Aneurisma verdadeiro de artéria dorsal do pé: relato de caso

Aneurisma verdadeiro de artéria dorsal do pé: relato de caso

Autores:

Uellinton Galli Ferreira,
José Aderval Aragão,
Antonio Alexandre Lenik,
Iapunira Catarina Sant’Anna Aragão,
Felipe Matheus Sant’Anna Aragão,
Wilson Barbosa Leão,
Carlos Eduardo Nunes,
Francisco Prado Reis

ARTIGO ORIGINAL

Jornal Vascular Brasileiro

versão impressa ISSN 1677-5449versão On-line ISSN 1677-7301

J. vasc. bras. vol.17 no.2 Porto Alegre abr./jun. 2018 Epub 07-Jun-2018

http://dx.doi.org/10.1590/1677-5449.012817

INTRODUÇÃO

O aneurisma de artéria dorsal do pé é extremamente raro e suas manifestações clinicas pouco conhecidas 1,2 . Tem sido reportado na literatura através de relatos de caso 3 , e desde a primeira descrição por Cauff 4 em 1907 foram propostas diferentes formas de tratamento 5,6 . Entretanto, a maioria dos aneurismas de artéria dorsal do pé são pseudoaneurismas secundários a traumas 3,7 .

RELATO DE CASO

Paciente de 49 anos, sexo feminino, relata aparecimento de uma massa pulsátil no dorso do pé direito há aproximadamente 3 anos, apresentando crescimento progressivo e dor no decorrer dos últimos meses, o que levou a paciente a procurar assistência médica. Nega traumas ou procedimentos cirúrgicos no pé, antecedentes familiares de aneurismas, diabetes ou dislipidemia, entretanto apresenta tabagismo e hipertensão como fatores de risco cardiovascular.

Ao exame físico, foi observada uma massa pulsátil, fixa, dolorosa á palpação, no dorso do pé direito, sugestiva de aneurisma de artéria dorsal do pé ( Figura 1 ). Além disso, observou-se pulso amplo em artéria tibial posterior, sem sinais de isquemia crônica ou outras alterações vasculares detectáveis.

Figura 1 Massa pulsátil, compressível e dolorosa sobre o dorso do pé direito.  

Na ultrassonografia foi evidenciada uma imagem ovalada, anecoica, situada em continuidade com a artéria dorsal do pé direito, medindo aproximadamente 1,2 × 1,6 × 2,2 cm ( Figura 2 ).

Figura 2 Dilatação aneurismática da artéria dorsal do pé direito visto pelo ultrassom.  

A exploração cirúrgica, sob anestesia local, foi realizada através de uma incisão longitudinal no dorso do pé direito sobre o aneurisma. Após disseção minuciosa, foi possível identificar uma dilatação de aspecto sacular em continuidade com artéria dorsal do pé. Após exposição, os cotos proximal e distal da artéria dorsal do pé foram isolados, ligados e o aneurisma ressecado ( Figura 3 ).

Figura 3 Exposição cirúrgica de um aneurisma sacular da artéria dorsal do pé direito com coto proximal e distal reparados.  

A reconstrução arterial não foi necessária, visto que o pé não apresentava sinais de isquemia e foi verificado excelente fluxo para as artérias interdigitais e tibiais através do duplex scan. A análise histopatológica do saco aneurismático apresentou espessamento intimal e degeneração mixoide com infiltrado inflamatório e alterações ateroscleróticas ( Figura 4 ).

Figura 4 Estudo histopatológico da artéria dorsal do pé direito, mostrando espessamento intimal e degeneração mixoide do saco aneurismático.  

DISCUSSÃO

O aneurisma verdadeiro da artéria dorsal do pé é incomum e sua fisiopatologia segue ainda obscura 5,8 . Para Aragão et al. 1 , somente 24 casos foram relatados até o momento na literatura. Porém, a maioria dos aneurismas envolvendo artérias infrapoplíteas comumente é de origem traumática 2,9 . Afastar antecedentes de traumas ou procedimentos no membro inferior é importante, uma vez que, na maior parte dos casos de aneurisma descritos na artéria dorsal do pé, tratava-se de pseudoaneurimas e não de aneurismas verdadeiros 1,5,6 .

Para Legel et al. 3 , Al-Omran 10 e Kwon et al. 11 , as principais causas de pseudoaneurismas são punções venosas para coleta de sangue, traumas locais, cirurgias ortopédicas e cirurgias vasculares. Porém, o aneurisma verdadeiro da artéria dorsal do pé está muitas vezes associado a hipertensão arterial, diabetes, tabagismo e aterosclerose 1,5,9 . No nosso caso também estavam presentes o tabagismo e a hipertensão.

As manifestações clínicas mais descritas em aneurisma de artéria dorsal do pé eram uma massa pulsátil, dolorosa ou não, por vezes associada a prurido e desconforto 5,7 . No presente relato, o aneurisma a princípio era assintomático, e só após o aumento progressivo da massa pulsátil no dorso do pé direito evoluiu com dor e desconforto, o que poderia ser justificado pela compressão de estruturas adjacentes. A maioria dos pacientes com aneurismas da ADP era do sexo masculino (63%) com idade média de 55 anos 2 , o que difere do nosso caso, em que o paciente era do sexo feminino e tinha 49 anos de idade.

Vários autores propuseram diferentes formas de tratamento para o aneurisma de artéria dorsal do pé, tais como resseção e ligadura simples, revascularizações com anastomose termino-terminal ou interposição de veia safena 1,5,9,12-15 . No presente relato, optou-se por ligadura simples e ressecção do saco aneurismático, uma vez que o membro não apresentava sinais clínicos de isquemia. Porém, pacientes com risco elevado de doenças vasculares periféricas, diabetes e crianças poderiam se beneficiar da revascularização e evitar complicações futuras, como isquemias, necrose e perda do membro.

CONCLUSÃO

O aneurisma verdadeiro de artéria dorsal do pé é extremamente raro. A ligadura simples da artéria dorsal do pé e ressecção do aneurisma vêm se mostrando um tratamento simples e seguro quando o arco plantar se mantem pérvio e o pé não apresenta sinais crônicos de isquemia. No entanto, em pacientes com fatores de risco vascular e doença arterial periférica, se recomenda revascularização de modo a evitar possíveis complicações e perda do membro.

REFERÊNCIAS

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