessa forma, o objetivo deste estudo foi verificar a relação entre a timidez autorreferida e a desvantagem vocal percebida em professores da Educação Infantil e Fundamental I e II.

MÉTODO

Trata-se de um estudo transversal, observacional e quantitativo. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade São Leopoldo Mandic Campinas/SP sob parecer número 1.963.878.

O recrutamento foi realizado online via plataforma Survey Monkey ou pessoalmente em escolas públicas e particulares das cidades de Campinas e São Paulo, Estado de São Paulo e os participantes consentiram na utilização de seus dados, aceitando o Termo de Consentimento Livre Esclarecido (TCLE) no próprio questionário de resposta.

Foram incluídos professores de ambos os gêneros, faixa etária entre 20 e 60 anos de idade, sem queixa vocal, da Educação Infantil e Ensino Fundamental I e II, de escolas públicas e particulares das cidades de Campinas e São Paulo, Estado de São Paulo.

Os sujeitos responderam a uma ficha de identificação composta por 11 questões, elaborada pelo Programa de Saúde Vocal do SinproSP. O questionário foi entregue em papel impresso para preenchimento no local de trabalho, ou ainda enviado em link para preenchimento online via plataforma Survey Monkey, conforme a preferência da escola.

Na ficha de identificação, foram investigados os seguintes dados: gênero, idade, nível de ensino que leciona (Educação Infantil, Ensino Fundamental I e II), tempo de magistério em anos, número de alunos por sala de aula, carga horária diária de trabalho, presença de ruído no ambiente de trabalho, consulta médica e/ou fonoaudiológica prévia devido a problemas de voz, uso vocal em outra atividade fora do momento de trabalho, tabagismo, etilismo, presença de infecção em vias aéreas, dificuldades na audição e antecedentes familiares. Os dados foram utilizados também para caracterizar o perfil do professor na etapa de análise de dados. Os questionários foram entregues apenas a sujeitos sem queixa vocal, sendo os sujeitos com queixa não contabilizados neste estudo.

Participaram do presente estudo 200 professores, 194 mulheres e seis homens, média de idade de 41,8 anos, sem queixa vocal, da Educação Infantil e Ensino Fundamental I e II.

A amostra caracterizou-se por ser predominantemente do gênero feminino (97%), com idade média de 41,8 anos. A atuação mais frequentemente encontrada foi no Ensino Fundamental (57%), o tempo de formação foi em média de 22 anos, carga horária de trabalho mais frequente de um período e média de 17 alunos por sala. Aspectos relacionados à voz mostraram que 61% não têm nenhum cuidado específico com a voz, 62% referiram algum tipo de afecção das vias aéreas superiores e 78% desta população nunca realizou fonoterapia durante sua vida profissional.

Os dados de identificação pessoal e caracterização do trabalho encontram-se na Tabela 1.

Tabela 1 Distribuição numérica e percentual dos dados de identificação pessoal e caracterização do trabalho em professores 

Variáveis e categorias n % p-valor
Gênero
Feminino 194 97,00 <0,001*
Masculino 6 3,00
Faixa etária
20-30 23 11,50 0,031*
30-40 60 30,00 0,527
40-50 71 35,50 Ref.
50-60 46 23,00 0,170
Nível que leciona
Infantil 63 31,50 0,001*
Fundamental 115 57,50 Ref.
Infantil e Fundamental 22 11,00 <0,001*
Tempo de formado
01-10 54 27,00 0,479
10-20 58 29,00 0,675
20-30 65 32,50 Ref.
30-40 23 11,50 0,051
Carga horária
01 período 114 57,00 Ref.
02 períodos 84 42,00 0,485
03 períodos 2 1,00 0,116
Alunos por sala
01-10 9 4,50 0,018*
10-20 56 29,50 0,055
20-30 91 45,50 Ref.
30-40 39 19,50 0,005*
40-50 2 1,00 0,209
Presença de ruído na sala
Sim 85 42,50 0,037*
Não 115 57,50
Cuidados com a voz
Sim 78 39,00 0,002*
Não 122 61,00
Uso da voz fora do ambiente de trabalho
Sim 109 54,00 0,259
Não 92 46,00
Afecção de vias aéreas superiores
Sim 124 62,00 0,001*
Não 76 38,00
Realizou fonoterapia
Sim 43 21,50 <0,001*
Não 157 78,50

*p<0,05 – Teste de Duas Proporções

Legenda: n=número de sujeitos; %=porcentagem de sujeitos

Os participantes foram convidados a responder os demais instrumentos da pesquisa: Escala de Timidez(23) e o protocolo Índice de Desvantagem Vocal - IDV-10(24).

O protocolo da Escala de Timidez é uma escala mundialmente utilizada, traduzida para o Português por Vasconcellos (2005) e não há validação para a nossa língua. Apresenta 13 itens sobre sentimentos e comportamentos comunicativos relacionados ao cotidiano organizacional. Para a categorização dos resultados, há uma classificação que varia de um a cinco pontos, em que um equivale a discordo totalmente e cinco a concordo totalmente(23). Para os sujeitos tímidos, a somatória de pontos deve ser maior que 34 pontos e a análise foi realizada por somatória simples.

O IDV-10 é um instrumento de autoavaliação traduzido e validado para o português brasileiro, composto por dez questões, que investiga a autopercepção do impacto de um problema vocal. Cada questão deve ser respondida por meio de uma escala numérica de cinco pontos, sendo que zero corresponde a nunca e quatro, sempre. O escore total é calculado por somatória simples das respostas e varia de zero a 40 pontos, sendo que zero indica nenhuma desvantagem e 40, desvantagem máxima(24). A nota de corte é de 7,5 pontos, quando o instrumento é utilizado para fins de triagem vocal. Isso significa que indivíduos que pontuam acima de 7 pontos devem ser encaminhados para avaliação vocal completa.

Os dados foram tabulados e submetidos à análise estatística. Para tanto, foram realizadas análises de contingência das categorias pesquisadas através de testes de Qui-quadrado e de Duas Proporções. Adotou-se um nível de significância de 5% (p<0,05) para todas as análises estatísticas inferenciais. O software utilizado foi o JMP/SAS 13.1.

RESULTADOS

A Tabela 2 mostra que houve um maior número de indivíduos tímidos com faixa etária entre 20 e 30 anos (p=0,003) que lecionam no ensino infantil (p=0,002), com tempo de formados entre 1 e 10 anos (p=0,001) e que referem a presença de ruído em sala de aula (p<0,001). A presença de professores tímidos e jovens destacou-se nesses resultados.

Tabela 2 Distribuição numérica e percentual dos dados de identificação pessoal e caracterização do trabalho dos professores de acordo com a timidez 

Variáveis e categorias Sem Timidez Com Timidez p-valor
n % n %
Gênero
Masculino 4 66,67 2 33,33 0,465
Feminino 100 51,55 94 48,45
Faixa etária
20-30 4 17,39 19 82,61 0,003*
30-40 31 51,67 29 48,33
40-50 41 57,75 30 42,25
50-60 28 60,87 18 39,13
Nível que leciona
Infantil 23 36,51 40 63,49 0,002*
Fundamental 68 59,13 47 40,87
Infantil e Fundamental 13 59,09 9 40,91
Alunos por sala
1-10 4 44,44 5 55,56 0,177
10-20 20 33,90 39 66,10
20-30 56 61,54 35 38,46
30-40 23 58,97 16 41,03
40-50 1 50,00 1 50,00
Tempo de formado
1-10 18 33,33 36 66,67 0,001*
10-20 31 53,45 27 46,55
20-30 42 64,62 23 35,38
30-40 13 56,52 10 43,48
Presença de ruído na sala
Sim 25 29,41 60 70,59 <0,001*
Não 79 68,70 36 31,30
Fonoterapia
Sim 20 46,51 23 53,49 0,416
Não 84 53,50 73 46,50
Cuidados com a voz
Sim 44 56,41 34 43,59 0,318
Não 60 49,18 62 50,82
Uso da voz
Sim 59 54,63 49 45,37 0,419
Não 45 48,91 47 51,09
Infecção de vias áreas superiores
Sim 65 52,42 59 47,58 0,879
Não 39 51,32 37 48,68
Carga horária
01 período 55 48,25 59 51,75 0,221
02 períodos 47 55,95 37 44,05
03 períodos 2 100,00 0 0,00

*p<0,05 – Teste Qui-quadrado

Legenda: n=número de sujeitos; %=porcentagem de sujeitos

Dos 58 (29%) professores que apresentaram desvantagem vocal, houve um maior número de indivíduos tímidos (64%, n=37) do que não tímidos (26%, n=21; p=0,042). Dos 142 sujeitos (71%) que não apresentaram desvantagem vocal, 42% (n=59) eram tímidos e 58% (n=83), não tímidos (p=0,047). Tais dados podem ser observados na Figura 1. Nesses achados, vale ressaltar a maior proporção de professores tímidos no grupo com desvantagem vocal.

*p<0,05 – Teste de Duas Proporções

Legenda: n=número de sujeitos; %=porcentagem de sujeitos

Figura 1 Ilustração da distribuição numérica e percentual dos sujeitos de acordo com a ocorrência de desvantagem vocal e timidez 

Observa-se na Tabela 3 a desvantagem vocal em professores tímidos, de acordo com os dados de identificação pessoal e caracterização do trabalho. Houve maior frequência de professores tímidos e sem desvantagem vocal que possuíam afecções de vias aéreas superiores (p=0,006). Nessa tabela, as características de trabalho do professor tímido não têm associação significativa com a presença da desvantagem vocal.

Tabela 3 Desvantagem vocal de acordo com os dados de identificação pessoal e caracterização do trabalho em professores tímidos 

Variáveis e categorias Com Desvantagem Sem Desvantagem p-valor
n % n %
Gênero
Masculino 0 0,00% 2 5,41% 0,071
Feminino 59 100,00% 35 94,59%
Faixa etária
20-30 11 18,64% 8 21,62% 0,768
30-40 16 27,12% 13 35,14%
40-50 20 33,90% 10 27,03%
50-60 12 20,34% 6 16,22%
Nível que leciona
Infantil 20 33,90% 20 54,05% 0,146
Fundamental 33 55,93% 14 37,84%
Infantil e Fundamental 6 10,17% 3 8,11%
Alunos por sala
1-10 4 6,78% 1 2,70% 0,242
10-20 27 45,76% 12 32,43%
20-30 21 35,59% 14 37,84%
30-40 7 11,86% 9 24,32%
40-50 0 0,00% 1 2,70%
Tempo de formado
1-10 19 32,20% 17 45,95% 0,266
10-20 16 27,12% 11 29,73%
20-30 18 30,51% 5 13,51%
30-40 6 10,17% 4 10,81%
Presença de ruído na sala
Sim 38 64,41% 22 59,46% 0,626
Não 21 35,59% 15 40,54%
Fonoterapia
Sim 13 22,03% 10 27,03% 0,576
Não 46 77,97% 27 72,97%
Cuidados com a voz
Sim 23 38,98% 11 29,73% 0,356
Não 36 61,02% 26 70,27%
Uso da voz
Sim 31 52,54% 18 48,65% 0,710
Não 28 47,46% 19 51,35%
Afecção de vias áreas superiores
Sim 30 50,85% 29 78,38% 0,006*
Não 29 49,15% 8 21,62%
Carga horária
01 período 39 66,10% 20 54,05% 0,237
02 períodos 20 33,90% 17 45,95%
03 períodos 0 0,00% 0 0,00%

*p<0,05 – Teste Qui-quadrado

Legenda: n=número de sujeitos; %=porcentagem de sujeitos

DISCUSSÃO

Os professores, em geral, são profissionais que fazem parte de uma categoria de risco para o desenvolvimento de alterações vocais, por possuírem fatores extrínsecos ocupacionais que geram elevada demanda e sobrecarga vocal(2,25). Tais fatores são consenso na literatura, porém fatores intrínsecos inerentes à personalidade do sujeito, como a timidez, ainda são pouco conhecidos nesta população(2,3,26).

Professores geralmente percebem os sinais e sintomas vocais quando se tornam relevantes e frequentes, nem sempre associam ao uso vocal profissional e, muitas vezes, consideram a presença do desvio vocal como parte integrante de suas atribuições. A autopercepção de problemas vocais pode ser uma importante ferramenta a ser desenvolvida pelos professores com o objetivo de promover maior busca de informações sobre a voz e um melhor autocuidado(2,3,27).

O ruído do ambiente não foi significativo para o total de sujeitos, porém foi significativo para o grupo de professores tímidos. Indivíduos com maior predisposição a sentir emoções negativas, ansiedade e vulnerabilidade ao stress percebem o ruído como algo incômodo, mostrando maior sensibilidade e intolerância(28).

Na Educação Infantil, houve maior proporção de tímidos entre professores de 20 e 30 anos de idade e tempo de formados de até 10 anos (Tabela 2). Para este grupo exclusivo de professores jovens, a desvantagem vocal não foi significativa, apesar de o presente estudo mostrar que entre os professores com desvantagem vocal predominaram os tímidos (Tabela 3 e Figura 1). Não encontramos na literatura estudos que relacionem a desvantagem vocal com a timidez em professores jovens. No entanto, estudos distintos descrevem que, nos primeiros 4 anos de atuação do professor, há uma maior ocorrência de queixas vocais quando comparados a anos posteriores de profissão(29), e que a inibição social é destacada e descrita entre os professores jovens(15). Comportamentos característicos do professor tímido como baixa intensidade vocal, comunicação não verbal pouco expressiva, voz monótona, associados a um ambiente ruidoso podem gerar desconforto para este grupo exigindo deste maior flexibilidade e competência comunicativa(17). Por essa razão, há a necessidade de se preparar melhor esses professores, com destaque para os jovens, para as demandas vocais da profissão, levando-se em consideração as características pessoais e emocionais de cada um(15).

Estabelecer algum tipo de relação entre a desvantagem vocal e a timidez do professor nem sempre se mostra uma tarefa fácil(6). Dentre os motivos citados pela literatura na tentativa de explicar a relação entre a presença da timidez e a desvantagem vocal, é a de que a timidez está associada a um estado emocional negativo(26). Dessa forma, ela pode gerar um aumento da tensão muscular, especialmente sobre as estruturas laríngeas e perilaríngeas, e causar fadiga e desconforto vocal(16).

Para os professores tímidos, a queixa de afecções de vias aéreas superiores foi significativamente maior entre os sujeitos sem desvantagem vocal, não sendo a desvantagem vocal um fator contribuinte (Tabela 3). A literatura relata que, do ponto de vista sistêmico, a timidez representa não só uma hiper-reatividade comportamental ao meio ambiente, como também uma hiper-reatividade somática, mediadas pelo sistema nervoso autônomo e imunológico. A resposta exacerbada do sistema nervoso límbico presente em sujeitos tímidos, acentuam as respostas imunes a tecidos-alvo alérgicos, o que poderia justificar em parte a presença dessas afecções em professores tímidos, independentemente do uso vocal(30).

Estudos longitudinais com esta população de professores tímidos são primordiais para clarear tais achados ainda incipientes. O estudo mostrou que há relação entre a timidez e a desvantagem vocal em professores. A não validação da Escala de Timidez para o Português Brasileiro pode ser uma limitação do estudo. Contudo, a relação entre os maiores desvios nos protocolos de desvantagem vocal e maiores escores da escala de timidez deixam clara essa relação. Dados de identificação pessoal e caracterização do trabalho obtiveram maior associação com a presença da timidez do que propriamente com a desvantagem vocal. Portanto, estudos longitudinais com um número maior de sujeitos poderão talvez revelar como essa relação entre a timidez e a desvantagem vocal se entrelaçam. Será que a timidez poderia estar mais relacionada à forma como o indivíduo reage ao ambiente e isso ser um fator de risco à desvantagem vocal? O amadurecimento mais tardio das áreas pré-frontais nos sujeitos tímidos poderia levar a uma dificuldade em lidar com as questões de enfretamento diante das mudanças externas e medidas de autocuidado com relação à voz? Quais seriam, então, os parâmetros de risco para essa detecção em professores tímidos? Será que, com o passar dos anos e uma vivência maior profissional, o professor poderia tornar-se mais comunicativo, menos tímido e menos preocupado em se expor ao ambiente, e assim adquirir melhores estratégias de enfretamento quando comparado ao professor não tímido? Questionamentos como esses devem trilhar os prospectivos caminhos da pesquisa sobre esse tema.

CONCLUSÃO

Professores tímidos percebem maior desvantagem vocal quando comparados a professores não tímidos. Os docentes com faixa etária entre 20 e 30 anos, com até 10 anos de formados e que lecionam para Educação Infantil relatam timidez, porém sem associação com a desvantagem vocal.

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