Apneia Obstrutiva do Sono: Um Marcador de Remodelamento Cardíaco em Pacientes com Doença de Chagas Crônica

Apneia Obstrutiva do Sono: Um Marcador de Remodelamento Cardíaco em Pacientes com Doença de Chagas Crônica

Autores:

Reinaldo B. Bestetti

ARTIGO ORIGINAL

Arquivos Brasileiros de Cardiologia

versão impressa ISSN 0066-782Xversão On-line ISSN 1678-4170

Arq. Bras. Cardiol. vol.111 no.3 São Paulo set. 2018

https://doi.org/10.5935/abc.20180177

A Doença de Chagas Crônica (DCC) continua sendo um grande flagelo para as pessoas que vivem na América do Sul e uma questão médica emergente fora do Continente Americano, devido à globalização. A Cardiopatia Chagásica Crônica (CCC) afeta cerca de 30% dos pacientes com DCC, surgindo de 20 a 30 anos após a infecção com Trypanosoma cruzi.1 O prognóstico de pacientes de DCC é implacável, com uma mortalidade de 5 anos chegando a 35%.2 Pacientes com CCC tem um resultado ainda pior ,2 particularmente aqueles com remodelamento ventricular e atrial, que se manifesta através de insuficiência cardíaca sistólica crônica e fibrilação atrial.3,4

Assim, é importante reconhecer preditores de remodelamento ventricular e atrial em pacientes com CCC para oferecer o tratamento disponível adequado aos pacientes com esse quadro. Pressão arterial sistólica, sexo masculino e a Classificação Funcional da New York Heart Association predizem remodelamento ventricular em pacientes com DCC.5 Por outro lado, até onde sei, ainda não foram determinados os preditores de remodelamento de atrial para pacientes com essa doença.

Nesta edição da Revista, Medeiros et al.,6 relatam um estudo original de 135 pacientes com doença de Chagas (30% dos quais na forma indeterminada e os demais com CCC) que foram submetidos a polissonografia noturna para avaliar a relação da respiração do distúrbio do sono e remodelamento cardíaco. Significativamente, 62% dos pacientes também sofriam de hipertensão arterial sistêmica (HAS) concomitante. Foi encontrada apneia obstrutiva do sono (AOS) de moderada a grave em 21% dos pacientes. Medeiros et al.,6 confirmam que ser do sexo masculino e ter HAS são preditores de remodelamento ventricular, e também descobriram que o índice de apneia-hipopneia, um marcador diagnóstico de severidade da AOS, foi um preditor de remodelamento tanto atrial, quanto ventricular.

A prevalência de AOS na população em geral é de 21%. Ela é de moderada a grave em 9% dos indivíduos afetados,7 e aumenta a morbidade e mortalidade.8 A AOS tem sido associada independentemente com HAS9 e com diversos tipos de distúrbios cardiovasculares diferentes, incluindo insuficiência cardíaca crônica,10 condição geralmente associada ao remodelamento cardíaco. Vale observar que a AOS por si só tem também sido independentemente associada ao remodelamento ventricular esquerdo e ao diâmetro atrial esquerdo.11

Como as excelentes descobertas relatadas por Medeiros et al.,6 podem ser incorporadas à prática clínica? Acredito que seria necessário testar a utilidade da polissonografia em pacientes com DCC sem HAS concomitante. Através desse teste, poderíamos eliminar o efeito aditivo da AOS e da HAS11 sobre a gênese do remodelamento cardíaco, bem como determinar o efeito real da AOS sobre a indução de anomalias cardíacas em pacientes com esse quadro.

Por outro lado, é importante reconhecer que uma proporção substancial dos pacientes com DCC não possui HAS concomitante no estudo de Medeiros et al.,6 Assim, é razoável admitir que a AOS, por si só, poderia ter induzido, pelo menos em parte, o remodelamento atrial e ventricular observado naquele estudo. O aparecimento da AOS pode, por si só, representar um fardo extra à função miocárdica de pacientes com DCC/CCC porque a AOS ativa a atividade simpática12 e é pró-inflamatória.8

Os achados histológicos observados na cardiomiopatia por catecolaminas são similares àquelas encontradas em CCC,13 sugerindo assim um papel para a disfunção autonômica na patogênese dessa doença. Ademais, as citocinas pró-inflamatórias se encontram mais aumentadas em pacientes com CCC e HAS, se comparado a pacientes com apenas CCC,14 sugerindo também um papel para as citocinas na patogênese de pacientes com esta condição. Claramente, a presença da AOS pode representar uma ameaça potencial curável para pacientes com CCC.

Parabenizo a Medeiros et al.,6 por esse estudo importante, e espero muito que continuem no curso essa linha de pesquisa não apenas por sua contribuição potencial para o entendimento da patogênese do CCC, mas também por seu impacto potencial sobre o curso clínico deste flagelo para o nosso povo.

REFERÊNCIAS

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13 Bestetti RB, Ramos CP, Figuerêdo-Silva J, Sales-Neto VN, Oliveira JSM. Ability of the electrocardiogram to detect myocardial lesions in isoproterenol induced rat cardiomyopathy. Cardiovasc Res. 1987;21(12):916-21.
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