Análise de custos em UTI sob a perspectiva da fisioterapia

Análise de custos em UTI sob a perspectiva da fisioterapia

Autores:

Liria Yuri Yamauchi

ARTIGO ORIGINAL

Jornal Brasileiro de Pneumologia

versão impressa ISSN 1806-3713versão On-line ISSN 1806-3756

J. bras. pneumol. vol.44 no.3 São Paulo maio/jun. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/s1806-37562018000030002

O estudo de Rotta et al.,1 publicado no presente número do JBP, analisou os custos por meio de um instrumento elaborado no início da década de 1990, o Omega score. A primeira questão que surge à mente é: “por que usaram esse instrumento?” Essa pergunta emerge por questões óbvias, pois é clara a influência do tempo na economia e nos custos de determinados procedimentos, os quais também podem sofrer modificações com a modernização. Porém, ao analisarmos de modo mais cuidadoso o tema “análise de custo em UTI”, deparamo-nos com uma temática de alta complexidade. Em 2002, o relato da American Thoracic Society listou várias questões relacionadas à análise de custos em UTI,2 tais como a falta de dados precisos para a análise de custos; a complexidade dos pacientes; a inexistência de uma abordagem padronizada para medir ou avaliar custos entre países; o fato de que os desfechos mais usados em estudos de UTI (por exemplo, mortalidade em UTI) não são ideais para a análise de custo-efetividade, enquanto os resultados preferidos para essa análise, como por exemplo, a sobrevivência a longo prazo ajustada pela qualidade de vida, são raramente coletados; e o fardo da doença crítica em membros da família, o qual não é facilmente capturado pela análise de custos. Complementa-se a essas questões a reflexão feita por Khan3: em muitas ocasiões, a opção com menor custo não é a preferida. Por exemplo, a morte precoce pode ser relativamente mais econômica. Por outro lado, uma intervenção dispendiosa que salva vidas pode ser aceitável para a sociedade se os benefícios considerados forem superiores ao aumento de custos. Isso reforça a questão de que a análise de custos depende também da perspectiva adotada, além de outros fatores.

Como mencionado por Rotta et al.,1 o Omega score foi desenvolvido na França em 1992 e não foi validado ou adaptado para a moeda brasileira. Além disso, o custo dos procedimentos pode ter sofrido modificações ao longo do tempo, bem como os próprios procedimentos. Como citado previamente,2 a falta de padronização para a medida de custos entre países é um obstáculo para a precisão das análises feitas. Esse fato pode ser considerado um possível viés de aferição e reforça a necessidade de instrumentos mais precisos para a estimativa de custos em UTI. Entretanto, faz-se necessário considerar a escassez de instrumentos validados na literatura atual para a análise de custos em UTI.

Embora possa ser estatisticamente aceita, a transformação logarítmica dos dados na análise de regressão linear apresentada por Rotta et al.1 limita a análise direta dos resultados. Por exemplo, observamos que o tempo de UTI e a gravidade medida pelo Acute Physiology And Chronic Health Evaluation II foram independentemente associados ao aumento dos custos e que o turno de 24 h de fisioterapia associou-se de modo inverso. Entretanto, a transformação logarítmica não possibilita a interpretação direta dessas informações a partir dos valores de β. Além disso, a avaliação dos valores em francos franceses também limita a interpretação dos resultados. Um estudo publicado por Montuclard et al.4 usou o Omega score com uma correção para a conversão para o euro. Naquela época, o dólar americano era equivalente ao euro, o que facilitou a interpretação dos custos. A questão da temporalidade mais uma vez parece influenciar a análise dos custos, em decorrência das mudanças no âmbito da economia.

Uma consideração importante em relação à adoção de fisioterapia em turnos de 24 h pelos hospitais seria a redução de custos de modo indireto. Como mencionado por Bürge et al.,5 embora a fisioterapia adicionada aos cuidados habituais aumente os custos fixos, seu efeito pode reduzir os custos relacionados à perda de produtividade, ao consumo de medicamentos ou aos tratamentos por outros profissionais de saúde. A redução indireta de custos pode fundamentar o achado de Rotta et al.,1 pois mesmo com o aumento do custo com a equipe, estimou-se uma redução nos custos de internação. Seu estudo1 reitera a importância de abordagens padronizadas para a análise de custos em UTI. Futuramente, análises com um olhar mais ampliado, que avaliem o impacto das intervenções no âmbito da UTI no cotidiano do paciente e de seus familiares, serão necessárias para fomentar as políticas públicas voltadas ao paciente criticamente enfermo.

REFERÊNCIAS

1 Rotta BP, Silva JM, Fu C, Goulardins JB, Pires-Neto RC, Tanaka C. Relationship between availability of physiotherapy services and ICU costs. J Bras Pneumol. 2018;44(3):184-9.
2 Understanding costs and cost-effectiveness in critical care: report from the second American Thoracic Society Workshop on outcomes research. Am J Respir Crit Care Med. 2002,165(4):540-50.
3 Kahn JM. Understanding economic outcomes in critical care. Curr Opin Crit Care. 2006;12(5):399-404.
4 Montuclard L, Garrouste-Orgeas M, Timsit JF, Misset B, De Jonghe B, Carlet J. Outcome, functional autonomy, and quality of life of elderly patients with a long-term intensive care unit stay. Crit Care Med. 2000;28(10):3389-95.
5 Bürge E, Monnin D, Berchtold A, Allet L. Cost-effectiveness of physical therapy only and of usual care for various health conditions: systematic review. Phys Ther. 2016;96(6):774-86.
Política de Privacidade. © Copyright, Todos os direitos reservados.