Aspectos do Tratamento não Farmacológico em Doença Arterial Periférica

Aspectos do Tratamento não Farmacológico em Doença Arterial Periférica

Autores:

Maria Janieire de N. Nunes Alves,
Francis Ribeiro de Souza

ARTIGO ORIGINAL

Arquivos Brasileiros de Cardiologia

versão impressa ISSN 0066-782Xversão On-line ISSN 1678-4170

Arq. Bras. Cardiol. vol.113 no.3 São Paulo set. 2019 Epub 10-Out-2019

https://doi.org/10.5935/abc.20190208

A doença arterial periférica (DAP) é uma das principais doenças ateroscleróticas na população idosa1 que limita à realização de atividade física. Pacientes com DAP que apresentam claudicação intermitente podem apresentar um comprometimento da marcha, que compromete as atividades da vida diária.2 Além disso, esses pacientes apresentam outras comorbidades que podem aumentar o risco cardiovascular.1,3 A prática regular de exercício físico é um tratamento não medicamentoso recomendado para prevenção e tratamento de doenças cardiovasculares. Por outro lado, manter a adesão a um programa de treinamento físico se torna um grande desafio.

O estudo em questão,4 expõe o padrão de atividade física de pacientes com DAP, e demonstra a alta taxa de sedentarismo com o envelhecimento. De fato, a própria doença leva a limitação física, o que por sua vez é também, um fator de piora da doença, haja vista que a recomendação de atividade física vigorosa tem efeitos terapêuticos que contribuem, adicionalmente ao uso crônico de drogas vasodilatadoras arteriais. Além disso, a vasodilatação arterial crônica decorrente do uso de medicamentos, pode trazer redução do fluxo periférico à longo prazo, uma vez que a vasodilatação arterial promovida pela medicação reduz, ainda mais, a pressão de perfusão na musculatura periférica de membros inferiores e, que intensifica o baixo nível de atividade física em pacientes com DAP, de acordo com recomendações atuais de atividade física.

A avaliação do grau de atividade física foi realizada por um dispositivo, durante um período de 7 dias, e os dados são relevantes em classificar o grau de limitação física com o avançar da idade, bem como, demonstraram também, a significância do sedentarismo, que pode corroborar para agravar ainda mais a doença e o risco cardiovascular. Por outro lado, o dispositivo não avalia ou quantifica o treinamento da resistência muscular localizada (força), o que pode subestimar os resultados apontados pelo estudo.

É clara, a importância de se elaborar estratégias para que esses pacientes se engajem na prática regular de exercício físico. O principal motivo desses pacientes com DAP não progredirem com o treinamento físico é a dor relacionada ao aumento da demanda energética do músculo, denominada, claudicação intermitente, principalmente na região da panturrilha durante a caminhada.5 Exercícios físicos de moderada à vigorosa intensidade podem precipitar os sintomas da claudicação intermitente e isso se torna uma barreira para que esses pacientes se envolvam em atividades físicas. Dessa maneira, os exercícios aeróbicos de baixa intensidade e de forma progressiva, podem ser utilizados como estratégia para retardar esses sintomas. Além disso, pacientes com claudicação intermitente apresentam atrofia muscular e a redução da força e resistência muscular nos membros inferiores aumenta a fragilidade desses doentes, principalmente com o avançar da idade.6 Nesse aspecto, exercícios de força e resistência muscular periférica (musculação) deveriam ser utilizados.

Embora a literatura recomende exercícios com características aeróbicas, como a caminhada, como principal modalidade de exercício para esses pacientes com DAP, exercícios de sobrecarga muscular, também tem sido recomendado como parte de um programa de exercício físico nessa população.7,8

A prática regular de exercício físico deve ser utilizada como ferramenta não farmacológica para o tratamento e prevenção das doenças cardiovasculares em pacientes com DAP e claudicação intermitente, portanto é importante se elaborar um programa de exercícios físicos específicos, principalmente com intuito de retardar o aparecimento dos sintomas de claudicação intermitente, pois, além de prevenir o desencadeamento de dor, a interrupção do exercício, pode ser um fator motivacional que implicará na aderência desses pacientes à prática de atividade física.

REFERÊNCIAS

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4 Gerage AM, Correia Ma, Oliveira PML, Palmeira AC, Domingues JR, Zeratti AE, et al. Níveis de atividade física em pacientes com doença arterial periférica. Arq Bras Cardiol. 2019; 113(3):410-416.
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8 Hiatt WR1, Wolfel EE, Meier RH, Regensteiner JG. Superiority of treadmill walking exercise versus strength training for patients with peripheral arterial disease. Implications for the mechanism of the training response. Circulation.1994;90(4):1866-74.