Associação de dor crônica com força, níveis de estresse, sono e qualidade de vida em mulheres acima de 50 anos

Associação de dor crônica com força, níveis de estresse, sono e qualidade de vida em mulheres acima de 50 anos

Autores:

Andressa Crystine da Silva Sobrinho,
Mariana Luciano de Almeida,
Guilherme da Silva Rodrigues,
Carlos Roberto Bueno Júnior

ARTIGO ORIGINAL

Fisioterapia e Pesquisa

versão impressa ISSN 1809-2950versão On-line ISSN 2316-9117

Fisioter. Pesqui. vol.26 no.2 São Paulo abr./jun. 2019 Epub 18-Jul-2019

http://dx.doi.org/10.1590/1809-2950/18033226022019

RESUMEN

La literatura presenta la necesidad de investigar los dolores osteoarticulares crónicos en ancianos, ya que estos dolores influencian negativamente parámetros biopsicosociales. Entender la relación entre las dimensiones del dolor y los parámetros de salud de los individuos afectados es necesario para un mejor enfoque preventivo y terapéutico. Este trabajo tiene el objetivo de identificar relaciones entre niveles de dolores crónicos y fuerza, calidad de vida, estrés y sueño en mujeres (las más acometidas por los dolores osteoarticulares crónicos). Se reclutaron participantes de un programa de educación física para ancianos, con edad entre 50 y 70 años. El dolor fue evaluado por medio de un instrumento multidimensional. Se evaluaron también el estado cognitivo global, el nivel de actividad física, la calidad de vida, el estrés y el sueño de las participantes. La fuerza muscular fue analizada por medio de la prueba de sentarse y levantarse y de la prueba de flexo-extensión de codos. Participaron de la investigación 56 mujeres, con media de edad de 63,7±7,7 anos, y 28,7±4,7kg/m2 de índice de masa corporal (IMC). La mayoría de las participantes relató sentir dolor (89,2%); el 21,4% relató dolor en los miembros inferiores y el 67,8% relató dolor en los miembros superiores. La dimensión sensorial del dolor se asoció al estrés, pero no a las demás variables, que no se relacionaron a ninguno de los aspectos del dolor. Además, puede haber influencia de la edad en la interpretación del dolor evaluativo.

Palabras clave Dolor; Ancianos; Enfermedad Crónica; Actividad Física; Calidad de Vida

INTRODUÇÃO

É possível observar em diversos estudos brasileiros que indivíduos de meia idade (40 a 59 anos) e acima de 60 anos apresentam um elevado nível de prevalência de dor crônica (variando entre 51 e 67%), principalmente de dores musculoesqueléticas (14 a 47%)1)-(3. A dor crônica é a principal causa de queixa nos hospitais e ambulatórios e sintoma frequente em anamnese para o grupo da terceira idade4),(5. Aproximadamente 45% a 80% dos idosos institucionalizados sofrem ao menos um tipo de dor, sendo de 61% de prevalência para indivíduos de meia idade, especialmente do sexo feminino. Ainda, estima-se que 80 a 85% dos indivíduos acima de 65 anos de idade apresentem pelo menos um problema significativo de saúde que os predisponha ao relato de dor3)-(6.

Mesmo que não apareça como indicador direto de morte e dependência, a dor avaliada em pesquisas epidemiológicas apresenta relações com limitações funcionais e diferentes condições de sociabilidade e psicológicas que interferem na qualidade de vida. Para o tratamento da dor, a literatura propõe programas com exercícios multicomponentes a fim de estimular a plasticidade cerebral e ajudar na manutenção do limiar de dor. Dentre as características dos programas multicomponentes, predomina a adesão do público feminino7)-(9.

Embora o exercício tenha sido apresentado como álgico, os mecanismos de associação entre dor e exercício físico ainda não estão bem esclarecidos. Mesmo apresentando esse efeito álgico, há estudos que mostram um aumento de dor crônica em indivíduos que participam de programas de educação física, demonstrando a necessidade de estudos adicionais nesse contexto1),(8),(10.

A capacidade de força muscular é um importante componente da aptidão física relacionada à saúde, além de exercer papel relevante para o desempenho físico no dia a dia11),(12. A literatura demonstra que indivíduos com dor crônica podem apresentar redução considerável da força e desempenho muscular. Um estudo apresentou que um terço das mulheres diagnosticadas com dor crônica apresentavam força muscular ou flexibilidade reduzidas em membros superiores na realização de tarefas diárias13.

Na atualidade, o foco da literatura científica tem sido os estudos da dor em indivíduos adultos devido ao aumento da prevalência do acometimento doloroso nessa faixa etária11)-(13. Estudos demonstram que a dor crônica pode acometer os indivíduos antes mesmo da velhice, por meio de lesões osteomioarticulares, por exemplo12. Envelhecer nesse contexto doloroso pode ocasionar uma redução da qualidade de vida e em outras medidas relacionadas à saúde. Assim, as relações entre dor, aspectos comportamentais, físicos e qualidade de vida na população que envelhece carecem de evidências a fim de prevenir e tratar a dor nessa faixa etária com mais eficiência. Atualmente a literatura apresenta estudos com escalas multidimensionais para a análise da dor. Porém, até o momento, nenhum estudo fez a nomeação e distinção de suas dimensões na sua interpretação e compreensão de dados, o que é de fundamental importância para o entendimento da dor13, pois seus resultados qualitativos destacam a influência de suas dimensões na experiência dolorosa, possibilitando melhor tratamento ao público mais acometido pelo dor, especialmente mulheres a partir da meia idade. Diante do exposto, este trabalho tem como objetivo verificar a relação dos níveis de dores crônicas com níveis de força, qualidade de vida, estresse e sono de mulheres acima de 50 anos de idade participantes de um programa de educação física.

METODOLOGIA

As participantes do estudo assinaram inicialmente o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido após terem todas as dúvidas respondidas pela pesquisadora responsável. Este projeto foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (CAAE 24579513.4.0000.5407, ReBEC: RBR-8hqwmx).

Amostra

Para analisar a associação entre dores, força, qualidade de vida, estresse e sono na população de meia idade e idosas, realizou-se uma pesquisa do tipo metodológico transversal descritivo, composta por uma amostra de conveniência na qual foram avaliadas 56 mulheres de meia idade e idosas, brasileiras, participantes do Programa de Educação Física para Idosos (Pefi). Para caracterização da amostra, utilizamos os seguintes instrumentos: Mini-Exame do Estado Mental (MEEM)14, Critério de Classificação Econômica Brasil15, massa corporal16, estatura16, circunferência da cintura16, idade e anos de estudos16. Os critérios de inclusão foram: ser do sexo feminino, ter idade acima de 50 anos e ser participante do Pefi. Foram considerados critérios de exclusão apresentar dor aguda, classificada com tempo menor que seis meses2 e/ou apresentar alterações cognitivas avaliadas pelo MEEM14.

Instrumentos avaliativos

Para aplicar os testes e avaliações foi necessária a divisão dos procedimentos em três etapas, realizadas em três dias. No primeiro dia, as participantes foram submetidas aos testes motores. No segundo dia, os instrumentos de avaliação de saúde foram respondidos pelas participantes, finalizando com a aplicação do MEEM por uma pesquisadora treinada. Cada dia de avaliação teve duração de aproximadamente 40 minutos. A etapa final consistiu na apresentação e resposta ao questionário de dor. Para a aplicação desse questionário, as participantes foram chamadas em duplas para que houvesse melhor explicação e ajuda, caso necessário. O Questionário McGill foi respondido para cada dor que as mulheres sentiam, caso houvesse cinco regiões doloridas, cinco questionários foram respondidos. Por esse motivo, a aplicação do questionário variou entre três e dez minutos.

Para a análise da dor, utilizou-se a versão brasileira do Questionário McGill de dor (Br-MPQ)17, adaptado e validado para a língua portuguesa por Pimenta e Teixeira17. A qualidade de vida foi mensurada por meio do questionário de qualidade de vida (SF-36), que foi elaborado por Ware e Sherbourne em 1992, validado e traduzido para a língua portuguesa por Ciconelli et al.18.

A capacidade de força muscular foi analisada por meio do teste de sentar e levantar para força de membros inferiores, que deve ser realizado em uma cadeira com encosto e sem apoio lateral. No teste de flexão e extensão do cotovelo para força de membros superiores, a pessoa deve estar sentada e realizar o movimento com seu membro dominante com um halter de 2,27kg. Ambos os testes consistem em executar o maior número de repetições possível durante 30 segundos19.

Com o intuito de analisar os parâmetros de saúde, utilizou-se um questionário sociodemográfico e clínico e o International Physical Activity Questionnaire (IPAQ), versão curta20. A fim de avaliar o estresse, foi aplicado o Inventário de Sintomas de Stress, validado por Lipp e Guevara21, e padronizado por Lipp, em 2000. Distúrbios de sono foram avaliados por meio da Escala de Sonolência Diurna de Epworth22.

Análise estatística

Os dados foram digitados em programa Excel e tratados por meio do programa SPSS 20.0. Foram feitas análises de variância e comparação de médias (ANOVA 1 via e teste t de Student), análise de associação (qui-quadrado) e variáveis de dispersão (média e desvio-padrão). Adotou-se o nível de significância de 5%.

RESULTADOS

Foram incluídas no estudo 56 mulheres com idade entre 50 e 70 anos. As características amostrais são apresentadas na Tabela 1. Não houve diferença estatística entre os grupos, com exceção da idade. A caracterização do perfil amostral está expressa na Tabela 1.

Tabela 1 Caracterização do perfil amostral 

Adultas Idosas Total
(n=24) (n=32) (n=56)
Idade (anos) 55,9±3,0 64,5±3,4* 62,5±8,7
Anos de estudo (anos) 10,2±4,5 10,2±4,7 10,2±4,9
Massa corporal (kg) 71,2±17,7 71,6±18,4 71,4±17,7
Estatura (m) 1,56±0,3 1,56±0,4 1,56±0,3
IMC (kg/m2) 28,6±4,8 28,9±4,9 28,7±4,8

*p≤0.05 versus Adultas no teste t de Student; IMC: índice de massa corporal.

As participantes pertenciam às classes C1 (38,32%), B1(36,76%), B2 (20%), C2 (1,74%) e D (3,39%). Com relação ao nível de atividade física, classificado pelo IPAQ, 21,63% eram muito ativas; 15% eram ativas; 6,77% das participantes, irregularmente ativas; 25% irregularmente ativas A; 26,71% irregularmente ativas B; e 5% sedentárias. Nenhuma participante relatou ter dor aguda ou apresentou desempenho cognitivo abaixo da nota de corte14.

Com relação à dor, a maior parte das participantes relatou senti-la (89,22%). Dores em membros inferiores foram relatadas por 21,43% das mulheres, sendo o joelho a estrutura mais mencionada. Dores em membros superiores foram relatadas por 67,87% das participantes e o ombro foi a região mais referida. Em referência à intensidade da dor, 8,79% relataram como forte, 9,91% muito forte, 21,97% como dor moderada, 26,37% relataram pouca dor e 32,96% relataram quase ausência de intensidade. Em relação à classificação da dor, houve 60,43% de dor avaliativa, 17,58% sensorial, 15,40% miscelânea e 6,59% afetiva.

Para melhor análise da dor, os parâmetros de prevalência de dimensão dolorosa e pontuação do índice de dor, mensurados pelo instrumento de McGill, foram analisados com os testes de força e instrumentos clínicos. Para essa comparação, foi realizado o teste de comparação das variâncias por ANOVA de uma via. Entendendo que a idade das participantes poderia ser um fator considerável para o relato da dor, foi realizado o teste de Qui-quadrado a fim de analisar a associação entre a idade das participantes (adultas e idosas) e os parâmetros de dor.

As comparações de médias de instrumentos de avaliação de saúde nas dimensões dolorosas estão expressas na Tabela 2. É possível observar que foram encontradas diferenças entre as médias dos grupos em dois níveis de estresse em relação às classificações de prevalência de dimensão dolorosa. As médias de itens assinalados com relação aos sintomas de estresse foram maiores no grupo que declarou dor sensorial do que no grupo dor avaliativa. Com relação à intensidade da dor, demonstrada pela pontuação do índice de dor, não foram encontrados resultados estatisticamente significativos (Tabela 3).

Tabela 2 Comparação de médias de instrumentos de avaliação de saúde nas dimensões dolorosas, por ANOVA uma via 

Dimensões dolorosas (média±desvio-padrão)
Dor avaliativa Dor sensorial Dor miscelânea Dor afetiva
FEC 18,0±4.6 16,5±3,4 16,6±5,8 22,6±5,8
(nº rpts)
SEL 15,2±4,5 13,3±4,6 13,3±3,0 19,3±5,5
(nº rpts)
DF 59,5±9,9 63,5±9,8 62,4±8,3 53,0±10,2
(pontos)
DM 54,4±10,7 53,9±11,0 55,6±15,3 55,3±12,0
(pontos)
Sono 7,3±5,8 7,3±4,8 7,6±5,5 8,3±4,0
(pontos)
Estresse 1 a 15 (itens assinalados) 1,9±2,0 2,1±1,5 3,6±1,1 1,0±1,0
Estresse 16 a 30 (itens assinalados) 1,6±1,5 4,2±3,4* 2,3±1,1 0,3±0,5†
Estresse 31 a 53 (itens assinalados) 1,4±1,4 3,2±2,4* 2,6±1,5 0,3±0,5

*p≤0.05 no post-hoc de Tukey versus dor avaliativa; p≤0.05 no post-hoc de Tukey versus dor sensorial; FEC: flexão e extensão de cotovelo; SEL: sentar e levantar; DF: domínio físico do SF-36; DM: domínio mental do SF-36; Sono: Questionário de Sonolência Diurna de Epworth; Estresse: Inventário de Sintomas de Stress.

Tabela 3 Comparação de médias de instrumentos de avaliação de saúde nas intensidades de dor de acordo com a pontuação do índice de dor, por ANOVA uma via 

Escore do Índice de dor (média±desvio padrão)
Ausência de dor Pouca dor Dor moderada Dor muito forte
FEC 18,3±4,4 16,7±3,3 17,2±4,2 23,5±3,5
(nº rpts)
SEL 15,2±4,4 13,9±4,7 14,1±4,4 22,5±0,7
(nº rpts)
DF 58,8±9,8 62,9±9,4 61,5±9,7 53,8±14,4
(pontos)
DM 54,4±11,2 52,6±9,1 55,2±12,6 62,2±1,0
(pontos)
Sono 6,8±5,8 7,5±5,4 9,2±4,5 6,5±3,5
(pontos)
Estresse 1 a 15 (itens assinalados) 2,1±2,1 1,8±1,2 2,2±1,7 0,5±0,7
Estresse 16 a 30 (itens assinalados) 1,7±1,5 3,3±3,5 1,7±1,3 0,0±0,0
Estresse 31 a 53 (itens assinalados) 1,6±1,5 2,5±2,5 1,6±1,2 0,0±0,0

FEC: flexão e extensão de cotovelo; SEL: sentar e levantar; DF: domínio físico do SF-36; DM: domínio mental do SF-36; Sono: Questionário de Sonolência Diurna de Epworth; Estresse: Inventário de Sintomas de Stress.

Nas Tabelas 4 e 5, a seguir, a comparação entre mulheres de 50 a 59 anos e as de 60 anos ou mais indica que, na maioria das vezes, adultas e idosas declararam a dor como avaliativa e ausência de dor na avaliação da intensidade. Um dado interessante da Tabela 4 é que, embora o número de mulheres não tenha sido o mesmo nos dois grupos, na totalidade as idosas relataram 10% mais que as adultas a dor como avaliativa - dado sem significância estatística, mas que pode conferir relevância clínica a esse resultado. Não houve resultado estatisticamente significativo para o qui-quadrado.

Tabela 4 Tabela de referência cruzada entre idade e dimensões dolorosas por qui-quadrado, ajustada pelo método de Monte Carlo 

50 a 59 anos (n) 60 anos ou mais (n) p-valor
Dor avaliativa 14 21 0,256
Dor sensorial 6 3
Dor miscelânea 0 3
Dor afetiva 1 2

Tabela 5 Referência cruzada entre idade e pontuação da intensidade de dor por qui-quadrado, ajustada pelo método de Monte Carlo 

50 a 59 anos (n) 60 anos ou mais (n) p-valor
Ausência de dor 10 18 0,272
Dor leve 7 4
Dor moderada 4 5
Dor forte 0 2

DISCUSSÃO

A dor crônica é um sintoma difícil de ser avaliado por ser uma experiência subjetiva e por sofrer a influência de diversos fatores ambientais, emocionais, comportamentais e sociais, como observado nas dimensões de dor dos resultados11),(12.

Um fator que poderia ter influenciado na percepção dolorosa é a sequência de aplicação de testes realizados no estudo, pois os testes físicos foram realizados antes da avaliação da percepção de dor. As participantes já realizavam exercícios físicos há pelo menos três meses e realizaram a mesma sequência de testes e avaliações, sendo expostas às mesmas influências e condições fisiológicas. As participantes não relataram o surgimento de nenhum tipo de dor, além da já sentida antes da bateria de testes físicos quando abordadas na aplicação do questionário de dor.

Neste artigo, encontrou-se relação entre dor e nível de estresse e, na comparação entre diferentes faixas etárias, foi possível observar que nos dois grupos (adultas e idosas) a maioria relatou a dor avaliativa, o que pode ter influência da diminuição da reserva cognitiva, tendo como consequência uma interferência no relato de dor. Com relação aos testes de força, qualidade de vida e sono, não foram encontrados dados estatisticamente significativos.

Este artigo foi composto por mulheres de meia idade e idosas, e observou-se que é possível haver influência da idade no momento da interpretação da dor pelo indivíduo (Tabela 4). Muñoz et al.23 apresentaram que as manifestações clínicas de dor na velhice são diferentes das que se observam habitualmente em pacientes de faixas etárias mais jovens. Essa observação corrobora com relatos prévios que indicam que os indivíduos em processo de envelhecimento parecem ser menos sensíveis aos estímulos dolorosos em dimensão sensorial, pois com o avançar da idade ocorre redução da dor em todos os seus sítios, com exceção das articulações24.

Segundo Busse25, com o avançar da idade, uma diversidade de receptores sensoriais especializados reduz sua funcionalidade. Terminações de neurônios unipolares alteram sua atividade eletrofisiológica, conduzindo menos o estímulo doloroso. Mesmo com esta alteração, a sensibilidade é mais prevalente nos idosos, porque seus limiares são reduzidos. A dor, por sua vez, está associada a menos movimentação corporal, o que contribui para diminuir ainda mais sua capacidade sensorial e funcional para realização de atividades da vida diária. Porém, essa variabilidade no idoso, quando comparada à de um adulto, não deve ser atribuída apenas à idade25. Segundo o mesmo autor, a resposta de reação a estímulos é reduzida no processo de envelhecimento, havendo uma atenuação nociceptiva e uma associação com a redução da capacidade cognitiva.

Apesar das participantes deste estudo apresentarem desempenho cognitivo adequado, a dimensão cognitivo-avaliativa foi apresentada na Tabela 3 como a de maior prevalência entre as faixas etárias. Essa dimensão permite que o indivíduo avalie seus comportamentos e experiências com base em vivências anteriores com situações atuais semelhantes26. Os principais componentes cognitivos avaliados nessa dimensão são memória, atenção, pensamento, decisão e raciocínio, que também se apresentam como os primeiros aspectos a serem reduzidos com a presença de dor crônica, assim colaborando para a ineficiência no desempenho motor do indivíduo25.

Essa diversidade de percepção da dor se torna uma evidência nos indivíduos no processo de envelhecimento, com dor persistente devido à variedade dos estados físico, psicológico e social verificada em alguns pacientes24. Essa diversidade de percepções dolorosa é devido ao conhecimento que o indivíduo possui de fatores psicossocial e ambiental que o envolvem e em relação ao que ele está vivenciando, levando em consideração suas crenças, pensamento e atitudes em relação esse estado não sadio na velhice26.

O estudo de Santos et al.27) apresentou que a população com idade mais avançada pode superestimar a sensação dolorosa, exorbitando a descrição da intensidade da dor, principalmente quando está acompanhada de algum declínio da função cognitiva, ou quando mensurada por uma escala unidimensional, o que justifica a utilização do Br-MPQ. Os idosos tendem erroneamente a acreditar que esse sintoma doloroso é um componente do processo de envelhecer27)-(28. Neste estudo é possível observar que indivíduos com alto desempenho nos testes de força de membro superior e inferior apresentam elevados níveis de intensidade da dor. Este resultado, mesmo não apresentando diferença estatisticamente significativa, se mostra interessante e com relevância clínica, necessitando de investigações futuras. O estudo de Corrêa et al.28) observou também que variáveis cognitivas relacionadas a comportamentos e emoções têm mais associação com a modulação da intensidade da dor crônica exacerbada do que fatores sensoriais. Assim, diferentes níveis cognitivos contribuem para os níveis de sofrimento associados à dor crônica.

No estudo de Celich e Galon1) observou-se prevalência de dor no ombro relacionada com a redução de força nessa estrutura articular. Além disso, foi demonstrado que o acréscimo de dor no idoso está associado à autopercepção de redução de força, evidenciando que fatores cognitivos influenciam nesse sentido e a importância da avaliação da dor por meio de escalas multidimensionais28.

O estudo de Lima et al.29 indica uma dissociação entre a redução do limiar de tolerância à dor e a sarcopenia, pois a capacidade de gerar força muscular não afeta a percepção dolorosa. No entanto, quando há uma diminuição da autopercepção de força, há redução do limiar de dor, que pode ser exacerbada por fatores psicológicos. É interessante observar que estudos demonstram que essa sensibilidade ocorre em paralelo à redução na força muscular1),(3),(24, entretanto, neste estudo, não foi possível observar tal comportamento na amostra estudada.

Um dos principais achados deste estudo foi a diferença nos níveis de estresse no relato da dor sensorial e avaliativa nos itens 16 a 30 (maioria dos sintomas relacionados ao estresse físico) e nos itens 31 a 53 (dobro de itens de sintomas relacionados ao estresse psicológico) do Inventário de Sintomas de Stress. Isso indica que a dor sensorial, por meio dos receptores de dor, possa modular os níveis de estresse17),(23.

É importante ressaltar que o aumento de intensidade da dor precisa ser considerado como um sintoma gravíssimo a ser analisado na atenção à saúde de pessoas em processo de envelhecimento e no planejamento de ações que visem o bem-estar dessa população. Esse tipo de pesquisa se torna importante, pois ajuda no reconhecimento da dor pelos profissionais da saúde, colaborando com maneiras eficazes de avaliá-la e, posteriormente, solucioná-la. Sugere-se, para os próximos estudos, uma abordagem metodológica longitudinal, a fim de conseguir identificar o efeito do exercício físico na dor, na qualidade de vida, estresse, sono e força de membros superiores e inferiores.

Este estudo apresenta limitações importantes quanto à carência de informações sobre a utilização de medicamentos de analgesia e relaxamento muscular no momento de avaliação. Também não foram utilizados instrumentos mais sofisticados para a análise da dor, como a algometria, que traria resultados objetivos com relação à dor sensitiva.

Outro fator considerado como limitante foi a aplicação do teste de percepção da dor logo após os testes físicos, diminuindo o controle da influência dos danos musculares nas participantes.

CONCLUSÃO

Foi encontrada associação entre estresse e a dimensão sensorial da dor crônica em mulheres acima de 50 anos de idade participantes de um programa de educação física. Não foram encontradas associações estatisticamente significativas da dor crônica com os parâmetros de saúde de qualidade de vida, sono e força muscular.

Este estudo demonstrou que o Br-MPQ é um instrumento que apresenta fácil aplicabilidade e compreensão para a amostra pesquisada. Além disso, o instrumento foi capaz de verificar que a dor e o estresse estão relacionados entre si para a determinação da percepção dolorosa. A dor, sendo o quinto sinal vital, necessita ser vista como uma doença e não apenas como um sintoma, pois pode ser influenciada e interferir em diferentes aspectos na vida do indivíduo, como já apresentado na literatura1),(7),(23.

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