versão impressa ISSN 1808-8694
Braz. j. otorhinolaryngol. vol.80 no.5 São Paulo set./out. 2014
http://dx.doi.org/10.1016/j.bjorl.2014.05.020
O cisto do ducto nasopalatino (CDNP) é um cisto não odontogênico de desenvolvimento que se origina da proliferação dos remanescentes epiteliais do ducto nasopalatino, o qual está presente durante a vida fetal e tende a regredir após o nascimento; porém, podem permanecer resmanescentes que proliferam e originam o cisto.1 , 2 É considerado um cisto raro, que acomete frequentemente homens entre a 4ª e 6ª décadas da vida.3 Geralmente, são assintomáticos, de crescimento lento e detectados após exame clínico e radiográfico de rotina.4 Tumefação na região anterior do palato, drenagem e dor, quando relatados, estão associados à infecção secundária ou à pressão sobre o nervo nasopalatino.2 Ao exame radiográfico, o cisto aparece posicionado na linha mediana como uma radioluscência em formato de coração, resultado da sobreposição da espinha nasal anterior.5 , 6 O tratamento é a enucleação da lesão, e o encaminhamento para exame histopatológico é fundamental para a conclusão do diagnóstico.1
Paciente sexo feminino, 41 anos, leucoderma, foi encaminhada pelo ortodontista com suspeita de lesão em maxila. A paciente não apresentava queixas e referia exodontia do 11/21 por cárie na infância. Ao exame físico não foi observada assimetria facial e as mucosas apresentavam-se íntegras (fig. 1A). A tomografia computadorizada (TC) exibiu lesão única com aspecto hipodenso, bem definida, com aproximadamente 1,0 × 0,7 × 0,8 cm, no trajeto do ducto nasopalatino (fig. 1B). Foi realizada biópsia excisional (fig. 1C), e a peça foi encaminhada ao laboratório de Patologia Oral, onde microscopicamente observou-se a presença de uma cavidade cística revestida por delgado epitélio colunar pseudo-estratificado, constituído por uma a três camadas de células e cápsula cística do tipo fibrosa densa (fig. 1D). No lúmen cístico evidenciou-se a presença de infiltrado inflamatório predominantemente mononuclear. A partir dos achados clínico-tomográficos e histopatológicos, confirmou-se o diagnóstico de cisto do ducto nasopalatino.
Figura 1 A, Aspecto clínico intrabucal, com ausência de anormalidades ao exame físico; B, TC da maxila em corte axial mostrando dimensão médio-lateral da lesão; Aquisição sagital da maxila evidenciando dimensão anteroposterior e supero inferior; C, Loja cirúrgica após enucleação total da lesão; D, Fotomicrografia evidenciando a presença de lesão cística revestida por delgado epitélio pseudoestratificado e cápsula fibrosa densa com infiltrado inflamatório crônica (HE, 40×). Em maior aumento, no canto direito inferior, evidencia-se a presença de células arredondadas e achatadas no epitélio de revestimento (HE, 400×).
Atualmente, é consenso que o desenvolvimento do CDNP está relacionado à proliferação dos remanescentes epiteliais do ducto nasopalatino.2 Trauma localizado ou presença de infecções na região, além de fatores raciais ou genéticos, têm sido apontados como possíveis causas,3 entretanto, a teoria da proliferação espontânea dos remanescentes epiteliais parece ser a explicação mais provável para o desenvolvimento da lesão.1
No caso relatado, sugere-se que o histórico de infecção, devido à perda dos incisivos centrais superiores por cárie na infância, possa ser considerado fator predisponente para o possível desenvolvimento do CDNP. No entanto, alguns estudos relatam fenômenos de degeneração no ducto nasopalatino em fetos humanos, em que o trauma e a infecção são incapazes de ter ocorrido.2
O exame por imagem é fundamental para auxiliar no diagnóstico e no tratamento do CDNP. No caso relatado, a TC revelou lesão medindo cerca de 1,0 cm, tamanho indicado para enucleação. Há a indicação de que radiolucência nessa área, quando maior que 0,8 cm, deve ser explorada cirurgicamente, e que a superior a 1,4 cm tem forte hipótese diagnóstica de cisto.6
A análise microscópica desta lesão foi bem característica de CDNP. Presença de epitélio colunar pseudoestratificado e cápsula cística do tipo fibrosa também foram encontrados na literatura.4 , 6 No entanto, outros tipos de epitélios de revestimento, como estratificado escamoso e pseudoestratificado cuboide, também podem ser observados. Presença diversificada de epitélios pode estar relacionada com posição do cisto dentro do canal. Fibras nervosas, provavelmente advindas do nervo nasopalatino, vasos sanguíneos e glândulas secretoras de mucosa também podem estar presentes.4
Mediante os aspectos clínicos e radiográficos, a suspeita inicial foi de cisto do ducto nasopalatino, e o tratamento de escolha, geralmente, é a enucleação cirúrgica, considerando a localização e o tamanho da lesão.3
O conhecimento histopatológico da lesão, aliado a bom exame clínico e radiográfico, é fundamental para conclusão do diagnóstico e tratamento eficaz.