Análise dos efeitos dos exercícios aquáticos na qualidade de vida de indivíduos com doença venosa crônica

Análise dos efeitos dos exercícios aquáticos na qualidade de vida de indivíduos com doença venosa crônica

Autores:

Michael Augusto dos Santos Aquino,
Larissa Christina Vieira da Paixão,
Flávia de Jesus Leal,
Renata Cardoso Couto

ARTIGO ORIGINAL

Jornal Vascular Brasileiro

versão impressa ISSN 1677-5449versão On-line ISSN 1677-7301

J. vasc. bras. vol.15 no.1 Porto Alegre jan./mar. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/1677-5449.005115

INTRODUÇÃO

O uso dos exercícios aquáticos tem sido considerado uma prática para tratamento de diversas patologias desde tempos remotos. Esse método vem se tornando uma modalidade terapêutica muito importante, auxiliando em várias disfunções, como as cardiovasculares, a exemplo da doença venosa crônica (DVC)1.

Diversas literaturas apontam o uso dos exercícios aquáticos como um mecanismo favorável ao retorno venoso. Essa atividade é importante na reeducação vascular, pois a imersão em água até o pescoço faz com que a pressão hidrostática da água atue em todo corpo, de modo a promover um deslocamento de sangue das periferias para os grandes vasos torácicos. Isso diminui a hipertensão venosa ocasionada por incompetência valvular, obstrução de vasos, disfunção da bomba da panturrilha ou por todos esses fatores juntos2,3.

Os exercícios realizados em ambiente aquático podem ser feitos com imersão total ou parcial do corpo em água, sendo realizados exercícios de hidrocinesioterapia, aeróbicos e atividades específicas, como o método Bad Ragaz, o método Watsu e o método Halliwick, com a utilização de vários equipamentos para auxílio no tratamento1. Essa modalidade terapêutica ganhou espaço por seus efeitos diversos, como: alívio da dor e do espasmo muscular, relaxamento muscular, aumento da circulação sanguínea, manutenção e/ou aumento das amplitudes de movimento (ADMs), reeducação muscular, melhora da força muscular e da atividade funcional da marcha, melhora das condições psicológicas do paciente e máxima independência funcional1,2.

Na DVC existe um funcionamento anormal do sistema venoso, decorrente de incompetência valvular associada ou não a obstrução do fluxo venoso, levando a alterações na pele e no tecido subcutâneo, principalmente dos membros inferiores. Somente um ou ambos os sistemas, superficial ou profundo, são afetados, podendo ser adquirida ou congênita4,5.

A DVC tem efeito direto na qualidade de vida (QV) de seus acometidos, que, por sua vez, podem relatar dor, cansaço nas pernas, formigamentos, dormência, edemas e ulcerações no estado avançado da doença5-7. Como mecanismo fisiopatológico, tem-se o comprometimento venoso valvar e/ou a bomba músculo-venosa da panturrilha, acarretando em desordem na circulação venosa8. Para uma melhor avaliação clínica da DVC, foi criada a classificação CEAP (Clinical signs; etiology; anatomic distribution; patholophisiology), utilizada atualmente e responsável por categorizar os aspectos clínico, etiológico, anatômico e fisiopatológico da doença8.

Apesar de haver poucos estudos científicos comprovando o favorecimento da reeducação vascular através dos exercícios aquáticos, sabe-se que as propriedades físicas da água são fatores contribuintes para redução da dor, diminuição do impacto intra-articular graças à propriedade do empuxo, favorecimento na mobilidade articular, redução de edemas e melhora do retorno venoso através da pressão hidrostática que ocasionará uma compressão dos vasos aproximando os folhetos valvulares1-3,7.

Portanto, a QV dos indivíduos acometidos por DVC é afetada em virtude dos sinais e sintomas que comprometem o seu dia-dia. Devido à carência de estudos que correlacionem os exercícios aquáticos no tratamento da DVC com a QV, como também pela importância do tratamento fisioterapêutico na prevenção do seu agravamento, faz-se necessário um estudo aprofundado do tema, no intuito de analisar os efeitos dos exercícios aquáticos na QV de indivíduos com DVC e, assim, colaborar para um melhor tratamento dessa doença a partir de mais um recurso.

MÉTODOS

O presente estudo trata-se de um estudo-piloto, interventivo prospectivo longitudinal, realizado na Clínica Escola Estácio de Alagoas (ESTÁCIO-FAL), buscando verificar os efeitos dos exercícios aquáticos na QV de indivíduos com DVC. Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade Estácio de Alagoas (ESTÁCIO-FAL), sob o parecer de n° 750.433, tendo como base a resolução n° 466/12, do Conselho Nacional de Saúde (CNS/MS).

A técnica de amostragem foi não probabilística, sendo os participantes escolhidos por conveniência. Foram recrutados 16 pacientes a partir da lista de espera do atendimento de fisioterapia vascular da referida clínica. Através de uma avaliação constatou-se que os pacientes apresentavam os critérios necessários para participar do estudo, mas apenas 12 puderam participar da pesquisa. Foram convidados a participar da pesquisa, pacientes com DVC, com classificação clínica C1 a C5 (CEAP), havendo heterogeneidade da amostra desses subgrupos.

A classificação CEAP consiste em um sistema de pontuação desenvolvido em 1995, abrangendo de forma completa os aspectos clínico, anatômico, etiológico e fisiopatológico da doença, sendo a classificação clínica dividida em categorias, com C0 para sinais de doença venosa não visíveis e não palpáveis, C1 para telangiectasias e/ou veias reticulares, C2 para veias varicosas, C3 para edema, C4 para hiperpigmentação e lipodermatoesclerose, C5 para úlcera cicatrizada e C6 para úlcera ativa9.

Foram incluídos 16 pacientes voluntários de ambos os sexos com DVC comprovada com base na classificação clínica CEAP (C1 a C5). Foram excluídos indivíduos com idade menor que 18 anos, com condições arterial e linfática específicas associadas, problemas respiratórios e cardíacos severos, alterações renais, diabéticos, neuropatas, trombose venosa profunda aguda e com úlceras abertas (C6).

A coleta de dados ocorreu entre agosto e setembro de 2014. Ao ser iniciada, os indivíduos que concordaram em participar da pesquisa assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), sendo informados pelos pesquisadores sobre todos os procedimentos a serem utilizados no estudo para que não ocorresse nenhuma dúvida e/ou qualquer tipo de constrangimento. Os participantes receberam uma cópia assinada pelos pesquisadores.

Os indivíduos foram instruídos a responder um formulário de coleta elaborado pelos próprios pesquisadores. Tal formulário abrangia dados como índice de massa corporal (IMC), uso de medicação, atividade física, cirurgia anterior, erisipela, idade, CEAP, hereditariedade, sintomas e tempo de doença. Na avaliação, também foram utilizados os questionários de QV SF-36 (Medical Outcomes Study 36 - Item Short-Form Health Survey) (Geral) e AVVQ-Brasil (Aberdeen Varicose Veins Questionnaire) (Específico). A Escala Visual Analógica (EVA) foi aplicada antes e após o termino do total de sessões estabelecido para pesquisa.

O SF-36 trata-se de um questionário genérico de QV, cuja validade já foi testada em indivíduos com DVC, demonstrando bons resultados. É composto por 36 questões que avaliam como a doença está afetando a vida do indivíduo no que diz respeito à realização de atividades de vida diária e laborais, bem como se há comprometimento emocional por conta da doença, tendo em vista que o questionário avalia oito domínios de saúde: Capacidade Funcional, Aspecto Físico, Dor, Estado Geral de Saúde, Vitalidade, Aspectos Sociais, Aspectos Emocionais e Saúde Mental. Apresenta uma pontuação final que varia de 0 a 100, sendo que quanto maior o escore obtido, melhor a percepção do indivíduo em relação a sua QV, permitindo uma análise mais detalhada desse aspecto e da saúde do paciente10.

O questionário AVVQ é considerado uma escala de QV específica para a DVC e uma medida de gravidade da doença, tendo sido validado no Brasil em 2012 por Leal et al.11. Possui quatro domínios: Dor e Disfunção, Aparência Estética, Extensão da Varicosidade e Complicações, sendo composto por 13 questões, onde a primeira questão consiste em um diagrama para representação, por desenho, do local de percepção das varizes em cada membro acometido, com uma pontuação que pode variar de 0 a 100, onde 0 representa nenhuma evidência de veias varicosas e 100 o mais grave problema associado com as varizes11.

A EVA foi desenvolvida para que se possa mensurar e expressar a percepção da dor, podendo ser representada em valores numéricos de 0 a 10, sendo 0 para nenhuma dor e 10 para pior dor possível, ou por desenho de expressões faciais qualificando a dor em leve, moderada e intensa, ou ainda uma junção das duas, podendo ser utilizada de forma rápida e prática, permitindo sua utilização tanto em ambientes hospitalares, clínicas e pesquisas12.

Após a avaliação e a coleta de dados iniciais, os pacientes participaram de 10 sessões de exercícios aquáticos, três vezes na semana. Após o término das 10 sessões, os participantes responderam novamente aos questionários SF-36 e AVVQ-Brasil, sendo avaliada a EVA.

Os atendimentos foram realizados em grupo, e cada sessão teve duração máxima de 50 minutos. Os aquecimentos foram realizados na piscina, através de caminhadas com passadas largas durante 10 minutos e mais 5 minutos de caminhada feita para trás. Foram realizados alongamentos de forma global enfatizando os principais grupos musculares nos membros inferiores (MMII), como quadríceps, isquiotibiais, tríceps sural, adutores, abdutores e tibial anterior, em um tempo de 20 segundos para cada grupo muscular. Em seguida, foram realizados exercícios aeróbicos a fim de melhorar o condicionamento físico, como: andar de bicicleta com auxílio de aquatubos por 2 minutos e caminhar em um mesmo lugar com uma velocidade rápida por 2 minutos. Por fim, os participantes foram submetidos a exercícios de fortalecimento, da seguinte forma: paciente em pé apoiado na borda da piscina, fazendo uso de flutuadores abaixo da face plantar e realizando flexo-extensão de quadril e joelho (três séries de 12 repetições), agachamento com pernas unidas (três séries de 12 repetições), fortalecimento da bomba da panturrilha na borda da piscina, fazendo flexão plantar com joelhos estendidos (três séries de 12 repetições), flexão e extensão dos joelhos com tornozeleira flutuante (três séries de 12 repetições), flexão e extensão de quadril com joelhos estendidos (três séries de 12 repetições). Para finalizar, realizou-se relaxamento de 5 minutos, durante o qual os pacientes foram colocados em decúbito dorsal, fazendo uso de colete cervical, aquatubos em fossa poplítea e um colete na região lombar, para uma flutuação lenta e suave para os lados.

Após o termino dos atendimentos, dados dos questionários de QV SF-36, AVVQ-Brasil e da EVA, coletados antes e após o tratamento, foram tabulados com auxílio dos programas Microsoft Excel (Microsoft Excel 2007 para Windows, Microsoft Inc., Redmond, WA, EUA). Foi utilizado o teste Wilcoxon para analisar o resultado e verificar se os pacientes obtiveram ou não melhora satisfatória de seus sinais e sintomas e da QV ou se houve agravo dos mesmos.

RESULTADOS

Dezesseis pacientes foram convidados a participar do estudo. Apenas 12 puderam participar da pesquisa, pois quatro pacientes não compareceram mais às sessões de fisioterapia por motivos diversos devido às suas atividades laborativas, a agravantes de saúde, por desistência do tratamento e por acometimento de lesão fora do ambiente de pesquisa.

Segundo a Tabela 1, dos 12 pacientes que participaram da pesquisa, 11 eram mulheres (91,7%) e um era homem (8,3%). Sua idade variou de 48 a 70 anos, com média de 60,08 (± 6,75). Apresentaram IMC entre 23,34 e 39,54, com média de 30,78 (± 4,42). Dos 12 participantes, sete apresentaram IMC > 30 kg/m2, indicando obesidade, e tinham tempo de DVC entre 3 e 50 anos, com média de 28,50 anos (± 13,74).

Tabela 1 Dados demográficos da amostra. 

Variáveis
Sexo
Masculino 1
Feminino 11
Idade
(Mínimo-máximo) (48-70)
Média ± DP 60,8±6,75
Índice de Massa Corporal (IMC)
(Mínimo-máximo) (23,34-39,54)
Média ± DP 30,78±4,42
Tempo de Doença
(Mínimo-máximo) (3-50)
Média ± DP 28,50±13,74

DP: desvio-padrão

A Tabela 2 mostra que, no que se refere à classificação CEAP, três pacientes apresentaram C1 (25,0%), um paciente apresentou C2 (8,3%), sete pacientes apresentaram C3 (58,3%) e um apresentou C5 (8,3%). Todos os participantes relataram histórico familiar da doença, sendo que quatro (33,3%) deles referiram tomar medicação para a doença e oito (66,7%), disseram não tomar medicamentos para a doença.

Tabela 2 Dados clínicos da amostra. 

CEAP n %
C1 3 25,0
C2 1 8,3
C3 7 58,3
C5 1 8,3
Hereditariedade 12 100,00
Medicação
Sim 4 33,3
Não 8 66,7
Erisipela Anterior
Sim 1 8,3
Não 11 91,7
Cirurgia
Sim 6 50,0
Não 6 50,0
Sintomas
Formigamento 2 16,7
Sensação de Peso 5 41,7
Dormência 2 16,7
Fadiga 3 25,0
Exercício Físico 1 Ano ou Mais
Sim 2 16,7
Não 10 83,3

n: número; %: porcentagem

Em relação a doenças anteriores, um paciente (8,3%) teve história de erisipela no passado e os demais 11 (91,7%) não tinham histórico dessa doença. Metade dos pacientes, seis (50%), relatou cirurgia anterior para varizes e a outra parte, seis (50%), não havia realizado esse tipo de procedimento (Tabela 2).

Dos sintomas apresentados pelos pacientes, dois (16,7%) relataram formigamento, cinco (41,7%) sensação de peso, dois (16,7%) dormência e três (25%) fadiga em MMII. Além disso, 10 (83,3%) indivíduos eram sedentários e dois (16,7%) realizavam atividade física por mais de 1 ano (Tabela 2).

Com relação às distribuições dos domínios do questionário de QV SF-36 pré- e pós-tratamento, foi possível observar melhora em alguns domínios. A Tabela 3 mostra diferenças estatisticamente significativas nos domínios Capacidade Funcional (p = 0,011), Limitação Física (p = 0,011) e Dor (p = 0,017). Não houve diferença estatística significativa para os demais domínios, Estado Geral de Saúde, Vitalidade, Aspectos Sociais, Aspectos Emocionais e Saúde Mental (p > 0,05).

Tabela 3 Valores da média, desvio-padrão e de p para os domínios do SF-36, pré- e pós-tratamento. 

Domínios Antes Depois Valor de p
Média DP Média DP
Capacidade funcional 40,00 20,67 64,17 18,27 0,011*
Limitação física 33,33 41,74 68,75 41,46 0,011*
Dor 49,03 22,58 65,92 21,94 0,017*
Estado geral de saúde 47,17 13,17 52,42 11,17 0,284
Vitalidade 50,42 13,05 52,92 14,37 0,405
Aspectos sociais 61,46 26,36 76,04 28,46 0,048
Limitação emocional 50,00 48,20 61,11 44,57 0,334
Saúde mental 61,67 20,92 70,67 22,13 0,140

*Significância estatística (p < 0,05); Teste de Wilcoxon.

DP: desvio-padrão

Comparando os domínios e a pontuação total do questionário de QV AVVQ-Brasil pré- e pós-tratamento, percebeu-se melhora somente para o domínio Dor e Disfunção (p = 0,013) com diferença estatística significativa, não ocorrendo para a pontuação total e os demais domínios, Aparência Estética, Extensão da Varicosidade e Complicações (p > 0,05) (Tabela 4).

Tabela 4 Valores da média, desvio-padrão e de p para os domínios do AVVQ-BRASIL, pré- e pós-tratamento. 

Domínios Antes Depois Valor de p
Média DP Média DP
Dor e disfunção 23,33 14,14 8,70 12,04 0,013*
Aparência estética 42,35 30,25 24,90 25,24 0,139
Extensão da varicosidade 28,43 17,13 23,29 16,08 0,336
Complicações 5,98 8,20 2,86 2,59 0,104
Pontuação total 20,41 6,22 13,41 7,33 0,080

*Significância estatística (p < 0,05); Teste de Wilcoxon.

DP: desvio-padrão

Para quantificar e analisar a apresentação de melhora dos pacientes com relação à dor comparou-se os valores da EVA pré- e pós-tratamento, dado que apresentou diferença estatisticamente significativa (p = 0,007), conforme (Tabela 5).

Tabela 5 Valores da média, desvio-padrão e de p para EVA, pré- e pós-tratamento. 

Variável Antes Depois Valor de p
Média DP Média DP
Escala analógica visual da dor (EVA) 4,17 3,10 1,58 1,98 0,007*

*Significância Estatística (p < 0,05); Teste de Wilcoxon.

DP: desvio-padrão

DISCUSSÃO

A DVC vem atingindo milhares de pessoas no mundo inteiro, fazendo com que os indivíduos mudem hábitos para um melhor controle de seus sinais e sintomas. Diversos estudos apontam para um maior acometimento do sexo feminino em comparação com o sexo masculino5,9,13,14, concordando com a presente pesquisa onde houve predominância no sexo feminino (91,7%), em comparação com o sexo masculino (8,3%), fatores esses que podem ser atribuídos a gestação, uso de anticoncepcionais e obesidade14.

Sua prevalência aumenta com o decorrer da idade. Estudos observaram que 5 a 15% dos adultos entre 30 e 70 anos de idade apresentavam essa doença, com 1% apresentando úlcera venosa4-9,15. Esses dados corroboram para a presente pesquisa, na qual a idade média encontrada foi de 60,08 anos.

Dentre os fatores de risco para a DVC, tem-se o aumento do IMC. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), um valor acima de 30 kg/m2 indica obesidade15. Nessa caso, o tecido adiposo funciona como um fator compressor para as veias, levando a maior refluxo, assim como aumento do diâmetro da veia e da pressão venosa. Sugerman et al.16 também afirmaram que a obesidade grave está associada a riscos de estase venosa em membros inferiores, ulceração pré-tibial, celulite e edema. Nesta pesquisa, mais da metade dos indivíduos apresentaram um valor de IMC para obesidade associado a um grande tempo de doença (28,50 anos), demonstrando a presença desse fator de risco.

Com o aumento crescente de portadores da DVC e a grande necessidade de se entender suas diversas formas clínicas e analisar o grau de comprometimento, como: presença do refluxo venoso, gravidade da doença, definição de sua distribuição anatômica, além de traçar o melhor plano de tratamento para seus portadores, a classificação CEAP se tornou uma excelente ferramenta. A presente pesquisa evidenciou um número maior de acometidos entre a classificação clínica da doença para C3 (58,3%), seguido de C1 (25,0%). Gurgel et al.17 encontraram mais comumente o tipo C2 (60,5%) e C3 (30,2%) em pacientes submetidos a tratamento cirúrgico da doença.

Nesta pesquisa, todos os participantes (100%) relataram histórico familiar da doença. Segundo Nogueira et al.18, nos dados colhidos em seu estudo, evidenciou-se que 45% do portadores tinham história de doença venosa em seus familiares. Já Morais e Ferreira19 observaram que 63% de seus participantes referiram o mesmo histórico. Morais e Ferreira19 ainda relataram que a maior parte de seus participantes (60%) fazia uso de medicação, o que não corrobora com o presente estudo onde apenas 33,3% disseram fazer uso desta forma de tratamento.

Souza et al.20 relataram que o procedimento cirúrgico da insuficiência venosa superficial melhora funcionalmente o sistema venoso profundo, beneficiando a clínica desses pacientes. Em dados colhidos nesta pesquisa, metade dos pacientes (50%) relataram ter realizado esse procedimento.

Com relação aos sintomas, entre os descritos pelos participantes, uma boa parte (41,7%) relatou a sensação de peso em MMII. Berenguer et al.21 relataram que, dos 53 participantes de sua pesquisa, 39 (73,58%) queixavam-se do mesmo quadro sintomático, o que corrobora com esta pesquisa.

No estudo de Salles-Costa et al.22, no qual foram analisados 4.030 funcionários de uma universidade do Rio de janeiro, percebeu-se um predomínio de sedentarismo no sexo feminino (59,2%), confirmando dados do presente estudo, em que 10 (83,3%) dos indivíduos eram sedentários e somente dois (16,7%) realizavam atividade física por mais de 1 ano. Ainda segundo Danielsson et al.23 e Scott et al.24, a ausência de atividade física diminui a atuação da bomba muscular da panturrilha, podendo em parte ser responsável pela falta ou diminuição do esvaziamento venoso da perna.

Atualmente são empregados diversos recursos para um melhor controle da DVC, como terapia medicamentosa, cirurgias, meias compressivas, fisioterapia e a realização de atividade física, a fim de impedir seu avanço e buscar uma melhora com relação à sua QV4,5. No presente estudo, houve a proposta da inserção do exercício aquático como um tipo de atividade física no dia a dia dos indivíduos, cujos efeitos comprovaram melhora em alguns domínios da QV vista pelo questionário QV SF-36 como: Capacidade Funcional, Limitação Física e Dor (p < 0,05).

Silva et al.25, em estudo cujo objetivo era analisar a melhora na QV e a diminuição da dor em um grupo com fibromialgia após tratamento em ambiente aquático, observaram valores significativos em relação ao questionário de QV SF-36, com melhora nos parâmetros para diversos domínios de saúde, como: aspectos físicos, dor, vitalidade, aspectos sociais, aspectos emocionais e saúde mental (p < 0,05). A escolha pela atividade na água deveu-se ao fato de que exercícios realizados no meio aquático são utilizados em várias patologias crônicas, mas pouco elucidados em relação à DVC.

Além disso, Silva et al.25, em seu estudo, buscaram verificar se os indivíduos com fibromialgia teriam diminuição da dor após tratamento em ambiente aquático. Observaram que não houve melhora significativa da dor segundo a EVA, o que difere do presente estudo, onde os pacientes com DVC tiveram redução desse sintoma (p = 0,007).

Pesquisas evidenciam que o aumento da tolerância ao exercício e do nível de resistência física farão com que ocorra melhora do condicionamento geral. Quando se melhora o condicionamento físico, ocorre simultaneamente a melhora de sintomas, como presença de dor após esforço e fraqueza muscular25.

De acordo com Alberti et al.26, o exercício físico aumenta o tônus muscular dos MMII e, consequentemente, pode melhorar sua ação no sistema venoso, com consequente queda na pressão de deambulação e elevação do retorno sanguíneo. Estes, quando associados ao ambiente aquático, têm ainda o favorecimento das propriedades físicas, como: pressão hidrostática, força de flutuação (empuxo), viscosidade, fluxo e temperatura.

O questionário de QV AVVQ vem sendo considerado uma ótima ferramenta para avaliar a QV de doentes venosos, por se tratar de um questionário de fácil compreensão e aplicação, que pode ser aplicado para análise em indivíduos que buscam tratamento cirúrgico, conservador ou outros tratamentos, apresentando ótima confiabilidade e viabilidade27.

Em um estudo realizado por Klem et al.27, para analisar a QV pós-cirurgia de indivíduos com incompetência da veia safena magna, onde duas técnicas diferentes foram empregadas, os pacientes em ambos os grupos melhoraram em relação às pontuações do AVVQ pós-operatório. Esta pesquisa mostrou que os participantes apresentaram melhora com relação a Dor e Disfunção, os demais domínios não apresentaram resposta significativa.

Percebeu-se como limitação do estudo o número pequeno da amostra, como também o curto período de tempo da coleta de dados, sendo necessários. Portanto, estudos mais aprofundados para comprovar a real eficiência dos exercícios aquáticos na DVC.

CONCLUSÃO

Analisando os efeitos dos exercícios aquáticos na QV de indivíduos com DVC, tais exercícios foram capazes de melhorar alguns aspectos da QV e de reduzir a dor, demonstrando trazer benefícios para os pacientes com DVC.

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