Aquisição da linguagem: hesitações no par dialógico pergunta/resposta

Aquisição da linguagem: hesitações no par dialógico pergunta/resposta

Autores:

Lourenço Chacon,
Cristyane de Camargo Sampaio Villega

ARTIGO ORIGINAL

CoDAS

versão On-line ISSN 2317-1782

CoDAS vol.27 no.1 São Paulo jan./fev. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/2317-1782/20152014048

INTRODUÇÃO

Vários olhares para as hesitações são verificados em trabalhos que as investigam na aquisição da linguagem. Em um primeiro conjunto de trabalhos, o olhar está em como os aspectos de fluência e/ou de disfluência de fala sinalizam o que pode ser considerado como normal ou como patológico na aquisição da linguagem. Para tanto, nesses trabalhos, são analisadas tanto disfluências tidas como comuns a todos os falantes, quanto disfluências tidas como mais típicas de sujeitos com diagnóstico de gagueira( 1 - 7 ).

Já em um segundo conjunto de trabalhos, o olhar para as hesitações se dá no contexto de relações estabelecidas entre subjetividade e gagueira. Embora também se verifique, nesses trabalhos, a preocupação com a patologia, há, neles, questionamentos sobre a origem da gagueira. Ainda nesses trabalhos, critica-se a visão negativa das disfluências de fala, uma vez que, segundo seus autores, essas disfluências são inerentes à aquisição de linguagem e seu surgimento não está na pessoa em si, mas, sim, na relação entre homem e cultura/sociedade e na "ideologia do bem falar"( 8 , 9 ).

Um terceiro conjunto de trabalhos caracteriza-se por um olhar discursivo para as hesitações no contexto da gagueira, sustentado por contribuições da Análise de Discurso de orientação francesa( 10 , 11 ). Nessa perspectiva, a gagueira é vista como um distúrbio de linguagem diretamente relacionado às condições de produção do discurso, disposto e caracterizado pela precisão e certeza do erro( 11 ).

Em um quarto grupo de trabalhos, o olhar se volta para o que seus autores definem como o comportamento temporal das hesitações. Embora suas investigações tenham se conduzido com indivíduos adultos, chama a atenção, nos trabalhos resultantes dessas investigações, o fato de seus autores não tratarem a hesitação como algo que caracteriza a disfluência( 12 , 13 ). Chama, também, atenção nesses trabalhos a conclusão a que seus autores chegaram - a de que hesitações e pausas agiriam em conjunto para a manutenção da fluência( 13 ).

Em um quinto conjunto de trabalhos, que investigam hesitações na aquisição normal da linguagem (e não no contexto da patologia), o olhar é para o papel constitutivo das hesitações e das disfluências na própria aquisição da linguagem e para a importância desse papel na formulação e na reformulação dos enunciados, permitindo à criança errar e deslizar por múltiplas cadeias que compõem o seu dizer. Ainda nessa perspectiva, as hesitações permitem que a criança mostre, pela linguagem, sua subjetividade( 14 , 15 ).

Por fim, em um sexto conjunto de trabalhos, o olhar dirige-se para as hesitações que se mostram em enunciados de sujeitos com diagnóstico de Doença de Parkinson( 16 - 19 ), bem como em enunciados de crianças com aquisição típica de linguagem( 20 ). Nesses trabalhos, as hesitações são vistas como marcas das negociações do sujeito com os outros constitutivos do (seu) discurso e indiciariam tanto momentos de turbulência na relação sujeito/língua quanto momentos de (des)ajustes na relação entre o sujeito e características das condições de produção do (seu) discurso.

O olhar destacado neste sexto grupo de trabalhos será, também, aquele privilegiado no presente artigo - cuja proposta é investigar a complexidade das hesitações na aquisição típica da linguagem. Para desenvolvê-la, o presente estudo foi norteado pelos seguintes objetivos:

  1. verificar a existência (ou não) de marcas hesitativas no início de enunciados no discurso de crianças; e

  2. verificar em que medida a presença/ausência dessas marcas se explicaria por fatos recuperáveis na produção de seus discursos.

MÉTODOS

Procedimento ético

A presente investigação foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Filosofia e Ciências da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (UNESP) - Marília, sob o número 0132/2010.

Critérios de inclusão e exclusão

Foram incluídas na presente investigação crianças cujos responsáveis assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Além da autorização dos responsáveis à participação na pesquisa, anteriormente à coleta de dados, todas as crianças passaram por triagem auditiva e de linguagem, sendo excluídas da amostra (e encaminhadas para avaliação) aquelas crianças que apresentaram, em relação a esses aspectos, algum padrão desviante.

Amostra

Os dados foram retirados do Banco de dados Apropriação do Conhecimento na Linguagem Infantil (ACoLI), que reuniu amostras de fala de crianças com idades entre 4 anos e 10 meses e 6 anos e 2 meses. Tais crianças frequentavam, no período da coleta de seus dados, o nível II de Educação Infantil II (pré-escola), em período integral, de uma escola da rede pública do município de Marília (SP). A escolha do período integral se justificou pelo fato de as crianças raramente faltarem à escola, devido a seus pais trabalharem o dia todo. Já a escolha pelo nível II de Educação Infantil se justificou pelo fato de, nesse nível, as crianças já estarem com 5-6 anos de idade e, portanto, apresentarem desenvolvimento linguístico mais elaborado em relação às menores.

Foram inicialmente previstas dez entrevistas com 24 crianças de ambos os gêneros. Porém, para o desenvolvimento da presente investigação, foram selecionadas as entrevistas de quatro crianças. A fim de controlar melhor a variabilidade dos dados, essas crianças foram escolhidas por terem participado de todas as situações de entrevistas propostas no desenvolvimento da pesquisa. Coincidentemente, essas quatro crianças são do mesmo gênero - masculino. No Quadro 1, encontra-se a distribuição da idade das quatro crianças conforme o início e o fim da coleta de dados.

Quadro 1. Idade das quatro crianças na primeira e na última coleta da situação de entrevista 

Procedimento de coleta de dados

Inicialmente à coleta de dados, foram elaboradas, pela equipe pedagógica da escola em conjunto com um dos autores da presente investigação, dez oficinas pedagógicas. Mensalmente, essas oficinas foram realizadas em sala de aula pela professora responsável e videogravadas por duas documentadoras. Uma semana após o registro de cada oficina, cada criança da sala de aula foi entrevistada, individualmente, por uma das documentadoras. Essas entrevistas foram registradas, integralmente, no interior de uma cabine acústica instalada na instituição de coleta, com uso dos equipamentos de alta fidelidade: um gravador digital MARANTZ (modelo PMD 660) acoplado a um microfone cardioide dinâmico SENNHEISER (e855), permitindo, assim, uma melhor qualidade acústica das gravações; e uma filmadora SONY (modelo DCR-SR68), permitindo, além do registro acústico, a observação de aspectos que a gravação em áudio não permite observar, como, por exemplo, momentos de silêncio e/ou gesticulações. A condução de tais entrevistas acompanhou os objetivos que nortearam a proposta e o desenvolvimento de cada oficina em sala de aula.

Após a gravação de cada entrevista, os dados foram organizados em: quadros de frequência de cada criança; identificação dos arquivos de áudio e de vídeo de acordo com uma identificação prévia de cada criança; e, por fim, organização das transcrições de cada entrevista realizada por cada criança.

Transcrições e confiabilidade dos dados

As situações de entrevistas foram transcritas de acordo com normas que priorizam a análise das hesitações( 21 - 23 ). Tais transcrições foram realizadas por seis integrantes do Grupo de Pesquisa Estudos sobre a Linguagem (GPEL/CNPq), especialmente treinados para a realização dessa tarefa.

As gravações foram divididas, aleatoriamente, entre cada um dos seis pesquisadores para a realização da transcrição. Foram utilizados, prioritariamente, os arquivos de filmagem, buscando observar e transcrever não só os aspectos conversacionais, mas também os gestos e expressões feitos pelas crianças.

Para o julgamento, e concordância, das transcrições, os seis pesquisadores foram divididos em dois grupos para a revisão das transcrições já realizadas. De acordo com essa divisão, um primeiro pesquisador transcreveu e, posteriormente, passou o texto transcrito para os outros dois integrantes do seu grupo, que julgaram, juntos, a transcrição e anotaram casos em que houvesse possíveis discordâncias de julgamento. Em seguida, a transcrição voltou para a primeira pessoa, aquela que a elaborou. Nos casos de eventuais discordâncias entre o primeiro transcritor e os dois revisores, foi adotado o critério de concordância comum a dois desses três pesquisadores, de modo a reduzir, significativamente, a subjetividade inerente à interpretação dos dados. Após todas as transcrições revisadas, os seis juízes, ainda divididos nos dois grupos, juntaram-se para revisar uma última vez todas as transcrições.

Para organização e exposição dos dados, obteve-se a seguinte identificação para as crianças: S01, S02, S03 e S04. Para as documentadoras, foi adotada a identificação D01 e D02.

Critério de análise

Para caracterizar as hesitações, as seguintes classificações das marcas hesitativas foram propostas: pausa silenciosa, pausa preenchida, alongamento hesitativo, cortes bruscos, repetição hesitativa e gaguejamento( 17 , 18 , 23 , 24 ).

Já para verificar a possível influência de fatos das condições de produção do discurso na presença/ausência de hesitações nos enunciados das crianças, foi proposta como unidade de análise o par dialógico pergunta-resposta( 25 ). Nesse tipo de unidade, as perguntas podem ser de dois tipos: abertas ou fechadas. As abertas são aquelas iniciadas por marcadores linguísticos interrogativos, por exemplo: como, onde, quando, quem, de quem, que etc.( 25 ). Esse tipo de pergunta favorece a emergência de respostas mais desenvolvidas. Já as perguntas fechadas são aquelas que mobilizam resposta do tipo sim/não (e equivalentes). Esse tipo de pergunta restringe estática e semanticamente a resposta do interlocutor, ou seja, não favorece a progressão do enunciado.

Análise estatística

Foi feito tratamento estatístico dos dados com o uso do software STATISTICA (versão 7.0). Para a análise de dados relativos ao primeiro objetivo - verificar a existência (ou não) de marcas hesitativas no início de enunciados no discurso de crianças -, foi utilizado o teste paramétrico t-test para variáveis dependentes. Já para a análise de dados referentes ao segundo objetivo (verificar em que medida a presença/ausência dessas marcas se explicaria por fatos recuperáveis na produção de seus discursos), foi utilizado o teste não paramétrico 2x2 Table. Neste último teste, foram explorados, de sua tabela de contingência 2x2, χ2 e Phi2 . Estabeleceu-se um nível de significância α≤0,05 e um intervalo de confiança de 95%.

RESULTADOS

Para responder ao primeiro objetivo, primeiramente foi computado o total de enunciados produzidos pelo conjunto das quatro crianças e, em seguida, foi observado se seu início se deu com ou sem ocorrências de hesitações. Com base nas situações de entrevistas, chegou-se a um total de 1.270 enunciados. Na distribuição entre enunciados iniciados com e sem hesitações, observou-se maior número de enunciados iniciados sem a ocorrência de hesitação, como se verifica na Tabela 1. Essa distribuição mostrou-se, ainda, estatisticamente significativa.

Tabela 1. Distribuição dos enunciados iniciados com e sem ocorrência de hesitação 

Enunciados n (%) Média (DP) Mín–Máx Teste t de Student
Sem ocorrência de hesitação 760 (59,8) 190 (60,3) 147–279 t=3,91
p=0,029
GL=3
Com ocorrência de hesitação 510 (40,2) 127,5 (33,1) 103–175

Teste t para amostras dependentes (p=0,05) Legenda: GL = grau de liberdade; Mín = mínimo; Máx = máximo; DP = desvio padrão

Seguem-se exemplos de enunciados iniciados sem marcas hesitativas:

• Exemplo 01 (Situação de entrevista 03)

D02 onde que vocês colocaram o feijão?

S01 no algodão

• Exemplo 02 (Situação de entrevista 04)

D02 isso mesmo + me diz o que o ratinho do campo comia? você lembra?

S01 QUEIJO

• Exemplo 03 (Situação de entrevista 07)

D01 como é que é a bateria?

S03 bateria tem tambor + e + e + e + e tem um negócio que parece com um prato + e + e tem uns pauzinho que bate

• Exemplo 04 (Situação de entrevista 10)

D02 que horas?

S01 oito horas da noite

Nas situações de entrevistas exemplificadas, os enunciados produzidos pelas crianças não foram iniciados com marcas hesitativas. Pode-se perceber, no Exemplo 03, que S03 apresentou ocorrências de pausas hesitativas e de repetições hesitativas (+ e + e + e + e) em seu enunciado; porém, essas ocorrências se deram após o início do enunciado, ou seja, encontram-se no interior do enunciado. Trata-se, portanto, de ocorrências não computadas na presente investigação.

A seguir, serão mostrados exemplos de enunciados iniciados com marcas hesitativas:

• Exemplo 05 (Situação de entrevista 01)

D02 como que é o violão? fala pra mim

S01 mas ± mas/ mas mas eu não lembro mais

• Exemplo 06 (Situação de entrevista 06)

D01 ISSO mesmo L. e o que que mais tinha além do farol?

S02 éh:: ± grama e árvore mato + terra

• Exemplo 07 (Situação de entrevista 02)

D01 ah:: ta + mas assim como que era o lugar onde eles correram?

S02 ±teve um negócio amare::lo + e também + quando eles chegaram na floresta + a tartaruga passou na montanha e viu:: o negócio de corrida e ela ganhou e ficou com a cara tudo rosa

• Exemplo 08 (Situação de entrevista 09)

D01 e de? ++ é um personagem do sítio do pica-pau amarelo

S04 ±emília

Nos exemplos 05 a 08, os enunciados de S01, S02, S03 e S04 são iniciados com ocorrência de hesitação. Em 05 e em 06, a hesitação se mostra por meio de marcas combinadas. Em 05, combinam-se, nessa marca, repetição hesitativa (quatro vezes a palavra "mas"), pausa silenciosa (+) e corte brusco (/); em 06, combinam-se pausa preenchida (éh), alongamento hesitativo (::) e pausa silenciosa (+). Vale ressaltar, mais uma vez, que, para o presente trabalho, foram levadas em consideração apenas as ocorrências hesitativas em início de enunciado. Assim, em 06, a segunda ocorrência de pausa (mato + terra) não foi computada. Já em 07 e em 08, os enunciados das crianças são iniciados com apenas uma marca hesitativa: a pausa silenciosa (+).

Posteriormente à distribuição dos enunciados, e para responder ao segundo objetivo da presente investigação, verificou-se em que medida a presença/ausência de hesitações no início de enunciados das crianças se relacionaria com o tipo de pergunta - aberta/fechada - que antecede esses enunciados. Os resultados mostram que a ocorrência de enunciados iniciados com hesitação é maior quando as crianças eram expostas a perguntas do tipo aberta; já quando expostas a perguntas do tipo fechada, a ocorrência de enunciados iniciados sem hesitação foi maior (Gráfico 1). No teste estatístico (Tabela 2), vê-se que essa distribuição mostrou-se altamente significante (p=0,00). Ainda, o teste mostrou haver correlação entre enunciados iniciados com e sem hesitação versus tipo de pergunta - aberta/fechada.

Gráfico 1. Distribuição de pergunta aberta e fechada versus enunciados iniciados com e sem marcas hesitativas 

Tabela 2. Distribuição dos enunciados iniciados com e sem hesitação versus respostas às perguntas abertas e fechadas 

Enunciados Respostas às perguntas abertas Respostas às perguntas fechadas χ2 Phi2
n (%) n (%)
Sem hesitação 289 (22,75) 471 (37,08) χ2=202,76
p=0,00
df=1
0,15
Com hesitação 401 (31,57) 109 (8,58%)

Teste 2x2 table (X2/ V2/ Phi2, teste de McNemar, teste exato de Fisher) para amostras dependentes (p=0,05) Legenda: GL = grau de liberdade

Seguem-se exemplos de enunciados iniciados com e sem marcas hesitativas, produzidos como respostas a perguntas fechadas:

• Exemplo 09 (Situação de entrevista 05)

D02 você lembra pelo menos um nome dos/dos pintores?

S01 ±± não

• Exemplo 10 (Situação de entrevista 06)

D01 você não lembra o que vocês fizeram na sala?

S02 ±± uma ± uma ± pegamos uma esponja e fazemos +TU/+ tudo aqueles quadradinhos de esponja

• Exemplo 11 (Situação de entrevista 09)

D01 mas você ganhou então uma bola né?

S03 ganhei

• Exemplo 12 (Situação de entrevista 04)

D01 isso o rato do campo assustou com o gato?

S04 sim + aí ele voltou pra casa

Nos exemplos 09 a 12, os enunciados de D01 e D02 caracterizam-se como respostas a perguntas fechadas. Como se pode ver, esse tipo de pergunta, na maioria das vezes, não leva ao desenvolvimento do enunciado, gerando respostas concisas do tipo sim ou não, ou formulações que retomem o significado de sim ou não. Em 09, S01 responde negativamente à pergunta (++ não) e, em 11, S03 a reponde com a retomada do verbo usado na pergunta (ganhou/ganhei).

Diferentemente das perguntas fechadas, as perguntas abertas possibilitam - e espera-se - que o interlocutor desenvolva sua resposta. É o que se vê nos exemplos de respostas a perguntas abertas, a seguir:

• Exemplo 13 (Situação de entrevista 03)

D02 mas para que que a gente comeu ela?

S01 é pra nós ficar forte

• Exemplo 14 (Situação de entrevista 04)

D01 por que você acha que mora no campo?

S02 porque lá é bem sossegado

• Exemplo 15 (Situação de entrevista 10)

D01 como é que vai ser a formatura de vocês?

S03 ± ãh:: vai ser:: ± vai ser gran::de + com monte de pessoas + e e + e o que nós vamos usar pra formatura é + o o + a vari/ + não + éh + a bandeira + e + ((estalo de língua)) a bandeira e depois da bandeira + o lencinho e depois do lenci::nho + o oo arco depois do arco + a:: manga e depois da manga a varinha

• Exemplo 16 (Situação de entrevista 06)

D01 e chegando lá na casa o que que eles fizeram?

S04 hum:: ± o rato da cidade ofereceu + uma:: + mesa com MUIta comida

Nos exemplos 13 a 16, os enunciados produzidos por D01 e D02 foram do tipo pergunta aberta. Em 13 e em 14, os enunciados-resposta de S01 e S02 não se iniciam com hesitação - diferentemente do que ocorre nos enunciados-resposta de S03 e S04, em 15 e 16, iniciados com marcas hesitativas combinadas.

Exposto esse conjunto de resultados, passa-se a hipóteses explicativas para seu funcionamento na produção discursiva dos sujeitos.

DISCUSSÃO

No que diz respeito aos resultados relativos ao primeiro objetivo desta pesquisa, 1.270 enunciados foram produzidos pelas quatro crianças. Desse total, a quantidade daqueles iniciados sem ocorrências de hesitação foi maior (760; 59,8%) do que a quantidade daqueles iniciados com ocorrências de hesitação (510; 40,2%). Essa diferença mostrou-se, ainda, significativa em termos estatísticos (p=0,029), apontando para a tendência de não ocorrência de hesitação em início de enunciados do grupo de crianças em estudo.

Essa tendência se explicaria pela relação entre disfluência de fala e idade das crianças em questão (5-6 anos). Com efeito, as crianças em estudo apresentam idade elevada quanto ao desenvolvimento linguístico, confirmando que a ocorrência de hesitações tende a certa estabilidade ao longo do desenvolvimento infantil( 1 , 3 , 5 ). A tendência de não ocorrência de hesitações em início de enunciados pode se dever, ainda, à familiaridade das crianças com os temas mobilizados nos momentos de entrevistas (previamente trabalhados nas oficinas pedagógicas que antecederam, em uma semana, as entrevistas), já que a fluência pode depender, também, da aptidão da criança em compreender a estrutura morfossintática dos enunciados( 5 ). Por fim, apesar de a presente investigação ter priorizado apenas a análise do início dos enunciados, as hesitações tendem a não se aglomerar no início, no meio ou no fim dos textos falados, mas, sim, a se distribuírem ao longo da produção falada( 13 ).

No entanto, embora seja consideravelmente maior o número de enunciados iniciados sem marcas hesitativas, ao se observar o desvio padrão, na Tabela 1, verifica-se que a flutuação nos enunciados iniciados com hesitação (33,1) é menor do que aquela presente nos enunciados iniciados sem hesitação (60,3) - o que, em outras palavras, significa dizer que há maior homogeneidade para hesitar do que para não hesitar em início de enunciados, no grupo em estudo. Essa maior homogeneidade em favor da disfluência indicia, portanto, que a hesitação é constitutiva da linguagem e que seu aparecimento mostra "o descongelamento, os lugares de subjetivação, da língua formalmente à deriva" (p. 169)( 26 ). Ou seja, a hesitação mostra a subjetividade na superfície linguística.

Por fim, no que diz respeito aos resultados relativos ao segundo objetivo desta pesquisa, verificou-se que as crianças apresentaram mais hesitações em seus inícios quando colocadas na posição de responder a perguntas do tipo aberta. Com efeito, dos 510 (100%) enunciados iniciados com hesitação, 401 (78,6%) foram respostas a perguntas abertas e 109 (21,4%) a perguntas fechadas. Essa proporção se inverte nos enunciados iniciados sem marcas hesitativas: de 760 (100%) enunciados, 471 (62%) foram respostas a perguntas fechadas e 289 (38%) a perguntas abertas. Essas diferenças mostraram-se, ainda, altamente significativas do ponto de vista estatístico: o teste do χ22=202,72; p=0,00) mostra diferença no uso de hesitações em início de enunciado a depender do tipo de enunciado-pergunta que a antecede. Já o teste Phi2 (0,15) mostra haver um efeito do tipo de enunciado-pergunta (aberta ou fechada) sobre a presença/ausência de hesitação em início de enunciado.

Com base na inversão de valores e na significância estatística, percebe-se que, embora os enunciados iniciados sem hesitação tenham ocorrido em percentual maior do que o daqueles iniciados com hesitação, estes últimos se caracterizam por serem, na maioria das vezes, respostas a perguntas abertas. Depreende-se, pois, que, quando as crianças são colocadas na posição de responder a uma pergunta aberta, elas se mostram como mais instáveis, dado o caráter vago daquilo a que são compelidas a responder - o que restringe sua ancoragem no discurso do outro/do (seu) interlocutor. As hesitações indiciam, portanto, seu posicionamento face a essa demanda não controlada do (seu) dizer. O inverso pode ser dito a propósito da baixa relação entre perguntas fechadas/respostas iniciadas com hesitação: nestas, a demanda específica já posta na pergunta e a possibilidade já dada de antemão do que se pode responder (sim/não) produzem o efeito de maior estabilidade das crianças na produção de seus enunciados. As perguntas fechadas promovem, pois, respostas que se aproximam de enunciados cristalizados, mais fortemente dominados pelo discurso do outro, os quais desfavorecem a presença de hesitações( 14 , 26 ). Já as perguntas abertas promovem maior distância entre a fala do outro e a fala da criança( 27 ), situação na qual "[...] há tendência à disfluência [...] [no] início de um tópico conversacional pela criança, ou quando tenta responder, com expressões não-cristalizadas, a pergunta polares ou qu-."( 28 ) - como aquelas características dos enunciados de D01 e D02.

Vale ressaltar, enfim, que os efeitos da pergunta aberta para a ocorrência de hesitações se sobrepõem ao efeito do conhecimento do tema e/ou da familiaridade com o interlocutor, dado o alcance de sua ação para a explicação dos resultados desta investigação.

CONCLUSÃO

Levando-se em consideração a quantidade de enunciados analisados neste estudo, embora preferencialmente eles tenham sido iniciados sem marcas hesitativas, sua presença/ausência mostrou-se diretamente relacionada ao tipo de pergunta feita às crianças pelo (seu) interlocutor. Como se observou, quando colocadas na posição de responder, ao interlocutor, uma pergunta aberta, as crianças mostraram maior turbulência para iniciar sua resposta.

Desse modo, os resultados apontam para a necessidade de não se analisarem isoladamente os enunciados, uma vez que a presença/ausência de marcas de hesitação em seu início se mostrou fortemente dependente do tipo de par dialógico envolvido na produção do discurso. Portanto, ao se analisar discursivamente o funcionamento das hesitações em enunciados produzidos por crianças em aquisição da linguagem, é necessário levar em consideração características de suas condições de produções - como, por exemplo, aquelas do tipo de demanda a que são submetidas essas crianças no momento de uma pergunta.

Embora os resultados tenham sido extraídos de enunciados de crianças sem alterações de fluência, acredita-se que eles possam fornecer parâmetros linguístico-discursivos para o trabalho com a avaliação e com a terapêutica da clínica fonoaudiológica, em casos de patologia da linguagem que dizem respeito à análise da fluência em contexto de interação dialógica. A esse respeito, porém, um destaque deve ser feito: essa contribuição se mostrou possível sobretudo pelo tipo de metodologia privilegiado neste estudo, na medida em que se pautou pela busca de dados coletados em situações dialógicas menos controladas de fala, mais próximas daquelas verificadas nas situações reais de uso da linguagem de que participam as crianças.

Acredita-se, ainda, que a maior frequência de hesitações em início de enunciados frente a perguntas abertas pode contribuir, em alguma medida, para o trabalho dos educadores em sala de aula, já que pode chamar sua atenção para a importância de se dirigirem às crianças preferencialmente com o discurso aberto, incentivando-as ao desenvolvimento de suas respostas - e, consequentemente, da própria linguagem. Ainda, no que diz respeito ao trabalho dos educadores, os resultados da presente pesquisa podem, de alguma forma, auxiliar, também, no trabalho dos professores com alunos que apresentam patologias da linguagem.

Por fim, vale ressaltar as limitações do presente estudo. Com efeito, trata-se de análise da produção discursiva de crianças de mesmo gênero e de mesma faixa etária. Trata-se, ainda, da produção de um mesmo gênero discursivo - o da entrevista. Desse modo, a ampliação dos dados (maior número de crianças, outras faixas etárias, outros gêneros discursivos) faz-se necessária em estudos posteriores, a fim de se verificar a manutenção (ou não) das tendências encontradas.

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