Apoio matricial em Saúde Mental: tecendo novas formas de relação e intervenção

Apoio matricial em Saúde Mental: tecendo novas formas de relação e intervenção

Autores:

Alice Hirdes

ARTIGO ORIGINAL

Interface - Comunicação, Saúde, Educação

versão impressa ISSN 1414-3283versão On-line ISSN 1807-5762

Interface (Botucatu) vol.19 no.53 Botucatu abr./jun. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/1807-57622014.0710

A pesquisa teve por objetivo geral investigar o processo de trabalho de apoio matricial em Saúde Mental na Atenção Primária, levando em conta as diretrizes do Sistema Único de Saúde e da Reforma Psiquiátrica, com vistas à identificação das diretrizes, princípios profissionais e valores que permeiam o processo. O delineamento do estudo é qualitativo, e foi realizado com profissionais especialistas em saúde mental e generalistas da Estratégia Saúde da Família de Gravataí/RS, Brasil. Os instrumentos utilizados foram entrevistas semiestruturadas e grupos focais. Os resultados evidenciam que o trabalho sustenta-se: no trabalho relacional em ato, mediante as relações personalizadas instituídas entre apoiadores e generalistas; nos recursos imateriais; e na ampliação da clínica. Dois outros paradigmas foram identificados, o psicossocial e o de produção de vida. A sistematicidade dos encontros, o viés de saúde pública dos especialistas, a identificação com o trabalho, a descentralização como um ideal de vida foram identificados como elementos que subsidiam o trabalho. Um achado, que encontra ressonância na literatura internacional, é a existência de liderança em saúde mental, reconhecida pelos pares e profissionais da APS, que mobiliza pessoas e intermedeia as relações com os demais serviços da rede. A complexidade decorre em razão dos diferentes desejos, interesses e forças dos distintos agentes envolvidos, e remete às questões de ordem estrutural, organizacional e de gestão. Estes podem atuar como obstáculos ao processo. Dentre os fatores facilitadores, estão: as relações personalizadas entre os profissionais; a disponibilidade; o comprometimento; a comunicação fluida e dialógica; e a corresponsabilização. Os princípios profissionais que subjazem às práticas organizam-se em torno do desejo de trabalhar na comunidade; não centralizar funções; conhecer a rede; ter habilidades de escuta; e de construir consensos. Os valores presentes nas relações e interações pautam-se: no acolhimento; nas relações de cuidado intra e interequipes e com os usuários; na humildade; na generosidade de partilhar o saber; e no comprometimento. Com relação aos profissionais da APS, o aporte de conhecimentos e a retaguarda assistencial contribuem para a abordagem conjunta e resolução de casos, que, anteriormente, eram referenciados a serviços especializados. Evidencia-se que esta metodologia qualifica as intervenções em saúde mental, mediante a troca de experiências e saberes, colaborando para a integralidade da atenção. O vínculo com o apoiador, a comunicação, a estrutura das equipes de Saúde da Família, a sistematicidade dos encontros, a longitudinalidade e a corresponsabilização foram apontadas como fatores facilitadores. Um obstáculo ao trabalho diz respeito à imposição de barreiras de acesso ao Centro de Atenção Psicossocial, após a instituição do Apoio Matricial. Os resultados dos dois grupos investigados evidenciam que o enfoque não é sobre o processo propriamente dito, mas, primordialmente, sobre as pessoas envolvidas nele. Os dados permitem inferir que a qualidade das relações, as caraterísticas dos profissionais, os princípios e valores profissionais e pessoais envolvidos sustentam uma prática com contornos singulares.

Alice Hirdes
Tese (Doutorado), 2014
Programa de Pós-Graduação em Psicologia, Pontifícia Universidade Católica de Porto Alegre
alicehirdes@gmail.com
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