Associação entre a exposição a maços de cigarros em pontos de venda e susceptibilidade ao tabagismo entre adolescentes brasileiros

Associação entre a exposição a maços de cigarros em pontos de venda e susceptibilidade ao tabagismo entre adolescentes brasileiros

Autores:

Ana Luiza Curi Hallal,
Andreza Madeira Macario,
Roberto Hess de Souza,
Antônio Fernando Boing,
Lúcio Botelho,
Joanna Cohen

ARTIGO ORIGINAL

Jornal Brasileiro de Pneumologia

versão impressa ISSN 1806-3713versão On-line ISSN 1806-3756

J. bras. pneumol. vol.44 no.1 São Paulo jan./fev. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/s1806-37562016000000331

O tabagismo é a causa mais comum de morte evitável no mundo, pois aumenta o risco de morte por doenças como câncer, doença isquêmica do coração, DPOC, entre outras.1) No Brasil, pesquisas científicas permitem concluir que a prevalência de tabagismo na população adulta diminuiu ao longo das últimas décadas.2,3 Dados obtidos por inquérito telefônico pela Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde apontam para uma redução da prevalência de adultos fumantes no Brasil de 15,6% para 11,3% no período entre 2006 e 2013.3

Essa tendência verificada entre os adultos não tem sido identificada entre os jovens brasileiros.4 Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), aplicada em diversos anos, mostrou que não houve uma diminuição da prevalência dos jovens que referiram haver fumado nos 30 dias anteriores ao inquérito, observando que a prevalência de fumantes desses está mantida em cerca de 6,0%.4

Diversas estratégias foram implantadas no Brasil buscando reduzir a oferta e o consumo do tabaco. Essas estratégias incluem políticas públicas nas áreas de propaganda, publicidade, patrocínio, advertências sanitárias, tabagismo passivo, tratamento de fumantes, comércio ilegal, preços e impostos.2,5 Especificamente no que se refere à legislação que visa a proteger a população da exposição à propaganda do tabaco, destaca-se a Lei Federal no. 10.167/2000,6 que proibiu a publicidade de produtos derivados do tabaco em revistas, jornais, televisão, rádio e outdoors. Proibiu, também, a propaganda por meio eletrônico, inclusive internet, a propaganda indireta contratada e a publicidade em estádios, pistas, palcos ou locais similares; ainda, vetou o patrocínio de eventos esportivos internacionais e culturais pelas indústrias do tabaco a partir de 2003. A Lei Federal no. 12.546/2011, regulamentada pelo decreto no. 8.262/2014, proibiu a propaganda dos produtos de tabaco nos pontos de venda, o que significou um importante avanço na legislação nacional; entretanto, ainda é permitida no país a exposição das embalagens nos pontos de venda.7,8

A indústria do tabaco reage à evolução do controle do tabagismo com diferentes estratégias: destacam-se os expositores de maços de cigarros, cada vez mais elaborados, as embalagens atrativas dos produtos, bem como o posicionamento privilegiado dos produtos nos pontos de venda, próximos a outros produtos atrativos para crianças e jovens.9

É nesse contexto que se justifica o presente estudo, que teve por objetivo verificar a associação entre a exposição a maços de cigarros nos pontos de venda e a susceptibilidade ao tabagismo entre adolescentes brasileiros.

Para tanto, foi realizado um estudo transversal, com uma amostra composta por escolares de 14 a 17 anos matriculados em um dos três anos do Ensino Médio, no período diurno, em escolas públicas estaduais de cinco capitais (Brasília, São Paulo, Manaus, Curitiba e Salvador). Todos os estudantes dos anos escolares selecionados que estavam presentes no dia da aplicação do questionário foram convidados a participar do estudo. A coleta de informações foi feita por meio de um questionário autoaplicável e anônimo, com a supervisão de equipe de campo previamente treinada.

As variáveis estudadas foram sexo, idade, ano escolar, tabagismo dos pais, tabagismo do respondente, exposição ao tabagismo, susceptibilidade ao tabagismo no ano seguinte da participação no estudo e exposição aos maços de cigarros e à sua propaganda em pontos de venda (como padarias, minimercados, lojas de conveniência e supermercados).

Foram classificados como susceptíveis a fumar os escolares não fumantes que responderam que provavelmente ou definitivamente iniciariam a fumar no ano seguinte.10,11 Foram classificados como expostos ao tabagismo os escolares que informaram frequentar pelo menos um dos pontos de venda e visualizar os maços de cigarros. Foram classificados como não expostos ao tabagismo os escolares que informaram não frequentar nenhum dos pontos de venda citados nem visualizar os maços de cigarros expostos nesses locais. Aqueles que responderam ter fumado pelo menos uma vez nos 30 dias anteriores ao inquérito foram considerados fumantes.

Foi usado o teste do qui-quadrado de Pearson para verificar associações entre as variáveis independentes, sendo admitidos como significância estatística valores de p < 0,05.

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Santa Catarina, em Florianópolis (SC), conforme o Parecer no. 552.940, e por Johns Hopkins School of Public Health Institutional Review Board, em Baltimore (MD) EUA, segundo o Processo no. 00005015.

Foram entrevistados 11.086 escolares, sendo 5.964 (53,8%) do sexo feminino. Os escolares foram classificados em três grupos no que se refere ao tabagismo: nunca fumantes, experimentadores e fumantes. As proporções encontradas na amostra foram, respectivamente, de 69,0%, 21,3% e 9,7%.

A prevalência de 9,7% (IC95%: 9,4-10,5) de fumantes observada no presente estudo foi maior do que aquela observada na PeNSE 2012,12 na qual 5,1% (IC95%: 3,9-6,2) dos estudantes das 26 capitais dos estados e do Distrito Federal foram identificados como fumantes regulares. Destaca-se que, no presente estudo, foram incluídos escolares de 14 a 17 anos matriculados no Ensino Médio de escolas públicas, enquanto a PeNSE compreendeu escolares que cursaram o nono ano do Ensino Fundamental, em escolas públicas e privadas, sendo que tais opções metodológicas podem ter contribuído para a diferença observada na prevalência de fumantes.12

Frente à pergunta se alguma vez já tentou ou experimentou fumar cigarros, mesmo que uma ou duas tragadas, 3.407 estudantes (30,7%) responderam afirmativamente. Dentre os experimentadores e fumantes, 10,3% fumaram o primeiro cigarro inteiro antes dos 10 anos de idade.

As perguntas sobre o hábito de frequentar pontos de venda de cigarros revelaram que a grande maioria dos estudantes (98,9%) frequentara pelo menos um dos pontos de venda mencionados no questionário no período estudado, sendo que praticamente todos os escolares (99,2%) referiram visualizar os maços de cigarro expostos (Tabela 1).

Tabela 1 Distribuição do número e proporção de escolares segundo os itens do questionário “frequenta pontos de venda de cigarros” e “percebe os maços de cigarros nos pontos de venda” de acordo com o status tabágico. Brasil, 2014. 

Status tabágico Itens do questionário
Frequenta pelo menos um dos pontos de venda Frequenta algum ponto de venda de maços de cigarros e os percebe/visualiza em exposição
n % n %
Nunca fumantes 7.561 98,9 7.561 100,0
Experimentadores 2.317 99,3 2.278 98,8
Fumantes 1.076 98,1 1.051 97,9
TOTAL 10.954 98,9 10.961 99,2

Entre os meninos, 67,9% nunca fumaram, 21,3% já haviam experimentado cigarros, e 10,8% eram fumantes. Entre as meninas, essas proporções foram de, respectivamente, 69,9%, 21,1% e 9,0% (Tabela 2).

Tabela 2 Distribuição do número e proporção de escolares segundo sexo, ano escolar, idade e status tabágico. Brasil, 2014. 

Variáveis Status tabágico Total
Nunca fumante Experimentador Fumante
n % n % n % n %
Sexo
Masculino 3.285 67,9 1.030 21,3 520 10,8 4.835 100,0
Feminino 4.143 69,9 1.247 21,1 533 9,0 5.923 100,0
Ano escolar
1 4.267 70,5 1.175 19,4 607 10,0 6.049 100,0
2 2.115 67,0 710 22,5 332 10,5 3.157 100,0
3 1.052 66,5 399 25,2 132 8,3 1.583 100,0
Idade, anos
14 375 73,5 69 13,5 66 12,9 510 100,0
15 2.491 74,0 612 18,2 263 7,8 3.366 100,0
16 2.474 67,3 804 21,9 398 10,8 3.676 100,0
17 2.069 64,5 797 24,8 343 10,7 3.209 100,0

Entre os escolares expostos que visualizaram os maços de cigarros nos pontos de venda, 18,9% eram susceptíveis ao tabagismo, enquanto entre os estudantes não expostos, 12,9% eram susceptíveis ao hábito de fumar. De acordo com essa distribuição, foi observada uma associação estatisticamente significante entre a exposição aos maços de cigarro nos pontos de venda e a susceptibilidade ao tabagismo (OR = 1,56; IC95%: 1,04-2,35; p = 0,029).

Mackintosh et al.,13 em estudo realizado em 2008 no Reino Unido com jovens de 11 a 16 anos, identificaram uma elevada proporção de jovens expostos aos expositores de maços de cigarro (81,0%), sendo que os autores também identificaram uma associação estatisticamente significativa entre a exposição aos maços de cigarros nos pontos de venda e a susceptibilidade ao tabagismo (OR = 1,77; IC95%: 1,15-2,73; p = 0,029).

Outros estudos identificaram que crianças e adolescentes expostos aos maços de cigarros nos pontos de venda têm maior probabilidade de serem susceptíveis a fumar.14-16 Em uma revisão sistemática recentemente publicada, cujo objetivo era examinar a relação entre a promoção de produtos de tabaco em pontos de venda e a susceptibilidade ao tabagismo, entre outros, os autores concluíram que as evidências atuais apoiam a existência de uma associação positiva entre a exposição à promoção de produtos de tabaco nos pontos de venda e a susceptibilidade ao tabagismo.16

Como limitação do estudo, é importante destacar que a presente pesquisa é representativa dos adolescentes que frequentavam classes diurnas de escolas públicas e que estavam presentes no dia de aplicação do questionário em cinco capitais brasileiras.

Conclui-se que, com base em nossos resultados, a exposição aos maços de cigarros nos pontos de venda está associada à susceptibilidade ao tabagismo entre adolescentes brasileiros. Assim, os achados do presente estudo reforçam a importância de proibir a exposição de maços de cigarros nos pontos de venda.

REFERÊNCIAS

1 Eriksen M, Mackay J, Schluger N, Gomeshtapeh FI, Drope J. The tobacco atlas. 5th ed. Atlanta: American Cancer Society; 2015.
2 Monteiro CA, Cavalcante TM, Moura EC, Claro RM, Szwarcwald CL. Population-based evidence of a strong decline in the prevalence of smokers in Brazil (1989-2003). Bull World Health Organ. 2007;85(7):527-34.
3 Malta DC, Oliveira TP, Luz M, Stopa SR, da Silva Júnior JB, dos Reis AA. Smoking trend indicators in Brazilian capitals, 2006-2013. Cien Saude Colet. 2015;20(3):631-40.
4 Malta DC, de Andrezzi MA, Oliveira-Campos M, Andrade SS, de Sá NN, de Moura L, Dias AJ, et al. Trend of the risk and protective factors of chronic diseases in adolescents, National Adolescent School-based Health Survey (PeNSE 2009 e 2012). Rev Bras Epidemiol. 2014;17 Suppl 1:77-91.
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7 Brasil. Ministério da Casa Civil. Subchefia para Assuntos Jurídicos [homepage on the Internet]. Lei no. 12.546, de 14 de dezembro de 2011; [about 140 screens]. Available from:
8 Brasil. Ministério da Casa Civil. Subchefia para Assuntos Jurídicos [homepage on the Internet]. Decreto no. 8.262, de 31 de maio de 2014; [about 4 screens]. Available from:
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10 Pierce JP, Choi WS, Gilpin EA, Farkas AJ, Merritt RK. Validation of susceptibility as a predictor of which adolescents take up smoking in the United States. Health Psychol. 1996;15(5):355-61.
11 Unger JB, Johnson CA, Stoddard JL, Nezami E, Chou CP (1997). Identification of adolescents at risk for smoking initiation: validation of a measure of susceptibility. Addict Behav. 1997;22(1):81-91.
12 Brasil. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Pesquisa Nacional de Saúde Escolar (PeNSE), 2012. Rio de Janeiro: IBGE; 2012.
13 Mackintosh AM, Moodie C, Hastings G. The association between point-of-sale display and youth smoking susceptibility. Nicotine Tob Res. 2012;14(5);616-20.
14 Paynter J, Edwards R. The impact of tobacco promotion at the point of sale: a systematic review. Nicotine Tob Res. 2009;11(1);25-35.
15 Paynter J, Edwards R, Schluter PJ, McDuff I. Point of sale tobacco displays and smoking among 14-15 year olds in New Zealand: a cross-sectional study. Tob Control. 2009;18(4):268-74.
16 Robertson L, McGee R, Marsh L, Hoek J. A systematic review on the impact of point-of-sale tobacco promotion on smoking. Nicotine Tob Res. 2015;17(1):2-17.
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